Inicio > Mis eListas > humboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 8541 al 8560 
AsuntoAutor
41/07 - América La Noticias
42/07 - Entrevista Noticias
43/07 - PRIMER CON Noticias
44/07 - Uzbekistão Noticias
46/07 - Argentina Noticias
47/07 - Monopolios Noticias
45/07 - Al que dep Noticias
48/07 - En el mund Noticias
México agitado FRANCESC
49/07 - “Los subur Noticias
50/07 - LOS JUEGOS Noticias
51/07 - BUSTAMANTE Noticias
52/07 - Informacio Noticias
56/07 - El destino Noticias
57/07 - ANA ASLAN Noticias
54/07 - A Era da P Noticias
53/07 - Petróleo y Noticias
58/07 - Castillo, Noticias
55/07 - Argentina Noticias
59/07 - Argentina Noticias
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
Noticias del Cehu
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 8774     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:NoticiasdelCeHu 44/07 - Uzbekistão: a disputa estratégica pela Ási a central (Higinio Polo)
Fecha:Domingo, 7 de Enero, 2007  20:04:00 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticiasdelcehu @..................ar>

NCeHu 44/07


Uzbekistão: a disputa estratégica pela Ásia central

“Tudo indica que os Estados Unidos se equivocaram no Uzbequistão, procurando trocar um ditador aliado, mas imprevisível, por um governante telecomandado por Washington. Karimov quando constatou que o alinhamento com os EUA não lhe assegurava a manutenção no poder, voltou os olhos para Moscovo. Não tinha alternativa”
Higinio Polo* 
 07.01.07

Para Neus y Joseph



O desaparecimento da União Soviética criou um vazio estratégico na Ásia central, consequência da apressada proclamação de independência de cinco repúblicas (Kazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Kyrgistão e Tajiquistão), das quais apenas duas, Kazaquistão, Uzbequistão, contavam com população suficiente para criar estados viáveis. As restantes três tinham todas a condições para se converterem em protectorados ou em países dependentes.

Assim, no Uzbequistão, os dias confusos da agonia de Gorbachov traçaram uma nova república que substituiu a República Socialista Soviética do Uzbequistão. Ninguém a tinha pedido: mas, em 1991, alguns meses após a grande maioria da população (mais de 90%) da república se ter pronunciado em referendo pela manutenção da União Soviética, os dirigentes do país proclamaram a independência. Foi uma verdadeira burla e um ardiloso roubo, tal como no resto da URSS, pois em praticamente todo o território soviético, os cidadãos queriam conservar a União, mas as elites de cada região (uma mescla de velhos comunistas convertidos e de novos liberais) queriam manter o poder e dispor de um país. Começou o tempo do roubo da propriedade estatal soviética, da acumulação do saque, objectivo sempre acompanhado de hipócritas palavras sobre a democracia, a liberdade e o desenvolvimento futuro. Os Estados Unidos estimularam esse processo, nascido do pacto de Bieloviézhe em 1991.

O Uzbequistão nunca existiu: é uma divisão administrativa soviética. Antes, no território da Ásia central que hoje forma o país, tinham existido emiratos, cidades independentes e impérios. Com a proclamação da actual república de 25 milhões de habitantes, o novo poder impulsionou uma política de invenção do passado: construíram novos monumentos, como o do imperador Tarmaleão num dos lugares mais centrais Tashkent, substituíram a estátua de Lenine por um globo terrestre onde o Uzbequistão é o centro, reescreveram a história. Todos os símbolos que recordavam a URSS foram retirados. A criação de um novo patriotismo necessitava de sujar a memória dos anos soviéticos e a essa tarefa se dedicou com empenho o novo governo. O convertido Islam Karimov (actual presidente e antigo dirigente comunista uzbesque) chegou ao extremo de fundar um Museu das Vítimas do Colonialismo, onde se identifica a história da Rússia czarista e a da União Soviética, como se ambos os sistemas políticos tivessem formado o mesmo núcleo imperialista para subjugar os uzbeques, e insistiu que os problemas que hoje tem o Uzbequistão fazem parte da “herança totalitária soviética”. No entanto, a maioria da população uzbeque está nostálgica da URSS.

Governando com o seu novo Partido Democrático Popular, Karimov perseguiu toda a oposição política, começando pelos comunistas que não têm existência legal – nada pior que os convertidos, como se sabe.

