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Asunto:NoticiasdelCeHu 648/05 - A PARTICIPAÇÃO DOS ESPANHÓIS NA FORMA ÇÃO SÓCIO-CULTURAL DE ESTÂNCIA - SERGIPE
Fecha:Domingo, 22 de Mayo, 2005  00:20:59 (-0300)
Autor:Centro Humboldt <humboldt @...........ar>

NCeHu 648/05
 

A PARTICIPAÇÃO DOS ESPANHÓIS NA FORMAÇÃO SÓCIO-CULTURAL DE ESTÂNCIA - SERGIPE

Robervan Barbosa de Santana1

INTRODUÇÃO:

Levando-se em conta de que as problemáticas culturais atuais podem ser analisadas sob ótica da Geografia Humana, pode-se entender a Geografia Cultural como instrumento de análise da diversidade dos gêneros de vida e paisagens para representações de sentimentos de identidade. O elemento cultural tem peso na estrutura espacial das sociedades e sua diversidade, daí a importância de se conhecer a dinâmica da cultura local e sua procedência histórica. Neste contexto, este trabalho faz o recorte do município de Estância-Se para se apontar a resultante das características de seu perfil cultural ante as mais diversas formas de expressões idiossincráticas do Brasil e do mundo. Portanto, serão aqui esclarecidos os traços da ocupação que precederam à população atual.

O elemento cultural, seja ele procedente de qualquer lugar, tem seu panorama observado na Geografia por existir diversidades nos povos em relação aos lugares. Assim sendo, pode-se definir a Geografia Cultural como o subcampo da Geografia que analisa a dimensão espacial da cultura. CORRÊA(2003).

A cultura é um campo comum para o conjunto das ciências humanas. Cada disciplina aborda este imenso domínio segundo pontos de vista diferentes. O olhar do geógrafo não dissocia os grupo dos territórios que organizaram e onde vivem; a estrutura e a extensão dos espaços de intercomunicação, a maneira como os grupos vencem o obstáculo da distancia e algumas vezes o reforçam estão no cerne da reflexão.

A Geografia humana estuda a repartição dos homens, de suas atividades e de suas obras na superfície da terra, e tenta explica-la pela maneira de como os grupos se inserem no ambiente, o exploram e o transformam; o geógrafo debruça-se sobre os laços que os indivíduos tecem entre si, sobre a maneira como instituem a sociedade, como a organizam e como a identificam ao território no qual vivem ou com o que sonham. O peso da cultura é decisivo em todos os domínios.

CLAVAL (2001)

A seqüência de desenvoltura deste trabalho obedece à ordem de tópicos aonde um, dois e três, correspondem ao objetivo, metodologia e localização, enfocam os pressupostos teóricos para estabelecer a temática, os procedimentos metodológicos e a localização do espaço estudado.

O desenvolver do tema central aproveita o fato do Brasil ser um país culturalmente heterogênio que favorece nas possíveis investigações a respeito do tema para compreender a sua sociedade e suas diversas facetas culturais em suas dimensões espaciais. Portanto, os seguintes tópicos desenvolvidos coincidem com os temas possíveis de serem explorados na Geografia Cultural apontados por CORRÊA:

·A percepção e avaliação ambiental por parte dos diversos grupos sociais, incluindo os naturais e os imigrantes, da natureza e dos ambientes socialmente produzidos.

Este tema é inerente ao presente trabalho uma vez que menciona a imigração luso-espanhola e o ambiente produzido pelos mesmos. Para tanto é utilizada a fonte dos conhecimentos históricos para dar fundamentação ao que se busca afirmar e trabalhar a interdisciplinaridade. Um levantamento sobre a polêmica que se faz quanto à procedência do fundador de Estância é abordada com base nas fundamentações bibliográficos. Em seguida, ainda sob uma análise históric,a torna-se imprescindível a análise das sesmarias em nome de pessoas hispânicas procedentes da Galícia ou do português da região do Minho.

·O caráter simbólico dos prédios, monumentos, praças, ruas, bairros, cidades, regiões ou montanha, vale, rio ou área florestal, entre outros, para diversos grupos sociais, étnicos, religiosos etc;

Também é pertinente ao referido trabalho uma vez que há menção à religiosidade de Estância-Se bem como o seu grupo étnico e a permissividade de ter sua toponímia hispânica pelo fato de ter surgido sob administração espanhola.

·As diversas manifestações religiosas em sua dimensão espacial, como se exemplifica com as peregrinações às cidades santuários, definindo espaços sagrados e espaços profanos;

Mais uma vez a religiosidade é abordada porém com menção às suas manifestações folclóricas e significado cultural focando a tentativa político-administrativa e ideológica da época colonial.

·A variação espacial dos diferentes modos de falar: gênese, dinâmica e significado;

Há um capítulo neste trabalho que trata especialmente da geografia lingüística como resultante de um processo de colonização além de referir-se sobre a relação de poder que um idioma exerce sobre um território bem como a aproximação lingüistica entre o português falado no nordeste em comparação ao espanhol da época colonial. Refere-se também, como o perfil do colono definiu o falar do povo sergipano e particularmente em Estância-Se. Para tanto, faz-se o cruzamento de informações a respeito da genealogia que identifica o elemento hispânico.

