Inicio > Mis eListas > humboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 984 al 1003 
AsuntoAutor
Fwd: Re: Noticiasd leonor c
46/03 - Cultural E Humboldt
Re: NoticiasdelCeH Diana To
47/03 - SIMPÓSIO N Humboldt
Fwd: Petición Ana Marí
No a la guerra Secretar
48/03 - Globalizac Humboldt
49/03 - BECAS ALBA Humboldt
RV: NoticiasdelCeH mahmarti
50/03 - South Amer Humboldt
51/03 - De Irán a Humboldt
52/03 - Irak y Ven Humboldt
60/03 - Resolucion Humboldt
61/03 - Seminario Humboldt
53/03 - Las Áreas Humboldt
54/03 - Quinto Enc Humboldt
55/03 - Quinto Enc Humboldt
56/03 - Una nueva Humboldt
57/03 - Nostalgia Humboldt
58/03 - Formación Humboldt
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
Noticias del Cehu
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 1174     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:NoticiasdelCeHu 57/03 - Nostalgia do futuro
Fecha:Miercoles, 5 de Febrero, 2003  16:20:23 (-0300)
Autor:Humboldt <humboldt @............ar>

NCeHu 57/03
 
NOSTALGIA DO FUTURO
 
O século XXI nasce com a suspeita de que as coisas podem andar para trás, que o progresso não é uma fatalidade. Vivemos um processo de decomposição dos significados do pensamento liberal.

Por Luiz Gonzaga Belluzzo

O ataque ao Iraque é inevitável e seus resultados, imprevisíveis. As opiniões dos especialistas estão divididas: alguns defendem a possibilidade de uma vitória rápida e sem perdas importantes de vidas americanas, outros acham que a invasão por terra não é uma empreitada segura. É difícil para um leigo julgar, até porque as opiniões técnicas não estão isentas de desvios políticos. Seja como for, o ataque ao Iraque é apenas um episódio da trajetória de reafirmação do poder unipolar.
Carl Schmitt, o grande cientista político alemão, em seu livro O Nomos da Terra, publicado em 1950, demonstra de forma impecável que a dominância dos Estados Unidos consolidaria, nas relações internacionais, a hegemonia do econômico. Isto significa necessariamente o surgimento de uma forte tendência a ultrapassar e negar as barreiras territoriais e políticas impostas pela existência dos Estados Nacionais. Ele diz: "A soberania territorial se transforma num espaço vazio, aberto aos processos socioeconômicos. O espaço da potência econômica determina o campo de ação do direito das gentes..."

Schmitt vira pelo avesso a ideologia da globalização: o predomínio do econômico, ou seja, a predominância da lógica da expansão mercantil-capitalista exige uma enorme concentração e centralização do poder e, por isso, políticas permanentemente agressivas em relação às pretensões de autodeterminação dos povos, às suas formas de vida e aos seus costumes. Esse processo de transformação das relações internacionais, isto é, entre Estados Nacionais, desmascara a separação entre o político e o econômico no capitalismo e revela a natureza essencialmente política do mercado. O território global deve, portanto, ser "liberado" para o movimento de mercadorias e de capitais, para o livre acesso aos recursos naturais. Isso impõe a eliminação dos obstáculos humanos, culturais e políticos. O movimento da riqueza abstrata, da geração do maior valor econômico possível, se apresenta sob a forma das missões humanitárias e da defesa dos valores da democracia e da boa vida.
O pensamento econômico dominante é um ardil da razão. Uma forma refinada de ocultar a trágica realidade de nosso tempo, a crescente separação entre o poder real e a política democrática. O verdadeiro poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e dos cidadãos, graças à sua mobilidade cada vez mais desembaraçada, tornou-se virtualmente global, ou melhor, extraterritorial.
 Domínio.
O inevitável ataque ao Iraque reforça a tendência americana de ignorar as barreiras territoriais e políticas dos Estados NacionaisA "mão invisível" celebrada pelos liberais está, mais do que nunca, encarnada no capital financeiro globalizado. Os critérios da política democrática e libertadora não se aplicam à agenda criada pelas forças desse poder que circula entre as nações e circunscreve a capacidade de ação dos governos escolhidos pela vontade popular.
Tais forças não são racionais nem irracionais, simplesmente cumprem os desígnios de sua natureza, dilacerada entre a "ganância infecciosa" e o súbito colapso da histamina.

