Inicio > Mis eListas > humboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 6301 al 6320 
AsuntoAutor
1371/05 - Brasil - Centro H
1370/05 - Argentin Centro H
1372/05 - Boletín Centro H
1373/05 - HURACÁN Centro H
Conferencia: "Las Damián F
Tu investigación achala a
1375/05 - Uruguay Centro H
1376/05 - Brasil - Centro H
1374/05 - El Salar Centro H
RE: NoticiasdelCeH Ana Cabe
1378/05 - A GEOPOL Centro H
1377/05 - Argentin Centro H
1379/05 - Guatemal Centro H
1380/05 - Convocat Centro H
1381/05 - El CAFTA Centro H
1382/05 - Argentin Centro H
1383/05 - Irán -"T Centro H
1384/05 - Irán rec Centro H
1385/05 - EE.UU: Centro H
1386/05 - Brasil - Centro H
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
Noticias del Cehu
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 6536     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:NoticiasdelCeHu 1378/05 - A GEOPOLÍTICA DA ENERGIA NA AMÉRICA DO SUL (Georges Landau)
Fecha:Viernes, 21 de Octubre, 2005  18:07:59 (-0300)
Autor:Centro Humboldt <humboldt @...........ar>

NCeHu 1378/05

A GEOPOLÍTICA DA ENERGIA NA AMÉRICA DO SUL
Georges D. Landau
 
prismax@terra.com.br
Artigo para InterCivitas

O Brasil detém cerca de um quarto das reservas mundiais de água. Não é de surpreender, portanto, que mais de 83% da energia elétrica gerada no país se origine da hidroeletricidade, motor não-poluente de desenvolvimento nacional. Entretanto, a geração hidroelétrica no Brasil é desigualmente distribuída, e o Nordeste é deficiente nesse particular, como o ilustra o fenômeno secular da seca e tentativas heróicas de resolver o problema. O Nordeste semi-árido requer portanto importar energia de outras regiões do país, e notadamente do Sudeste. Entretanto, o Brasil inteiro necessita suplementar os seus recursos energéticos domésticos, apesar de copiosos, com importações de terceiros países, inclusive vizinhos na América do Sul (Argentina, Bolívia, Paraguai [Itaipu], Peru e Venezuela.

É bem verdade que ainda neste ano o Brasil deverá  atingir o patamar histórico da auto-suficiência em petróleo, cerca de 1,8 milhões de barris por dia. Na realidade, o país vem há anos exportando parte da sua produção de petróleo cru pesado e importando certos derivados, como o óleo diesel, e a nafta (insumo essencial à petroquímica), e isto porque as refinarias implantadas pela Petrobrás, desde a sua criação pelo governo Vargas em 1953, eram, até há pouco, inaptas ao refino do óleo pesado encontradiço ao longo das costas brasileiras, e sim capazes de processar o petróleo leve, que o Brasil importava sobretudo do Oriente Médio, e que só recentemente passou a ser descoberto, em quantidades comercialmente viáveis, nos depósitos off-shore situados nas bacias sedimentares litorâneas. Descobriram-se também na bacia de Santos vastos depósitos de gás natural, mas falta-nos ainda a infraestrutura de gasodutos necessária para levar o gás aos centros de consumo no sudeste do Brasil.

Assim, dependemos ainda das importações de gás dos nossos vizinhos, e notadamente da Bolívia, onde a Petrobrás já investiu US$1.5 bilhões e participa ativamente na produção de gás e seu transporte através do gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), de 3,150 km de extensão, que abastece a região Sudeste, e a partir dela o Sul do país. Entretanto, a instabilidade política recorrente no país andino, e a repentina elevação da incidência fiscal (para 50%) sobre a produção boliviana, levaram o Governo brasileiro -- respeitando embora o direito soberano da Bolívia de dispor dos seus próprios recursos naturais -- a buscar soluções alternativas.

Uma delas seria a participação do Brasil no Anel Energético Sul-Americano ("El Anillo") , um mega-projeto de gasoduto que, partindo dos campos de Camisea, em plena Amazônia peruana, levaria o gás ao norte do Chile, à Argentina, ao Uruguai e ao extremo sul do Brasil. A nossa posição oficial é que semelhante projeto, implicando investimentos da ordem de US$2.5 bilhões a serem custeados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Corporação Andina de Fomento (CAF), somente seria viável se nele participasse também a Bolivia. Entretanto, subsistem dúvidas quanto à real dimensão das reservas peruanas de gás, sabidamente inferiores às bolivianas. Por outro lado, a extensão desse gasoduto provavelmente faria com que no seu trecho final, o brasileiro, o custo do gás fosse excessivamente alto. Ante essas condições, pareceria que a principal motivação do Brasil ao interessar-se pelo projeto do Anel seria a de sinalizar à Bolívia que existem alternativas à sua exportação de gás para o Brasil. 