·A cultura popular em suas múltiplas manifestações e variação espacial;

Encontra-se neste trabalho comentários a respeito de algumas manifestações culturais, tanto as que foram desenvolvidas em Sergipe quanto as que têm procedência ibérica.

·A Caracterização e delimitação de áreas culturais, inclusive áreas residuais e enclaves, num contexto de difusão de uma cultura com características globais;

Esta ultima sugestão de tema de estudo mencionada por CORRÊA está relacionada com a dinâmica atual e no caso desse estudo sobre Estância-Se, o momento histórico destacado é a época colonial que serve como ponto de partida para compreensão do processo de dominação ocorrida sob a administração da coroa espanhola. Este processo de assimilação cultural seguiu o modelo político administrativo financeiro passando do eixo do Mediterrâneo para o Atlântico, marcando uma transição da idade média para a idade moderna. A construção e a consolidação de um Estado patrimonial moderno por parte da coroa espanhola tentou imprimir um modelo político e mental, com isso vieram os padrões culturais que deixaram vestígios duradouros expressos na língua, gastronomia, economia, hábitos, danças, religiosidade, miscigenação e até mesmo na jurisdição.

A extensão do domínio filipino do período conhecido como "El siglo de oro", isto é de 1556 a 1665, deixou impressa a marca deste império onde o sol não se punha, uma vez que tinha grande poder na Europa e além de governar parte da América do Norte, quase toda a América do Sul, e toda a América Incaica, isto é a América dos Incas. A coroa espanhola tinha o seu raio de extensão através das possessões portuguesas, na África e na Ásia. A toponímia das Filipinas na Ásia, por exemplo, é resultante de seu domínio no passado.

No Brasil o poder de atuação da coroa espanhola se fez sentir em diversas iniciativas reais e resultou em algumas toponímias como a "Felipéia de Nossa Senhora das Neves", nome da atual cidade de João Pessoa, capital da Paraíba e a Capitania de Sergipe Del Rey. É em Estância, nome de origem castelhana, que significa curral de gado, que localizamos e centralizamos elementos dessa cultura ibérica e é a partir dela que se desenvolve esta pesquisa.

A presença espanhola em Sergipe na época colonial não é tão pequena, entretanto não será tão forte quanto a portuguesa e sua cultura é sufocada ou diluída dentro do universo português, mas ela não desaparece e são estes resquícios que podemos encontrar principalmente em Estância num dado período de sua formação territorial.

Este trabalho está concebido sob a ótica do território como um espaço socializado, redefinido pelos grupos que nele atuam e atuaram adaptando-o através de sua própria cultura uma vez que esse mesmo território é um espaço identificado pela posse e domínio de uma comunidade ou Estado. No caso de Estância, sob administração luso-espanhola. Segundo SHEIBLING, O território é o resultado de um processo de apropriação de um grupo social e do quadro de funcionamento de sociedade, comportando assim, ao mesmo tempo, uma dimensão material e cultural dadas historicamente.

Este trabalho aborda as relações sócio-histórica e espaço-temporal, consideradas por SANTOS e RAFFESTIN aonde inclui incisivamente os elementos culturais tais como a lingüística, a moral, a ética, a religião, enfim, o conjunto de complexo padrões de comportamento possíveis de ser estudados no espaço vivido, valorizado e simbolizado.

Segundo Milton Santos(1994) é preciso ver o espaço como um sistema de objetos e um sistema de ações.

Em torno destas abordagens efetivadas neste trabalho é necessário considerar que a citação de Paulo César da Costa Gomes(2001) de a Geografia de hoje, dispõe de condições para constituir um novo conceito e um domínio epistemológico inovador em torno das idéias de espaço e cultura.

Finalmente, são apresentados os delineamentos conclusivos, algumas sugestões são apontadas para continuidade de estudos, não apenas restritos à Estância mas a qualquer outra localidade brasileira que apresente aspectos culturais de sua formação ainda não estudados.

1 - OBJETIVO GERAL

Analisar sob a ótica da Geografia Cultural quais as contribuições deixadas pela administração luso-espanhola para a formação sociocultural de Estância de Sergipe Del Rey no período da União Ibérica.

2 – METODOLOGIA

A elaboração desta pesquisa obedeceu a quatro etapas distintas: a primeira constituiu na revisão bibliográfica especializada. O uso de técnicas cartográficas permitiu a análise de dados através dos cartogramas. Todo o material catalogado foi obtido através de visitas aos acervos públicos como a BICEN (Biblioteca Central da Universidade Federal de Sergipe) e o Museu do Homem Sergipano, além da biblioteca da Sociedade Cultural Caballeros de Santiago em Salvador-Ba e visitações na área de estudo. Algumas fotografias inerentes ao trabalho foram tiradas pelo próprio autor conforme consta nos apêndices.

O contato via correio eletrônico com acadêmicos especializados nos assuntos propostos serviram para dar fundamentações teóricas além de sugestões bibliográficas. Outro contato foi feito através de magnetofonia autorizada pelos entrevistados, aonde em seguida foi feita a transcrição destas fitas.

Na Segunda etapa teve início à análise qualitativa dos dados levantados no momento em que foram dadas as elaborações das quais compuseram a dissertação. Na terceira etapa considerou-se a opinião dos estancianos de sobrenomes hispânicos a respeito de sua procedência, para isso um levantamento genealógico foi realizado com ajuda do historiador Rogério Freire Graça.

