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Asunto:NoticiasdelCeHu 492/07 - Aprisionando toda uma nação (John Plige r)
Fecha:Lunes, 28 de Mayo, 2007  00:22:07 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticiasdelcehu @..................ar>

NCeHu 492/07

 

Aprisionando toda uma nação

John Pilger

 

Cartoon de Latuff. Israel está a destruir qualquer noção de um Estado da Palestina e está a ser-lhe permitido aprisionar toda uma nação. Isto torna-se evidente a partir dos mais recentes ataques a Gaza, cujo sofrimento tornou-se uma metáfora para a tragédia imposta aos povos do Médio Oriente e para além. Estes ataques, relatados no Channel 4 News da Grã-Bretanha, estavam "a alvejar militantes chaves do Hamas" e a "infraestrutura do Hamas". A BBC descreveu um "choque" entre estes militantes e um caça F-16 israelense.

Considere-se um "choque" como este. O carro dos militantes foi explodido em bocados por um míssil disparado de um caça-bombardeiro. Quem eram estes militantes? De acordo com a minha experiência, todo o povo do Gaza é militante na resistência aos seus carcereiros e atormentadores. Quanto à "infraestrutura do Hamas", trata-se da sede do partido que ganhou as eleições democráticas realizadas do ano passado na Palestina. Relatar daquela forma daria a impressão errada. Sugeriria que as pessoas no carro e todo os outros ao longo de anos, os bebés e os idosos que também se "chocaram" com caças-bombardeiros, foram vítimas de uma monstruosa injustiça. Sugeriria a verdade.

"Alguns dizem", conta o repórter do Channel 4, que "o Hamas espicaçou isto [o ataque]…" Talvez ele estivesse a referir-se aos rockets disparados para Israel a partir de dentro da prisão de Gaza que não mataram ninguém. À luz do direito internacional um povo ocupado tem o direito de utilizar armas contra as forças ocupantes. Este direito nunca é mencionado. O repórter do Channel 4 referiu-se a uma "guerra infindável", sugerindo equivalentes. Não há guerra. Há resistência entre o mais pobre e o mais vulnerável povo sobre a terra que sofre a ocupação ilegal imposta pela quarta maior potência militar do mundo, cujas armas de destruição em massa vão desde bombas de estilhaçamento até dispositivos termonucleares, financiada pela superpotência. Só nos últimos seis anos, escreveu o historiador Ilan Pappé, "as forças israelenses mataram mais de 4000 palestinos, metade do quais crianças".

Considere como actua esta potência. Segundo documentos obtidos pela United Press International, outrora os israelenses financiaram o Hamas como "uma tentativa directa de dividir e diluir o apoio a uma forte e não religiosa Organização de Libertação da Palestina (OLP) através da utilização de uma alternativa religiosa competidora", nas palavras de um antigo responsável da CIA.

Hoje, Israel e os EUA reverteram esta trama e apoiam abertamente o rival do Hamas, o Fatah, com subornos de milhões de dólares. Israel permitiu recentemente, de forma secreta, que 500 combatentes do Fatah entrassem em Gaza a partir do Egipto, onde haviam sido treinados por outro cliente americano, a ditadura do Cairo. O objectivo israelense é minar o governo eleito da Palestina e acender uma guerra civil. Eles não tiveram propriamente um êxito. Em resposta, os palestinos forjaram um governo de unidade nacional, tanto do Hamas como do Fatah. Os ataques mais recentes destinam-se a destruí-lo.

Com o caos assegurado em Gaza e com a Cisjordania cercada por muralhas, o plano israelense, escreveu o académico palestino Karma Nabulsi, é "uma visão hobbesiana de uma sociedade anárquica, truncada, violenta, sem poderes, destruída, intimidada, dominada por milícias díspares, gangs, ideólogos religiosos e extremistas, fracturada no tribalismo étnico e religioso e colaboracionistas cooptados. Olhe para o Iraque de hoje…"

Em 19 de Maio o Guardian recebeu esta carta de Jabary al-Sarafeh, residente em Ramallha. "A terra, a água e o ar estão sob a constante observação de um sistema de vigilância militar refinado que torna Gaza algo como
The Truman Show ", escreveu ele. "Neste filme todo actor de Gaza tem um papel pré-definido e o exército [israelense] comporta-se como um director… A faixa de Gaza precisa ser mostrada como aquilo que é… um laboratório israelense apoiado pela comunidade internacional onde seres humanos são usados como cobaias para testar as práticas mais dramáticas e severas de sufocação económica e fome".

O notável jornalista israelense Gideon Levy descreveu a fome que assola mais de um milhão e 250 mil habitantes de Gaza e os "milhares de feridos, incapacitados e pessoas atingidas por munições que não podem receber qualquer tratamento… Sombras de seres humanos perambulam pelas ruínas… Elas só sabem que o exército [israelense] retornará e o que isto significará para si próprias: mais aprisionamento nos seus lares durante semanas, mais morte e destruição em proporções monstruosas".

Todas as vezes em que estive em Gaza fui consumido por esta melancolia, como se eu fosse um violador de um lugar secreto de luto. Novelos de fumo de fogueiras suspensas sobre o mesmo Mar Mediterrâneo conhecido por povos livres, mas não por este. Ao longo de praias que turistas encarariam como passeios pitorescos cambaleiam os encarcerados de Gaza, linhas de figuras sépia que se tornaram silhuetas, a andarem à beira da água, através dos esgotos que ali escorrem. A água e a energia eléctrica foram cortadas, mais uma vez, quando os geradores foram bombardeados, mais uma vez. Murais icónicos sobre muros marcados por balas comemoram a morte, tal como a famílias de 18 homens, mulheres e crianças que se "chocaram" com uma bomba de 500 libras [227 kg] americano-israelense, lançada sobre o seu bloco de apartamentos quando dormiam. Presumivelmente eles eram militantes.