Apesar da manutenção de uma fachada democrática, os processos eleitorais são controlados pelo poder, tendo o próprio Karimov decidido quais os partidos que podem, e os que não podem, apresentar-se às eleições, chegando a formar organizações pró-governamentais para uma maior aparência de pluralidade do regime. Karimov não teve pejo em prolongar, através dum referendo, o seu mandato presidencial. As próximas eleições, se não houver novas mudanças, terão lugar em 2007. O seu domínio do país ficou patente quando, em 1988, o parlamento uzbeque (Oly Majlis) lhe concedeu a distinção máxima, Tamerlan, e em 2003 decretou a imunidade vitalícia para os ex-presidentes do país (até agora só houve um: ele, Karimov!), promulgando assim uma lei que assegure a reforma segura do autocrata.

No novo Uzbequistão não se organizou apenas uma gigantesca e feroz campanha contra a União Soviética: havia que romper com o socialismo e elaborar um novo relato histórico do passado uzbeque. A invenção do passado implicava identificar os russos e a União Soviética como um poder colonial (ocultando a participação uzbeque na construção da URSS) e isso levou Karimov a trocar o alfabeto cirílico pelo latino, na sua versão turca, e hoje, em todas as ruas de todas as cidades do país, letreiros e cartazes estão escritos em uzbeque com alfabeto latino, um alfabeto alheio à história do país. Como agravante, a mudança nunca foi aceite pela população, estando já previsto o regresso do cirílico em 2007. Além disso, limitou-se a utilização da língua russa, ainda que a crua realidade mostre que se fala russo por todo o lado, se bem que o uzbeque também seja muito utilizado, e em Samarcanda e Bujara se fale tayico. Karimov introduziu o estudo da escrita árabe, e abriram-se madrassas islâmicas e uma universidade financiadas pela Arábia Saudita. Em Bujara, por exemplo, essa política de identificação islâmica e de ocultação do passado soviético levou a erigir um enorme complexo para acolher o túmulo de Bahouddin Nakshband, um sufi do século XVI, para dotar o novo Uzbequistão de referências históricas com as quais a população se possa vir a identificar. Tamerlão e Islão converteram-se nas referências da identidade do Uzbequistão. Karimov fez aprovar uma constituição secular, incentivou uma política de recuperação das tradições islâmicas na vida quotidiana, o que teve aceitação em alguns sectores, ao mesmo tempo que proibiu os partidos que utilizavam a religião como estandarte. Aproveitou as revoltas islâmicas da vizinha República do Tajiquistão e a guerra civil que ali se desencadeou nos anos noventa como aviso dos perigos que poderiam advir para o Uzbequistão. Mas o islamismo cresceu: hoje em dia, é moda casar as mulheres com dezasseis anos!, através de acordos entre famílias, o que estava praticamente erradicado no tempo da União Soviética. Chegou-se ao ponto de voltar a impor a circuncisão às crianças, prática já corrente nalgumas zonas de maior pressão religiosa. Apesar de tudo, a maioria da população é laica, as roupas e o comportamento nada têm a ver com as mulheres de cara coberta com véus ou multidões a acorrerem às mesquitas, como se vê noutros países. Não passaram em vão os setenta anos de socialismo.

O roubo da propriedade soviética seguiu por caminhos semelhantes aos percorridos na Rússia e nas outras repúblicas da ex-URSS, tendo chegado a extremos inimagináveis: Do Museu de Samarcanda desapareceram importantes peças e colecções. A privatização e destruição de muitas conquistas sociais foram moeda corrente, o que afectou a saúde, a educação, a cultura e o ócio da população. A filha de Garimov, Gulnara Karimova, construiu um gigantesco império empresarial, e a desastrosa mudança pode ilustrar-se com a venda das casas a preços especulativos, embora dando com a preferência aos moradores. Na URSS, anos a fio, a habitação era um direito universal e os inquilinos apenas pagavam uma quantia simbólica por toda a vida, o mesmo sucedendo com o fornecimento de água e electricidade, fornecidas a preços simbólicos. É certo que o sistema tinha alguns problemas, entre os quais a degradação das habitações. O governo uzbeque iniciou a venda dos pisos aos seus próprios moradores, que pagaram por um bem que, de facto, já era seu vitaliciamente, numa operação em que o governo encaixou enormes quantidades de dinheiro, cujo destino final não é possível apurar, embora se saiba que foi parar aos bolsos dos novos oligarcas.

