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Asunto:NoticiasdelCeHu 1133/11 - TERRITÓRIOS REOCUPADOS: As rugosidades socia is na Pedra Lisa
Fecha:Sabado, 12 de Noviembre, 2011  09:51:55 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 1133/11
 

TERRITÓRIOS REOCUPADOS: As rugosidades sociais na Pedra Lisa

 

Edevaldo Aparecido Souza

Professor Ms. na Universidade Estadual de Goiás, doutorando pela

Universidade Federal de Uberlândia

Rosselvelt José Santos

Professor Doutor, na Universidade Federal de Uberlândia

 

 

RESUMO:

A proposta deste texto é evidenciar as rugosidades marcadas pelos encontros e desencontros da modernidade com o tradicional na Comunidade Pedra Lisa, uma das sub-regiões do Município de Quirinópolis/GO, e tem como objetivo destacar a existência de multiterritorialidades a partir das coexistências e ressignificações constituídas pelos processos e temporalidades presentes nesse espaço. A predominância fundiária na comunidade Pedra Lisa é de pequenas propriedades, com atividade de gado leiteiro, com características tradicionais, embora atualmente os produtores familiares convivam com a modernização no campo, sobretudo a partir da expansão da cana-de-açúcar, em áreas vizinhas e em algumas áreas dentro da própria comunidade. A partir do método da percepção, é possível analisar como os modos de vida e de produção rural, tendo já incorporados elementos recentes da sociedade moderna, a partir de novas tecnologias da produção no campo, conseguem manter traços tradicionais em suas atividades de produção e de organização da vida.

 

Palavras-Chave: Pedra Lisa, rugosidades sociais, identidades, multiterritorialidades.

 

 

REOCCUPIED TERRITORIES: social differences and new identities.

 

The proposal of this text is to highlight the differences marked with the rights and failures of modernity in a traditional community named Pedra Lisa in the City of Quirinópolis/GO. Also this paper has as objective to evidence the existence of multiterritorialities, from the coexistences and resignifications constituted from the processes and temporalities found in the area. The agrarian predominance in Pedra Lisa is based on small properties, with milk production, traditional characteristics; even knowing tha familiar producers coexists with modernization in the field, specially because of the expansion of the sugar cane production in neighboring areas and some areas inside of the proper community. From the method of perception, it is possible to analyze how the ways of life and agricultural production, having already incorporated recent elements of the modern society, from new technologies of production in the field, they can keep traditional traces in its systems of production and life organization.

 

Key Word: Pedra Lisa, social differences, identities, multiterritoriality

 

 

Introdução

 

Este texto é parte da pesquisa e discussão de um capítulo de tese para o Programa de Pós-Graduação da UFU, ainda em fase de elaboração do texto final. Busca estabelecer um debate acerca das relações entre as atividades cotidianas tradicionais e as necessidades impostas pela modernidade, existentes nas comunidades rurais, com os homens e mulheres da terra, em especial da comunidade Pedra Lisa, município goiano de Quirinópolis. Relações essas que impõe redefinição das identidades e o estabelecimento de novas territorialidades.

O Município de Quirinópolis é interligado por rodovias pavimentadas através da GO-164, ligando à BR-452 e GO-206, que dá acesso à BR-384 (CORRÊA, 2010). A subregião Pedra Lisa, uma das 21 subdivisões[1] do município, é constituída, em sua grande maioria, por pequenas propriedades, tendo como produção principal o gado leiteiro, com presença também de gado de corte. Observa-se que o nível de sentimentos dessa população com o lugar imprime identidades ímpares, entretanto, a coexistência de práticas sociais tradicionais com outras tecnologias modernas são evidentes, sobretudo com a plantação de cana-de-açúcar para produção de etanol, em três pequenas propriedades e duas médias, conforme o mapa de uso e ocupação do solo.

Sabe-se que a sociedade e o espaço não são homogêneos e nem delimitados por uma única lógica social, ambos estão em constante transformação por forças exógenas. Entretanto, em sociedades tradicionais como as organizações sociais da Pedra Lisa, o tempo pretérito é parte do presente e em certas práticas sociais é venerado, sendo que os símbolos, principalmente religiosos são valorizados, pois representam várias experiências de vida. Nesta condição, contém e são contidos por tradições inventadas por gerações. No cotidiano sustentam os modos de vida de uma comunidade que se constituiu historicamente aprendendo e ensinando aos seus descendentes a lidar com o tempo e o espaço (SOUZA, 2009).

Na comunidade, a reocupação do espaço e a reestruturação dos processos produtivos pelo capital, influenciou disputas por terras e propiciou aos produtores rurais convivências de diferentes lógicas sociais. No tocante às relações econômicas e culturais, a comunidade agiu ressignificando espaços, jeitos de obter a produção da vida nas suas várias dimensões. As festas e relações familiares seguiram uma existência comunitária, numa complexa e complicada relação de coexistência entre tradição e modernidade.

No que se refere aos hábitos, costumes e tradição comunitárias, a presença dos representantes do setor sucroalcooleiro parece ignorar essas humanidades. Na busca de áreas para cultivar a cana-de-açúcar, as humanidades dos homens do Cerrado não fazem o menor sentido para o capital e, por consequência, para o Estado. Nesta condição é preciso compreender bem que nesta parte do Cerrado não existe somente a lógica capitalista. É necessário reconhecer a coexistência de outras lógicas, inclusive aquelas concebidas pelos povos tradicionais.

Metodologicamente, este capítulo está sendo desenvolvido a partir do método da percepção. No campo estamos agindo de forma a identificar, observar e analisar os elementos humanos e sócio-espaciais envolvidos nas práticas tradicionais e os inseridos pela modernidade, sobretudo, pela recente implantação de modelos tecnológicos da produção da cana-de-açúcar.

Nesse caminho buscamos evidenciar quais são os frutos culturais produzidos desse hibridismo, quais os modos de vida que foram redefinidos a partir dessas relações. Nosso propósito é apresentar as novas identidades que surgiram nessa relação entre elementos da modernidade e aqueles que mantêm alguma característica do tradicional. Os procedimentos metodológicos constituem-se de visitas a campo para observação e compreensão das relações sociais; da leitura sistemática, bem como do debate teórico e metodológico envolvendo as categorias território, lugar e rugosidades.

