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Asunto:NoticiasdelCeHu 369/04 - As frentes pioneiras na Amazônia brasileira e ntre globalização e sustentabilidade
Fecha:Lunes, 22 de Marzo, 2004  14:31:06 (-0300)
Autor:Humboldt <humboldt @............ar>

NCeHu 369/04
 
 

As frentes pioneiras na Amazônia brasileira

entre globalização e sustentabilidade

Martin Coy,

Martina Neuburger

Tübingen, Alemanha

Universität Tübingen Universität Tübingen

Geographisches Institut Geographisches Institut

 

1. Globalização e regiões periféricas

Nos últimos anos, a reestruturação fundamental da economia mundial, as crises do sistema político internacional, as grandes ameaças ecológicas, assim como o surgimento de novas tecnologias de produção e de comunicação causaram transformações profundas nas sociedades do mundo inteiro (cf. FRÖBEL et al. 1986; ALTVATER 1992). Este processo de globalização materializa-se em uma nova configuração do sistema mundo sob o controle de poucos. Porém, esta globalização é acompanhada da crescente fragmentação da sociedade mundial e local em função das novas formas de regulação (flexibilização, deregulação), dividindo as sociedades e os seus espaços cada vez mais em cidadelas e guetos. Por outro lado, observa-se uma crescente interdependência a nível mundial com respeito aos problemas ambientais.

A globalização, tema principal nas ciências sociais e na economia (teoria da regulação), começa a chamar também a atenção dos geógrafos interessados na análise das transformações dos espaços de produção econômica, de reprodução social e cultural (cf. KRÄTKE 1995; DANIELZYK, OSSENBRÜGGE 1996). Observa-se atualmente um maior interesse pelo estudo das relações entre a globalização como superestrutura e o nível regional pela configuração de novos ambientes produtivos regionais como reação às tendências unificadoras da globalização, dando um significado novo ao conceito de identidade regional (cf. KRÄTKE 1995). No nosso contexto, o significado específico de região consiste na formação de redes e interdependências econômicas, políticas, culturais e sociais a nível territorial, correspondendo, de certa maneira, a uma consolidação das interações locais e regionais frente à globalização (cf. Fig. 1).

No que diz respeito aos efeitos da globalização sobre as transformações no hemisfério Sul, é dada maior atenção ainda à transformação das metrópoles e das regiões incorporadas às economias de exportação (cf. SCARLATO et al. 1993; SANTOS et al. 1994). No entanto, a posição de regiões periféricas por dentro do Terceiro Mundo na era da globalização é relativamente pouco discutida (cf. ALTVATER 1992, SINGER 1994).

Qual é, então, o lugar das periferias na nova ordem da globalização, que é caracterizada por uma concentração de poder e de decisão, assim como por um redirecionamento dos fluxos econômicos e financeiros? Por um lado, suspeita-se que as regiões periféricas estão sofrendo, no âmbito do processo de globalização, uma penetração cada vez maior do capitalismo através da expansão - dirigida e espontânea - de formações econômicas voltadas à exportação de matérias primas ou de produtos primários, funcionalizando as periferias como reservas de recursos para a economia global. Através deste processo de incorporação, que é observado em muitas regiões periféricas latinoamericanas, como por exemplo em partes da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro, e que, na maioria dos casos, se desenvolve conforme os interesses de atores de fora das próprias regiões, ou seja, sob o comando dos governos centrais, de novos investidores nacionais e internacionais, ou de migrantes, etc., as sociedades regionais/locais e a organização espacial das periferias estão submetidas a profundas transformações. Por outro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1

lado, observa-se uma expansão de atividades informais nas regiões periféricas, em parte não-incorporadas aos circuitos econômicos globalizados, assim como a persistência de formas de sobrevivência, baseadas em circuitos locais/regionais, que apoiam a hipótese de que as periferias tenham, cada vez mais, paralelamente à sua incorporação aos circuitos globalizados, a função de refúgios sócio-econômicos para aqueles grupos que se encontram na margem da sociedade globalizada (grupos indígenas, camponeses, migrantes sem-terra, etc.) (cf. CLEARY 1994). Esta configuração contraditória resulta na fragmentação sócio-econômica e territorial das periferias.