Outra possibilidade, que está sob análise do Governo e da Petrobrás, consistiria na construção de um gigantesco gasoduto de mais de 9,000 km que levaria 85M m3/dia de gás natural da Venezuela, atravessando todo o território brasileiro de norte a sul e chegando até Buenos Aires, com um ramal até Montevidéu. As reservas venezuelanas de gás, ainda relativamente inexploradas, atingem o fantástico volume de 4.25 trilhões de metros cúbicos, ou seja, cerca de dez vezes as do Brasil, e dados os elevados preços atuais do petróleo, sabe-se que o país dispõe de recursos financeiros para bancar tal projeto, cujo custo foi preliminarmente estimado em US$18 bilhões. Independentemente da viabilidade técnico-econômica desse plano faraônico, que está ainda pendente de avaliação, o que há de real atrás disso é a iniciativa "bolivariana" do Presidente Hugo Chávez, da Venezuela (acolhida pelo Presidente Lula), do estabelecimento de um mecanismo de macro-coordenação energética, a PetroSur, que englobaria o seu próprio país, o Brasil, a Argentina e o Uruguai, entre cujos regimes políticos existem afinidades ideológicas. Numa base bilateral, a Petrobrás e a companhia petroleira estatal venezuelana PDVSA (inteiramente submissa às controvertidas diretivas presidenciais) têm cinco projetos de cooperação em andamento, sendo que um deles, o de criação de uma refinaria para o Nordeste brasileiro (provavelmente em Pernambuco), implicaria na importação de óleo cru venezuelano, projeto pelo menos paradoxal num momento em que o Brasil se empenha pela auto-suficiência na produção de petróleo.

Existem ainda outras implicações geopolíticas no quadro energético brasileiro, como a projetada construção do Gasoduto Sudeste-Nordeste (Gasene), que a Petrobrás vem negociando com interesses rivais, tanto da China como do Japão. A própria empresa estatal brasileira opera hoje em 15 países da América Latina e o Caribe, na porção norte-americana do Golfo do México, na África Ocidental e no Oriente Médio, e aspira a uma produção de 500.000 barris por dia em 2010, a partir de fones externas. O problema imediato para o Brasil será o de evitar, a partir de 2008, a repetição do "apagão" de 2001, que tanto dano fez ao crescimento da nossa economia. O Governo, que no ano passado implantou um novo modelo para o setor elétrico, deseja fazer o mesmo para o do gás, que carece ainda de uma regulamentação específica. Entretanto, os ambiciosos planos do governo federal para a ampliação da oferta de hidroeletricidade -- 17 novas usinas deveriam ser leiloadas até o fim de 2005 -- vêm-se ameaçados por agudas dificuldades para o seu licenciamento ambiental. Daí que a Petrobrás busque intensificar, com vista à geração termo-elétrica, o abastecimento de gás à base das fontes nacionais, até 2008. Até lá, porém o Brasil ficará dependente do gás boliviano, praticamente a qualquer preço. 

O quadro é ainda mais complexo. Embora a Bolívia tenha tido em anos recentes convulsões políticas internas, jamais deixou de cumprir o pactuado com o Brasil seu maior mercado, quanto às entregas de gás natural. Entretanto, quando a Argentina no ano passado sofreu uma crise de abastecimento de gás devido à escassez de investimentos no setor, suspendeu abruptamente os seus fornecimentos de gás ao Chile, e a Bolivia somente consentiu em manter (e aumentar) as suas exportações de gás à Argentina sob a condição de não haver re-exportações ao Chile, país com o qual a Bolívia tem um litígio histórico desde que perdeu a soberania sobre uma faixa costeira, como corolário da Guerra do Pacífico (1879-83). Não podendo confiar no suprimento regular de gás por seus países vizinhos, o Chile cogita importar gás liquefeito de petróleo (GLP) da Indonésia e da Rússia. Com isso, o Chile, que já deu as costas ao Pacto Andino e ao Mercosul, e firmou um tratado bilateral de livre comércio com os EE.UU., afasta-se cada vez mais do restante da América Latina, e cultiva as suas relações com a Ásia. Tanto a Bolívia como o Peru esperam poder exportar GLP aos Estados Unidos, mas esse ambicioso plano, que já gorou uma vez no caso da Bolívia devido à sua instabilidade política doméstica, está sujeito à estabilização do seu regime democrático em função das eleições presidenciais previstas para 4 de dezembro próximo.

Uma peça importante no tabuleiro de xadrez geopolítico da região é a Venezuela, cujo presidente Chávez usa a diplomacia do petróleo para angariar adeptos em toda a América Central, do Sul e o Caribe, privilegiando a relação com Cuba e buscando introduzir cunhas nas relações entre os países da área, importadores de petróleo (que a PDVSA lhes fornece mediante altos subsídios) e os Estados Unidos, ao mesmo tempo que a Venezuela fornece cerca de 15% do óleo importado pelos EE.UU. A relação entre a Venezuela e aquele país é portanto esquizofrênica. Um novo elemento desperta no horizonte geopolítico, a saber o apetite aparentemente insaciável da China por combustíveis, demonstrado por investimentos chineses para a aquisição de empresas petroleiras na região (p. ex. no Equador) e em contratos a longo prazo para o fornecimento de óleo bruto (Venezuela). Não é de se esperar uma confrontação a curto prazo entre a China e os EE.UU. pelo acesso à produção de petróleo, mas as perspectivas a longo prazo são menos promissoras.

O fato é que o presidente Chávez, cuja inegável popularidade em seu país advém em boa parte de programas sociais mantidos graças aos recursos da PDVSA e aos  altos preços atuais do "ouro negro" -- e que podem sofrer quedas no médio prazo -- busca em todo o mundo, e em particular na América do Sul, alternativas ao mercado norte-americano, que sem embargo assegura a prosperidade atual da Venezuela. Outro fator a considerar é que o imprevisível líder "bolivariano" vem adotando restrições crescentes à atividade das empresas multinacionais em seu país, inclusive as do setor petroleiro, o que as poderia levar a abandonar o país, apesar da atratividade das suas reservas. O Governo brasileiro vem monitorando com muita atenção o que se passa na Venezuela, e tem até agora reagido com prudência e comedimento às atitudes teatrais do coronel Chávez.



Gentileza de Marie-Christine LACOSTE, CNRS, "RUMBOS".