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Asunto:NoticiasdelCeHu 368/17 - AS AGRICULTORAS FAMILIARES DA LOCALIDADE DE PICADA FELIZ
Fecha:Jueves, 21 de Diciembre, 2017  20:18:38 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 368/17
 

 

AS AGRICULTORAS FAMILIARES DA LOCALIDADE DE PICADA FELIZ

7º DISTRITO DO MUNICÍPIO DE SÃO LOURENÇO DO SUL/RS – UM ESTUDO DE CASO DE SUAS CONDIÇÕES E PERSPECTIVAS DE VIDA

 

Caroline Tapia Bueno

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Brasil.

Maria Regina Caetano Costa

Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil.

Susana Maria Veleda da Silva

 Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Brasil.

 

 

INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende contribuir para o desvendamento da realidade das condições de vida das agricultoras familiares. Sua ênfase recai sobre a análise de aspectos como a organização social, a divisão das tarefas no interior das famílias e a prospecção das condições de reprodução do modo de vida. Tomou-se como base para o estudo a localidade de Picada Feliz, constituinte do sétimo distrito do Município de São Lourenço do Sul/RS.

Como objetivo desta pesquisa buscou-se identificar o papel das mulheres envolvidas em atividades na agricultura familiar, investigando as relações entre o processo de divisão do trabalho por sexo e suas consequências nas perspectivas sobre a permanência ou abandono do campo.

Trabalhar a questão de gênero na área rural é de extrema importância, uma vez que vivemos em uma sociedade patriarcal onde a mulher é, na maioria das vezes, tratada de modo inferiorizado. A pesquisa traz à tona questões que aos olhos de muitos são invisíveis, porém para quem vivência pode se tornar um grande problema que resulta em insatisfação e desmotivação.

Revela a literatura, que inicialmente foi a mulher que teve o contato com a agricultura, e, enquanto cuidava dos filhos e da casa, começou a plantar verduras e flores, assim aproveitando o tempo e o local disponível. Segundo Buarque (2002, p. 3), “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [...] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”.

A mulher desempenha diversas atividades, desde as domésticas à lida com a lavoura e com pequenos animais, trabalha na produção da propriedade bem como na reprodução da família, sendo, portanto, parte essencial para a manutenção da esfera familiar e produtiva. Segundo Brumer (2004, p. 210), mesmo a mulher exercendo diversas atividades, elas ainda possuem uma situação subordinada e seus trabalhos são considerados como ajuda, até mesmo sendo seu trabalho igual ou maior do que o dos homens.

Portanto, a divisão sexual do trabalho no âmbito rural é extremamente destoante entre mulheres e homens.

A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo; esta forma é adaptada historicamente e a cada sociedade. Ela tem por características a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apreensão pelos homens das funções de forte valor social agregado (políticas, religiosas, militares, etc...) (HIRATA; KERGOAT, 2007, p. 599).

Para Hirata e Kergoat (2007, p. 599) essa divisão é organizada a partir de dois princípios: o da separação e o da hierarquia.  O primeiro trata de uma divisão clara do que é trabalho de homem e trabalho de mulher. O segundo refere-se ao fato de que o trabalho do homem tem mais valor do que o da mulher.

Cordeiro (2007) afirma que,

Na agricultura familiar, associada à divisão sexual, há também uma divisão etária. Homens e mulheres, de acordo com a idade e o ciclo de vida familiar, ocupam posições diferenciadas na produção dos grupos domésticos. Estas posições, longe de serem baseadas na complementaridade e simetria, são pautadas por relações de poder, hierarquias, conflitos. (CORDEIRO, 2007, p. 6).

A divisão sexual do trabalho na agricultura familiar dificulta o reconhecimento do trabalho feminino, sendo que a mulher trabalha muitas vezes igual ou até mesmo mais que o homem, porém acaba, em muitos casos, ficando sem remuneração. Isto também é um fator agravante em relação ao abandono do campo pelas mulheres. Onde elas buscam geralmente na cidade empregos remunerados, e a visibilidade de seus trabalhos, ou estudos mais avançados visando à ascensão social. Porém, muitas vezes estas mulheres acabam em empregos subalternos e com baixa qualidade de vida e consequentemente na área rural acarreta na masculinização do campo a longo prazo.

 

METODOLOGIA

A pesquisa é um estudo de caso sobre as mulheres na agricultura familiar da localidade de Picada Feliz, situada no município de São Lourenço do Sul/RS. “Como método de pesquisa, o estudo de caso é usado em muitas situações, para contribuir ao nosso conhecimento dos fenômenos individuais, grupais, organizacionais, sociais, políticos e relacionados”. (YIN, 2010, p. 24.)

