Inicio > Mis eListas > humboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 18492 al 18511 
AsuntoAutor
15/20 - ¿De qué va Noticias
16/20 - A "NOVA" G Noticias
17/20 - HISTÓRICO Noticias
18/20 - TERRITÓRIO Noticias
=?UTF-8?Q?art=C3=A Stella A
19/20 - BREVE ANÁL Noticias
20/20 - A MENSURAÇ Noticias
21/20 - V CONGRES Noticias
22/20 - EDUCAÇÃO E Noticias
23/20 - EL TURISMO Noticias
24/20 - EL TURISMO Noticias
25/20 - MIL NOVECI Noticias
26/20 - MIL NOVECI Noticias
Re: NoticiasdelCeH bertha o
Re: NoticiasdelCeH =?UTF-8?
27/20 - A ascensão Noticias
28/20 - MIL NOVECI Noticias
29/20 - DINÂMICAS Noticias
30/20 - MIL NOVECI Noticias
32/20 - MIL NOVECI Noticias
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
Noticias del Cehu
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 18831     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:NoticiasdelCeHu 18/20 - TERRITÓRIOS E INVISIBILIDADES: A PRESENÇA IN DÍGENA NO RIO DE JANEIRO NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO TER RITORIAL DO BRASIL
Fecha:Domingo, 26 de Abril, 2020  11:03:45 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 18/20

 

 

 

TERRITÓRIOS E INVISIBILIDADES:

A PRESENÇA INDÍGENA NO RIO DE JANEIRO

NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

 

Marcos César Carvalho

Faculdade de Formação de Professores da UERJ, São Gonçalo-RJ, Brasil

Rodrigo Pina

Colégio Pedro II, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

 

A abordagem geográfica da presença indígena no território correspondente ao atual estado do Rio de Janeiro, no contexto dos primeiros contatos com os europeus, pode oferecer subsídios significativos para a compreensão crítica da formação territorial do Brasil. Nessa perspectiva, o presente trabalho envida esforços no sentido de superação dos limites impostos por uma interpretação do Brasil alicerçada nas estratégias territoriais do Estado português. Narrativa esta que negligencia e invisibiliza a existência de complexas territorialidades pré-coloniais e suas interações posteriores com as estratégias territoriais colonialistas – o que, por sua vez, revela uma narrativa eurocentrada da formação do Brasil.

As estratégias territoriais portuguesas no século XVI se depararam com a resistência dos povos originários do litoral do Rio de Janeiro, sobretudo do povo Tupinambá, o que abriu margem para a entronização de outros projetos territoriais europeus, como a implantação da “França Antártica” (1554-1567) na baía da Guanabara. De outro lado, o contato dos diferentes povos indígenas com os europeus alavancou suas próprias disputas internas, de caráter interétnico, dando conta da existência de geopolíticas indígenas anteriores aos projetos coloniais e que, de certa forma, foram potencializadas pelo advento do contato entre indígenas e europeus.

O direito dos povos originais sobre seus territórios e suas culturas foi amplamente desrespeitado pelo Estado colonial português e, mais tarde, pelo Estado brasileiro independente. Os territórios indígenas foram apropriados pelos colonizadores e muitos povos foram impactados pelas guerras ou pelas doenças disseminadas pelos europeus. Aos sobreviventes restou a fuga para o interior, a escravidão ou o (re)aldeamento tutelado pelos padres jesuítas nas aldeias indígenas missionárias, as aldeias de repartição.

As ações dos padres cristãos serviram para pacificar a resistência indígena e convertê-la em força de trabalho, garantindo a defesa do território colonial português e o provimento de mão-de-obra para o Estado e para particulares. Ao mesmo passo, as “guerras justas” lidavam com os povos que resistiam às investidas missionárias de conversão, massacrando-os, expulsando populações indígenas de seus territórios ancestrais ou capturando e convertendo os sobreviventes em mão-de-obra escrava. A despossessão dos territórios indígenas, sua apropriação pelos colonos brancos de origem portuguesa na forma de sesmarias e a conversão de populações inteiras em mão-de-obra escrava, consistiu a base do modelo de exploração e expansão territorial do empreendimento colonial português na América.