Mas além destes aspectos econômicos e sociais da interdependência entre globalização e reestruturação regional, as regiões periféricas se encontram expostas a novas formas de uma globalização política, que se materializam, por exemplo no discurso ecológico internacional em torno dos problemas ambientais globais, ou seja, no conceito do mundo único. Isto influencia não somente a política de cooperação internacional e a atuação crescente das organizações não-governamentais. Este discurso ecológico internacional causou também novos conflitos entre o Norte e o Sul, que se manifestaram por exemplo nas grandes conferências internacionais dos últimos anos. O processo de degradação ecológica na Amazônia brasileira através do desmatamento e de sistemas de uso inadequados está no centro desta discussão (cf. FEARNSIDE 1993). Face a esta nova configuração global e regional, é de fundamental importância a procura de um novo consenso sobre o desenvolvimento no futuro.

A seguir, tentaremos decifrar os aspectos das transformações atuais na Amazônia brasileira, uma das últimas grandes periferias do mundo, diante da nova desordem sócio-econômica e ecológica entre globalização, periferização e desenvolvimento sustentável e autodeterminado.

2. As frentes pioneiras na Amazônia brasileira: Configuração de novos espaços sociais entre incorporação e sobrevivência

Os interesses econômicos internacionais, o direcionamento por forças extrarregionais, assim como motivos geoestratégicos atravessam toda a história da ocupação e da valorização econômica da Amazônia brasileira (cf. para o desenvolvimento da Amazônia KOHLHEPP 1987; BECKER 1990; SANTOS 1980). Isto se mostra claramente num breve esboço dos ciclos de desenvolvimento regional (cf. Fig. 2). Estes ciclos correspondem, grosso modo, à transformação principalmente de partes da Amazônia em espaços funcionais sob o domínio de interesses econômicos e políticos nacionais ou internacionais oscilando entre boom e baisse. Esta oscilação se manifesta em configurações temporal e espacialmente específicas da sociedade e da economia, ou seja, nas formas de acumulação, nos movimentos populacionais, na formação, na decadência ou na reestruturação das elites regionais.

O chamado ciclo da borracha testemunha este direcionamento do desenvolvimento por interesses extrarregionais. As disparidades regionais se aprofundaram através da reorganização territorial devido à prosperidade dos grandes centros regionais (p.ex. Belém, Manaus) por um lado e da constituição de novos sistemas de dependência (sistema de aviamento) e da marginalização da população autóctone por outro.

Depois de uma fase de decadência observa-se nos anos 40 um novo interesse pela ocupação "racional" da periferia, que se manifesta no famoso Discurso do Rio Amazonas e na Marcha para Oeste de Getúlio Vargas. Mas, salvo alguns projetos isolados, este novo ciclo ficou restrito a uma mera retórica geoestratégica no âmbito da ideologia nacionalista do Estado Novo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2

Um novo ciclo de reestruturação inicia-se nos anos 60 baseado na implantação de uma rede rodoviária como parte de uma estratégia explícita de integração e ocupação dos "grandes vazios" do interior brasileiro. Neste período começa a surgir uma nova malha urbana e iniciam-se fluxos migratórios ao longo destes novos eixos de penetração.

No âmbito da ideologia geoestratégica de segurança nacional após 64 e nos anos 70, a política de ocupação dos espaços periféricos recebe prioridade baseando-se na abertura da periferia através da colonização agrícola para grupos camponeses. A periferia recebeu, neste contexto, a função de válvula de escape para problemas sociais em outras regiões (Nordeste e Sul). Além disso a política de incentivos fiscais concentrou-se a atração de capitais nacionais e internacionais com fins de "valorização" da periferia, mas a especulação prevaleceu sobre a produção benéfica para a economia regional. Sendo o Estado Central o iniciador destas formas de ocupação, é importante notar, que este perdeu logo o controle sobre as formas cada vez mais conflitivas de apropriação do território e dos recursos.