Primeiramente realizamos uma Pesquisa Bibliográfica para a compreensão da realidade estudada, ou seja, “o levantamento de todo o referencial já editado em relação à temática de estudo, desde periódicos, monografias, dissertações, teses, livros, publicações avulsas, boletins, documentos eletrônicos, entre outros” (RAUPP; BEUREN, 2004, p. 81). Após a primeira etapa, realizamos uma pesquisa qualitativa sobre o universo que o trabalho se propõe a investigar.

Utilizamos o método de entrevistas com o roteiro semiestruturado e levantamento da história oral dos sujeitos investigados. Estas entrevistas foram realizadas com 12 agricultoras familiares com idade acima de dezoito anos, segundo o Código Civil correspondem à maioridade. Foi abordada nas entrevistas a descrição da divisão por sexo das tarefas desenvolvidas no núcleo familiar, além da investigação das perspectivas sobre o abandono ou permanência do meio rural.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A mulher é a responsável por inúmeras atividades que são desenvolvidas dentro do núcleo familiar, atividades que abrangem desde a esfera produtiva à reprodutiva. Porém, mesmo a mulher possuindo extrema importância, geralmente, ela não é reconhecida por seu trabalho, e é considerada apenas um apoio, uma ajuda ao homem agricultor. 

Portanto, a pesquisa realizada buscou, entre outras questões, desvendar como é a divisão das tarefas por sexo dentro do núcleo familiar. Sabemos que cada família tem uma estratégia, porém alguns traços se repetem firmemente em cada uma delas. Isso acontece, conforme a literatura, pois há fatores advindos de uma cultura patriarcal que influenciam esse processo, pois são baseados principalmente em relações de poder.

Observamos que 66,6% das entrevistadas trabalham na lavoura e desempenham outras tarefas no núcleo familiar, como o cuidado da casa, da horta, dos filhos, ordenha das vacas, etc. 25% delas apontaram que somente trabalham na lavoura, porém quem executa as outras atividades como o cuidado da casa, horta, etc., são as filhas (geralmente solteiras), noras ou sogras. Apenas 8,33% das entrevistadas afirmaram exercer atividades unicamente de casa. Aos homens (maridos, genros, cunhados, sogros) cabe uma única tarefa, o trabalho na lavoura.

Entretanto, mesmo a mulher desempenhando inúmeras atividades ao longo do dia, 74% consideram o homem a pessoa que trabalha mais no núcleo familiar. Esse resultado é o reflexo de uma sociedade que mesmo que venha avançando em políticas públicas para as agricultoras familiares mostra o quanto esse avanço é lento e insuficiente para que todas reconheçam a real importância de seus trabalhos, visto que ainda colocam a responsabilidade do êxito da produção, na maioria das vezes, na figura masculina, podendo ser o marido, pai ou filho. Deste modo, podemos observar através das respostas a desvalorização do próprio trabalho: “Os homens, porque fazem mais serviço esforçado”, afirma a entrevistada 4, enquanto  a entrevistada 8 faz distinção em relação ao trabalho de homem e de mulher: “Como é que se diz... Na lavoura os homens porque tem mais força, e em casa as mulheres que tem que fazer tudo e é bastante serviço que tem na colônia em casa”.

Nessa perspectiva, o homem e a mulher são vistos como duas variantes, superior e inferior, da mesma fisiologia. Essas relações de dominação irão se estender para as áreas do trabalho e consequentemente nas relações sociais e, ainda se fazem presentes, sobretudo no meio rural. O sistema de valores produzido pela sociedade e reproduzido nas relações familiares afirma a situação de dupla exploração da força de trabalho feminino e legitima a inserção da mulher na produção sem questionar a divisão sexual do trabalho doméstico. (AMORIM; FIÚZA; PINTO, 2015, p. 199).

Notamos através das respostas das entrevistadas que há uma distinção das atividades, ou seja, atividades leves e pesadas, onde o homem é o que mais trabalha por deter maior força. “E assim, a diferença biológica entre os sexos, especificamente a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode ser vista como uma justificativa natural para a diferença socialmente construída entre os gêneros, e, principalmente na divisão social do trabalho.” (AMORIM; FIÚZA; PINTO, 2015, p. 199).

Quando nos referimos à remuneração apenas 33% afirmaram receber por seus trabalhos, o restante afirmou não receber nada pelo trabalho que exerce. A falta de remuneração dessas agricultoras, geralmente, está relacionada à idade e estado civil. Podemos atribuir isso, principalmente, às filhas mais novas e solteiras cujos trabalhos são considerados apenas uma ajuda para a família, tanto pelo pai como muitas vezes por elas mesmas, devido o sistema patriarcal introjetado em suas vidas.

