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Asunto:NoticiasdelCeHu 1070/11 - Reflexões sobre o Turismo enquanto consumo d o/no espaço
Fecha:Domingo, 23 de Octubre, 2011  23:49:35 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 1070/11
 
 

Reflexões sobre o Turismo enquanto consumo do/no espaço

 

 

 

Aline Fernandes Guimarães

Mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local

UFRRJ – Campus Nova Iguaçu - RJ

 

Rosália Caldas Sanábio de Oliveira[1]

Mestre em Educação

                                                                                 CEFET – MG – Belo Horizonte-MG

 

 

RESUMO

 

Relata-se nesse trabalho, reflexões sobre o Turismo e espaço, abordando desde os diferentes conceitos de turismo, os impactos do turismo no meio ambiente até o espaço geográfico visto como objeto de consumo no Turismo. Pretendendo contribuir para a discussão de como o planejamento do turismo é feito no país ou quando ele não é feito.

 

Palavras-chave: turismo, consumo, espaço

 

 

ABSTRACT

 

It is reported in this work, reflections on Tourism and space, spanning from the different concepts of tourism, tourism impacts on the environment by the geographic seen as objects of consumption in Tourism. Desiring to contribute to the discussion of how the tourism planning is done in the country or when he is not done.

 

Keywords:  tourism, consumption , space,

 

           

1 - INTRODUÇÃO

 

 Conceitos de Turismo

 

A Organização Mundial do Turismo (OMT) conceitua o turismo como uma modalidade de deslocamento espacial, que envolve a utilização de algum meio de transporte e ao menos um pernoite no destino; esse deslocamento pode ser motivado pelas mais diversas razões, como lazer, negócios, congressos, saúde e outro motivos, desde que não correspondam a formas de remuneração direta. [2]

Muitos dos conceitos correntes sobre o turismo priorizam três variáveis: o tempo fora do domicílio original, às relações decorrentes da viagem e a ausência do fator lucro.

Essa visão é muito útil para auxiliar na construção de indicadores estatísticos usados no dimensionamento de mercados para empreendimentos, para dinamizar estabelecimentos existentes, motivar fluxos, etc.

Em relação às questões da geração de um excelente serviço turístico e pelo turismo, admite-se que esse objetivo permeia toda a atividade do ponto de vista econômico.

Todo tipo de viagem é considerada turismo, independente da modalidade de deslocamento; desde que se enquadrem nas características pontuadas acima. Se o cidadão viaja para participar de congressos, mesmo que não tenha momentos de lazer no destino, estará fazendo turismo.

O segmento turístico de negócios (congressos, feiras, simpósios, palestras, workshops, colóquios, seminários, dentre outros) chega a ser mais representativo em algumas cidades como São Paulo, no Brasil, e Milão na Itália, do que nas viagens promovidas por lazer.

De acordo com Cruz (2003), o turismo é uma prática social, que envolve o deslocamento de pessoas pelo território e que tem no espaço geográfico seu principal objeto de consumo. [3]

De acordo com Palomo (1979), o turismo consiste no ato que supõe deslocamento momentâneo, com a realização de gastos de renda, cujo objetivo principal é a obtenção de serviços que são oferecidos através de uma atividade produtiva que implica em investimentos prévios.

O turismo envolve gastos na organização e efetivação das viagens e requer um elenco de serviços agregados na cadeia produtiva do turismo, como: hospedagem, alimentação, transportes (incluindo receptivo), agenciamento, comércio... Que exigem investimentos antecipados, diminuídos em comparação ao fluxo de capital produzido e de rápido retorno, gerando efeitos diretos sobre empregos e rendas. Agregando valores sobre outras atividades econômicas como, construção civil, produção e comercialização de produtos alimentícios, rouparia, artesanato, material de construção, decoração, prestação de serviços, etc. O turismo também acarreta efeitos indiretos mediante o acréscimo da receita nas cidades que têm esta atividade como o fator de renda local.

Essa é a perspectiva que interessa às regiões em desenvolvimento, mas que detêm recursos valiosos do ponto de vista do turismo como forma de lazer. Esta atividade tem a capacidade de gerar empregos de forma compensatória, criar empreendimentos que tanto necessitem de um menor volume de investimentos como requerem um período menor de maturidade. É possível constatar isso em muitas cidades no mundo.