Finalmente, a última etapa correspondeu na redação, seguida de uma revisão por um profissional da área de línguas e do orientador.

3 - LOCALIZAÇÃO

O município de Estância está localizado no sudeste do estado de Sergipe. Limita-se ao norte com Itaporanga d’Ajuda, ao sul com Santa Luzia do Intahy e Indiaroba , a leste com o oceano Atlântico, a oeste com Salgado, Boquim e Arauá. Suas coordenadas extremas correspondem a 11o 02’39’’ a 11o 26’24 de latitude Sul e 37o 33’38’’ de longitude W.Greenwich.A sede municipal localiza-se na porção Sudoeste do município a 11o 16’49’’ de latitude e 37o 26’43’’ de longitude W.Greenwich numa altitude média de 20 metros acima do nível do mar.

Com uma área de 649,6 km2, Estância ocupa 3% do território sergipano e se constitui, quanto ao tamanho, a um município de grande porte, situado entre os dez maiores como Poço Redondo, Tobias Barreto, Lagarto, Canindé do São Francisco, Porto da Folha, Itaporanda d’Ajuda, Nossa Senhora da Glória, Gararú e Carira.

4 - UM APANHADO HISTÓRICO DE ESTÂNCIA

A importância de se trabalhar aspectos históricos num trabalho de Geografia pode ser justifica pela visão de Claude Raffestin (1980) aonde considera a territorialidade como um conjunto de relações que se originam num sistema tridimensional sociedade-espaço-tempo, o que implica em analisar a territorialidade em função da apreensão das relações recolocadas no seu contexto sócio histórico e espaço temporal.

Milton Santos (1994) considera a territorialidade corresponde às ações desenvolvidas por vários agentes sociais em uma determinada área geográfica e em um dado momento histórico. A ações são produzidas pelas diferentes estabelecidas entre os agentes em um específico recorte espaço temporal

O Surgimento de Estância se deu, segundo FRANÇA & GRAÇA da seguinte maneira:

No início do século XVII, as terras que correspondem hoje ao município de Estância e que haviam pertencido a Diogo de Quadros e Antônio Guedes, estavam abandonadas. Pedro Homem da Costa e Pedro Alves, genros do capitão João Dias Cardoso, solicitaram as referidas terras com o propósito de plantar, criar gado e morar com seus familiares e empregados.

A concessão de sesmaria foi feita através de uma carta assinada pelo capitão-mor João Mendes, a 16 de setembro de 1621, passando para ambos os sesmeiros, três léguas quadradas de terra às margens do rio Piauí.

Estância surgiu como povoação de Santa Luzia, o mais antigo núcleo de Sergipe. Sua primeira atividade econômica foi a pecuária, devido à boa qualidade dos pastos, fato que traduz o significado de seu nome (fazenda de gado), batizado em castelhano, idioma falado pelo seu fundador mexicano Pedro Homem da Costa, que também, junto a seus familiares e empregados, plantou algodão, cana-de-açúcar e outros produtos destinados à subsistência.

A pecuária em toda a colônia gerou renda, alimentação, transporte e força motriz; cumprindo os objetivos idealizados pelo introdutor do gado no Brasil, Martin Afonso de Souza.

No Brasil os importantes pecuaristas se destacaram, devido ao tamanho de seus rebanhos: Guedes Brito, no sul e centro-oeste e Garcia D’Ávila, senhor da Casa de Torre, no norte e nordeste, de quem se descendiam os fundadores de Estância. Pedro Homem da Costa construiu sua residência em meio a uma mata, nas proximidades da atual praça Barão do Rio Branco e utilizava dois caminhos básicos, direcionando seu rebanho: o caminho do rio, para beber água e o caminho de Santa Luzia, com destino à Bahia, para trânsito do gado feiro através da atual Rua Capitão Salomão.

Juntamente a sua esposa Mércia Cardoso, fundou uma capela em louvor à Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México, (atual Catedral de Estância), em torno da qual a população foi crescendo e prosperando.

FRANÇA & GRAÇA (2000)

A toponímia da cidade é de origem castelhana que significa fazenda de gado, entretanto, estância em castelhano, também significa parada na jornada, lugar onde os navios estão ancorados no porto, e se analisarmos a geografia de Estância, veremos que ali se encontra o último porto dentro do complexo fluvial Real Piauí.

4 .1 - SERGIPE DEL REY, UMA CAPITANIA LUSO-ESPANHOLA

Não apenas Sergipe mas toda a colônia esteve sob domínio espanhol, este fator resultou no fim do tratado das tordesilhas alargando as fronteiras do Brasil e no aumento da imigração de portugueses e espanhóis de Castela, Galícia entre outras comunidades autônomas. A conquista definitiva do território sergipano ocorreu no século XVI no ano de 1590 sob domínio de Felipe II, Rei de Espanha.