Nos anos 80 a Amazônia brasileira presenciou um novo ciclo de desenvolvimento, ou melhor de incorporação, que se dirige, esta vez, explicitamente à globalização da economia periférica. Trata-se da fase dos chamados Grandes Projetos, ou seja, da extração das riquezas minerais em grande escala, facilitada pela implantação de infraestruturas energéticas (grandes hidrelétricas) e de exportação (estradas, ferrovias) por parte do estado (cf. KOHLHEPP 1987). Projetos dirigidos por grandes empresas estatais (Projeto Carajás) ou privados (Projeto Jari) predominam na reestruturação territorial nesta fase.

Na fase mais recente do desenvolvimento amazônico, nos anos 90, aparece com a sustentabilidade um novo elemento nos discursos políticos, no planejamento e nos programas regionais. Isto corresponde por um lado a uma repercussão das discussões internacionais sobre um novo estilo de desenvolvimento. A busca de alternativas sustentáveis, ou seja, de um desenvolvimento territorial como resposta à incorporação da Amazônia domina hoje pelo menos a retórica, tendo em vista a crescente vulnerabilidade social, econômica e ecológica da periferia funcionalizada (cf. HAGEMANN 1995).

Mas os espaços sociais e econômicos da Amazônia brasileira não se transformaram somente de forma sequencial no decorrer dos ciclos acima analisados. Observamos hoje sobretudo uma simultaneidade no tempo e no espaço de vários tipos de frente pioneira, que se diferenciam economica, social e espacialmente por seus atores e sua percepção diferenciada do potencial regional, pelos motivos e formas de suas ações, ou ainda por sua formalidade ou informalidade. Portanto, as formas de apropriação dos recursos e de uso da terra, a estrutura das novas redes sociais e econômicas e a sua ligação com o "mundo afora" são submetidas a lógicas diferentes. Esta diferenciação interna resulta em conflitos de interesse e em uma dinâmica de avanços e retrocessos das respectivas formações sócio-econômicas. Pode-se dizer que o conflito e a transformação permanente são elementos constitutivos das frentes pioneiras enquanto espaços sociais não-consolidados (cf. para uma discussão mais ampla dos diferentes conceitos de frente pioneira COY 1988; MUELLER 1983; FOWERAKER 1982; MARTINS 1995; DICKENSON 1995). Dois conflitos básicos caracterizam, no entanto, qualquer tipo de frente pioneira na Amazônia de hoje: o conflito ecológico entre conservação do meio ambiente e sua valorização econômica (cf. FEARNSIDE 1993) e o conflito sociocultural entre as frentes pioneiras, cujos atores se percebem geralmente como vanguardas da civilização moderna, e a população tradicional, os povos indígenas, que são submetidos à marginalização e até ao extermínio pelo avanço das frentes pioneiras (cf. MARTINS 1995).

De forma resumida, podemos atualmente detectar diferentes tipos de frente pioneira na Amazônia:

  1. A frente pioneira de sobrevivência, que se compõe de migrantes sem terra, posseiros ou pequenos produtores agrícolas;

  2. a frente pioneira da agricultura modernizada, composta de produtores do tipo farmer ou de empresários, que visam à exploração racional e lucrativa dos recursos regionais;

  3. A frente pioneira especulativa dos projetos agropecuários;

  4. As frentes pioneiras de extração, sendo estas diferenciadas entre formações voltadas à sobrevivência (cf. os garimpeiros) e formações capitalistas (p.ex. as grandes empresas de mineração);

  5. A frente pioneira urbana, formada não somente pelos grandes centros urbanos antigos na região, mas também pelas inúmeras cidades pioneiras novas que surgiram em função da expansão das diferentes frentes pioneiras;

  6. A frente pioneira do narcotráfico, que representa um dos aspectos informais da funcionalização e da globalização da Amazônia.