Para os países em desenvolvimento o turismo tem se manifestado de modo expressivo, em virtude de fatores condicionantes, quais sejam: possibilidade de expansão da receita inversamente às saídas habituais, efeito multiplicador sobre demais atividades econômicas, capacidade de gerar empregos, curta maturidade de retorno dos investimentos em turismo em comparação com outros projetos de desenvolvimento, possibilidade de diminuição dos desequilíbrios regionais internos e atualização constante, mediante o contato com povos de diferentes culturas.

 

2 - DESENVOLVIMENTO

 

2.1- Impactos do turismo no meio ambiente

 

            Como meio de aclarar a questão, citamos Cruz, (2003), quando fala dos efeitos negativos do Turismo sobre ambientes naturais:

 

 

Não há atividade humana que não interfira nos ambientes, de alguma forma. É impossível o homem viver sobre este planeta sem transformá-lo. [.... ] Apesar de diversos autores ressaltarem os efeitos negativos do turismo sobre ambientes naturais, é preciso reconhecer que a degradação dos ambientes, de modo geral, não interessa ao turismo porque este tem o espaço como principal objeto de consumo. A degradação dos ambientes naturais ou urbanos provocada pelo turismo contraria a lógica reprodução da atividade. Nesses casos, ou há algum erro estratégico de planejamento subjacente ao processo de apropriação dos lugares pela atividade ou, simplesmente, o planejamento jamais existiu.

                                                              Cruz, 2003: 30-31

 

 

Portanto, mesmo com a compreensão de que os impactos sobre o meio ambiente e a sua destruição não interessam ao turismo, essa é uma regra nos empreendimentos turísticos quando são realizados sem planejamento adequado. E para discutirmos melhor esse complexo processo é preciso que entendamos que o turismo é um fenômeno multidimensional, e qualquer intervenção no sentido de analisá-lo ou de incrementá-lo deverá ocorrer de maneira globalizante. Assim, o turismo abrange componentes sociais, culturais, geográficos, políticos, ecológicos, psicológicos, tecnológicos, econômicos...

Nos países latino-americanos, deve-se pensar em tirar partido dos recursos turísticos para melhorar as condições de vida das suas populações, mas, não para sacrificar ainda mais, explorando estas populações, como vem ocorrendo em muitos países. No caso do Brasil, há uma reprodução dessa forma de agir e isso é “vendido” brilhantemente pelas agências de propaganda e imobiliárias como progresso.

Pode-se dizer que o turismo como setor econômico apresenta-se com duplicidade de sentido, dependendo da forma como é explorado, preserva ou destrói o ambiente natural e os valores socioculturais; valoriza o patrimônio histórico-cultural ou depreda-o; auto-realiza ou alucina o homem; integra populações ou  as exclui.

De acordo com Ferretti (2002) o turismo provocará impactos positivos e negativos no ambiente, tendo em vista a complexidade das relações de interdependência entre seus elementos. Os efeitos desses impactos ocorrerão no tempo e no espaço, envolvendo o homem, a sociedade e o entorno natural. [4]

Refletir o turismo no Brasil provoca os seguintes pressupostos:

- a consciência de que também a sua exploração reproduz incoerências da sociedade, cujas imprudências devem ser reavaliadas.

- as mudanças que estão ocorrendo no mundo seguramente se refletirão no mercado turístico, abrindo perspectivas de inclusão favorável ou não para o Brasil.

Já o impacto positivo da atividade turística reside no fato de que, a partir da força do interesse turístico, podem ser gerados recursos e ações efetivas por meio de projetos e empreendimentos ecoturísticos. Os impactos negativos sobre o meio natural ocorrerão na formação geológica, na vegetação natural, na água, no ar, na vida selvagem, principalmente. [5]

Para melhor compreensão dos impactos que o turismo causa no meio físico é necessário (Cooper): identificar os impactos físicos que o turismo criou e comparar aos de outras atividades; identificar quais eram as reais condições antes de ser implantada a atividade turística; desenvolver um inventário de fauna e de flora, bem como os índices de tolerância para os tipos de impactos criados; identificar quais os níveis diretos e os induzidos de impactos que estão associados à atividade turística. [6]

Nesses caso, dividem-se os impactos negativos sobre os ambientes naturais e socioculturais, não desconsiderando a idéia de que ambos se agrupam em uma realidade turística.