Este fato possibilitou na migração hispânica em Sergipe Del Rey como poderá ser verificado mais adiante no destaque dos nomes hispânicos que recebiam terras para criação de gado na capitania. Estes lotes de terras eram chamados de sesmarias, portanto, a figura de Cristóvão de Barros representa o personagem inicial deste processo, segundo NUNES:

O rei Felipe II fez, por merecimento, doação a Cristóvão de Barros das terras por ele conquistadas, com a condição de as repartir pelos colonos que bem melhor lhe parecessem, e de ali fundar povoações num prazo fixado por El-rei. Dentro dessa atribuição, o conquistador concedeu a seu filho, Antônio Cardoso de Barros, a primeira sesmaria que possuía 10 léguas de extensão na costa, indo do rio Sergipe ao Rio São Francisco. Tal desfecho significou o triunfo dos grandes. A pecuária tornou-se, inicialmente a mais importante atividade dos colonos, que, através de doação de sesmarias, foram ocupando a terra no sentido sul-norte a partir das margens do rio Real e Piauí. Sergipe Colonial NUNES (1989)

Consolidada a conquista, providenciou-se a vinda de novos colonos dos quais deram inicio a criação de gado bovino na nova capitania. As distribuições de sesmarias foram feitas aos soldados que acompanharam Cristóvão de Barros.

Visto então o processo histórico da dominação e ocupação do território sergipano com destaque para a soberania luso-espanhola, é necessária a análise dos nomes e sobrenomes das pessoas que recebiam as sesmarias, pois alguns deles são de origem espanhola e podem revelar sua presença em Sergipe Del Rey, segundo BEZERRA:

Alguns elementos de Castela poderão ter vindo, também por aqui, desde os princípios de nossa colonização, que coincide em tempo, com a tutela de Felipe II.

Na longa lista de sesmarias os nomes são, praticamente todos portugueses, mas por vezes aparecem alguns tipicamente espanhóis, assim um Gaspar Meirens, um Domingos Villachan, Francisco Roiz, um Ambrósio Garcez. Não seria absurdo entrever a participação desses outros ibéricos na formação de Sergipe. Especialmente nos primeiros tempos, portugueses e espanhóis, os dois legítimos autorizados e concorrentes pela posse de dois mundos, misturaram-se nas tripulações dos navios e, consequentemente, nas conquistas e povoamento de terras de além-mar. Assim é muito possível que ao lado dos lusitanos, da gente do Minho, Douro e Traz os Montes, que embarcava no Porto com destino à Bahia, tivessem vindo muitos espanhóis, da Galícia e outros pontos com os primeiros confundidos. A intimidade da história étnica, política e social de ambos os países tornam evidente o entrelaçamento.

O que foi patente nos planaltos sulinos, a ponto de grandes chefes mamelucos serem antes espano do que luso-gentios, poderá ter acontecido também no Norte da Colônia, e mais provavelmente durante os anos de fusão das duas coroas e para defesa do território, na fase de domínio dos países baixos. Mesmo depois da reabilitação do trono português, seria extremamente simples uma ligeira corruptela no nome, para torna-lo inteiramente lusitano; é o que se terá dado com os Seixas, Ateides, Magalhães e outros.

Interessante notar que há alguns tipos entre nós, especialmente femininos, que tanto podem sugerir uma ascendência lusa como de gente da Galícia, de espanhóis que, para emigrarem naqueles tempos, já procuravam os portos vizinhos atlânticos de Portugal.

Fundamentalmente, porém, temos de apelar para a colonização portuguesa, que deve explicar a razão de nossos redutos de brancos e consequentemente do grupo dos alourados. BEZERRA (1950)

Esta citação dá fundamentação para justificar as fontes primárias que se aproximam da referência da passagem dos espanhóis em Sergipe. BEZERRA deixa em aberto um espaço para investigações mais detalhadas ao afirmar que "fundamentalmente", temos de "apelar" para explicar a colonização portuguesa.

4.2 - GENEALOGIA DAS FAMÍLIAS ESTANCIANAS

A genealogia colonial sergipana apresenta, em sua maioria, uma procedência de origem portuguesa, mas famílias de outras nacionalidades já são encontradas, entre elas espanholas, sobretudo nas poucas fontes primárias disponíveis, segundo MOTT:

Pouco se conhece da história de Sergipe colonial além dos trabalhos de Felisbelo Freire, Ivo do Prado, Maria Thétis Nunes e Luiz Mott.

E segundo ARAÚJO:

A grande maioria das famílias sergipanas européias provêm de Portugal e de suas colônias. Não houve em Sergipe uma grande imigração de famílias alemãs e italianas como houve no sul do país.

Para se apontar famílias de origem espanhola em Sergipe Del Rey, aqui será utilizado, um levantamento feito pelo historiador Rogério Graça Freire. Ao fazer uma pesquisa nos cartórios de Estância sobre sua procedência genealógica, FREIRE encontra nomes e sobrenomes das famílias estancianas, das quais a maioria é de procedência portuguesa, mas algumas possuem outras ramificações estrangeiras, entre elas espanholas a saber:

Para se comentar os sobrenomes hispânicos, deve-se ter a devida atenção aos nomes que por corruptela foram aportuguesados como é o caso do sobrenome Assunção a saber:

Assunção, Ávila, Gárcia D’Ávila, Calazans, Conceição, Dias, Gomes, Domingues, Córdova, Nunes, Rodrigues.

Com isso, podemos entender que varias famílias da época colonial em Sergipe podiam ser de origem hispânica, o que dá sustentação de sua contribuição no formação populacional.

As fontes primárias comprovam a passagem do elemento branco ibérico em Estância, entretanto, não se pode deixar de ressaltar a relevância da contribuição adquiridas por meio de entrevista feita ao povo estanciano.

