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Asunto:NoticiasdelCeHu 105/12 - Irão (Albano Nunes)
Fecha:Domingo, 4 de Marzo, 2012  08:21:08 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 105/12

Irão*

Albano Nunes
www.odiario.info
3/3/12
02.Mar.12 ::
O imperialismo não suporta quem se lhe não submeta inteiramente. O que determina a perigosa escalada agressiva no Médio Oriente e Ásia Central - com os EUA e a União Europeia rivalizando e coordenando a sua acção para dominar os seus povos e recursos e alterar o quadro geoestratégico em direcção ao Extremo-Oriente - é o imperialismo sem máscara defendendo com unhas e dentes uma supremacia que (sobretudo os EUA) vê escapar-se-lhe.

Ainda nem os EUA nem a Alemanha, potências imperialistas que se arrogam o direito de dar lições ao mundo, existiam como nação e como país, e já a Pérsia era há milénios uma civilização avançada, com uma identidade própria e notáveis realizações no campo da ciência, da arte e da cultura. O mesmo sucedeu com o Iraque no quadro do mundo árabe ou com a China, por exemplo. Trata-se de realidades que mostram como é irregular e acidentado o processo de desenvolvimento de nações e civilizações. O próprio exemplo de Portugal ilustra bem como aquilo que num momento histórico é avançado e progressista («Descobrimentos») se pode tornar factor de atraso e submissão.
Tudo isto deveria aconselhar menos arrogância aos países mais desenvolvidos e proibir-lhes quaisquer manifestações de superioridade de cariz racista. Esta não é porém uma questão da esfera do pensamento racional mas da natureza do sistema sócio-económico. Os EUA e a Alemanha são potências imperialistas que só podem existir intensificando a exploração dos trabalhadores, sugando as riquezas e os frutos do trabalho dos povos de todo o mundo, defendendo com unhas e dentes uma supremacia que vêem escapar-lhe (os EUA, sobretudo) ou procurando colocar o seu poder militar e influência geopolítica ao nível do seu poder económico (a Alemanha de quem se diz que é um «gigante económico mas um anão político»). É isto que essencialmente determina a perigosa escalada agressiva no Médio Oriente e Ásia Central, com os EUA e a União Europeia rivalizando e coordenando a sua acção para dominar os seus povos e recursos, e alterar o quadro geoestratégico em direcção ao Extremo-Oriente.
Quanto ao Irão, ao mesmo tempo que expressamos a nossa solidariedade com a luta do povo iraniano pelos seus direitos e em defesa da soberania do seu país, sem esquecer o partido comunista, o partido Tudhé, cuja legalização é um imperativo da própria resistência ao imperialismo, devemos aproveitar para conhecer melhor a sua história. Ficaremos a um tempo fascinados pela sua riqueza e revoltados perante a cortina de silêncio e mentiras com que os escribas do sistema procuram justificar os crimes do imperialismo. E não é preciso ir além de meados do século passado quando, no contexto de grandes lutas populares Mossadegh nacionaliza em 1951 a Anglo-Persian Oil Company, propriedade da Grã-Bretanha, que de imediato se lança, em aliança com os EUA, numa escalada de conspiração para impor no Irão um governo títere.
O que se se segue é digno de antologia. Golpe da CIA em 1953. Afastamento e prisão de Mossadegh. O Xá, Reza Pahlavi, impõe uma feroz ditadura e torna-se um instrumento fundamental dos EUA na sua estratégia de «contenção do comunismo» com a instalação de bases militares e estações de espionagem electrónica contra a URSS ao longo de uma fronteira de 1500 quilómetros. Segue-se mais de vinte e cinco anos de um regime terrorista em que a polícia secreta do Xá, a SAVAK, criada com a ajuda da Mossad, se torna célebre pela sua crueldade. Milhares de opositores são assassinados. Completamente isolada a ditadura acaba por ser derrubada em 1979 por uma impressionante insurreição popular, em que estão os comunistas, mas estão também os ayatolahs que, após um período de transformações democráticas, impõem o seu próprio regime islâmico fundamentalista. A guerra (1980-1988) entre o Iraque e o Irão instigada pelos EUA acabará por pôr fim a muito do que ainda restava dessa revolução.
Mas a ingerência externa não acaba com as centenas de milhares de mortos que esta guerra provocou. O imperialismo não suporta quem se lhe não submeta inteiramente.


*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1996, 1.03.2012