            Seguem alguns aspectos positivos da atividade turística:

- Receita gerada e a rápida repercussão em outros setores econômicos (efeito multiplicador).

- Tendência de ampliação do mercado quanto às modificações nas relações de trabalho; maior tempo para o lazer.

- Potencialidade de vendas do “produto turístico” já que se compõe de serviços e bens intangíveis (clima, beleza natural, etc.), dependendo apenas de promoção.

- Capacidade de gerar empregos. (diretos e indiretos)

E alguns aspectos negativos da atividade turística:

- Aceleração do processo inflacionário, em detrimento da população nativa. Como exemplo, o caso da cidade de Tiradentes MG; onde a população flutuante aumenta a demanda por bens e serviços, os empresários elevam os preços, ao buscarem o lucro rápido.

- Degradação do meio ambiente, em favor de interesses imediatos de empreendedores turísticos ou implantação de projetos, como, as praias privativas, algumas delas comprometendo a sustentabilidade do ambiente.

- Poluição de cursos d’água e de praias; destruição de trilhas e vegetação, extinção da fauna e flora.

- Uso do solo urbano de forma especulativa. Além do aumento do preço do solo, devido à atividade turística, grupos econômicos são beneficiados no mercado.

Muitas vezes esses grupos econômicos, após adquirirem os solos a preços irrisórios, repassam os mesmos a terceiros. Inicia-se uma cadeia especulativa com os mais diversos efeitos. O mais grave deles consiste na expulsão das populações nativas de baixa renda, os antigos moradores. Esse processo vem acontecendo em vilas de pescadores de muitas aldeias praianas, que se transformaram em localidades turísticas ou tornaram-se “praias particulares” de condomínios de alto padrão, onde a maioria dos novos moradores é do exterior. Diminuindo-se deliberadamente, por força do capital, o acesso da população mais simples aos seus lugares identitários, indo inclusive, contra a legislação em vigor.

- Autorização para implementação, facilidades para as elites locais ou para grupos de estrangeiros. Gerando, assim, dificuldades para os pequenos e médios empresários locais, por não disponibilizarem  os valores colocados no mercado.

- Descaracterização cultural, com a introdução de hábitos alheios às populações nativas. A cultura torna-se uma mercadoria, com o intuito de agradar o turista.

- Sexo e prostituição infantil: esta realidade é acentuada em regiões com alto nível de desemprego e subemprego.

- Implantação de monopólios turísticos: uma tendência atual para hotéis de lazer (resorts) nas cidades do litoral brasileiro. O turista vem diretamente para o hotel descansar e desfrutar dos serviços de alta qualidade, na maioria das vezes não consumindo nada fora do próprio complexo turístico, criando-se um mundo à parte.

- Crime: devido ao poder aquisitivo do turista geralmente ser superior ao do nativo. Acarretando assim, tráfico de drogas, prostituição e roubos.

- Congestionamento em povoados distantes e sítios históricos tradicionais.

Boullón (2000) define os seguintes grupos em ordem de responsabilidades pelos impactos negativos do turismo:

1° - Riqueza

2° - Administração Pública

3° - População local

4° - Pobreza

De acordo com o autor a combinação do poder da riqueza com a ignorância e a cumplicidade dos governos, aliada à indiferença da população local, produz o fenômeno da especulação imobiliária.

A pobreza também gera impacto negativo. A ocupação desordenada da periferia induz à depredação dos espaços naturais, a captura de animais, em vias de extinção, para venda como mascotes ou como alimento.

Os governos são os principais responsáveis, pois aprovam projetos de desenvolvimento que, na maioria das vezes, não condizem com a realidade daquele ambiente. Permitem usos de espaços sem respeitar as características do ambiente. Com o tempo, os problemas se renovam, cada vez com menores chances de solução.[7]

De um lado, a população local, mesmo quando percebe a paulatina destruição de seus valores e ambiente pelos interesses econômicos de alto vulto, não consegue reagir, evidentemente, na mesma escala e não têm voz. Não é ouvida por aqueles que a representam e não têm acesso aos meios de comunicação, que via de regra, estão na mãos dos políticos da região. De outro lado, é expulsa para a periferia ou se subordina ao capital, buscando empregos de baixa qualificação nos empreendimentos; o que não quer dizer que os consigam.