As características das pessoas são a resultante de um processo histórico inicialmente sob política administrativa colonizadora. O habitante que compõe a paisagem atual de Estância não é muito diferente dos das demais regiões de Sergipe e fica evidente aqui o aporte do ibérico que habita a Espanha.

5 - O PERFIL DO COLONO PORTUGUÊS E GALEGO

O contigente demográfico da época colonial que ocupou Estância-Se tinha a ocupação da terra como seu principal fator de atração. Cabe-se indagar então quem eram e para onde iam os colonos portugueses e espanhóis que vinham para o Brasil.

É o que será verificado neste capítulo, porém é preciso saber que Portugal e Espanha são países limítrofes e de culturas afins, fator este que aumenta a possibilidade do povo espanhol, sobretudo o da Galícia, ter vindo para o Brasil no período colonial.

Dentre as províncias portuguesas apontadas por NUNES (1989) destaca-se a do Minho. Ao observar o mapa nota-se que o Minho localiza-se no norte de Portuga e, faz fronteira com a Galícia na Espanha. Como na época colonial estas fronteiras não eram tão rígidas, o que efetivamente as diferem são as suas distintas nacionalidades e sensivelmente o idioma, já que a língua local é o galego, antes chamado galego-português.

Quem nasce na Galícia é galego e galego também é designado o indivíduo no nordeste

que tem cabelos loiros e olhos claros.

Os portugueses da província do Minho também têm estes traços físicos, só que não são

chamados de galegos porque não nasceram na Galícia.

Segundo BEZERRA "os galegos podiam ser confundidos entre portugueses." Isso porque o galego foi o povo que mais se dispersou da Espanha para outros países principalmente as Américas. Emigravam por diversas finalidades, tais fatores ajudaram a definir seus perfis.

Sendo a cidade de Salvador um grande porto receptor de imigrantes e estando a aproximadamente 288 quilômetros de Estancia, é possível que se cogite ramificação dos galegos para demais locais do nordeste, entre eles Estância.

A Bahia foi um dos estados que mais recebeu galegos, e isso favoreceu para que mais tarde o governo espanhol desse assistência a estes emigrantes.

Para se comprovar que o estado vizinho foi grande receptor de imigrantes espanhóis pode-se analisar que das 14 entidades colaboradoras à comunidade hispânica existente no Brasil, 3 estão em São Paulo-SP, 3 no Rio de Janeiro-RJ, 1 em Belém-PA, 1 em Porto Alegre-RS e 5 em Salvador-BA, são elas Caballeros de Santiago, Centro de Estúdios Galegos, Centro Espanhol, Centro Recreativo União do Rio Tea, Real Soc. Española de Beneficencia e até uma equipe de futebol o Galícia Esporte Clube.

É notável a quantidade significativa destas entidades presentes na Argentina, isso denota que além de italianos e franceses, muitos espanhóis tiveram em Buenos Aires o destino final de sua viagem. Não é de se estranhar que os argentinos chamem de galegos a qualquer estrangeiro de origem espanhola ainda que não tenha nascido na Galícia.

Tanto antes quanto depois da época colonial, o espanhol da Galícia vinha para a Bahia, e dali se ramificava para regiões adjacentes, entre elas Sergipe como podemos averiguar citação de ARAÚJO:

Nas listas de estrangeiros que juraram a constituição em 1824, não aparece nenhum que não fosse português, excetuando Agostinho João Crespo da Galícia, que trabalhava embarcado e morava em São Cristóvão desde 1805.

Se no limiar do século XIX, posterior à união ibérica, já se notava e era comum a presença de galegos em São Cristóvão, não seria exagero considera-los à então cidade colonial de Estância como local de receptora destes hispânicos de nomes aportuguesados.

O português que falamos hoje é muito próximo do idioma galego, que antes chagou a ser chamado Galego-português, verifica-se então a proximidade nas palavras e nos nomes dos portugueses do Minho, tornando então possível que além de Agostinho Crespo, tenha havido outros galegos que se consideravam ou se definiam como portugueses.

Para se analisar o perfil destes colonos utilizar-se-á a sintetização de NUNES quando considera que os cinco grupos dos elementos sociais coloniais, que são os fidalgos, militares, sacerdotes, degredados, criminosos, "Homens bons" ou lavradores, artífices, artesãos e lavradores. Para FRANCO, o colono que vinha a Sergipe era agricultor, ou criador bem como carpinteiros, ferreiros, e não seriam letrados.

Por fim, ainda destacamos o perfil dos colonizadores traçados por PASCHOAL e VAINFAS.

Segundo os registros dos órgãos governamentais que, no Brasil, controlavam a entrada e saída de imigrantes (fontes oficiais de informações), o perfil do espanhol típico que aqui chegava (imigrante) era adulto jovem, do sexo masculino, oriundo das zonas rurais e costumava viajar desacompanhado mesmo quando casado. No entanto, deve ser considerado com um certo cuidado o registro de sua origem rural. Há fortes indícios de que para fazer jus às passagens subvencionadas, os candidatos ao subsídio costumavam declarar-se agricultores, contando com a conivência dos agentes e das companhias de navegação.

PASCHOAL e VAINFAS.