Cada um forma o seu espaço social, que, às vezes, se sobrepõe, às vezes, se distancia espacial ou mentalmente dos espaços sociais das outras frentes pioneiras. Porém, em parte, elas interagem e formam redes funcionalmente interligadas, p.ex. por intercâmbios econômicos, por relações de trabalho ou por terem os mesmos atores. Por outro lado, muitas das frentes pioneiras entram em concorrência pelo espaço. Alguns destes tipos de frente pioneira são submetidos às regulações da globalização, o que se reflete no seu espaço de ação, outros representam muito mais circuitos localizados ou regionalizados.

Com respeito aos efeitos da globalização na periferia amazônica podemos resumir que esta se materializa nos aspectos sequencial (ciclos de desenvolvimento) e estrutural (tipos de frente pioneira) do desenvolvimento amazônico. Em primeiro lugar, desde o início ela resulta da incorporação da Amazônia aos mercados internacionais na funcionalização parcial da economia regional (borracha, minérios, madeira, alguns produtos agrícolas) e na penetração sucessiva de formas capitalistas de produção. A globalização da periferia significa, antes de mais nada, que todas as decisões de relevância para esta parte globalizada da economia regional são tomadas fora da região em alguns poucos centros (bolsas, centros financeiros). Um aspecto recente da globalização na Amazônia reside na crescente importância dos financiamentos externos das atividades regionais (grandes obras de infraestrutura, atividades de empresas transnacionais). A globalização do desenvolvimento amazônico se exprime também a nível político, sendo, por exemplo, as decisões e ações regionais cada vez mais submetidas à influência de instituições internacionais (Banco Mundial e outros), assim como à atuação de organizações não-governamentais de fora (cf. HAGEMANN 1995). Podemos detectar também um aspecto ecológico da globalização, tendo em vista a internacionalização do problema das florestas tropicais, assim como a discussão sobre as funções globais da biodiversidade. Muitas vezes, no entanto, os aspectos econômicos, políticos e ecológicos se misturam. A recente globalização da periferia amazônica afeta também a cultura regional, à medida que a expansão dos meios de comunicação e a adesão das elites regionais ao Leitbild da modernidade concorrem para uma homogeneização cultural. Portanto, a heterogeneidade estrutural implica uma simultaneidade de formações sócio-econômicas, quer incorporadas à globalização, quer autóctones e frequentemente baseadas em relações informais.

A seguir, gostaríamos de evidenciar as consequências desta heterogeneidade para a formação e a dinâmica dos espaços sociais ao exemplo do Estado de Mato Grosso.

3. Mato Grosso: Um exemplo de diferenciação e dinâmica interna da frente pioneira

O Estado de Mato Grosso, área transicional entre o Centro Oeste brasileiro com o ecossistema típico dos campos cerrados na sua parte meridional e a Amazônia com o ecossistema das florestas tropicais, reúne na sua história de ocupação branca dos últimos 270 anos e no seu espaço toda a heterogeneidade e dinâmica interna das frentes pioneiras, esboçadas na primeira parte deste trabalho (cf. para o desenvolvimento recente das frentes pioneiras em Mato Grosso BRANFORD, GLOCK 1985; COY, LÜCKER 1993) (cf. Fig. 3).

A principal razão da incorporação do território matogrossense à economia e sociedade colonial do século XVIII foi a extração das riquezas minerais (ouro e diamante). A internacionalização da navegação do Rio Paraguai na segunda metade do século XIX resgatou a região do seu isolamento e abriu-a para os interesses econômicos e influências culturais vindos da região do Prata e da Europa. Além dos recursos minerais, os interesses de grupos extrarregionais visavam a extração de borracha ou de poaia, substância de valor farmacêutico. Paralelamente desenvolveram-se a agricultura, que abastecia o mercado regional, e sobretudo a pecuária extensiva nas savanas periodicamente inundadas do Pantanal (cf. REMPPIS 1998; NEUBURGER 1994). O capital vinha em parte de fora, mostrando a prematura incorporação desta periferia à economia internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3

A incorporação definitiva de Mato Grosso iniciou-se nos anos 60 e sobretudo 70 com grandes obras de infraestrutura, através de programas governamentais de desenvolvimento regional (PROTERRA, POLOCENTRO, POLAMAZONIA e outros), assim como pela venda de grandes contingentes de terra no norte do Estado deslocando e expulsando os diversos grupos indígenas. Grosso modo, a modernização, regionalmente seletiva, causou o deslocamento da dinâmica regional, econômica e sócio-política do Pantanal e seus entornos para as regiões recém ocupadas pelas frentes pioneiras.