 

2.2 - Espaço geográfico: objeto de consumo no Turismo

 

            De acordo com Carlos (1999) o espaço geográfico articula duas dimensões, aquela da localização (um ponto no mapa) e aquela que dá conteúdo a essa localização, que a qualifica e singulariza. Esse conteúdo é determinado pelas relações sociais que aí se estabelecem – o que confere ao espaço a característica de produto social e histórico. [8]

         Diversos fatores influenciam a produção do espaço. A cada dia criam-se mercadorias que são estratégias políticas, para comercializarem o espaço. A globalização produziu um fluxo na economia e como conseqüência, verifica-se uma ordenação e hierarquização do espaço mundial.

         Com a globalização, há uma abertura de empresas para o mercado externo, ampliando lugares e movimentando a economia. Tais mudanças modificam a vida das pessoas, criando novos hábitos, padrões de comportamento, valores, vestimentas e várias estratégias de consumir o espaço.

 

 

As mercadorias e os objetos mudaram de sentido, posto que, em vez de designar uma coisa simples, articulada com o universo da necessidade imediata, criam-se cada vez mais mercadorias que são estratégias e políticas, como no caso especifico do espaço. [.... ] se por um lado assistimos à tendência da produção de bens imateriais, por outro vende-se cada vez mais o espaço, inaugurando um movimento que vai do espaço de consumo (particularmente produtivo – aquele da fábrica que cria o espaço enquanto condição da produção, distribuição, circulação, troca e consumo de mercadorias ) ao consumo do espaço, isto é, cada vez mais se compram e vendem pedaços do espaço para a reprodução da vida.

                                                       Carlos, 1999: 174-175

 

 

            O espaço torna-se mercadoria, entrando no contexto da comercialização, em um movimento da transformação do uso em troca, mediado pelo mercado. Com isso, modificam-se os modos de uso das pessoas. No plano regional e mundial, os espaços são comercializados em prol da atividade turística.

            A assimilação dos espaços pela atividade turística determina novos significados ou acaba com determinados espaços pré-existentes. O marketing possui forte papel nesta reconstrução, criando novos valores e expectativas, dentre os modismos e muitas vezes padrões de consumo da população.

            Todo espaço pode ser considerado espaço turístico, dependendo de sua valorização, diante da sociedade; em aspectos políticos, econômicos, geográficos e culturais, e muitos espaços só têm existência, devido à troca, enquanto consumo de mercadoria.

            Os moradores também compõem o território turístico, visto que estão colocados nas trocas do uso e consumo do espaço. Seus hábitos culturais, muitas vezes, são alterados devido à atividade turística e muitos objetos na cidade ganham novos significados no local.

            A valorização cultural pela prática social do turismo e a divisão social e territorial do trabalho são fatores que condicionam a escolha de um espaço para uso turístico. Porém, a cultura é dinâmica, devido a isto, não necessariamente, os territórios que são turísticos hoje serão amanhã. Muitos espaços turísticos, devido à influência e modificação do homem, perdem suas características, deixando de atrair um fluxo turístico. Isso acontece devido à falta de qualificação profissional em trabalhar em determinadas áreas turísticas, entre outros fatores.

            Devido a estas mudanças, na maioria das vezes desarticuladas e desestruturantes, percebe-se  claramente a divisão social do trabalho no mundo capitalista aplicada ao turismo. Uma parcela significativa da população não tem condições financeiras de fazer turismo (em locais privados e públicos), não participando direta ou indiretamente da atividade turística.

            Esta falta de planejamento ocasiona conflitos nos lugares apropriados pelo turismo, entre os turistas e os residentes. Estes possuem uma natureza distinta, onde, os turistas se apropriam dos lugares a partir de relações superficiais e os residentes possuem relações duradouras.

            É necessário considerar o ponto de vista do habitante, pois, para ele, o espaço se reproduz enquanto lugar, onde se desenrola a vida em todas as dimensões; do habitar, lazer, trabalho, familiar, emocional, dentre outras. Todas as relações sociais do habitante estão no lugar, permitindo a ele criar sua identidade, fugindo da padronização imposta pela sociedade de consumo.

            O público e o privado se distinguem cada vez mais no espaço consumido. A diminuição das trocas sociais é assinalada pelo fim das atividades que aconteciam nos bairros, provocada pela invasão dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, internet, etc.). Com isso várias atividades populares passam a desaparecer diante desse cenário, pois não se enquadram numa visão equivocada e pasteurizadora de “atividade folclórica” vendida pelas administrações  municipais/locais, dentro de uma idéia de que as atividades populares devem ser “transformadas” para atenderem ao turismo; isto é, mais coloridas, alegres e dinâmicas.