Hoje, os inquilinos têm de pagar a água, o gás e a electricidade, antes praticamente gratuitos. Um andar normal custa hoje entre sete e oito mil dólares (para salários na ordem dos 40 dólares é uma soma astronómica eo seu pagamento pressupõe um esforço titânico). Assim, não é estranho que muitos uzbeques afirmem que se “vivia melhor no tempo da União Soviética”.

A suposta liberdade conquistada no processo de independência é ilustrada por Karimov com a possibilidade de a população poder agora ir livremente ao estrangeiro e estudar lá, mas é muito difícil os uzbeques poderem pagar os estudos dos filhos no estrangeiro. Os defensores do novo Uzbequistão dizem que antes nem esse direito existia, mas a realidade é que continua a não existir, apenas sendo acessível a um reduzido número de filhos das famílias muito ricas: na prática, são hoje menos que antes os estudantes que vão estudar para o estrangeiro. O Uzbequistão não superou a crise provocada pelo desaparecimento da URSS. O algodão, o oiro e o urânio são as principais riquezas do país, mas os riscos estratégicos são enormes: o Uzbequistão não tem água suficiente, e a intensa exploração das águas do Amur Daria e Sir Daria em toda a Ásia central provocaram uma diminuição da água do Mar Aral e criaram novos problemas na economia, porque o algodão é o grande recurso do país. Por isso são muitos os que afirmam que o Uzbequistão necessita da Rússia: a evidência do isolamento de umas pequenas repúblicas num mundo de gigantes prossegue, conservando os laços que criou a União Soviética.

Tashkent é hoje uma cidade nova. O terramoto de 26 de Abril de 1966 destruiu quase completamente a capital uzbeque, e então, todas as repúblicas soviéticas se envolveram na ajuda e na reconstrução, dando lugar a uma cidade de amplas avenidas, de grandes parques e gigantescas praças, que é a metrópole mais populosa da Ásia central. Os sinais da crise depois do desaparecimento da URSS continuam visíveis, o trabalho deixou de ser um direito colectivo. Em Tashkent o salário médio de um operário oscila entre os quarenta e sessenta mil soms mensais, cerca de quarenta dólares. Em Samarcanda visitei uma fábrica de seda. É privada, criou-se em 1992, imediatamente a seguir à derrota da URSS. Trabalham ali quatrocentas e cinquenta mulheres, a maioria jovens, que ganham um salário entre oitenta e cento e vinte dólares mensais (entre sessenta e cinco e noventa e cinco euros). Utilizam tintas naturais para tingir a seda, casca de nogueira, romã e flores silvestres. As operárias consideram-se afortunadas, tendo em vista as condições do país. Em Bujara, outra das cidades míticas da velha rota da seda, a destruição da economia atingiu níveis alarmantes: algumas fontes falam em sessenta por cento de desemprego e sub-ocupação. Há trabalho infantil no fabrico de colchões e no artesanato: as prioridades mudara o que leva muitas famílias a não mandar os filhos à escola, pois esta não paga salários, e põem-nos a trabalhar.

A orfandade política das repúblicas da Ásia central converteu-as em apetecíveis presas dos Estados Unidos. Enquanto cortava os laços com a Rússia, Karimov envolveu-se no conflito afegão, apoiando nos anos noventa o general Rashid Dostam, um militar de raízes uzbeques, tendo chegado a servir de intermediário com os sanguinários talibans (uma criação dos serviço secretos paquistaneses e norte-americanos, com financiamento saudita), que se converteram na força dominante do Afeganistão. Foi uma forma de ganhar espaço político para Dostam e, ao mesmo tempo, fortalecer o peso do Uzbequistão na região. Simultaneamente, intensificou as suas relações com os Estados Unidos, que chegaram a organizar exercícios militares da NATO em território uzbeque. Mas as dificuldades exteriores aumentaram. O Paquistão alimentava campos de treino de terroristas islâmicos, o que provocou alguns problemas, as relações com Moscovo tornaram-se tensas, quer devido à minoria russa no país, quer pela decisão do governo uzbeque abandonar o Tratado de Segurança da CEI (Confederação de Estados Independentes que sucedeu à URSS), apesar de não ter impedido a colaboração com a Rússia no combate ao terrorismo islâmico. Em Fevereiro de 1999, uns confusos atentados terroristas (organizados por um partido chamado Hezbollah [N. do T.: Partido de Deus], como o libanês) contra a sede do governo causaram cerca de vinte mortos em Tashkent, no que pareceu uma operação dirigida contra Karimov, por uma estranha amálgama de serviços secretos. A partir de 1999 o Uzbequistão abandonou o Tratado de Segurança Colectiva, que reunia a Rússia e outras repúblicas da desaparecida União Soviética, e passou a integrar o GUAM (que com a sua entrada passou a chamar-se GUUAM), uma organização que agrupava a Geórgia, a Ucrânia, o Azerbeijão e a Moldávia, urdida nos laboratórios estratégicos de Washington, com o propósito de consolidar a divisão do território soviético e assegurar a penetração norte-americana na periferia russa. Saliente-se que estas repúblicas, embora todas de origem soviética, não têm fronteiras comuns, pelo que a forçada integração no GUUAM foi, desde início, um trunfo no desenvolvimento estratégico norte-americano. A troco da protecção e apoio diplomático, Karimov dispôs-se a cumprir o papel de peão de Washington.