A herança cultural legada pelas populações indígenas está impregnada na toponímia, na composição da população e até mesmo nos alimentos que colocamos sobre a mesa – embora as populações atuais não se deem conta do significado e da amplitude dessas heranças. Da mesma forma, sua importância pode ser destacada no processo de povoamento e surgimento das cidades, visto que muitas cidades fluminenses nasceram a partir de aldeamentos jesuíticos. Também ainda não foi devidamente explorado o veio geomorfológico presente na toponímia fundada nos povos de língua Tupi, cujas palavras envolvem a descrição das características morfológicas dos lugares e seu significado para as culturas ancestrais. De fato, a literatura geográfica acerca da formação territorial do Brasil pouco aborda o papel desempenhado pelas territorialidades indígenas no percurso da colonização portuguesa, assim como dá pouca atenção aos conflitos atuais pela demarcação de terras indígenas pelo Estado, contribuindo para sua invisibilidade.

 

A formação territorial do Brasil constitui um processo longo, complexo e permeado por conflitos. A rigor, enquanto processo fundado na constituição das relações de poder sobre o espaço, ainda encontra-se em curso. Daí decorre a necessidade de demarcação metodológica quanto ao período correspondente às análises sobre o Brasil, visto que a maior parte da literatura acadêmica, inclusive no campo das Ciências Humanas, costuma datar esse processo de formação a partir da chegada de Pedro Álvares Cabral ao litoral do atual estado da Bahia. Aponta assim para uma leitura de Brasil que só faz sentido a partir das estratégias territoriais do Estado português, como se não fosse possível e necessário abordar a sucessão de tramas que se desenrolavam no território que posteriormente ficou conhecido como Brasil e que envolviam centenas de territorialidades indígenas.

Sem sombra de dúvidas essa não é uma agenda de pesquisa exclusiva do geógrafo. Há importantes contribuições metodológicas, teórico-conceituais e empíricas que permeiam a tarefa de “reler” o Brasil para além das estratégias territoriais europeias e que podem advir da História, da Antropologia, da Arqueologia, da Botânica, da Filosofia, da Ciência Política, dentre outras. Aos geógrafos compete, num primeiro momento, o reconhecimento prévio de que entender o Brasil a partir da diversidade de povos envolvidos no seu processo de formação, pressupõe reconhecer os limites de uma interpretação geográfica do território brasileiro que estivera tradicionalmente envolta em estratégias territoriais estadocêntricas, expressando os desígnios das territorialidades hegemônicas e invisibilizando as territorialidades que foram histórica e espacialmente subalternizadas.

A apropriação dos territórios dos povos indígenas originais pelo colonizador europeu foi legitimada a partir da produção de ideias acerca da inferioridade dessas populações. A inferiorização dos povos originais – reduzidos em sua diversidade e complexidade à condição genérica de “índios” – servia como mecanismo de legitimação das ações imperialistas portuguesas nas regiões do planeta que concentravam recursos de seu interesse.

Da legitimação da territorialização portuguesa na América com a colonização à constituição do Estado brasileiro, os direitos dos povos originais sobre seus territórios, sobre sua liberdade e sobre a manutenção dos seus modos de vida foram completamente ignorados. No período colonial algumas terras foram, em raríssimas situações, concedidas pelo rei de Portugal a determinados grupos indígenas – como os Temiminó, que prestaram importantes serviços à presença colonial portuguesa e receberam uma sesmaria no litoral oriental da baía da Guanabara. Mas, mesmo nessas situações, a apropriação dos territórios indígenas pelos colonizadores brancos foi uma constante e, em pouco tempo, as terras indígenas estavam nas mãos de colonos cristãos.