      E se as comunidades rejeitam essas transformações forçadas, as manifestações populares são colocadas de lado pelas administrações publicas e/ou permitidas longe dos espaços centrais das comunidades ou não são mais permitidas. Nota-se o fim das procissões, das quermesses, dos desfiles de carros de boi, dos encontros nas esquinas, das brincadeiras nas ruas, as reuniões na praça, nas portas das casas, o fim das serenatas. A população da cidade passa a não se identificar com os antigos espaços públicos, pois, estes já não pertencem mais ao coletivo, foram destinados e redirecionados aos turistas, pois, estes “pagam” para consumi-los.

      Mas, não podemos esquecer que o turismo é uma atividade sazonal, não possui fluxo contínuo, daí o esforço que se faz na realização de eventos durante todo o ano em alguns locais, principalmente nas cidades maiores, para assim permitir a sobrevivência econômica dos lugares que têm ou vêem no turismo uma via de sobrevivência ou “”tábua de salvação”. Ele deveria ser encarado, no mínimo, como mais uma possibilidade de contribuir para a sustentabilidade daquela comunidade em questão e não como solução para os problemas. Na verdade, não sendo bem feito, poderá desestruturar toda uma comunidade, correndo o risco de que a mesma perca a sua identidade enquanto coletivo. E o que acontecerá com essa cidade e população quando a mesma ficar vazia de “turistas”? Como sobreviverá?

            O público e o privado estão sendo abordados aqui para refletir a relação de identidades. A identidade que dá vida as relações de convivência e pertencimento ao grupo e ao lugar. São processos de apropriações diferenciadas, gerando um dinamismo cultural, que a todo o momento sofre modificações em prol das trocas sociais, num embate: turismo versus nativo.

            De acordo com Carlos (1996), o lugar é a porção do espaço apropriável para a vida, apropriada através do corpo, dos sentidos, dos passos de seus moradores, é o bairro, é a praça, é a rua, e nesse sentido poderíamos afirmar que não seria jamais a metrópole ou mesmo a cidade lato sensu a menos que seja a pequena vila ou cidade, vivida, conhecida, reconhecida em todos os cantos. [9]

            A metrópole não é “lugar”, ela pode ser vivida parcialmente, pensando nos espaços sociais dos bairros. Onde se cria espaços de identidades - lugar, como os pequenos atos corriqueiros, como, ir à padaria, jogo de bola, as brincadeiras, conversar na porta de casa, varrer o passeio, dentre outros.

 

O lugar é a base da reprodução da vida e pode ser analisado pela tríade habitantes – identidade – lugar. A cidade, por exemplo, produz-se e revela-se no plano da vida do individuo. Este plano é aquele do local. As relações que o indivíduo mantêm com os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos de uso, nas condições mais banais, no secundário, no acidental. É o espaço passível de ser sentido, pensado, apropriado e vivido através do corpo.

                                                                Carlos, 1996:20

 

            E de acordo com Cruz (2003), em se tratando de territórios turísticos, são três os agentes de sua turistificação: os turistas, o mercado e os planejadores e promotores territoriais. [10]

            Os turistas, devido à prática espontânea de alguns lugares, sem a mediação do mercado, transformam estes, em lugares turísticos.  O mercado é capaz de criar produtos turísticos, em lugares até então não conhecidos (para o turismo); os transformando em potenciais turísticos. Os planejadores e promotores territoriais são agentes que possuem uma relação mais próxima com a localidade. São iniciativas locais, regionais, nacionais, com investimento na atividade turística.

            O poder público possui o papel de intervir no planejamento, apoiar e muitas vezes, tomar a iniciativa no processo de urbanização das cidades com potenciais turísticos. São necessários projetos sustentáveis, que retratem realidades locais e que beneficiem primeiramente a população diretamente envolvida, contribuindo, de fato, com a economia local.

 

 

Considerações Finais

 

      O espaço geográfico é o principal objeto de consumo do turismo. O turista (consumidor) desloca-se até o lugar turístico (produto), contribuindo assim, com a cadeia produtiva do turismo.

