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Asunto:NoticiasdelCeHu 232/07 - DIPLOMACIA DO ETANOL (Paulo Kliass))
Fecha:Martes, 13 de Marzo, 2007  21:32:45 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticiasdelcehu @..................ar>

NCeHu 232/07


DIPLOMACIA DO ETANOL

Os encantamentos de Lula e as tentações de Mr. Bu$h

A viagem do presidente dos EUA à América Latina, começando pelo Brasil, tem um sentido muito mais político do que econômico. É de se perguntar por que Lula resolveu se encontrar duas vezes em poucas semanas com o dirigente do Império.


Grandes périplos no complicado tabuleiro da cena diplomática internacional podem significar tudo ou nada. A concretização das ações depende muito do contexto, dos interesses em jogo e, principalmente, da oportunidade oferecida por um bom momento. O resto é mero voluntarismo, ingenuidade ou propaganda. As relações entre os países são complexas e as transformações estratégicas se dão numa cadência muito mais lenta do que a implementação de decisões simples, como as constantes em programas de governo, a exemplo do PAC.

Perguntaria o incauto: mas, então por que dois encontros num único mês envolvendo o presidente dos Estados Unidos e o do Brasil? O primeiro realizado ao sul do Equador e o outro ao norte? Boa pergunta! As respostas são muitas e de natureza diversa. De qualquer forma, parece tratar-se de um tema muito importante para os EUA, especialmente por seus aspectos políticos.

Transformações e conversão
A se levar em conta o passado recente de Lula à frente do Estado brasileiro, é inegável a evidente transformação do ex-líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores no que se refere a elementos essenciais a qualquer indivíduo que pretenda ocupar a cadeira da Presidência da República. Trata-se de uma conversão profunda desse novo Lula, quando confrontado a aspectos políticos, ideológicos e de valores sociais de seu histórico de vida.

De uma maneira geral, Lula tem vivido um processo de descoberta do poder derivado do próprio exercício do poder. Trata-se de um processo de encantamento com as possibilidades abertas pelo inusitado e pelas novidades oferecidas pela situação que apenas um dentre os mais de 180 milhões de brasileiros e brasileiras pode alcançar a cada momento. O ritual dos palácios, a simbologia dos eventos e a sensação da onipresença e da onipotência. Imagina-se que depois de uma experiência de quatro anos, essa sensação inicial de deslumbramento do marinheiro de primeira viagem seja relativizada por uma espécie de déja vu do veterano de guerra em segundo mandato.

É igualmente perceptível um deslumbramento com a multiplicação de sua imagem e de sua presença, proporcionada pelos meios de comunicação. Porém, com a generalização das relações mercantilizadas, Lula já deve se ter se dado conta que o produto da imprensa é cada vez mais negócio e mercadoria, e com isso cada vez menos um bem público, um serviço oferecido à sociedade. E mais: um setor empresarial com relações incestuosas com a elite da política, inclusive por meio das concessões e autorizações para funcionamento de empresas de rádio e televisão.

Daí para o encantamento com o mundo dos negócios, das finanças e de suas elites foi um passo. Pode ser até compreensível, num primeiro momento, esse fascínio exercido pelo mundo dos que são, efetivamente, os poderosos. E que passam a ser chamados a todo instante de companheiro fulano, de companheiro sicrano justamente pelo antigo dirigente dos movimentos que as classes dominantes aqui das terras de Pindorama tanto temiam. Ironia da história. E então o indivíduo revestido da faixa presidencial chegou a levar a nata do PIB brasileiro a “morrer de rir” quando fazia suas brincadeiras irresponsáveis sobre a relação “natural” entre avançar na idade e aprumar pela direita nos valores político-ideológicos. “Quem tem mais de 60 anos e ainda se considera de esquerda tem problemas”, dizia Lula há pouco tempo atrás. Ou ainda a opção, carregada de um forte simbolismo, por dirigir-se a Davos e ausentar-se do encontro do Fórum Social Mundial.

São Paulo e Washington
E agora, de repente, Mr. Bu$h resolve iniciar um périplo pela América Latina por um encontro com Lula, em São Paulo. Ora, já estamos todos crescidinhos o suficiente para acreditarmos em Papai Noel ou coelhinho da Páscoa! É sabido que a agenda de um Presidente norte-americano é suficientemente carregada para que ele se ocupe pessoalmente em vir discutir um assunto como o etanol por nossas praias, sem que ao menos as bases de um novo acordo estejam previamente fixadas. Ainda mais porque Lula já tinha sua ida a Washington acertada para daqui a algumas semanas.

O roteiro da turnê latino-americana revela, sem a menor sombra de dúvida, as verdadeiras intenções: Mr. Bu$h vai ao Brasil, Uruguai, Colômbia e Guatemala. Todos países com algum grau de tensão com o eixo de Chávez/Kirchner/Correa/Ortega. Para a tristeza e a desesperança de boa parte da esquerda espalhada pelo mundo, Lula encontra-se fora desse circuito, justamente aquele que todos imaginavam que viria a ser a liderança natural desse movimento alternativo à hegemonia exercida pelos governantes norte-americanos na América Latina.

Risco de novo encantamento
O risco de um eventual novo encantamento de Lula é justamente a cilada oferecida pela diplomacia ianque. Oferecer o tapete vermelho (parece que essa cor já não representa mais incômodo aos lá de cima...) de boas vindas para aquele que é proclamado como um interlocutor sério e responsável dessa região, até agora deixada em última prioridade pela agenda diplomática da Casa Branca. Ou seja, um governante latino-americano que se permite chamar o Presidente dos EUA de “companheiro”, um governante que garante que não vai se deixar escorregar por aventuras populistas ou demagógicas, como são classificadas quaisquer tentativas de políticas públicas diferentes das aceitas pela ortodoxia neoliberal.

O pífio saldo comercial da viagem de Mr. Bu$h ao Brasil bem mostrou que sua intenção era outra. O interesse dos estrategistas de seu governo era fundamentalmente de natureza política. Na verdade, trata-se de dar os primeiros movimentos para buscar a reversão de sua péssima imagem na região e junto à maioria de seus governos. Afinal, ele se encontra naquela situação já tão desgastada em que não há muito o que piorar. No popular: o que vier é lucro! Assim, qualquer movimento de aproximação pode significar um ponto de apoio e de sustentação para a reaproximação estratégica que a diplomacia norte-americana está preparando para os países latinos.

Nada de alterar a política de subsídios à agricultura, nem de mudar as dificuldades existentes à entrada do álcool brasileiro no mercado norte-americano. Lula cobrou publicamente o anúncio de novidades, as autoridades brasileiras deixaram evidentes seu desconforto.

Porém, outra pergunta que não quer calar é a seguinte: tal postura significa então, que se Mr. Bu$h chegasse com alguma proposta mais ousada de flexibilizar as nossas exportações de álcool, aí então o governo brasileiro aceitaria desempenhar um papel mais ativo na configuração de uma alternativa, mais confiável aos olhos dos gringos, na disputa pelo poder geopolítico na América Latina? Afinal, depois de tantos encantamentos vividos por Lula em período tão recente, as tentações oferecidas por Mr. Bu$h podem ser bastante perigosas para o futuro do Brasil e da região.



Paulo Kliass é doutor em Economia e membro da carreira federal “Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental”. Atualmente cumpre programa de pós-doutorado na Université de Paris 13, França.