Nas relações externas Karimov cultivou a amizade e a aliança com os Estados Unidos, tendo essa estratégia já sido trocada por um regresso à aliança com Moscovo. Mas antes de soarem todas as campainhas de alarme, Karimov recusou a integração do Uzbequistão na Comunidade Económica Euro-asiática que, com o objectivo de reunificar o espaço económico soviético, foi criada em Outubro de 2000 pela Rússia, Bielo-Rússia, Kazaquistão, Kyrgistão e Tajiquistão, reflectindo a sua desconfiança da diplomacia russa, ao mesmo tempo que fazia uma piscadela de olho aos americanos, sempre desejosos de aumentar a sua influência na região, em prejuízo de Moscovo e Pequim. Os atentados de 11 de Setembro deram a Karimov a oportunidade de oferecer a sua colaboração aos Estados Unidos, concretizada na assinatura de convénios militares com Washington, autorizando o exército norte-americano a utilizar bases em território uzbeque que, pela alta importância estratégica, levou Collin Powel, responsável pela diplomacia norte-americana a visitar Tashkent. O apoio uzbeque ao novo regime de Karzai, colocado pelos Estados Unidos em Cabul, também foi uma consequência desse pacto. Um ano depois, Karimov visitou Washington, consolidando a sua aliança com os Estados Unidos e assinando novos acordos militares e económicos. Pode dizer-se que a mais importante consequência dos atentados de 11 de Setembro na zona não foi a ataque estadunidense ao Afeganistão, mas a penetração norte-americana na Ásia central. Washington não procurava Bin Laden, tema exclusivamente para consumo popular, mas o controlo da Ásia central, vindo o Afeganistão por acréscimo. Depois da ofensiva militar e diplomática, os Estados Unidos conseguiram uma presença militar no Afeganistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Kyrgistão e Kazaquistão. O retrocesso estratégico de Moscovo era tão evidente, que os estrategos norte-americanos especularam com a possibilidade de forçar a Rússia ao papel de guardião dos interesses estadunidenses nas antigas repúblicas soviéticas da Ásia central! Mas o jogo não terminou aqui.

Em Março de 2004, novos atentados terroristas no Uzbequistão, simultaneamente em várias cidades, entre elas a capital, Tashkent, causaram dezanove mortos e dezenas de feridos. A 12 e 13 de Maio em Andijan, uma importante cidade do vale de Fergana, a polícia reprimiu uma manifestação que se seguiu a uma confusa incursão guerrilheira. Grupos de homens armados atacaram uma esquadra da polícia e um quartel, mataram polícias e soldados, e assaltaram ainda uma cadeia onde libertaram mais de dois mil presos. A perigosa crise foi liquidada por Karimov, depois de consultas com Putin. Segundo a Amnistia Internacional, na repressão subsequente ordenada por Karimov terão morrido centenas de pessoas, embora estes números sejam avançados com prudência, pois não foi possível qualquer investigação independente. Até aí, os EUA eram o principal apoio diplomático de Karimov que, inclusivamente, acedeu a receber no Uzbequistão prisioneiros norte-americanos e o recurso à tortura nos interrogatórios. O ataque guerrilheiro, que aproveitou a insatisfação popular pelo retrocesso das condições de vida da população, as reivindicações islamitas, os negócios da droga e as actividades de empresários suspeitos, beneficiou da proximidade entre Andijan e as zonas de convulsão do Afeganistão e Paquistão. A confusão sobre a identidade dos autores morais da operação não oculta as actividades dos islamitas e de serviços secretos. Karimov acusou os extremistas islâmicos como responsáveis pela operação, embora (apesar de não o afirmar publicamente) suspeitasse da mão de Washington por trás da infiltração. Os Estados Unidos já tinham organizado as revoluções laranja para instalar regimes amigos nas antigas repúblicas soviéticas da Geórgia e Ucrânia, e fracassadas na Bielo-Rússia e Azerbeijão. Algumas fontes, como, Ahmed Rashid, mantêm que depois da repressão foram mais de mil os uzbeques que se refugiaram no Afeganistão. Revelador. A realidade das redes islâmicas, infiltradas pelos ISI (serviços secretos paquistaneses), CIA e Mossad, é um mundo escuro que participa na batalha estratégica da Ásia Central. De acordo com o procurador geral do Uzbequistão, o seu governo tem provas de que a operação foi organizada pelo Movimento Islâmico do Turquistão (anteriormente chamado de Movimento Islâmico do Uzbequistão), Hizb ul Tahir e Akramiylar. Não é difícil adivinhar quem dirige estes grupos.

