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Asunto:NoticiasdelCeHu 276/ Resultados do IV Forum Social Mundial
Fecha:Miercoles, 3 de Marzo, 2004  21:02:02 (-0300)
Autor:Humboldt <humboldt @............ar>

NCeHu 276/04

A mensagem da Índia
 

 
O sociólogo Boaventura de Souza Santos sustenta: depois de Mumbai, o Fórum Social Mundial precisa encarar o desafio de estimular convergências e buscar ações comuns
    A quarta edição do Fórum Social Mundial (FSM), que se realizou em Mumbai (Índia) de 16 a 21 de Janeiro, constituiu um passo muito significativo na consolidação do processo FSM. As três primeiras edições tinham-se realizado em Porto Alegre, com escassa presença de delegados africanos e asiáticos, o que tinha levado muitos a pensar que o FSM, apesar de pretensamente mundial, era, de fato, uma iniciativa latino-americana e européia. O êxito do FSM de Mumbai significou que o espírito de Porto Alegre - a crença de que um mundo mais justo e mais solidário é possível e a vontade política de lutar por ele - constitui uma aspiração universal. Pôde ser recriado na Ásia e não há nenhuma razão para pensar que o não possa ser em África ou noutras partes do mundo. Aliás, tudo indica que o FSM posterior ao de 2005 - desde o ano passado marcado para Porto Alegre - será realizado em África, em 2006 ou 2007.
    O FSM de Mumbai mostrou ainda que o espírito de Porto Alegre, sendo uma aspiração universal, adquire tonalidades próprias em diferentes regiões do mundo. A sua universalidade decorre do próprio âmbito da globalização neoliberal, ao submeter todas as regiões do mundo ao mesmo modelo econômico e às suas conseqüências: o aprofundamento das desigualdades sociais, a desmoralização do Estado e a destruição do meio ambiente.
Mundo novo, sabor asiático
    Neste sentido, a escolha de Mumbai para a realização do Fórum não podia ter sido mais acertada. Com cerca de 15 milhões de habitantes, a cidade é o símbolo vivo das contradições do capitalismo contemporâneo. Importante centro financeiro e tecnológico e sede da pujante indústria cinematográfica da Índia - a Bollywood, que produz mais de 200 filmes por ano para um público cada vez mais global - Mumbai é uma metrópole de pobreza certamente chocante aos olhos ocidentais. Mais de metade da população vive em favelas (cerca de dois milhões, na rua), enquanto 73% das famílias, em geral, numerosas, vivem em habitações de uma só divisão. O crescimento recente da economia informal faz com que 2% da população total sejam vendedores ambulantes. Mas na Índia, a luta contra este cenário de desigualdade adquire características específicas, e essas imprimiram a marca a este Fórum.
    Primeiro, às desigualdades econômicas, sexuais e étnicas somam-se aqui as desigualdades das castas que, apesar de constitucionalmente abolidas, continuam a ser um fator decisivo de discriminação. Os dalits, uma das castas inferiores, anteriormente designados por "intocáveis", tiveram uma presença muito forte no Fórum. Dos 100 mil participantes, mais de 20 mil foram dalits, que viram no Fórum uma oportunidade única de denunciar ao mundo a discriminação de que são vítimas.
    Segundo, o fator religião, que no Ocidente tende a ter menos peso em razão da secularização do poder, é no Oriente um
fator social e político de primeira ordem. O fundamentalismo religioso - que avassala toda a região, e a própria Índia com a crescente politização do hinduísmo - foi um tema central de debate, bem como o papel da espiritualidade nas lutas sociais por um mundo melhor.
    Terceiro, tendo lugar na Ásia, o Fórum não podia deixar de dar uma particular atenção à luta pela paz, não só porque é na Ásia Ocidental, do Iraque ao Afeganistão, que a agressão belicista dos EUA mais se faz sentir, como também porque a Ásia do Sul (Índia e Paquistão) é hoje uma região fortemente nuclearizada. Neste espírito, a Assembléia dos Movimentos Sociais convocou para o dia 20 de Março, primeiro aniversário da invasão do Iraque, uma manifestação mundial contra a Guerra.