Sobretudo o norte de Mato Grosso tornou-se, nos últimos vinte anos, a região de atividades. Por um lado este fato ganhou expressão através da instalação de grandes fazendas de gado, verdadeiras empresas, subsidiadas por incentivos fiscais da SUDAM. Por outro lado, o norte de Mato Grosso se transformou na área de colonização particular mais importante do Brasil. Foram sobretudo empresas do Sul do Brasil (na maioria do Paraná) que se empenharam na colonização privada. Estas terras foram vendidos a colonos sem terra ou a pequenos proprietários provenientes do Sul do Brasil, levados à falência pela concorrência da agricultura modernizada em expansão.

A partir dos anos 70, migrantes vindos principalmente do Sul brasileiro procuraram as regiões periféricas do Centro-Oeste e Norte em busca de terras baratas para a reprodução dos típicos sistemas modernizados de agricultura das suas áreas de procedência, baseados principalmente nas lavouras mecanizadas de soja, arroz e milho. Desta maneira surgiram em poucos anos ilhas de modernização que, em decorrência dos seus sistemas de produção agrícola e dos seus atores sociais, tinham características de enclaves globalizadas em comparação com o entorno tradicional matogrossense. A globalização deste tipo de frente pioneira se manifesta por exemplo na orientação das estratégias econômicas e decisões imediatas dos atores individuais em função das oscilações do mercado internacional, sendo os produtores e comerciantes nesta região periférica ligados on-line por computador às bolsas internacionais. O espaço de ação, as redes de informação e comercialização ultrapassam, desta maneira, o contexto local/regional. Além disso a monocultura da soja propicia um desenvolvimento que não leva em conta os custos sociais e ecológicos. A percepção e o uso dos recursos naturais, assim como os sistemas de uso agrícola adotados têm íntima relação com a condição sócio-cultural dos produtores. Esta dimensão sócio-cultural da frente pioneira modernizada será de importância fundamental na procura de caminhos para o desenvolvimento sustentável a nível regional.

Ao contrário, a ocupação agrícola das regiões de floresta tropical é caracterizada pela pequena produção agrícola. A base do sistema de produção é formada por culturas anuais (arroz, feijão, milho, etc.) e permanentes (café, seringueira, cacau, guaraná). A maioria dos colonos é igualmente originária do Sul, mas frequentemente trata-se de nordestinos que trabalharam como meeiros na lavoura de café, principalmente no Paraná. Constata-se um espaço de ação, assim como redes de comercialização e comunicação muito mais restritos ao contexto local/regional. Relações informais (p.ex. relações de trabalho) e o objetivo da autosuficiência caracterizam estas formações sócio-econômicas muito mais do que as frentes modernizadas. Assim o sistema sócio-econômico nas regiões de floresta corresponde mais a uma "economia de sobrevivência", enquanto que a ocupação do cerrado se integra totalmente na economia capitalista predominante e representa uma forma de globalização por excelência.

No decorrer do recente processo de ocupação surgiram várias cidades pioneiras no Norte Matogrossense, cuja fundação fazia parte, na maioria dos casos, dos projetos de colonização particular. Hoje elas formam um sistema urbano regional hierarquizado (cf. COY 1992). Com respeito a sua estrutura interna e a sua funcionalidade, as cidades se inserem no seu respectivo contexto regional, causando uma nítida diferenciação estrutural entre cidades pioneiras em áreas de frente pioneira de sobrevivência e cidades pioneiras em regiões de frente pioneira modernizada.