            O turismo cria novos objetos nos lugares, e também se apropria de objetos que já existem, como os objetos naturais (cachoeiras, rios, praias, montanhas, etc.) e objetos culturais (patrimônios históricos, festas populares, comidas típicas, artesanatos locais, etc.), conferindo-lhes novos significados.

            Devido a este poder da atividade turística, é necessário repensar as formas de apropriação de espaços, para que neste processo, não haja exclusão dos moradores dos lugares e nem dos possíveis turistas. Mas, que isso seja feito não tendo como base a apropriação desse lugares apenas por uma elite e que os turistas sejam aqueles que  respeitem  a cultura dos habitantes dos lugares que irão conhecer. Nesse sentido, o turismo não pode ser predatório e elitista do ponto de vista ambiental e muito menos no cultural.

            É necessária que haja um turismo que potencialize a conscientização das populações nativas, dos locais que têm o turismo como a principal atividade econômica, bem como na adoção de estratégias mais inteligentes e mais responsáveis que evitem os seus inúmeros efeitos negativos. A sociedade local deve ser inserida em qualquer atividade turística seja na cidade ou no campo, e o seu espaço deve ser respeitado, tais como, casas, praças, roças, fazendas, pastos, espaços destinados ao lazer, dentre outros, sem que haja a descaracterização das suas referências naturais, arquitetônicas e culturais. Sem modificar drasticamente o ambiente e a cultura da população e seus hábitos em favor do turismo e da obtenção do lucro.

            Conforme o turismo é desenvolvido, ele pode variar de um extremo em que prevalece o imediatismo dos empreendedores, a alienação dos esforços mercadológicos e a excludência das populações de baixa renda, até um outro extremo, trabalhando-se em conjunto com a população local, buscando-se a sustentabilidade. O turismo tem o papel de incluir o respeito às populações nativas das regiões que possuam vocação turística, convertendo-se num meio de integração, renovação, convívio e a transformação da sociedade. O turismo passaria então a ter um caráter educativo, além de incorporar as vantagens econômicas.

      É necessário questionar um mercado seletivo, acessível apenas aos privilegiados economicamente e a ação da indústria cultural que se fortalece, propagando uma visão de cultura superficial. Agindo assim, ela reduz as possibilidades de vivências de lazer da população e coloca em risco as manifestações tradicionais de uma cultura popular. O desafio é tornar as atividades de lazer acessíveis a todos, de forma superior às de hoje, bem como o de idealizar a intervenção no campo de ação do lazer como algo que possa contribuir para superar essa lógica social pautada na diferença e na desigualdade social.

      Muitas manifestações populares, em cidades turísticas estão sendo vendidas como mercadorias, estão transformando as atividades turísticas como um conjunto de produtos de um grande “supermercado”, capaz de satisfazer as necessidades do consumidor, no caso, o turista e de modo geral, num nível superficial, um “clichê”. Ao mesmo tempo em que se faz a defesa da técnica, enquadra-se o cidadão em funções que lhe são impostas pelas normas da sociedade (que na verdade nem sempre correspondem à vontade da maioria) e acaba-se com os espaços públicos destinados ao lazer. Marcam-se os limites do consumo do espaço e transformam os moradores em platéia. As manifestações culturais perdem sua essência e viram um espetáculo, em um cenário em que há regras estipuladas não mais só pelas tradições e memória, mas  por “pseudos” interesses políticos.

      Na verdade, estão matando a “galinha dos ovos de ouro” que é a identidade cultural de cada população tradicional, populações que estão ficando à mercê de muitos especuladores e “empreendedores” quando os mesmos querem o lucro fácil, dissociado da realidade das comunidades que habitam esse espaço.

      E não só podem correr o risco de desestruturação do ponto de vista cultural, mas também de suas formas de subsistência, desagregando a pequena economia familiar de  autoconsumo, formas de artesanato, as relações de convívio, o meio ambiente, entre outros.

      Pode-se pensar que essa realidade é uma exceção, sem efeito diante de um possível volume de recursos comercializados quando atrelados ao turismo. Mas, o que se coloca aqui é como uma política irresponsável voltada ao pretenso aumento do turismo pode repercutir danosamente sobre uma localidade ou região; e sem maiores questionamentos jurídicos políticos ou aqueles feitos pelos meios de comunicação. Acabando por transformar tudo o que toca em produto substituível de acordo com os mesmos interesses econômicos e midiáticos. O consumo deixa de ser individual, pois todo o espaço passa a ser consumível e consumido, por poucos.