    Quarto, no FSM de Mumbai a concepção ocidental de luta ecológica abriu espaço para concepções mais amplas, que incluem a luta pela soberania alimentar, pela terra e pela água, pela preservação da biodiversidade e dos recursos naturais e pela defesa das florestas contra a agroindústria e a extração de madeiras.
Do êxito aos novos desafios
    Pelo seu próprio êxito, o FSM de Mumbai cria novos desafios ao processo do FSM. Identifico três principais. O primeiro é o da expansão do Fórum. Não se trata apenas da expansão geográfica, mas também da expansão temática e de perspectivas. Neste sentido, será cada vez mais incentivada a realização de fóruns locais, nacionais, regionais e temáticos de modo a aprofundar a sintonia do "Consenso de Porto Alegre" com as lutas que mobilizam os grupos sociais. Segundo, o FSM tem acumulado um impressionante conjunto de conhecimentos sobre as organizações e os movimentos que o integram, sobre o mundo em que vivemos e as propostas que vão sendo apresentadas e postas em prática para o transformar. Este acervo tem de ser avaliado cuidadosamente para ampliar a sua utilidade, tornar o Fórum mais transparente para si próprio e permitir a todos uma oportunidade única de auto-aprendizagem. Daí que se tenha discutido mais que antes a relação entre as ciências sociais e os conhecimentos populares. Terceiro, à medida que se acumula o conhecimento e se identificam as grandes áreas de convergência, cresce a necessidade de se desenvolverem planos de ação coletiva. Não se trata apenas de aumentar a eficácia do FSM - já que esta se mede menos por ações globais, que por iniciativas locais e nacionais dos participantes do processo - mas sobretudo de preparar respostas às tentativas lançadas pelo Banco Mundial, FMI e do Fórum Econômico de Davos para se apropriarem das agendas do FSM e as descaracterizarem, em favor de soluções que não afetem a desordem econômica em curso.
    Dada a sua natureza de espaço aberto, o FSM não assumirá propostas em nome próprio, mas facilitará a articulação entre as redes que o constituem no sentido de aprofundar os planos de ação coletiva e de os levar à prática.
A idéia da Universidade Popular
    A dupla necessidade de avaliar e difundir o conhecimento acumulado, e preparar planos de ação coletiva com bases políticas e técnicas sólidas, produziu mais debates que em todos os Fóruns anteriores, sobre a relação entre o conhecimento dos movimentos de base e o dos especialistas e, mais especificamente, entre cientistas sociais e lutas populares. Diversas
oficinas foram dedicadas a este tema geral. Uma delas, intitulada "Novas Parcerias e Novos Conhecimentos", foi organizada pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. Participaram cientistas sociais e ativistas Immanuel Wallerstein (EUA), Anibal Quijano (Peru), D. L. Sheth (Índia), Goran Therborn (Suécia), Hilary Wainright (Reino Unido) e eu éramos os cientistas sociais presentes; Jai Sen (Índia), Irene Leon (Equador) e Moema Miranda (Brasil) eram os ativistas. A discussão concentrou-se em temas que estão no cerne da idéia de sociologia pública: a relação entre conhecimento e ativismo; entre crítica e planos para ação; a confiabilidade do conhecimento baseado nas lutas sociais e sua crítica; o impacto, sobre os cientistas sociais, de seu engajamento com saberes não-acadêmicos ou populares; o papel dos ativistas como produtores de conhecimento.
   
Também se apresentou, na oficina, uma proposta para uma Universidade Popular dos Movimentos Sociais. Ela já pode ser examinada e comentada pela internet.
Publicado em Porto Alegre 2003: 11/02/2004

Fuente: Listageografía/Brasil, 3/3/04