A partir das noções de rugosidades[2] e ressignificações[3] sócio-espaciais compreendemos ser possível analisar as transformações estruturais das famílias de pequenos produtores de leite desta sub-região. Neste caminho daremos especial atenção às formas de organização do espaço vivido, da estruturação dos modos de vida e das relações com o fenômeno da modernidade tecnológica de produção, inseridas no lugar, reordenando territórios e transformando paisagens rurais e culturais.

 

 

Rugosidades sociais e novas identidades

 

As rezas continuam. Essas foram pouco modificadas pela introdução das lógicas capitalistas. Os encontros semanais acontecem cada semana em uma casa diferente, marcando a próxima sempre ao final de cada reza. Não são muitas famílias a freqüentarem, mas das famílias que participam sempre tem um bom número e, embora nem todos tenham o costume de entrar na discussão, no caso dos encontros de reflexão, sempre algumas pessoas se posicionam. No período da quaresma de 2011, por exemplo, o tema discutido foi a degradação ambiental, sobretudo a questão do aquecimento global. Uma temática muito próxima da Ciência Geográfica. Gerou muitas concordâncias, mas também contradições, principalmente no que se refere à introdução da cana-de-açúcar na região e suas implicações.

O tempo das rezas continua. Essas práticas sociais foram pouco modificadas pela introdução da lógica capitalista. Os encontros de cunho religioso acontecem a cada semana em uma casa diferente, marcando um ritual que de tão importante se revela como acordo tácito e que se renova sempre ao final de cada reza. As famílias ao participarem deste ritual tomam parte em bom número de membros. Embora nem todos tenham o costume de entrar na discussão sobre o avanço da monocultura da cana-de-açúcar, no caso dos encontros de reflexão religiosa, sempre há aqueles que emitem opinião e se posicionam. No período da quaresma de 2011, marcado pela campanha da fraternidade, por exemplo, o tema discutido foi a degradação ambiental, sobretudo a questão do aquecimento global.

A preocupação dos camponeses com o ambiente indica que o aquecimento global, também tem abrangência local. Mexe com a subjetividade das pessoas, havendo inclusive manifestações que expressam preocupações a respeito dos efeitos sobre a vida no lugar. Sem dúvida, uma temática muito próxima da Ciência Geográfica. Como não poderia deixar de ser, a posição dos camponeses gerou debates com argumentações que apontam para contradições, principalmente no que se refere à introdução das grandes lavouras de cana-de-açúcar na região e suas implicações na vida das pessoas.

Normalmente os encontros religiosos são semanais, todas as quintas feiras, com a reza do terço. Nos momentos que antecedem os eventos mais marcantes do catolicismo, as novenas de natal, por exemplo, e da quaresma que antecede a páscoa, são usadas, também como encontros para reflexão de temas relacionados à Campanha da Fraternidade. Ainda é possível observar algumas variações nas rezas, nos períodos que antecedem a procissão da via-sacra, foto 1 e do natal.

 

Foto 1: Procissão da via-sacra na Pedra Lisa

Fonte: Campo, abril de 2011

 

No âmbito do costume religioso dos membros da comunidade Pedra Lisa, mensalmente, na segunda quinta feira de cada mês, há a celebração da missa. Nesse evento, com a presença do sacerdote ou diácono, tem-se pouca participação das pessoas. São encontros que diferem dos horários tradicionais das reuniões entre famílias, geralmente à noite. Como a missa acontece às dezessete horas, em horário de trabalho camponês, essa situação tem ocasionando dificuldades de participação, sobretudo dos homens da comunidade.

Nesses encontros é costume o consumo de café. A garrafa térmica é usada para manter a bebida aquecida. Assim, antes mesmo de iniciar os rituais religiosos os convidados degustam o café, enquanto conversam à respeito dos acontecimentos que cercam o cotidiano. Como de costume, ao chegar à casa onde se realiza o terço, os membros das famílias, após os cumprimentos se organizam para reproduzir uma cena com papéis demarcados. Nela há uma espécie de segregação espacial que se define a partir do gênero. As mulheres se estabelecem em uma parte da casa, geralmente na varanda, onde vai acontecer a reza, e os homens se juntam do outro lado do mesmo espaço.

Ao iniciar a reza, todos se ajeitam para continuarem o ritual, mas de forma fiel a separação de gênero. Ao término das orações, homens e mulheres retomam as conversas sempre em espaços separados. Poucos são os momentos em que homens e mulheres se misturam, mesclando assuntos. Aparentemente são estabelecidos diálogos com temas de interesse de cada gênero.

Com o encerramento da reza, a família anfitriã, segue o costume de oferecer um jantar reforçado, às vezes, com quitandas e doces. Nesses encontros revela-se também uma rede social familiar constituída em sua maioria por irmãos, primos, tios, dentre outros parentes. Sendo um encontro que reúne tradição e costume, o grupo social que se reúne motivado pela religiosidade, reforçam na sociabilidade camponesa os seus vínculos territoriais. No lugar a comunidade foi se constituindo a partir de divisão de terras por heranças e também por famílias vindas de outros lugares que ali se estabeleceram. Quase que ao final do encontro, como uma forma de celebração, a cachaça, produzida na própria comunidade, por um dos proprietários participante das rezas, está servida.

Todos participam da fartura camponesa oferecida na janta, alguns degustam a cachaça ou o refrigerante, às vezes também tem cerveja. Como as bebidas são servidas durante o jantar, elas fazem parte da descontração e, nessa condição, todos prosseguem nas conversas nutridas pelo cotidiano. Como pequenos produtores agrícolas, principalmente de leite, esses encontros também servem para estabelecerem seus acordos e negociações necessárias para se obter a produção. Aos poucos a aproximação dos gêneros começa a acontecer, fato que se explica pelo horário de ir embora, para o repouso merecido.

A religiosidade nesta comunidade é parte de uma identidade que motiva encontros, reinventa e refaz relações sociais. Nela se estabelece, além de acordos tácitos envolvendo reciprocidade, arranjos e estratégias produtivas. O modo de vida camponesa vai se revelando na vida doméstica, no lazer e na capacidade de coexistência entre o divino e o profano. Se já não há mais encontros de mutirões visando a produção, há a ressignificação dos encontros religiosos. Na carência de tempo, as costumeiras visitas aos vizinhos vão dando lugar para as práticas do religioso e nele, esse camponês vai inventado espaços para refletir sobre a vida em suas várias dimensões.

Fabiana Rosa Moraes et al. (2010, p. 225), relembra que na época dos carros-de-boi era comum  um vizinho em apuros com a roça ser ajudados pelos compadres, se reunindo em mutirão.