Durante os anos 80 surgiram outras atividades econômicas como a extração madeireira e de ouro nos vários garimpos. Todas estas atividades econômicas e os diferentes grupos sociais se encontram justapostos no mesmo espaço físico, fato que implica em uma superposição de diferentes espaços sociais, acarretando conflitos de interesse ou formas específicas de contato e interação entre as diversas esferas.

Futuramente, a instalação de corredores de exportação, poderão causar a aceleração da globalização da economia matogrossense através da incorporação aos circuitos e espaços nacionais e internacionais (PASCA, FRIEDRICH 1998). Todas as obras privilegiariam a orientação funcional de Mato Grosso para os mercados extrarregionais e causariam graves impactos ambientais e sócio-econômicos.

Resumindo, podemos caracterizar os últimos 25 anos como período de transformações econômicas e sociais aceleradas em Mato Grosso. Estas transformações decorreram de uma política explícita do Estado brasileiro visando a incorporação de suas áreas periféricas à economia e à sociedade nacional e subordinando-as, assim, à regulação por interesses nacionais e - muitas vezes - internacionais. Embora sendo um fenômeno geral, a modernização e reestruturação sócio-econômica e territorial atingiu algumas sub-regiões de Mato Grosso com maior intensidade, formando de certa maneira ilhas de crescimento acelerado e causando assim a agravação das disparidades inter- e intra-regionais resultando em processos de fragmentação.

As consequências destes processos de transformação regional podem ser resumidas em dois complexos diretamente interligados:

  • a globalização parcial da economia matogrossense;

  • conflitos de interesse, que se materializam em processos de concentração da terra e na expulsão dos socialmente excluídos, na marginalização de grandes contingentes sociais e na fragmentação dos espaços de vida;

  • impactos ambientais em decorrência de atividades não-adaptadas às condições regionais e da exploração descontrolada dos recursos naturais.

Sem dúvida alguma, a modernização regional causou nos últimos anos uma aceleração assustadora dos problemas econômicos, sociais e ambientais em Mato Grosso e acarea, desta maneira, o poder público e a sociedade civil com novos desafios, que requerem novos conceitos em direção a um desenvolvimento sustentável a nível regional e local.

4. O futuro das frentes pioneiras na Amazônia: Condições para o desenvolvimento sustentável

Constata-se tendências de desenvolvimento na periferia amazônica justamente opostos a um alternativo desenvolvimento sustentável (cf. Fig. 4). Num modelo espacial esquemático contrapomos as tendências atuais do desenvolvimento regional à visão de um desenvolvimento regional que segue os princípios da sustentabilidade social, cultural econômica e ecológica. Ponto de partida do modelo são as interrelações e dependências no contexto regional por um lado e entre várias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 4

escalas e hierarquias espaciais por outro. Estas interrelações se manifestam a nível econômico em fluxos de produtos, capital ou energia, assim como a nível social em fluxos migratórios, processos de expulsão ou em conflitos pelo uso dos recursos. A fragmentação sócio-econômica e espacial cada vez maior se destaca como resultado do processo de incorporação regional durante os últimos trinta anos. Formações - ou sub-regiões - econômicas e sociais que são funcionalmente orientadas para fora se contrapõem a grupos ou territórios de sobrevivência. Fazem parte das primeiras principalmente as „enclaves de modernização" da sojicultura e os centros urbanos dinâmicos, que funcionam como „pontos nodais" dos fluxos de capital, de mercadorias e do processamento agroindustrial incipiente. Assim, a periferia se insere como espaço funcional nas hierarquias de dependência e é, ao mesmo tempo, exposto às consequências tanto positivas como negativas da incorporação nacional e da globalização. Por outro lado, as formações de sobrevivência, sejam elas o campesinato regional, os grupos indígenas ou sejam os grupos marginalizados nas cidades, são organizadas de forma territorial e muitas vezes informal. Neste contexto a Amazônia como um todo e, mais especificamente, algumas sub-regiões exercem a função de refúgios de sobrevivência para migrantes expulsados das regiões centrais brasileiras. Além disso, se reproduzem a nível regional novos processos de expulsão através da expansão das formações funcionalmente incorporadas. Resulta disso o crescimento preocupante da miséria nas cidades. Estes processos de diferenciação e a dinâmica interna das frentes pioneiras na Amazônia brasileira resultam na vulnerabilidade econômica, social e ecológica destas regiões (cf. SMITH et al. 1995).