Nessa configuração do poder global, a esfera pública foi acuada: não pode buscar abrigo nos palácios de governantes impotentes, sempre temerosos, ademais, das vociferações que desabam sobre suas cabeças, emitidas pelas fortalezas inacessíveis que formam a "nova opinião", as grandes empresas de mídia. Para a vida privada sobraram os consolos do narcisismo e do voyeurismo dos reality shows.
Esses processos visíveis e simultâneos de crescente inacessibilidade do público e de espetacularização do privado decorrem de uma sociabilidade "esvaziada", construída pelos movimentos da mão que guia o curso dos mercados. Em sua ciclotimia ela nos condena a flutuar entre a euforia e o horror, a ganância e o desespero.
"Não há alternativa", proclamam os adeptos do neoliberalismo. Sobre esse pano de fundo Margaret Thatcher foi capaz de anunciar a morte da sociedade e o triunfo do indivíduo.
É duvidoso que o indivíduo projetado pelo Iluminismo tenha, de fato, triunfado. Triunfaram, sim, a insegurança e a impotência. Tal sensação de insegurança é o resultado da invasão, em todas as esferas da vida, das normas da mercantilização e da concorrência, como critérios dominantes da integração e do reconhecimento social. Nos países em que os sistemas de proteção contra os freqüentes "acidentes" ou falhas do mercado são parciais ou estão em franca regressão, a insegurança assume formas ameaçadoras para o convívio social.
Podem fazer pouco os funcionários de qualquer nível quando a empresa que os empregava decide sem aviso mudar o negócio para outra região ou iniciar uma nova rodada de "racionalização" através do enxugamento de despesas, redução da força de trabalho, corte de gastos administrativos, venda ou fechamento de unidades não lucrativas. Menos ainda podem fazer os indivíduos para evitar a desvalorização de suas qualificações arduamente conquistadas ou para enfrentar o desaparecimento de suas funções.

Nos países em desenvolvimento, as políticas de liberalização financeira, ademais de agravarem as condições de vida dos mais pobres, afetaram negativamente o crescimento econômico.
Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala mundial, esta convergência tem suscitado surtos intensos de demissões de trabalhadores, a eliminação dos melhores postos de trabalho, enfim, a maníaca obsessão com a redução de custos. A forma financeira é a mais geral e abstrata de existência da riqueza capitalista. Ao mesmo tempo que fala a linguagem da liberdade de movimentos, impulsiona a centralização do capital, promove o endurecimento do controle sobre os assalariados e dependentes "terceirizados", impõe a intensificação da concorrência sem quartel entre as empresas gigantescas.
Há quem se irrite com a menção do Consenso de Washington como origem e destino das políticas liberais na América Latina. Mas basta olhar em volta e observar que as novas estratégias de "integração" à economia mundial e de "modernização" das relações entre Estado e mercado foram iguais em quase todos os países da região e produziram os mesmos resultados econômicos e sociais desapontadores.
 Insegurança.
A mobilidade do capital financeiro tem suscitado surtos de demissõesFoi grande a decepção causada pela descoberta de que a vitória contra a inflação e as reformas pró-mercado não produzem necessariamente mais empregos, melhores condições de vida e um futuro melhor para os filhos. A sensação dos brasileiros é de profunda insegurança. E a insegurança produz o mal-estar de forma ampliada numa sociedade desigual e com perspectivas de baixo crescimento e lenta mobilidade vertical para a maioria.
Para o cidadão afetado pelas conseqüências devastadoras das crises financeiras, parece inteiramente fantástica a idéia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das bolsas de valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida.
O consenso dominante trata de explicar que, se não for assim, sua vida pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesmo, um método eficaz de bloquear o imaginário social, numa comprovação dolorosa de que as criaturas da ação humana coletiva - as instituições produzidas pelo devir histórico - adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

O século XXI nasce com a suspeita de que as coisas podem andar para trás, que o progresso individual e coletivo não é uma fatalidade. Esse sentimento é cada vez mais intenso, sobretudo entre os países e as classes que se sonharam algum dia com a afluência prometida no curto período do pós-guerra, quando o capitalismo parecia civilizado.
A maioria da humanidade vive um clima de nostalgia do futuro, sentimento que reflete a crise profunda de um valor constitutivo da modernidade: a idéia de progresso, ou melhor, a idéia de que o progresso material levaria quase que automaticamente ao bem-estar individual e coletivo. Essa convicção ganhou força nos anos dourados do capitalismo, quando os controles do Estado e da sociedade foram capazes de subjugar e disciplinar o dinamismo cego e anárquico da finança.
É possível que os fanáticos dos mercados não sejam capazes de avaliar o alcance da crise da idéia de progresso. Estamos diante de um processo de decomposição dos significados do pensamento liberal.
O sonho ocidental de construir o hábitat humano somente à base da razão, repudiando a tradição e rejeitando toda a transcendência, chegou a um impasse. O Ocidente fracassou na realização de seus próprios valores. Na prática, foi incapaz de conjugar o universalismo da razão, o progresso da técnica e a democratização do bem-estar.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade -, mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isso significa, primordialmente, o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um sentido para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Fuente: http://br.groups.yahoo.com/group/geohistoriaviva