Enquanto eles [homens] capinavam as mulheres preparavam a ‘boia’; era fartura que não acabava mais: arroz com carne de sol, carne de porco, mandioca, guariroba, cará, mangarito (inhame), batata doce cozida; a ‘merenda’ (lanche) era sempre apetitosa: carimã (espécie de doce feito de polvilho, leite e açúcar) arroz doce, biscoito de pagode (assim chamado porque era servido nos pagodes), café, chá da casca de abacaxi e leite. Trabalhava-se muito, porém ninguém saía de barriga vazia.

 

Rosselvelt José Santos (2008a, p. 121) comenta ser possível, a partir da religiosidade, perceber que as identidades reagiram aos efeitos da reocupação dos cerrados. De acordo com esse autor, as práticas religiosas fazem emergir, entre os grupos sociais, “uma clara demonstração de identidade territorial, constituído-se em uma forma de neutralizar o sentimento de inferioridade, incerteza e estranhamento perante a redefinição dos valores e práticas sociais que se instalam em nome do desenvolvimento tecnológico e econômico do cerrado”.

A religiosidade camponesa, mesmo afetada, motiva reuniões. No convívio com a modernidade, com as influências que vem do mercado e do espaço há, sem dúvida, mutações em uma série de hábitos e costumes dos homens e mulheres da terra na comunidade Pedra Lisa. O encontro/desencontro do tradicional com o moderno, no que diz respeito às atividades produtivas, mas também dos equipamentos de consumo doméstico, promove tensões entre os saberes e fazeres desses sujeitos, que vão incorporando novos hábitos e novos conhecimentos, vindos das cidades e fetichizados nas mercadorias industriais que deveriam facilitar a vida cotidiana.

Santos (2008b, p. 57) em outro texto reforça essa idéia ao dizer que os “modos de vida não se encontram isolados das influências do mercado, das velocidades do mundo moderno, das dessacralizações, mas apresentam suas particularidades em relação às racionalidades, religiosidades, às celebrações das suas ‘conquistas’ no cerrado”. Por não estar isolado, torna-se passível de transformações. De acordo com Santos:

 

Esses homens são metamorfoseados pelas imposições sociais advindas do processo de produção e reprodução capitalista, mas essas imposições têm seus limites, seus contornos, não são totais, no sentido de que não chegam a perpassar todos os momentos da vida, embora exista tal tendência. Os produtores, em grande medida, carregam sentimentos religiosos, modos de encarar e resolver problemas que vêm do passado. Mesmo que a transformação tecnológica os tenha ligado aos grandes mercados, não os distanciou, por completo, de alguns costumes, hábitos, da gratidão e da moral religiosa camponesa (SANTOS, 2008b, p. 58)

 

Sem dúvida há inúmeras interferências da modernidade para a vida desses sujeitos; para a Geografia, é necessário conhecer as implicações desse processo nos modos de vida tradicionais. Como geógrafos, precisamos compreender os fatos a partir de categorias do pensamento geográfico. No caso em estudo, é necessário analisar como o espaço, o território e o lugar são metamorfoseados dentro de um processo que impõe relações, geralmente conflituosas entre o tradicional e o moderno.

Um exemplo característico do saber-fazer próprio das famílias camponesas e que está se perdendo é o conhecimento medicinal do Cerrado para a cura de várias enfermidades. Como quase não há mais Cerrado, os saberes tradicionais tendem a desaparecer, pois a escassez de ervas medicinais se evidencia com a expansão, em larga escala, do agronegócio. A quase eliminação do anjiqueiro, jaracatiá, gabiroba (guaivira), jatobá, goiabinha do Cerrado, cajuzinho, mama cadela, marmelo, chapéu de couro, sucupira e muitas outras árvores e arbustos do Cerrado comprometem em muito o saber fazer e os estudos desses conhecimentos do lugar, no lugar e para o lugar.

Para Eguimar Felício Chaveiro e Denis Castilho (2010), o Cerrado é visto como um “patrimônio integrado de vida em que participam [não apenas] as classes de vegetação, [mas também] as bacias hidrográficas, o relevo, o solo, o seu espaço, a sua cultura, os seus símbolos, a sua gente, a sua arte, os diferentes modos de vida que aqui se constituiu”. Para esses autores, o Cerrado é “um arquivo vivo e dinâmico de cores, sabores, sons, espessuras, cantos e relevos. (...) E hoje se apresenta solapado” (CHAVEIRO e CASTILHO, 2010, p. 2).

Com a perda do saber medicinal e da biodiversidade do Cerrado, as pessoas, na comunidade Pedra Lisa, por mais simples que seja a enfermidade, ficam dependentes dos medicamentos químicos e dos agentes de saúde que visitam as propriedades. São três as agentes de saúde responsáveis pela sub-região Pedra Lisa. Duas dessas profissionais têm propriedades na comunidade e uma delas também visita os camponeses nas sub-regiões (Guariroba e Limeira). A terceira tem propriedade na sub-região Alegre e sua área de atuação abrange ainda as famílias do Córrego Bebedouro que se localiza dentro da sub-região Pedra Lisa.

A agente de saúde, ao visitar as casas, primeiro conversa sobre os fatos ocorridos no cotidiano. Depois mede a pressão das pessoas, sobretudo aquelas que possuem idades mais avançadas; faz entrega de remédios e colhe as assinaturas nas fichas de visitação. Cercados pelas grandes lavouras, privados da biodiversidade do Cerrado e agora assistidos e tutelados pela medicina do mercado/Estado, esses sujeitos vão perdendo aos poucos a sabedoria adquirida nas suas práticas sociais.

Nessa condição, o camponês perde espaços para continuar desenvolvendo seus conhecimentos, inclusive medicinais, a sociedade também perde, pois aquilo que existia desaparece com os seus sujeitos. Na comunidade, as capacidades políticas organizacionais, festivas e também as práticas produtivas vão se encolhendo. Surgem, a partir dessas perdas, ressignificações sociais, que como conseqüência, aparecem outras identidades, novos hábitos e costumes, alterando sobremaneira, valores humanos expressados em tradições centenárias.

Santos (2008b, p.56), discutindo as grandes lavouras de cereais, implantadas pelo otimismo do espaço e do mercado e administradas pelos gaúchos no Triângulo Mineiro, compreende que “as lavouras e a infra-estrutura proporcionada pela sua expansão criaram imposições sociais, redefiniram hábitos, costumes, interferiram na consciência dos homens [...]”. Entende ele que “essas lavouras e fazendas têm importância como criadoras de paisagens, nesta parte do cerrado, como também do modo de vida das pessoas”. Grandes lavouras de soja não diferem das grandes lavouras de cana-de-açúcar, indicando que essas imposições e criações também ocorrem no Cerrado goiano e, em especial, na sub-região Pedra Lisa.