Há fontes que consideram estar a embaixada dos EUA em Tashkent por trás da intentona de Andijan. Os serviços secretos estadunidenses influenciam (financiam) grupos opositores uzbeques refugiados em Londres, como têm feito com outros grupos islâmicos da Ásia central, em contacto permanente com o pessoal diplomático e militar deslocada na região. Isto é: Washington, apesar de manter uma estratégia que procura limitar a influência do islamismo militante, também financia, treina e controla facções islâmicas que sejam úteis à prossecução dos seus objectivos, incluindo a preparação de provocações e atentados. Não esquecer que a região chinesa de Xingquianq está só a 200 km de Andijan e que os serviços secretos norte-americanos continuam a apoiar grupos islâmicos chineses que especulam com uma suposta independência. Aumentar a pressão sobre a China no Oeste chinês seria um trunfo estratégico para Washington. Tudo indica que os Estados Unidos se equivocaram no Uzbequistão, procurando trocar um ditador aliado, mas imprevisível, por um governante telecomandado por Washington. Karimov quando constatou que o alinhamento com os EUA não lhe assegurava a manutenção no poder, voltou os olhos para Moscovo. Não tinha alternativa. Os distúrbios de 2005 em Andijan, traçaram a mudança de alianças.

As pressões norte-americanas e europeias não se fizeram esperar: em Outubro de 2005, a União Europeia aprovou um embargo de armas e limitou a entrada de dirigentes uzbeques no seu território. A reacção uzbeque não tardou: no mês seguinte, Karimov encerrou o seu território incluindo o espaço aéreo às uma decisão que, somada à retirada da base de Karshi-Janabad aos americanos onde estavam desde Outubro de 2001, complicou de sobremaneira a situação dos EUA na região, afectando o Afeganistãoo e a própria ISAF. A prepotência norte-americana tinha chegado ao ponto de não pagar ao Uzbequistão o aluguer acordado pela base de Karshi-Janabad. Quando Washington se apercebeu que a ameaça de desalojamento era séria ainda quis pagar os anos atrasados, só que já não foi a tempo de dissuadir Karimov.

Os Estados Unidos cometeram um erro de cálculo no Uzbequistão, mas continuam a trabalhar para influenciar o Kazaquistão e o Turquemenistão, república dominada despoticamente por Saparmurat Niyazov. Washington tem procurado forçar mudanças políticas na periferia da ex-União Soviética e em todo o Médio Oriente utilizando para isso a pressão diplomática, a organização de redes por eles financiadas e infiltradas. Organizações como Freedom House, dirigida por James Woosley, um antigo chefe da CIA, a USAID, United Status Agency for Internacional Development e a NED, Nacional Endowment for Democracy, juntamente com a actividade dos seus serviços secretos e mercenários completam o o leque interventor. Nem toda a sua actividade é terrorista, nem pouco mais ou menos. Em Bujara, por exemplo, pode constatar-se a infiltração na sociedade dos norte-americanos: a USAID financia negócios de comerciantes. Há que pôr os ovos em várias cestas…