Mais de 40 por cento da população de Gaza são crianças com menos de 15 anos. Relatando para o British Medical Journal um estudo de campo na Palestina ocupada, efectuado durante quatro anos, o Dr. Derek Summerfield escreveu que "dois terços das 621 crianças mortas em pontos de controle militar (checkpoints), nas ruas, a caminho da escola, nos seus lares, morreram atingidas por pequenas armas de fogos, apontadas em mais da metade dos casos para a cabeça, o pescoço e o peito — o ferimento feito por atiradores de elite (snipers) ". Um amigo meu das Nações Unidas chamou-os "crianças do pó". A sua maravilhosa infantilidade, rudeza, riso nervoso e encanto escondem o seu pesadelo.

Encontrei o Dr. Khalid Dahlan, psiquiatra que dirige uma das várias comunidades de projectos de saúde infantil em Gaza. Ele contou-me acerca do seu último inquérito. "A estatística que pessoalmente considerei insuportável é que 99,4 por cento das crianças que estudámos sofrem trauma. Quando você olha para as taxas de exposição ao trauma vê porque: 99,2 por cento dos lares do grupo estudado foram bombardeados; 97,5 por cento foram expostos ao gás lacrimogéneo; 96,6 por cento testemunhou tiros; 95,8 por cento testemunhou bombardeamentos e funerais; quase um quarto viu membros da família feridos ou mortos".

Ele afirma que mesmo crianças de três anos enfrentaram a dicotomia provocada por ter de arcar com estas condições. As crianças sonhavam tornarem-se médicos ou enfermeiros, e então isto foi substituído por uma visão de si próprias como a próxima geração de bombistas suicidas. Elas experimentam isto invariavelmente após um ataques dos israelenses. Para alguns garotos, os seus heróis já não são jogadores de futebol e sim uma confusão de "mártires" palestinos e mesmo o inimigo, "porque os soldados israelenses são os mais fortes e têm helicópteros Apache".

Pouco antes de morrer, Edward Said reprovou amargamente jornalistas estrangeiros por aquilo que considerou o seu papel destrutivo ao "esvaziar o contexto da violência palestina, a resposta de um povo desesperado e horrivelmente oprimido, e o terrível sofrimento que daí decorre". Assim como a invasão do Iraque foi uma "guerra através do media", o mesmo pode ser dito do grotescamente unilateralizado "conflito" na Palestina. Quando o trabalho pioneiro do Grupo de Media da Universidade de Glascow é mostrado, raramente dizem aos espectadores da televisão que os palestinos são vítimas de uma ocupação militar ilegal; a expressão "territórios ocupados" raramente é explicada. Somente 9 por cento dos jovens entrevistados no Reino Unido sabem que os israelenses são a força ocupante e que os colonos ilegais são judeus; muitos acreditam que são palestinos. A utilização selectiva da linguagem por parte dos transmissores de notícias é crucial para manter esta confusão e ignorância. Palavras tais como "terrorismo", "assassínio" e "morte selvagem a sangue frio" descrevem as mortes de israelenses, quase nunca de palestinos.

Há excepções honrosas. O repórter sequestrado da BBC, Alan Johnston, é um deles. Mas, em meio a avalanche de cobertura do seu rapto, nenhuma menção é feita aos milhares de palestinos sequestrados por Israel, muitos dos quais não verão seus famílias durante anos. Não há recursos para eles. Em Jerusalém, a Associação da Imprensa Estrangeira documenta os disparos e intimidação dos seus membros por soldados israelenses. Num período de oito meses, quantos jornalistas, incluindo o chefe do escritório da CNN em Jerusalém, foram feridos pelos israelenses, alguns deles seriamente. Em todos os casos a Associação queixou-se. Em todos os casos não houve resposta satisfatória.

Uma censura por omissão em relação a Israel está profundamente enraizada no jornalismo ocidental, especialmente nos EUA. O Hamas é posto de lado como um "grupo terrorista que jurou a destruição de Israel" e que "se recusa a reconhecer Israel e quer combater, não conversar". Este tema suprime a verdade: que Israel está empenhado na destruição da Palestina. Além disso, as antigas propostas do Hamas para um cessar fogo de dez anos são ignoradas, bem como uma recente e esperançosa mudança ideológica dentro do próprio Hamas que equivale a uma aceitação histórica da soberania de Israel. "O código [do Hamas] não é o Corão", disse um alto responsável do Hamas, Mohammed Ghazal. "Historicamente acreditamos que toda a Palestina pertence aos palestinos, mas agora estamos a falar acerca da realidade, acerca de soluções política… Se Israel atingir uma fase em que for capaz de conversar com o Hamas, não penso que haveria um problema de negociação com os israelenses [para uma solução].

Da última vez que estive em Gaza, a conduzir em direcção ao checkpoit israelense e ao arame farpado, foi brindado com um espectáculo de bandeiras palestinas a drapejarem por dentro das barreiras de muralhas. As crianças é que faziam isto, contaram-me. Elas fazem mastros com varetas amarradas umas às outras e uma ou duas delas escalarão a muralha e segurarão a bandeira entre si, silenciosamente. Fazem isto quando há estrangeiros ali pois acreditam que eles possam contar ao mundo.

22/Maio/2007

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=438

Fuente: www.resistir.info
, 27 de mayo de 2007.