Esta realidade complexa, regionalmente diferenciada e contraditória nos parece constituir o ponto de partida para os cenários de um desenvolvimento alternativo para as frentes pioneiras na Amazônia visando a sustentabilidade do uso dos recursos, assim como das estruturas e processos sócio-econômicos. No âmbito deste trabalho, não podemos entrar na discussão teórica sobre o conceito da sustentabilidade (cf. REDCLIFT 1987; HARBORTH 1993). Vale, no entanto, lembrar que no contexto da Amazônia o fortalecimento das estruturas territoriais, ou seja, a intensificação das redes sociais e circuitos econômicos regionais, poderia constituir uma alternativa à incorporação funcional das periferias à qualquer custo sob o regime da globalização. Será de maior importância a estabilização das relações econômicas e sociais entre campo e cidade, assim como o fortalecimento de relações egalitárias entre as „ilhas globalizadas" e os „espaços marginalizados". Além disso o desenvolvimento sustentável a nível regional requer, antes de mais nada, mudanças estruturais a nível nacional e internacional baseando-se na reciprocidade dos intercâmbios.

Procurar caminhos para o desenvolvimento sustentável na Amazônia significa, antes de mais nada, encontrar soluções para os conflitos ecológicos e principalmente para os conflitos sociais, que até hoje resultam em números crescentes de vítimas nas frentes pioneiras. Devem ser criadas estruturas que possibilitem o surgimento de consciência ecológica e responsabilidade social dos atores nas frentes pioneiras com referência aos seus respectivos espaços de vida, transformando as suas ações imediatistas em estratégias duradouras e adaptadas às condições físicas, sócio-econômicas e culturais. Do mesmo modo, a globalização, que na sua atual forma desigual contribui ao agravamento dos conflitos, deve ser transformada em uma solidariedade global, facilitando a construção de meios sócio-econômicos, políticos e ecológicos a nível regional, que garantem o agir localmente e pensar globalmente em prol das gerações atuais e futuras nas frentes pioneiras da Amazônia.

 

5. Bibliografia

ALTVATER, E. (1992): Der Preis des Wohlstandes oder Umweltplünderung und neue Welt(un)ordnung. - Münster

BECKER, B.K. (1990): Amazônia. - São Paulo

BRANFORD, S.; GLOCK, O. (1985): The last frontier. Fighting over land in the Amazon. - London

CLEARY, D. (1994): Problemas na interpretação da história moderna da Amazônia. - In: D'INCAO, M.A.; SILVEIRA, I.M. da (eds.): Amazônia e a crise da modernização, pp. 159-165, Belém

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FEARNSIDE, Ph. M. (1993): Deforestation in Brazilian Amazonia: The effect of population and land tenure. - Ambio, 22, 8: 537-545

FOWERAKER, J. (1982): A luta pela terra. A economia política da fronteira pioneira no Brasil de 1930 aos dias atuais. - Rio de Janeiro

FRÖBEL, F.; HEINRICHS, J.; KREYE, O. (1986): Umbruch in der Weltwirtschaft. - Reinbek

HAGEMANN, H. (1995): Banken, Brandstifter und Tropenwälder. Die Rolle der Entwicklungszusammenarbeit bei der Zerstörung der brasilianischen Tropenwälder. - Giessen

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SMITH, N.J.H.; SERRÃO, E.A.; ALVIM, P.T.; FALESI, I.C. (1995): Amazonia: Resiliency and dynamism of the land and its people. - Tokyo


Ponencia presentada en el Primer Encuentro Internacional Humboldt. Buenos Aires, Argentina. Noviembre de 1999.