Fidalgos militares, sacerdotes, degredados, criminosos, "Homens bons", agricultores, artífices, artesãos, lavradores, criadores, carpinteiros, ferreiros, etc, este era o perfil do colonizador ibérico. Eram, A maior parte desses imigrantes vinha do Minho e do Douro NUNES (1989) isto é, regiões limítrofes com a Galícia que habitaram e contribuíram para a formação social do Brasil colonial, consequentemente Sergipe que historicamente começou a ser povoados por imigrantes da região sul, justamente onde surgiu Estância.

Pode-se apontar como balanço da resultante desta ocupação alguns aspectos sociais que contribuíram para a vida econômica em geral bem como a organização do espaço em Estância-Se.

6 - APROXIMAÇÃO LINGÜÍSTICA

No processo de apropriação de um território, um dos elementos culturais utilizados para consolidação do fato é o idioma.

A língua é sem nenhuma dúvida, um dos mais poderosos meios de identidade de que dispõe uma população. Por essa razão ela ocupa um lugar tão fundamental na cultura e é, por si mesma, um recurso que pode dar origem a múltiplos conflitos. Contudo, é conveniente recoloca-la no contexto das relações de poder para melhor compreender sua significação.

RAFFESTIN (1993)

Encontrar na linguagem elementos que interessam ao geógrafo moderno numa perspectiva de língua e ideologia são objetos de estudo mencionados por SOUZA:

A língua e a linguagem encerram conceitos que advêm de uma experiência vivida de um povo, mas podem igualmente conter idéias que se prestam aos interesses daqueles que detêm o poder.

A língua e a linguagem são, sobretudo uma questão política. Como instrumento de comunicação ela pode servir à imposição de um domínio político por meio da cultura.

SOUZA(1991)

No processo de colonização do Brasil o fator idiomático não foi diferente dos demais modelos de colonização, isto é, o português fica sendo o idioma imposto sobrepujando a variação tupi falado pelos silvícolas, além de considerarem a língua dos negros escravos.

Pode-se notar que não existe uma unidade lingüística num país de dimensões continentais como o Brasil e tal variante se devem ao processo histórico de colonização e convívio com distintos grupos de estrangeiros.

No caso dessa pesquisa, o que está sendo analisado culturalmente é como o convívio com espanhóis, a partir do período da União Ibérica, podem ter deixado resquícios dessa convivência.

Analisemos então estas palavras e expressões usadas no falar de alguns entrevistados em Estância sem deixar de ressaltar que as mesmas estão presentes no falar da maioria dos demais nordestinos.

Oxente!

Vixe Maria !

Vou barrer a calçada.

Sobaco.

Eu gosto muncho dos meus ocho fio.

A rente trabaia muncho

Tirei o leche da vaca.

Comprei isso pá ela.

Ô muié...!

Entonces eu fiz uma pregunta.

Cerra a porta.

O "por quê" destas expressões parecidas e até iguais a da língua espanhola tão comuns no falar nordestino, está justificado na história da língua do povo dominante. O português falado no Brasil nos séculos XVI e XVII esteve bem mais próximo do espanhol do que atualmente.

A aproximação do falar galego notado no nordeste brasileiro se faz notar em algumas palavras e em alguns fonemas como é o caso do som produzido pel letra G (ge) que é substituída pelo X em comparação ao português, então vejamos.

Português Galego

Geografia Xeografia

Gente Xente

Virgem Vixe

Jesus Xesus

José Xosé

 

A maioria dos habitantes do nordeste brasileiro utiliza este fonema em expressões de espanto como é o caso do Oxente! e Vixe Maria!

Como já foi visto anteriormente, muitos estrangeiros que vieram ao Brasil eram justamente procedentes Galícia e não é absurdo cogitar que este convívio tenha ajudado a manter estas expressões nesta região durante o período colonial.

nota-se que sob alguns aspectos, os espanhóis ajudaram a pelo menos a conservar fonemas e palavras de nossa própria língua uma vez que no começo de nossa colonização foram eles quem dividiam o espaço habitado enquanto colonizador. Esse acento peculiar, ligeiramente contrastante com as pessoas das demais regiões do país notada no falar dos sergipanos e em particular dos estancianos, é um elemento resultante da herança cultural dos povos dominantes nos primeiros momentos de sua colonização.

A língua não foi fator de dificuldade para convívio entre portugueses e espanhóis e o falar notado em Sergipe tem sua característica própria neste mosaico lingüístico diversificado do Brasil.

7 - O MAPEAMENTO DA RELIGIOSIDADE HISPÂNICA EM SERGIPE

A maior parte das devoções em Sergipe são incorporadas a partir da formação das freguesias que são os primeiros núcleos eclesiásticos que legitimam o processo de ocupação de uma região.

Para se fazer um mapeamento da religiosidade hispânica em Sergipe e comentar acerca da padroeira de Estância, é preciso saber que processo de catequização, teve início pelos primeiros missionários que neste estado tiveram livre acesso desde 1575.

Destacam-se então os elementos que compunham a formação religiosa sergipana de antanho numa época em que após o primeiro século de conquista, a sociedade brasileira se estruturava, lançando as primeiras raízes de construção de nossa nacionalidade.

Verifica-se a importância da Companhia de Jesus e sua participação em Sergipe desde 1575, quando os padres Gaspar Lourenço e o espanhol da Catalunha João Salônio, em missão de catequese aos índios, introduziram sua ideologia e cultura estrangeira.