O conceito de rugosidade, de acordo com Santos (1988), traz a idéia de que a produção do espaço é, ao mesmo tempo, construção e destruição de formas e funções sociais. Pelo viés do pensamento de caráter evolutivo desigual das técnicas, entende-se que há encontros e desencontros entre o antigo e modernidade. Segundo o autor, essas técnicas sempre se concretizam no lugar, ocorrendo a integração destas com a vida, e retirando-as de sua abstração empírica, lhes atribuindo efetividade histórica (SANTOS, 1988). Para este autor:

As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou arranjos. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos da divisão do trabalho já passados (todas as escalas da divisão social do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho (SANTOS, 2004, p. 140).

 

Considerando, como discute Milton Santos, o trabalho como elemento transformado, modernizado, porém, com traços ainda tradicionais, ou restos do passado, como cita, a produção de leite na Pedra Lisa apresenta exatamente os contrastes e as contradições do que é novo e/ou velho. Algumas propriedades têm, em seus equipamentos de trabalho e em suas práticas, as mesmas rusticidades de décadas anteriores, como 1960, 1970 (Foto 2), aparecendo as rugosidades dentro da região. Outras evidências apontam o hibridismo do rústico e do moderno na mesma propriedade (essas em maior número), apresentando as rugosidades dentro de um mesmo espaço familiar (Foto 3).

 

Foto 2: Pequena propriedade com equipamentos rústicos para produção de leite na Pedra Lisa

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Na área em estudo, além das relações de trabalho/produção, da sociabilidade das famílias, o conceito de rugosidade se estende e se aplica ao universo simbólico camponês. Carlos Rodrigues Brandão (2009, p. 47) entende que “o que trocamos nos diferentes tempos-espaços dos diversos mercados possíveis, são símbolos e significados, valores e sentidos de vida [...]”.

Samuel Silveira (2007) trabalha as rugosidades espaciais como a conexão material do presente com o precedente. Busca evidenciar a continuidade espaçotemporal, como ele escreve, “o novo nascer velho”. Significa, em sua concepção, que “há conectividade de um momento espaçotemporal específico (local e global), concreto para o surgimento (nascimento) de um novo espaço. Como se o novo fosse viciado ao velho, ao anterior, preservando e respeitando (pois o velho é um fator-instância) algumas de suas manias” (SILVEIRA 2007, p. 25).

 

Foto 3: Evidência das rugosidades na Pedra Lisa. Curral e ordenha tradicionais e relações de produção e comercialização modernas

Fonte: Campo, abril de 2011

 

O estudo das rugosidades e das metamorfoses ocorridas no Cerrado[4], neste estudo, é considerado não apenas enquanto representação de grupos sociais que se relacionam com o bioma, mas principalmente num sistema relacional de identidades marcantes que, na comunidade Pedra Lisa, pelas especificidades sócio-espaciais, culturais e religiosas, possibilita apresentá-lo como território. O conhecimento e entendimento das metamorfoses das relações sociais dos produtores tradicionais, bem como de suas identidades, revelam as formas e os conteúdos culturais que ligam esses sujeitos ao uso da terra.

Considera-se que a reocupação e reestruturação dos processos produtivos do Cerrado tem proporcionado disputas e convivências de diferentes lógicas sociais, no tocante às relações econômicas e culturais, ressignificando espaços, modos de produção, festas e relações familiares, numa relação complexa de coexistência entre tradição e modernidade.

O processo de obter produção a partir de uma pecuária (ou mesmo agricultura) tecnológica (Foto 4), implementado pelas empresas capitalistas modernas e pelo Estado, representa os interesses de grupos empresariais e impõe, de forma abrupta, as condições de produção capitalistas sob uma orientação economicista, modificando substancialmente a paisagem e a cultura do Cerrado da área de estudo (Foto 5).

 

Foto 4 - Tanque de resfriamento de leite em uma das pequenas associações, na comunidade Pedra Lisa

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Foto 5: Mudança de paisagem - a cultura canavieira e a indústria de álcool Boa Vista ocupam o espaço que antes era pastagem ou Cerrado

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Diante da persistência dos produtores camponeses, há que considerar a possibilidade de que a existência de conteúdos da cultura tradicional esteja imprimindo, nos lugares habitados por eles, ritmos e relações de produção, ainda baseados em suas tradições. Contudo, trata-se de existências que derivam de metamorfoses entre o antigo e o moderno, pois, por exemplo, a pecuária leiteira é praticada incorporando elementos da modernidade, inclusive aqueles trazidos pela cultura canavieira.

As transformações que vem ocorrendo na Pedra Lisa não são apenas desse início de século, há que considerar pelo menos um período de aproximadamente 1/4 de século. Na década de 1980 os grandes projetos de capital estatal e privado promoveram a reocupação do Cerrado, tal como o Jica/Prodecer, introduzindo novas racionalidades produtivas. Recentemente, no que se refere às questões econômicas, sociais e culturais, houve mudanças profundas nas formas de produzir matéria-prima, protagonizadas pela cultura da cana-de-açúcar para obtenção do etanol e açúcar.

São diversos sujeitos com lógicas diferenciadas, antagônicas ou não, que Rosselvelt Santos (2008a, p. 112) expressa como sendo a “primazia das relações sociais, contratuais e formais, quando efetivada por uma pluralidade de atores em parceria”. De acordo com esse pesquisador, essa ação cria rupturas de modos de vida, vinculada às raízes essenciais de comunidades locais, praticado e reconhecido como identidades culturais tradicionais.

Retomando a discussão de rugosidade, há que relacionar os encontros e desencontros à esse conceito. De acordo com Santos (1980), “as rugosidades nos oferecem, mesmo sem tradução imediata, restos de uma divisão de trabalho internacional, manifestada localmente por combinações particulares do capital, das técnicas e do trabalho utilizados”. Significa que as rugosidades equivalem à formas e funções do passado produzidas e reproduzidas em outros períodos, neste caso específico, em tempos de reestruturação econômica sob a lógica da flexibilização do capital.