A conversão das populações originais em força de trabalho foi naturalizada na medida em que se compreendia o “índio” como um atributo do território conquistado. A obtenção desse “recurso” era garantida a partir da aplicação da política imperial portuguesa das “guerras justas”, que transformava em inimigos passíveis de serem escravizados todas aquelas populações que oferecessem resistência e fossem refratárias ao projeto colonial português.

Os modos de vida dessas populações também foram objeto da sanha civilizacional dos colonizadores europeus. Os hábitos dos povos indígenas que habitavam o litoral fluminense, por exemplo, muito diferentes dos europeus, os deixava horrorizados. Os rituais antropofágicos e a liberdade sexual existente entre as populações indígenas eram inaceitáveis ante a moral cristã. A conversão religiosa dos indígenas e o seu respectivo aldeamento em missões jesuíticas organizadas pelos sacerdotes cristãos levou a uma modificação profunda na estrutura social, familiar e cultural dessas populações. Desterritorializadas, as populações indígenas oscilaram entre a fuga para o interior, a captura e escravização pelos colonos ou a “proteção” dos jesuítas.

A ação dos padres cristãos foi útil ao projeto territorial português porque serviu como mecanismo de pacificação, conformação social e amortecimento dos impactos causados pelas guerras promovidas por colonos portugueses às populações indígenas. Ao mesmo tempo, os sacerdotes passaram a organizar a repartição dos índios aldeados enquanto força militar auxiliar à presença portuguesa ou como força de trabalho para o Estado (grandes obras públicas) e para particulares.

De todo modo, os aldeamentos indígenas cristãos garantiram a defesa do território português e serviram de base para a composição da população fluminense e para a criação de muitos dos atuais municípios do estado do Rio de Janeiro. Não seria possível, assim, tecer um quadro pleno da formação territorial do Brasil e do povoamento do Rio de Janeiro em particular, sem levar em consideração a existência de territorialidades indígenas que precederam a ocupação territorial do Estado português em terras americanas. Assim como não é possível compreender a territorialização portuguesa no litoral brasileiro sem lidar com os desdobramentos das guerras e alianças estabelecidas entre as populações indígenas e os europeus.

A presença indígena também se faz sentir nas palavras de matriz Tupi que foram incorporadas à língua portuguesa, sobretudo para a denominação de acidentes geográficos, peixes, aves, mamíferos, frutos e diferentes espécies vegetais. O conhecimento sofisticado dos povos indígenas em relação ao ambiente em que viviam e a forma como classificavam as diferentes espécies animais e vegetais demonstram que a biodiversidade encontrada nos biomas brasileiros em muito deriva da ação de seleção e melhoramento genético protagonizado ao longo dos séculos por diferentes povos. As populações indígenas também são responsáveis por grande parte dos gêneros alimentícios hoje à disposição dos brasileiros e por diversas técnicas de pesca e caça incorporadas ao modo de vida de populações tradicionais constituídas por pescadores, caboclos e caiçaras.

Mas essa presença indígena vem sendo invisibilizada através de vários mecanismos. A caracterização dos diferentes povos, suas lutas de resistência e defesa de seus territórios nunca tiveram destaque no sistema escolar oficial – que inclusive esforçou-se para difundir a visão homogeneizante de “índios”. As condições atuais em que vivem as populações indígenas, os conflitos pela posse e demarcação de terras, a preservação de suas culturas etc. raramente são abordados na educação básica e superior. Nos meios de comunicação são noticiados apenas nos momentos de confronto com particulares ou com o Estado pelo direito de posse da terra ou nas ocasiões onde eventuais massacres são perpetrados contra sua presença.

O “apagamento” da memória indígena segue o curso da expulsão das terras, do extermínio físico, da ausência de voz, da forma como são representados pela sociedade, da sua invisibilidade. Mas há uma invisibilização também no “olhar acadêmico” que deve ser reconhecida e combatida como forma de compreendermos o papel que essas populações tiveram na formação do Brasil.