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Asunto:NoticiasdelCeHu 156/04 - Brasil desperdica seus jovens doutores
Fecha:Lunes, 9 de Febrero, 2004  14:43:37 (-0300)
Autor:Humboldt <humboldt @............ar>

 
NCeHu 156/04
 
Nota Relacionada: NCeHu 141/04 ( 7/2/04 ) 
 
 

                                             BRASIL DESPERDIÇA SEUS JOVENS DOUTORES
 

País forma profissionais superqualificados mas não há plano para aproveitá-los. Vagas nas empresas também são poucas



São Paulo - Entre os milhões de desempregados brasileiros, começa a crescer um contingente de profissionais superqualificados que não consegue colocação ou tem de se contentar com ocupações para as quais
a sua formação é irrelevante. Eles acabam seu doutorado e encontram as portas do mercado de trabalho fechadas. São cerca 6 mil jovens que se doutoram todos os anos e a meta do governo é chegar a 10 mil.

Ao contrário do que pode parecer, não estão sobrando doutores no Brasil. "Na verdade, o País tem um número pequeno deles em relação à sua população ou ao Produto Nacional Bruto (PNB), se tomarmos como
referência países em estágio de desenvolvimento comparável", diz Adalberto Fazzio, presidente da Sociedade Brasileira de Física. "O problema é a falta de estímulo para criação de posições para esses jovens."


Menos da metade

Num trabalho intitulado A Regionalização da Pesquisa e da Pós-graduação - o Desafio Amazônico, o pesquisador Adalberto Luís Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), mostrou essa situação em números. Entre 2000 e 2002 formaram-se 16.130 novos doutores no Brasil, dos quais somente 7.758 - menos da metade -
conseguiram emprego na área de sua formação.

A má distribuição dos doutores pelo território é outro complicador. Dos 16.130 formados, nada menos que 13.476 fizeram seu doutorado na região Sudeste. Na hora de oferecer emprego, no entanto, essa região deixa muito a desejar. Dos 13.476 doutores formados apenas 3.186 foram fixados, um déficit de 10.290 vagas.


Vagas fora do Sudeste

Todas as outras regiões empregaram mais doutores do que formaram. Isso significa que as vagas existem, segundo o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio
Candotti. "Na maioria das universidades públicas fora do Sudeste, apenas cerca de 30% dos docentes têm doutorado;exemplifica ele.;Em regiões de fronteira, como Acre e Amapá, esse índice é ainda menor,
apenas 10% ou 20% dos professores são doutores."

Segundo Candotti, o que falta são programas e projetos para aproveitar os doutores que se formam todos os anos no Brasil. Uma boa saída seria investir mais em pesquisa na Amazônia, por exemplo. "Para estudar toda a biodiversidade que existe lá seriam necessários de 5 mil a 10 mil doutores", calcula.


Universidades e empresas

Outra alternativa, conforme Candotti, seria as universidades voltarem a contratar docentes com doutorado. Há anos, os seus quadros estão praticamente congelados. Para Val, "é preciso ter políticas de fixação desse pessoal; e para romper o desequilíbrio regional; senão, vamos continuar com excesso de doutores no Sudeste, com muitos deles subempregados e com falta deles nas outras regiões."

De acordo com Fazzio, o problema é mais grave no Brasil porque as empresas não costumam contratar doutores. "Nos países avançados, uma fração considerável de jovens com formação científica faz sua
carreira fora dos laboratórios universitários, criando um vínculo essencial entre ciência, setor empresarial e agências
estatais; observa. ;Seria importante criar mecanismos no Brasil para estimular este processo, essencial para a competitividade internacional das empresas."


Viver de bolsas

Enquanto isso não ocorre, a opção dos jovens doutores é viver de bolsas fornecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ou então arrumar trabalho em área diferente de sua formação ou onde ela é irrelevante.

É o que fez, por exemplo, Ademar de Azevedo Cardoso, de 36 anos, doutor desde 1999 em estruturas, na área de Engenharia Naval, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). "Nunca consegui emprego na minha área", diz. "Só existem vagas para as quais o doutorado não é um dos requisitos."

Como precisa trabalhar, o jeito foi Cardoso se virar. "Desde que me doutorei, tenho dado consultoria para a indústria automobilística", conta. "Para completar o salário, também dou aula numa faculdade privada, no curso de computação e informática, que não tem nada a ver com minha especialização. Como as consultorias estão meio paradas, estou pensando em aumentar minha carga horária na faculdade. Preciso pagar minhas contas".