Brandão (2009, p. 47), estabelecendo diálogo a respeito das rugosidades, afirma que, “os bens da terra são produzidos observando uma mescla de tecnologias patrimoniais (nada indica que a venda de enxadas tenha diminuído no mercado brasileiro) e tecnologias modernas importadas”. Ainda introduz a questão da relação rural urbano, que implica, substancialmente nas aparições de rugosidades, como também do fenômeno abandono do sitio, por parte dos filhos. De acordo com o autor:

 

[...] Mesmo no mundo rural tradicional, os horizontes da vida se tornam cada vez mais voltados para o ‘mundo da cidade’ [...]. Espaços urbanos tendem a ser, cada vez mais, o lugar de destino dos filhos dos homens e das mulheres da terra, quando não, deles próprios. E as músicas sertanejas que versejam sobre a ‘saudade da minha terra’ são o mais triste e dolente testemunho disto (p. 47).

 

Essa realidade está muito presente na Pedra Lisa. Não apenas a saída de vizinhos tem sido sentido pelas famílias que ficam, mas também os filhos e até irmãos. Quando os pais morrem, os filhos vão vendendo as partes que lhes cabem por herança. Às vezes fica apenas um dos irmãos. Vai ficando um vazio, segundo relato das pessoas.

Um dos camponeses diz que tinha a mãe e os irmãos residindo e trabalhando no local (Córrego do Bebedouro), mas com o tempo, com a morte dos pais, os filhos foram vendendo e migrando para a cidade. Ficando apenas ele e a esposa, uma vez que também seus filhos já estão na cidade. Santos (2008b, p. 53) corrobora ao evidenciar que no Triângulo Mineiro “[...] desapareceram as casas da vizinhança. Partiram os meeiros, os parceiros, de modo que a Casa Grande dos fazendeiros não é mais circundada pelas habitações daquelas pessoas”.

Se somar a modernização nos equipamentos de produção, a influência da cidade (principalmente trazida pelos filhos), e a incorporação da luz elétrica e dos meios de comunicação de massa, como aponta Brandão, “onde o ‘assistir televisão’ se associa e compete com o antigo costume de ‘ouvir o rádio’ [...]” (BRANDÃO, 2009, p. 47), compreende-se as transformações substanciais nos modos de vida e no sistema organizacional dos camponeses.

Se somar a modernização nos equipamentos de produção, a influência da cidade (principalmente trazida pelos filhos), e a incorporação da luz elétrica e dos meios de comunicação de massa, como aponta Brandão, “onde o ‘assistir televisão’ se associa e compete com o antigo costume de ‘ouvir o rádio’ [...]” (BRANDÃO, 2009, p. 47), compreende-se que as transformações substanciais, no espaço rural, da Pedra Lisa, ocorreram nos modos de vida e no sistema organizacional daqueles camponeses.

Há que entender que as transformações do espaço ou da paisagem pode se realizar a partir de uma área ou de uma região. Entretanto, mudanças na cultura, nos hábitos e nos costumes, enfim, nos modos de vida de uma determinada população, reelaborando territórios, ocorre com mais propriedade no lugar. Pedra Lisa constitui-se um lugar que existe nas metamorfoses sócio-espaciais, envolvendo as relações culturais tradicionais. No lugar, percebe-se a incorporação de elementos modernos e coexistência de antigas práticas sociais, nessa relação os sujeitos sociais vão se envolvendo com várias lógicas sociais e evidenciando novas territorialidades.

Nesse viés de pensamento, Santos (2008a, p. 108) afirma que a tradição e o comunitário podem apresentar alguma “resistência às imposições tecnológicas do mercado, mas também é preciso reconhecer a dificuldade de se opor, sempre, aos efeitos socioeconômicos que as migrações de pessoas e capitais introduzem nos contextos locais”.

Dentre os vários elementos tradicionais que não se encontram mais em uso no espaço agrário brasileiro, também na Comunidade Pedra Lisa, destaca-se o monjolo, instrumento tão utilizado para limpar alimentos como arroz e café. Apenas dois ainda se fazem presentes na Comunidade Pedra Lisa, porém, em desuso, amarrado, permitindo que a água da bica corra livremente, bica esta que, em conjunto com o rego d’água, encontramos em muitas propriedades. Resta apenas a lembrança na memória e nas miniaturas (Foto 6) feitas por alguns artesãos, como um dos camponeses da Pedra Lisa. A praticidade do mundo moderno, aliada à renda que conseguem obter com a pecuária, lhes permite adquirir vários produtos, tais como o arroz e o café, assim como os outros alimentos e utensílios, nos supermercados da cidade.

A carroça é outro instrumento de trabalho raramente encontrado em uso na comunidade estudada. Em desuso encontra-se também a montaria em cavalo, tornando-se uma raridade encontrar, nas estradas da comunidade, camponeses montados a esses animais. As facilidades para comprar veículos automotores, associados à boa qualidade das estradas, fizeram com que a carroça e o cavalo fossem substituídos por motos com carretas (Foto 7) ou até mesmo camionetas de pequeno porte para escoamento da produção. O que restou dos antigos meios de transportes está encostado embaixo de árvores ou da pequena área contígua do antigo paiol, agora utilizado como despensa.

 

Foto 6: Miniatura de monjolo produzido por um camponês da Pedra Lisa. Colocado funcionar no tanque da varanda, a partir do impulso da água da torneira.

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Foto 7: Carreta acoplada à moto para carregamento dos galões de leite até o tanque de resfriamento

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Assim como o monjolo, o carro de boi permanece apenas na memória do caboclo ou nas miniaturas elaboradas por artesãos. Concretamente, talvez por puro romantismo camponês, restam na comunidade, apenas dois carros de boi. Um, sem utilização, está depositado embaixo de uma árvore, ilustrando o verso da música “Reino Encantado” de Valdemar Reis e Vicente F. Machado, na voz de Lourenço e Lourival, que atualmente reviveu o sucesso após a regravação com Daniel: “Hoje ali só existem três coisas, que o tempo ainda não deu fim, a tapera velha desabada, e a figueira acenando pra mim. E por último marcou saudade, de um tempo bom que já se foi. Esquecido embaixo da figueira, nosso velho carro de boi”.

A roda d’água é um dos instrumentos tradicionais ainda muito presente na Pedra Lisa, devido a necessidade de levar água até as residências, uma vez que há grande quantidade de córregos. Também proporciona uma paisagem belíssima no terreiro de casa com um rego d’água a correr pela bica que, com o frescor das árvores que existem se complementa ambientando o local com um micro-clima agradável[5].