A complexidade da disputa pela Ásia central complica o cenário. O interesse da Rússia, do Uzbequistão e da maioria das antigas repúblicas soviéticas está na consolidação da CEI que, no essencial, equivale ao território da URSS, e é hoje evidente para a maioria dos governos que os argumentos a favor da união são muito mais sólidos que os que conduzem à dispersão. Mas os Estados Unidos também jogam os seus trunfos: os investimentos das suas empresas no Kazaquistão são muito maiores que os feitos na Rússia. Note-se que, por outro lado, as trocas comerciais entre Moscovo e o resto das repúblicas soviéticas também se reduziram, devido à tendência para aumento das relações comerciais com países ocidentais. Com a China como cenário de fundo, o panorama é completado pelo Irão que está a redefinir a sua política para a Ásia central: na década de noventa, Teerão iniciou uma política externa voltada para a exportação da sua visão da revolução islâmica nas cinco repúblicas da região, o que redundou num fracasso total. A nova orientação, mais pragmática que ideológica, põe o acento tónico no intercâmbio económico: os acordos iranianos com o Turquemenistão para o envio de gás do Irão, e os acordos com o Tajiquistão, que englobam projectos industriais e de construção de gasodutos, são um exemplo disso mesmo. Também a política de boa vizinhança entre o Turquemenistão e o Irão não é uma boa notícia para Washington que continua a espreitar a possibilidade de utilizar o território turquemeno para um eventual ataque ao Irão. As relações do Irão com o Uzbequistão são mais frias devido ao receio uzbeque da retórica islâmica de Teerão. Mas não são apenas estas as potências atentas ao evoluir da situação: o anterior primeiro ministro japonês, Koizimi, visitou no Verão passado o Kazaquistão e o Uzbequistão com o objectivo de assegurar fornecimentos energéticos e minerais (desde o cobre e o chumbo ao urânio) e, de forma encoberta, colaborar com os Estados Unidos na contenção da China e da Rússia em toda a Ásia central. A discreta diplomacia nipónica não descarta o estímulo do confronto entre a Rússia e a China, como uma via para o prosperar dos seus interesses região, sempre sob o olhar atento de Washington.

A Comunidade Económica Euro-asiática (CEE), formada pela Rússia, Bielo-Rússia, Kazaquistão, Tajiquistão e Uzbequistão, é a chave da organização económica em parte do antigo território soviético. Não se pode esquecer que Washington continua a sabotar a intenção russa de vir a integrar a Organização Mundial de Comércio, OMC, e que um dos trunfos de Moscovo é a criação de um espaço económico e aduaneiro com a maioria das antigas repúblicas soviéticas. A Rússia, o Kazaquistão e a Bielo-Rússia avançaram muito neste campo; com a Ucrânia, que tem o estatuto de observador na CEE, constituem a parte mais substancial do que era a URSS. Outra entidade, o Espaço Económico Comum (EEC) está a reforçar a integração paulatina e a estabelecer novos laços, não sem alguns problemas, diga-se desde já. Em Janeiro de 2006, o Uzbequistão ingressou na CEE e, mais tarde, na Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), composto pelos países da CEE mais a Arménia. A integração das forças militares da zona também avança: no Verão passado, a OTSC organizou os exercícios militares Fronteira 2006, orientados para evitar a infiltração de grupos armados e aumentar a coesão e a segurança em toda a Ásia central. E aqui, os interesses dos russos são coincidentes com os dos chineses e entram em colisão frontal com os interesses norte-americanos e, em menor medida com os dos turcos. (Recorde-se que os serviços secretos norte-americanos, israelitas e turcos trabalham em muitas operações conjuntas, de que é exemplo a detenção, há anos, do dirigente curdo Abdulá Ocalam, em Nairobi, na Tanzânia). Outra organização que se fortaleceu nos últimos anos foi Organização de Cooperação de Xangai (OCS, onde, com a Rússia e a China, estão o Kazaquistão, o Uzbequistão e outras repúblicas menores), o que está a criar um novo equilíbrio estratégico na região e no mundo. Um dos frutos desta colaboração, cada vez mais importante, é o novo gasoduto Kazaquistão-China que começou a funcionar em 2006.

É neste meio que se insere o Uzbequistão, e onde as suas novas alianças estão a inclinar a balança na Ásia central. Nikolai Bordiuzha, secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Colectiva, afirmava há poucas semanas que “a recente decisão do Uzbequistão de reintegrar a OTSC muda radicalmente a situação geopolítica não só na Ásia Central, mas também em todo o espaço pós-soviético”. Nessa encruzilhada estratégica, onde Estados Unidos, Rússia e China tanto têm a ganhar ou a perder, encontra-se o Uzbequistão, oprimido pelo regime de Karimov, com a sua população nostálgica do passado soviético, olhando de novo para a Rússia.



Publicado em El Viejo Topo

* Argentino, professor universitário

Tradução de José Paulo Gascão