Vários fatores são citados pelos autores sobre as causas para o abandono, principalmente da juventude, do campo. As mulheres neste cenário são as que talvez mais sofrem com o processo de abandono, seja por falta de reconhecimento do seu trabalho, por falta de remuneração (salário), falta de terra (exclusão da herança), etc.

Quanto ao interesse em abandonar o campo nos dias atuais ou no passado, mais da metade (60%) das entrevistadas afirmaram não ter em nenhum momento vontade de abandonar o campo. Elas se justificam por achar que não se adaptarão na cidade, pois sempre viveram, ou por se sentirem mais livres no meio rural.

A falta de investimentos em educação e incentivos para a mulher permanecer no campo são preocupações que as entrevistadas expuseram perante as entrevistas, tendo em vista seus  futuros e de suas filhas.

Neste sentido, entende-se que a intenção (ou desejo) de permanência na região de origem (a colônia) aparece, na maioria dos casos, associada a um projeto de profissionalização próprio, independente da atividade agrícola, o que explica a incidência de moças que se preparam para cursar o terceiro grau. (CARNEIRO, 2001, p.41).

Percebemos, portanto, com esta pesquisa que, na localidade de Picada Feliz, o papel das mulheres na agricultura é de extrema importância para cada família, assim sendo, são agricultoras que executam seus inúmeros trabalhos e asseguram o desenvolvimento da propriedade e a manutenção do núcleo familiar.

 

CONCLUSÃO

Ao longo do trabalho procuramos desvendar como é a vida das agricultoras familiares da Localidade de Picada Feliz. Percebemos através da divisão sexual do trabalho que as mulheres são as responsáveis pelas tarefas domésticas, seguidas por cuidados com hortas e a lida com a lavoura. Também foi considerado que dentro da divisão sexual do trabalho há uma divisão etária, ou seja, as mulheres mais jovens e solteiras trabalham nas atividades domésticas enquanto as mais velhas trabalham na lavoura. As relações de poder também foram perceptíveis, o homem é considerado o interlocutor da família e rege a maioria das decisões dentro do núcleo familiar.

Portanto, percebemos que as mulheres, mesmo realizando inúmeras atividades, ainda não se consideram tão importantes quanto os homens, o que faz com que desvalorizem seus trabalhos, os quais são indispensáveis para a vida no campo.

Sobre a permanência e o abandono do campo, notamos que mesmo as mulheres possuindo dificuldades quanto à desvalorização e falta de remuneração de seus trabalhos, a grande maioria prefere continuar no rural, por ser parte de suas vidas. Percebemos também que essas mulheres têm um forte vínculo com a terra e a possibilidade de abandonar o campo parece ser dolorosa. No entanto, elas desejam melhorias, principalmente na educação, pois possuindo mais possibilidades de estudo na área rural, acreditam que as filhas e as mulheres mais jovens não vão querer abandonar a agricultura familiar.

Neste contexto percebemos que as agricultoras familiares da localidade de Picada Feliz são mulheres que trabalham em todos os  setores desde das tarefas domésticas como as da lavoura, porém não se enxergam em sua totalidade como importantes e essenciais para a agricultura familiar ou para a família. A marcante presença de um sistema onde a figura masculina é enaltecida acaba por fortalecer a invisibilidade do trabalho feminino. Portanto, a luta continua para que possamos combater dia após dia o sistema patriarcal e possamos fortalecer e visibilizar o trabalho feminino.

 

REFERÊNCIAS

AMORIM, E.; FIÚZA, A. L.; PINTO, N. M. Mulher e trabalho no meio rural: como alcançar o empoderamento? Caderno Espaço Feminino, Uberlândia-MG, v. 28, n. 1, Jan./Jun. 2015.

BRUMER, A. Gênero e Agricultura: a situação da mulher na agricultura do Rio Grande do Sul. Revistas Estudos Feministas, Florianópolis, v.12, n. 1, p. 205- 227, janeiro-abril/2004.

BUARQUE, C. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Brasília, p. 1-45, 2002.

CARNEIRO, M. J. Herança e gênero entre agricultores familiares. Estudos Feministas, Brasília, v. 9, n.1, p. 22-55, 2001.

CORDEIRO, R. Agricultura familiar, trabalho feminino e ação coletiva. In: Anais do XIV ENCONTRO DE PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA, 2007.

HIRATA, D., KERGOAT, H. NOVAS CONFIGURAÇÕES DA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007.

RAUPP, F.; BEUREN, I. Metodologia da pesquisa aplicável às ciências sociais. São Paulo: Atlas, 2004. 2v.

YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos/Robert K. Yin; tradução Ana Thorell; revisão técnica Cláudio Damacena. – 4. Ed. – Porto Alegre: Bookman, 2010. 248 p.

 
 


 

 


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