É notório o fato de que as atividades tradicionais das comunidades camponesas se caracterizam como sendo fortemente imbricadas com os recursos naturais. Na Pedra Lisa, a atividade predominante desenvolvida é a pecuária de gado leiteiro para o mercado, havendo também, em menor proporção, uma produção voltada para uma economia de consumo, como enfatiza Brandão (2009).

Alia-se a esta atividade a preservação do Cerrado Strictu sensu, através das reservas e da mata ciliar, visto ser uma área rica em recursos hídricos. Essa vegetação oferece possibilidades de reprodução da fauna e flora que tanto encanta o homem do campo. O gado ocupa grande parte da área já sem o Cerrado, mas convive com os animais silvestres – tamanduá, cachorro do mato, lobo, macaco, além de aves como o pássaro mutum, a seriema, o jaó e muitos outros.

Como descrevem Janne Mary e João Batista de Paiva (2010, p 43), “ao entardecer começa a se desenhar a tranquilidade, os pássaros e outros animais deslocam-se para os esconderijos e se faz presente as maravilhas que existem ali”. Caindo o dia, depois de uma labuta árdua, chega a noite e antes das pessoas partirem para o descanso, ainda reunidos, “surgem às histórias e estórias, os bate-papos, as piadas e se vai, noite adentro”.

No campo, na companhia de camponeses, principalmente quando retornávamos das rezas, observávamos a beleza das noites, especialmente no ciclo da lua cheia. Ela, como parte da paisagem noturna expressa a beleza pela claridade que rompe a escuridão, que refletida na areia branca, traz uma sensação de conforto e prazer. Motta e Paiva (2010, p. 43) dizem que “é nesta hora que se houve ao longe o cantar do urutau, que se reveza com a perdiz, o curiango e muitos outros que fazem da noite uma festa na mata, maravilhando os amantes da natureza”. Nas luas, cheia minguantes e crescente também o céu reserva o espetáculo das estrelas, como declamam Vitor e Léu na música “Deus e eu no sertão”: “de noite um show no céu, deito pra assistir”.

Chega o amanhecer. Os pássaros fazem a algazarra, como quem tem a responsabilidade da alvorada e o despertar de todos. Complementam Motta e Paiva (2010, p. 43-44) que neste momento “chegam as gralhas pretas, os mutuns, as juritis, as rolinhas que fazem a maior algazarra (...), enquanto isto, em todas as vizinhanças, o galo canta  anunciando que o dia já  iniciou, o sol logo vai despontar e que todos devem se levantar”.

Antes mesmo que sol apareça para estabelecer mais um dia, os camponeses já estão no curral, com uma canequinha para o leite, sem contudo, esquecer de levar a garrafa de café e, para alguns,  o rádio. Assim rompem o restante da noite à espera do dia, ao som dos pássaros, dos berros das vacas e bezerros, do rádio e do leite batendo no balde, espirrado das tetas das vacas, ao serem flexionadas.

No entorno das residências, por vezes muito próximo das edificações, passeiam os animais silvestres que ali habitam, como por exemplo, as seriemas. Para os camponeses, o seu canto é maravilhoso, que perto ou distante ecoa como uma dupla de cantores sertaneja muito afinada, trazendo alegria e gosto para os que já estão na lida ou os que ainda curtem o restante da noite na cama. Ao longe se houve também o som que o bico do pica-pau retira da madeira do Cerrado, além de sons diversos dos variados pássaros e sons de corredeiras dos córregos, em meio ao verde dos pastos, das reservas e matas ciliares. Toda essa orquestra silvestre regem os elementos necessários para a constituição do lugar do homem e mulher do campo na Pedra Lisa.

Práticas diversas de respeito ao ser humano, às tradições e costumes e ao meio ambiente, são encontradas nesses sujeitos do Cerrado rural, como aquela apresentada por Chaveiro e Castilho (2010), de valorizar as táticas de vida de passarinhos com a diversidade de seu canto. Ou de espaços rurais que precisam preservar veredas úmidas, “averiguar os saberes de sua gente, suas trajetórias e a sua criatividade, suas crenças, seu modo de relacionar com o outro e consigo mesmo” (CHAVEIRO e CASTILHO, 2010, p. 9). Prosseguem os autores relatando as relações desses ecossistemas com as gentes e suas tradições:

A ligação do monjolo com a bica, o ritmo compassado das batidas do pilão, os trieirinhos no imenso pomar, a mangueira, a goiabeira, os meandros dos córregos, os chapadões, os buritis elegantes, a familiaridade do cachorro de estimação com os donos, e também as ações sociais de fraternidade como o mutirão, a marca, o terço da roça, a novena para chover, os tapetes formados de folhas secas no inverno, a saliência dos ipês amarelos nas bordas dos vales – e outros tantos gradientes dos ambientes do cerrado – montam paisagens belas (CHAVEIRO e CASTILHO, 2010, p. 9).

 

Debatendo o conceito de lugar, é importante, como afirma Ana Fani Alessandri Carlos, compreendê-lo como sendo o local conquistado no espaço, ou seja, onde os homens, os habitantes buscam o enraizamento e os estruturam como referência do seu modo de vida. “É o mundo vivido, onde se formulam os problemas da produção no sentido amplo, isto é, o modo como é produzida a existência social dos seres humanos”. Podemos dizer então que o lugar é o espaço conquistado, é neste lugar fixado no espaço que as formas de relações acontecem de várias maneiras (CARLOS, 1996, p. 26).

A autora escreve também que o lugar é “produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano vivido”. Isso garante a construção de uma rede de “significados e sentidos” elaborados pela própria história e cultura da comunidade, produzindo a “identidade, posto que é aí que o homem se reconhece porque é o lugar da vida”  (CARLOS, 1996, p.29).

As festividades e lazer também se incluem nas atividades de constituição do lugar. Conforme Andréia Cristina da Silva e Sônia Aparecida da Silva (2010, p. 205), para a valorização dos hábitos é fundamental “o sentimento de pertencer a alguma coisa e, principalmente, a preservação de valores e tradições” e entende-se que são elementos fundamentais para a constituição do lugar. Dentre as tradições do Município de Quirinópolis, destaca-se:

 

A festa da padroeira cuja origem remonta a muitos anos, mais especificamente à segunda metade do século XIX, quando alguns devotos veneravam a imagem de Nossa Senhora D’Abadia em uma pequena e rústica capela às margens do Córrego Capelinha (afluente do Rio das Pedras) (SILVA; SILVA, 2010, p. 205).