Em 1601 ainda sob comando da companhia de Jesus o Padre Amaro Lopes prossegue o processo de catequese ainda na região sul do estado. A Companhia de Jesus foi fundada pelo espanhol Santo Inácio de Loyola (1491-1556) e contou com grande apoio do Rei de Portugal D. João III, daí porque na armada de Tomé de Souza, o primeiro governador geral do Brasil, estavam os primeiros Jesuítas, dos quais muitos deles eram espanhóis como o Padre Juan de Azpicuelta Navarro.

Não é por acaso que na época colonial onde hoje se localiza o município sergipano de Itaporanga D’Ajuda foi erguida a Igreja de Santo Inácio, homenageando portanto o fundador da Companhia de Jesus.

A padroeira de Estância, a de Divina Pastora, a imagem de Tereza D’Ávila em São Cristóvão, o registro da Igreja de Santo Inácio em Itaporanga D’Ájuda e a Santa Rosa de Lima, no caso desta peruana, são os principais indicativos da religiosidade hispânica em Sergipe.

Muitos municípios sergipanos foram criados a partir da inauguração de uma capela-mor. A sua toponímia revela o poder ideológico que a igreja exerceu em sua expressão de domínio bem como a sua agregação cultural impressa nos costumes populares até hoje tal como ocorrera em Estância onde antes fora povoado do atual município de Santa Luzia do Intanhy - Se.

A religiosidade da época colonial trazia consigo alguma característica cultural hispânica ao tempo que mantinha as características eclesiásticas portuguesas. Ambas influenciaram em muitas das manifestações culturais nordestinas como danças, folguedos e as festas juninas.

8 -SIGNIFICÂNCIA FOLCLÓRICA E CULTURAL

A representação de algumas manifestações folclórica de Sergipe se retrata pela prática religiosa e conflitos ocorridos na península ibérica.

Como já visto, o processo de ocupação do território brasileiro vai se dar de uma forma mais efetiva durante a União ibérica do então Felipe II. Estando Portugal anexado à Espanha, resulta em algumas transformações no Brasil como a conquista da Paraíba, a conquista de Sergipe, a conquista do mundo Incaico. É importante ressaltar que não havia muito distanciamento entre os padrões culturais entre Portugal e Espanha, entretanto a Espanha teve uma incorporação muito mais forte de outros grupos étnicos como o da presença árabe, galegos, bascos enquanto que Portugal ficou atrelado ao universo francês.

Quando se analisa a manifestação e recriação, no primeiro momento, os árabes vão ser expulsos inicialmente de Portugal e vão se refugiar principalmente no sul de Espanha. A expulsão definitiva se realiza em 1492 quando ocorre unificação dos reinos de Castela e Aragão através de matrimonio entre Fernando e Isabel que coincide com o processo de expansão da América quando Colômbo chega à América.

Nesse momento de análise torna-se pertinente ressaltar as festas juninas que representam o momento mais rico do nordeste e que têm grande influencia agrária, significando que estão ligadas à terra e à sua fertilidade. É resultante da aglutinação dos cultos pagãos em louvor à terra com a data de um nascimento de um santo católico, João.

Interessante notar como o folclore junino se manifesta no nordeste reunindo ao seu espírito religioso as crendices, adivinhas, agouros, superstições de cultos desaparecidos, muitos deles de origem pagã.

Segundo CASCUDO:

Na Península Ibérica o culto a São João é um dos mais antigos e populares; Portugal possui no espírito de sua população todas superstições, adivinhações, agouros e amalgamados na noite de 23 de junho, convergência de vários cultos desaparecidos e de práticas inumeráveis, confundidos e mantidos sob a égide de um santo católico. Para o Brasil a devoção foi trazida pelos portugueses e espalhada com a satisfação de um hábito agradável. A maneira de comemoração do santo era a mais sugestiva e fácil para o proselitismo. Os indígenas ficaram seduzidos. E, em 1583, o jesuíta Fernão Cardim, indicando as três festas religiosas celebradas pelos indígenas com mais alegria, aplauso e gosto inicial, escreveu "a primeira é as fogueiras de São João, porque suas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro".

CASCUDO (1962)

As festividades juninas em Estância são marcadas com o hasteamento da Tradicional Bandeira em louvor a São João bandeira de São João que é içada em seu Mastro no final do mês de Maio e somente é baixada muitas das vezes até no início de Julho. A bandeira hasteada em frente a Catedral Diocesana de Estância tem as cores da Bandeira de São João vem com as Para tanto, torna-se a necessária a citação de alguns elementos desse conjunto para posterior comentário na busca do folclore de possível pretérito hispânico, são eles: Reisado, Cavalhada e Chegança

O Reisado:

é uma dança de origem ibérica, mas que se instalou em Sergipe no período colonial. Era dançado originalmente às vésperas do dia seis de janeiro, em comemoração ao nascimento de Jesus e em honras aos reis Magos. É um auto próprio do ciclo natalino.

A Chegança:

Trata-se de um auto popular ligado ao ciclo natalino. Desenvolve temas vinculados às lutas, entre Mouros e Cristãos.

As Cavalhadas:

Consistem uma tradição cujas raízes são originadas na Idade Média. Na península Ibérica, o tema está associado às lutas dos cristãos contra os mouros, às guerras de conquista na África e à devoção a Nossa Senhora de Assunção. Em Sergipe ocorre em vários Municípios, entre eles Poço Redondo e em seus povoados de Curralinho e Bomsucesso.

