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Asunto:NoticiasdelCeHu 202/07 - Haití - A pseudo-esquerda cúmplice ou indif erente (Raúl Zibechi)
Fecha:Martes, 6 de Marzo, 2007  18:49:36 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticiasdelcehu @..................ar>

NCeHu 202/07

Haití

A pseudo-esquerda cúmplice ou indiferente

Raúl Zibechi [*]
 
 

Em menos de dois anos as tropas da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) provocaram três massacres em Cité Soleil, bairro periférico de Port-au-Prince. Segundo inúmeros testemunhos, pouco difundidos pelos media comerciais, as forças de ocupação entram com blindados no bairro mais pobre da paupérrima ilha apoiados por helicópteros artilhados. Pelo menos em duas ocasiões, 6 de Julho de 2005 e 22 de Dezembro último, dispararam sobre a população desarmada provocando dezenas de mortos. Muitos morreram nas suas precárias habitações, onde se haviam refugiado dos capacetes azuis. Segundo o Prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, só no primeiro ano da deslocação da Minustah (instalada em Junho de 2004) morreram 1200 pessoas devido a actos de violência.

Chama a atenção que as esquerdas latino-americanas — que correctamente denunciam as guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão — não estejam a fazer o mesmo com o genocídio que se está a verificar no Haiti. Que as tropas da ONU estejam integradas maioritariamente por países que ostentam governos progressistas e de esquerda, que contribuem com mais de 40 por cento dos 7 mil soldados e oficiais, e seja comandada pelo Brasil de Lula, deveria ser um motivo adicional para manter uma solidariedade activa com o povo haitiano. Os motivos que se dão para enviar tropas àquelas ilha não merecem crédito. O principal argumento é contribuir para a pacificação e assentar a democracia, para o que seria preciso desarmar e desarticular os "bandidos" e narcotraficantes. Como se essas questões pudessem ser resolvidas pela via militar. Dois anos e meio depois de instalada, a Minustah não conseguiu uma coisa nem outra. Mas de 100 mil manifestantes reclamaram em 7 de Fevereiro último a retirada da missão e o retorno do presidente legítimo, Jean Bertrand Aristide, apesar do que a ONU está decidida a prolongar a permanência dos capacetes azuis.

Para o Brasil — o país mais empenhado na intervenção dos seus soldados no Haiti — trata-se de conseguir suficiente projecção internacional que lhe permita conseguir a ansiada cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Alguns analistas sustentam que a Minustah pode ser um banco de provas da futura "NATO latino-americana" promovida por vários governos da região ( La Jornada, 02/12/06). Em paralelo, a partir de uma posição anti-imperialista, há quem considere que a participação das forças armadas da Argentina, Brasil, Chile, Bolívia e Uruguai é uma forma de por limites ao expansionismo ianque na região.

Seja como for, as esquerdas do continente produziram uma viragem radical sem debate e só com o argumento de que agora são governo. Foi o que aconteceu no Uruguai, país que contribui com 750 soldados, o mais comprometido do ponto de vista quantitativo em relação à sua população. Aquilo que em Julho de 2004, quando foi criada a Minustah, era fazer o jogo do império, um ano depois converteu-se numa atitude razoável para democratizar o Haiti. Desse modo o parlamento uruguaio votou um importante aumento do contingente militar que um ano antes a direita no governo havia decidido enviar. Por lamentável que pareça, só um deputado em mais de 50 atreveu-se a levantar a voz contra uma mudança de posição que anulou princípios sem a menor consulta às bases da Frente Ampla. Os debates no Brasil, Argentina e Chile foram mais escassos ainda. Na Bolívia, Evo Morale bloqueou qualquer tentativa de debater o tema, segundo o ex-ministro Andrés Soliz Rada.

Contudo, o que está em jogo é muito mais do que questões de princípios. É certo que governos de esquerda não devem comprometer-se com o envio de tropas a outros países e, menos ainda, em flagrante violação dos direitos humanos — que no Haiti assume traços de genocídio contra os pobres. Com efeito, nos bairros mais pobres da periferia urbana de Port-au-Prince, esses sítios que Mike Davis sustenta que são "o novo cenário geopolítico decisivo", onde os capacetes azuis actuam com o máximo rigor. Brian Concannon, director do Instituto para a Democracia e a Justiça no Haiti, sustenta que "é difícil não perceber uma relação entre as grandes manifestações ocorridas em Cite Soleil e os bairros que a ONU seleccionou para realizar operações militares".

Do que se trata é de uma guerra contra os pobres encabeçada por governos que se dizem afins aos pobres. Existe uma estreita relação entre as actividades dos nossos soldados nos bairros pobres do Haiti e a militarização das favelas e dos bairros pobres das grandes cidades sul-americanas. O deputado brasileiro Marcelo Freixo sustenta que "as favelas constituem o espaço ocupado pelo inimigo público, um espaço de ausência de direitos que vem a representar a desordem, a insegurança, a tal ponto que se chegou a colocar um tanque de guerra a apontar contra uma comunidade". Uma política de segurança que substitui a ampliação dos direitos dos jovens negros pobres que habitam as favelas. Nesse sentido, a Minustah actua tal como o exército brasileiro nas favelas: criminalizando os pobres.

Um século atrás a social-democracia alemã cruzou o Rubicão ao apoiar a colonização do terceiro mundo e a guerra imperialista de 1914. Essa atitude em relação à política externa atingiu a sua correspondente interna na repressão ao movimento operário, que teve nos assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht o seu custo mais escandaloso. A solidariedade com a massacrada população de Cité Soleil é urgente, e também a melhor forma de nos defender dos abusos que têm na guerra contra os pobres o lado talvez mais ignominioso das governabilidades progressistas e de esquerda.
27/Fevereiro/2007

[*] Jornalista uruguaio.

O original encontra-se em https://listas.nodo50.org/cgi-bin/mailman/listinfo/diariodeurgencia


Fuente: www.resistir.info , 6 de marzo de 2007.