 

Ainda nos dias de hoje as festas em devoção à Nossa Senhora D’Abadia ocorrem próximo do dia 15 de agosto, com momentos de devoção e louvor, incluindo missas, novenas e quermesse. Dessas atividades, a população rural engrossa à urbana nas manifestações da religiosidade e festividades, no qual a comunidade Pedra Lisa se faz presente.

De qualquer modo, a produção do lugar está veiculada indissociavelmente à produção da vida, buscando preservar identidades estabelecidas ou estabelecendo novas identidades. Stuart Hall (2006) atesta que as identidades são construídas a partir de lugares, portanto é preciso valorizar mais a dimensão espacial, como referência em sua dimensão físico-natural e simbólico, necessária na formação da identidade e diferença.

Contextualizando a categoria lugar, Motta e Paiva (2010), consideram que estudá-lo pode ser fundamental para compreensão do processo de reestruturação econômica que transforma relações socioeconômicas e socioculturais, ressignificando modos de vida e promovendo as rugosidades sociais. É no lugar que se evidencia o particular, as diferenças, o singular. Por isso é importante estudar, conhecer e entender o lugar de vivência – neste caso Pedra Lisa se constitui no lugar dos sujeitos pesquisados – visto que novas funções metamorfoseiam as antigas e se impõem, causando estranhamentos. Perde-se as singularidades e as significações, ou promovem-se ressignificações.

Percebe-se, nas propriedades rurais da comunidade em estudo que, costumes e tradições não são estáticos, estão em dinamismo com a contemporaneidade do seu lugar na relação com o mundo moderno. Nessa relação é importante destacar o respeito para com o ser humano, com seus valores, e em certa medida, com a fauna e flora. As reservas e matas ciliares estão sendo consideradas e preservadas. O manejo do solo não é tão agressivo quanto o faz o agronegócio. O respeito, sobretudo com os vizinhos, acontece no cotidiano desses grupos, e uma das práticas preservadas que valoriza essas relações é a religião, sobretudo as rezas e festas da religião popular, como o terço, a novena, as folias de reis.

Moraes et al. (2010, p. 225) descreve as festas das décadas de 1950/60, destacando, dentre elas, os famosos pagodes que eram tradição nas fazendas e as festas de Santos Reis, comemorada na passagem do dia cinco para seis do mês de janeiro. A comida era preparada para cerca de 300 pessoas. “Todos saboreavam carne de vaca cheia, almôndega, arroz branco, feijão caldeado, mandioca e os doces eram de leite, queijo, mamão, cidra e também estavam presentes o biscoito de pagode, a brevidade, a broa de doce, o bolo de cará e outras variedades”.

No processo de reocupação do espaço, há também reestruturação dos processos produtivos, não apenas do grande capital, personificado no agronegócio.  Na comunidade Pedra Lisa estabelece-se disputas e convivências de diferentes lógicas sociais, no tocante às relações econômicas e culturais, ressignificando espaços, modos de produção, festas e relações familiares, numa complexa e complicada relação de coexistência entre tradição e modernidade. Na medida em que os encontros e desencontros vão se estabelecendo, temos nas rugosidades e nas ressignificações sociais, os processos de reconstrução dos territórios e das territorialidades, talvez multiterritorializações.

As festas de pagodes ainda são freqüentes entre a população rural de Quirinópolis. Mensalmente é realizado um pagode no barracão da venda do “Zé Major” na Pedra Lisa, e quando tem bailes de pagode nas sub-regiões vizinhas, sobre tudo na venda “Lá no Vaca”, muito próximo à essa comunidade, ou mesmo na cidade, muitas pessoas da Pedra Lisa vão lá festar.

As folias de Santos Reis também são tradicionais no município, tendo várias delas espalhadas no espaço rural (Foto 8). Wanderléia Silva Nogueira, para compreender a dicotomia da permanência e mutações da Folia de Reis na Pedra Lisa, provavelmente a mais antiga do município, afirma necessário “analisar a dicotomia e também a aproximação que existe entre tradição e modernidade dentro dos diversos rituais e práticas que estão inclusos dentro do processo da Folia de Reis”. Prossegue destacando que “é preciso compreendê-las e contextualizá-las dentro de todo o contexto regional, uma vez que estas estão inseridas no contexto comunitário” (NOGUEIRA, 2011, p. 75). Sobre a Folia de Reis da Pedra Lisa, a autora assim descreve:

 

Obrigatoriamente a Folia de Reis tem seu início na noite de Natal. Os Foliões, seus familiares e a população da região (Pedra Lisa) se reúnem em um local determinado – no caso da região da Pedra Lisa o local de saída da Folia e da realização da Festa é sempre a Venda do Zé Major – para a oração do terço e também os rituais próprios de cantoria da Folia, bem como para a confraternização de Natal com o jantar, a dança e a bebida (NOGUEIRA, 2011, p. 75).

 

Foto 8: Chegada de duas Folias de Santos Reis na Venda do Zé Major, na Pedra Lisa

Fonte: Campo, abril de 2011

 

Normalmente quem assume a bandeira de Santos Reis, o faz para agradecer alguma graça recebida dos Santos Reis. Para 2012, o festeiro que assumiu o evento fará a festa em agradecimento por Santos Reis livrar sua filha da morte de um parto cesariano que se complicou devido a um erro médico. Ainda em recuperação, mas já fora de perigo, ela cuida do bebê que nasceu saudável. Por isso, seu pai deve cumprir o voto, e, ser o próximo festeiro.

São acordos que envolvem o homem com o sagrado. Nessa relação revelam-se costumes e tradições que permanecem no cotidiano desta comunidade, mesmo com modernidades, tecnologias e novos estilos de vida tendo sido incorporados ali. Esse hibridismo acontece na relação cotidiana desses sujeitos e continuará a ocorrer nas possibilidades que eles criarem para continuarem existindo. É importante entender que algumas inovações são recusadas, outras têm aceitação imediata. Mas é fundamental compreender também que algumas delas são impostas de forma a impossibilitar às famílias a ter escolhas.

De acordo com Santos, Kinn e Souza (2010, p. 4), “A precarização da vida, para essas pessoas, e a indiferença com respeito à história, à cultura, são maneiras de perceber o movimento, as contradições e as superações, nas relações entre os produtores tradicionais”. Para os autores, o capital tende a cercar e a capturar os resultados das praticas sócias. Dessa forma, as condições vivenciadas pelos produtores tradicionais, geram possibilidades de incorporação da produção sem que para isso seja necessário alterar ou negar as lógicas sociais que operam nos processos produtivos tradicionais.