A característica do Reisado se aproxima das comemorações do ciclo natalino ocorridas na Espanha chamada "Reyes Magos" onde algumas comunidades mantêm a tradição de trocar presentes na noite de cinco de janeiro.

O traslado da representação folclórica dessa batalha historicamente importante na península é encontrada justamente na Chegança. Torna-se aqui importante o olhar sobre a cultura local com uma visão mais ampla de onde veio a sua origem não restringindo apenas a Portugal.

9 - CONSIDERAÇÕES QUE NÃO SÃO FINAIS. (Sociedade Resultante)

Como caracterizar e posicionar a sociedade sergipana diante do mosaico cultural existente no Brasil ? Onde vive? De onde vêm suas raízes? Como é sua dinâmica cultural? Por que assim se manifesta? como é seu jeito de falar? Quais os fatores que ajudaram para contribuir para a formação idiossincrática desse povo?

Estes são apenas alguns questionamentos pelos quais o estudo da Geografia Cultural pode ajudar a responder. No caso deste trabalho, a busca de apenas uma das procedências dos seus elementos sócio-culturais que contribuíram para sua formação de Estância, nos deu várias respostas. Isso foi possível porque aqui foi permitida a ampliação da visão do geógrafo do que se costuma analisar, isto é, até hoje quase todos os estudos a respeito dos municípios sergipanos, tinham sempre o negro, o índio e o elemento branco português como o principal, quando não, o único agente colonizador, desprezando assim, outro elemento ibérico carregado de bagagem cultural que contribuiu e muito com formação nordestina. Dessa forma, esse trabalho contribuiu para uma nova visão nos estudos de formação populacional, pois sempre que se analisarem a população atual sergipana, não se poderá mais descartar a participação hispânica, pois há outros municípios sergipanos passíveis desta análise, como é o caso de Gararu e Porto da Folha entre outros municípios localizados no sertão do Rio São Francisco, onde a maioria da população é branca e sua procedência é erroneamente considerada como de procedência holandesa. Abre-se aqui então várias possibilidades de estudo da mesma natureza da qual foi trabalhada em Estância. Não apenas em Sergipe como em outros municípios de outras regiões do Brasil como é o caso de São João Del Rey no estado de Minas Gerais ou Catalão no estado de Goiás, entre tantas outras que têm um campo de exploração de estudo amplo.

Outra relevância encontrada neste trabalho é a da época oportuna de se estudar os elementos culturais antes que se não se tenha mais nenhuma referencia hereditária, pois com o passar do tempo o contato com a cultura passada fica sujeita a ser diluída a ponto de desaparecer, afinal, o ponto de partida desta análise está centrada no já distante século XVII. Se perguntarmos hoje algum sergipano ou estanciano qual a sua relação da cultura que ele conhece em comparação à espanhola, logicamente que ele não se veria inserido no contexto, pois ninguém por aqui costuma ir a touradas, comer paellas ou tocar castanholas. Trata-se de peculiaridades das características atuais da cultural geral da Espanha, entretanto ele pode não saber que alguns de suas devoções a santos, sua forma de criar o gado, sua maneira de falar, suas manifestações folclóricas ou suas descendências genealógicas podem ter tal raiz ibérica.

A busca pelas informações a respeito dos espanhóis em Sergipe permitiu fazer levantamentos genealógicos, analisar nomes dos sesmeiros, rever quais as atividades designadas para a economia do território sergipano, além de dar novas interpretações às manifestações religiosas e culturais. Tais levantamentos possibilitaram outros estudos para saber quem compunha Sergipe e a construção de sua identidade.

A identidade nordestina é constituída por várias raízes, e todas elas nos pertencem, seja negra, indígena, branca, ou mestiça.

Para se rebater a qualquer questionamento a respeito de onde encontrar a Geografia neste trabalho, pode-se então justificar com a afirmação concluída pelo autor; a partir do momento que o homem faz parte de uma paisagem ele é passivo de análise, seja ela histórica, antropológica ou cultural, ele estará sendo geografizado no espaço.

Os ícones de identificação do sergipano que habita Estância aqui estão representados geograficamente, pois se pensarmos em tudo o que vai caracterizar o gaúcho, o pernambucano, o amazônico, vem à tona á nossa mente toda a bagagem cultural que podem ter para cada um deles manifestado em sua linguagem, seus costumes, gastronomia, indumentária, em fim, da complexidade cultural existente no Brasil. O sergipano tem seu espaço e caracterização bem definida.

 

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VISITAÇÕES

Visita Museo de sergipe (Obtenção da lista das famílias estancianas concedidas pelo Prof o Rogério Freire da Graça).

Visita á biblioteca de Caballeros DE Santiago – Salvador –BA.

Visita á biblioteca da Universidade Federal de Sergipe.

Visita à Igreja Conventual do Senhor dos Passos em São Cristóvão.

Visita à Catedral de Nossa Senhora de Guadalupe.

Visita à catedral de Divina Pastora em Divina Pastora.

Visita à Igreja de Santa Rosa de Lima em Santa Rosa de Lima.


 1 Universidade Federal de Sergipe. Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos. Jardim Rosa Elze S/N – São Cristóvão (SE) CEP 49100-000. domrobervan@zipmail.com.br


Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina – 20 a 26 de março de 2005 – Universidade de São Paulo