É fundamental reconhecer a cultura do lugar, para perceber as origens dos sujeitos. O que identifica um grupo social é, em grande parte, os valores, do qual incluem sua história, suas tradições e costumes. Para Chaveiro e Castilho (2010), o Cerrado é visto como um “patrimônio integrado de vida em que participam as classes de vegetação, as bacias hidrográficas, o relevo, o solo, o seu espaço, a sua cultura, os seus símbolos, a sua gente, a sua arte, os diferentes modos de vida que aqui se constituiu” (CHAVEIRO e CASTILHO, 2010, p. 2).

Portanto, é importante que o capital e o Estado respeitem não apenas o Cerrado enquanto meio ambiente, mas, sobretudo, o Cerrado constituído de um “arquivo vivo e dinâmico de cores, sabores, sons, espessuras, cantos e relevos”, conforme Chaveiro e Castilho (2010, p. 2).

 

 

Considerações finais

 

Através de décadas, as famílias da sub-região Pedra Lisa, com seus hábitos e costumes de rusticidade e simplicidade, têm se relacionado com os processos de modernização, tanto no que se refere aos processos produtivos no campo, como aos novos hábitos de organização e consumo, influenciados pela cultura urbana e pelas necessidades de ampliação de espaço da produção de industrializados. Entretanto, é neste início de século que o confronto entre o tradicional e o moderno se intensifica. As investidas do capital, de forma particular, o agronegócio da cana-de-açúcar, fascinam uns, pressionam outros, de modo que os produtores, grandes, médios e pequenos se sentem estimulados pelo marketing do desenvolvimento e da modernidade, alterando sobremaneira os territórios.

A desconstrução de um determinado espaço condiciona a reconstrução do lugar. O lugar aparece como a materialização das formas e funções, a partir das relações entre sujeitos e objetos, que constroem e reconstroem o território e o próprio espaço (também a paisagem). Essa reconstrução ocorre a partir do aparecimento de novas funções que se adaptam às formas antigas, ou ainda a partir da criação de novas formas, ressignificando também as funções. Essa ressignificação passa, consequentemente, pelas estruturas culturais das famílias e do território ou dos territórios.

Assim sendo, ao desenvolver novos padrões de organização do espaço e a reconstrução do lugar na Pedra Lisa, surgem novas territorialidades, uma vez que os interesses e lógicas diferenciadas estão sobrepostas no mesmo espaço. Significa que, ao surgir os territórios do agronegócio, não necessariamente desaparecem os territórios camponeses, apenas se metamorfoseiam. Tanto os territórios camponeses de auto-sustentação como os de produção alimentar para o mercado (nesse caso o leite), convivem entre si e também com o território da produção agroenergética. Essa coexistência promove ressignificações, estabelecendo as rugosidades impressas por modos de vida diferenciados e mudanças de valores.

 

 

Referências

 

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CARLOS, Ana Fani A. O lugar no/do mundo. São Paulo: Hucitec, 1996.

CHAVEIRO, Eguimar Felício e CASTILHO, Denis. CERRADO: patrimônio genético, cultural e simbólico, s.d. Disponível em: <http://www.revistamirante.net/2ed/7.pdf>. Acessado em 23/03/2010.

CORRÊA, Leon Alves. Fragmentos da evolução econômica em Quirinópolis. In: URZEDO, Maria da Felicidade Alves (Org.). Quirinópolis: mãos e olhares diferentes, 1832-2010. Goiânia: Kelps, 2010, p. 279-286.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva; Guaracira Lopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1997.

MORAES et al. O Homem que montou no diabo. In: URZEDO, Maria da Felicidade Alves (Org.). Quirinópolis: mãos e olhares diferentes, 1832-2010. Goiânia: Kelps, 2010, p. 225-228.

MOTTA, Janne Mary e PAIVA, João Batista de. As transformações socioculturais dos pequenos produtores rurais do Córrego do Bandeira, Município de Quirinópolis-GO. 63 f. (Monografia de graduação). Quirinópolis: UEG, 2010.

NOGUEIRA, Wanderleia Silva. A festa de Folia de Reis em Quirinópolis: lugar de memória 1918-2010. 115 f. (Dissertação de Mestrado). Goiânia: PUC, 2011.

SANTOS, M. Espaço e Sociedade . Petrópolis: Vozes, 1980.

­________. Por Uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec, 1988.

________. A natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

SANTOS, Rosselvelt José. (Re) Ocupação do cerrado: novas gentes, outras identidades. In: ALMEIDA, Maria Geralda , CHAVEIRO, Eguimar Felício, BRAGA, Helaine Costa.  Geografia e cultura: os lugares da vida e a vida dos lugares. Goiânia: Editora Vieira, 2008a, p. 98-136.

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SANTOS, Rosselvelt José, KINN e SOUZA, Edevaldo Aparecido. Os grandes projetos de investimentos capitalistas no Cerrado mineiro e os conteúdos humanos das paisagens. In: VIII SIMGEO. Quirinópolis: UEG, 2010.

SILVA, Andréia Cristina da e SILVA, Sônia Aparecida da. Hábitos, costumes e linguagens. In: URZEDO, Maria da Felicidade Alves (Org.). Quirinópolis: mãos e olhares diferentes, 1832-2010. Goiânia: Kelps, 2010, p. 205-209.

SILVEIRA, Samuel. Objeto de estudo Geográfico em Milton Santos: em busca da sistematização da vida. 33 f. (Monografia) Viçosa: UFV, 2007.

SOUZA, Edevaldo Aparecido et al. A produção energética e as transformações dos modos de vida da população de Perdilândia/MG. In: XI EREGEO. A Geografia no Centro-Oeste brasileiro: passado, presente e futuro. Jataí: UFG, 2009.



[1] O Município de Quirinópolis foi regionalizado em 21 subregiões

[2] Por rugosidades sociais e culturais entende-se, conforme Milton Santos (2004, p. 10), “o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares”.

[3] O conceito de ressignificação parte da idéia de atribuição de novos significados aos processos sociais, através de mudanças de compreenção da sociedade. Quando o significado se modifica, as respostas e comportamentos das pessoas também se modificam.

[4] O Município de Quirinópolis e, por conseqüência Pedra Lisa, se encontram no Cerrado Goiano.

[5] Isso explica a grande quantidade de regos e bicas d’água, mesmo não havendo mais monjolos. Além de alimentar as rodas d’águas, nota-se que essa prática faz parte de uma tradição cultural que ainda se preserva pelo fato de agradar as famílias camponesas ver a água passando próxima às suas moradias.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.  




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