      O consumo do espaço através do turismo passa a ser e o é, nesse quadro, um consumo dirigido não só em razão da própria natureza dos interesses políticos e econômicos presentes nesse território, mas igualmente, em função das conjunturas que determinam a direção do consumo para determinados setores de produção. O que resultará, por exemplo, em investimentos de infra-estrutura para uma região e não outra.

      Quase sempre, também, não se leva em consideração a distribuição das formas de satisfação das necessidades de sobrevivência, de cultura, de lazer de todos os que habitam e os que transitam, temporariamente, em determinado espaço. O turismo como atividade econômica pode agravar a situação, diminuindo ainda mais o contato dos que podem usufruir de determinado atrativo turístico presente num lugar específico com os moradores tradicionais dessas localidades, (chamados aqui no presente artigo como nativos, termo muito utilizado no Turismo e que não tem nenhum caráter depreciativo, é bom esclarecer!).

      Uma vez que a identidade da comunidade seja destruída, dificilmente ela terá chance de se recompor, pois as pessoas não serão mais as mesmas e nem o lugar; podemos dizer nessa situação que foram “efetivamente consumidas”. Fazendo-se uma analogia, é como o que aconteceu com o personagem Deraldo ( interpretado por José Dumont) no filme nacional - O Homem que virou suco (1981); que no transcorrer da sua história, (não trabalhava com turismo, era um poeta popular do Nordeste que migrou para São Paulo) acabou perdendo a sua identidade e sua condição de cidadão - sendo engolido pelo sistema.

       Um lugar é consumido de forma perversa e por essa razão destruído, ”vira suco”, quando abandonando-se a sua riqueza de significações e valores, passa a ser pasteurizado, igual a centenas de outros. Ou seja, voltado para um turismo de “cartão postal”, instantâneo, apenas mais uma rápida parada para se tirar uma fotografia, num roteiro equivocado e apressado. O triste, é que muitos desses turistas não se darão conta do que estão vendo de fato e nem que tipo de turismo estão fazendo, embora seus moradores, sim!

      Analisa-se aqui o consumo do espaço quando este é transformado em mercadoria, tornando-o privado e excludente. Assim, o processo de reprodução do espaço aponta como caminho as parcelas de trocas sobre os modos de uso, revelando a oscilação do espaço de consumo para o consumo do espaço e dos indivíduos.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

BARRETO, Margarita M. Planejamento e Organização em Turismo. Campinas: Papirus, 1990.

BENI, M. C. Analise Estrutural do Turismo. 5 ed. São Paulo: Senac, 2001.

BOULLÓN, R. Ecoturismo: sistemas naturales y urbanos. 2 ed. Buenos Aires: Librerías Turísticas, 2000.

CARLOS, Ana Fani (org.). Novos Caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 1999. 204p.

COOPER, C; et al. Turismo, princípios e pratica. 2 ed. Tradução de: Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Bookman, 2001.

CRUZ, Rita de C. A. da.  Introdução à Geografia do Turismo. 2. ed. São Paulo: Editora Roca Ltda. 2003. 125.

FERRETTI, Eliane R. Turismo e Meio Ambiente: uma abordagem integrada. São Paulo: Editora Roca Ltda. 2002.

GUIMARÃES, Aline F. Turismo: consumo no espaço (monografia). Atividade da disciplina Geografia e Turismo – Mestrado de Turismo e Meio Ambiente UNA,2008.

 PALOMO, M. F. Economia Turística. Tese de Doutorado. Madri, 1979.

 

 


[1] Doutoranda em Geografia: Tratamento da Informação Espacial – PUC- MG

[2] Rita de Cássia Ariza da Cruz, 2003, Cap. 1, pág. 4

[3] Rita de Cássia Ariza da Cruz, 2003, Cap. 1, pág. 5

[4] Eliane Regina Ferretti, 2002, Cap. 2, pág. 50.

[5] Eliane Regina Ferretti, 2002, Cap. 2, pág. 50.

[6] Eliane Regina Ferretti, 2002, Cap. 2, pág. 50.

[7] Eliane Regina Ferretti, 2002, Cap. 2, pág. 52.

[8] Ana Fani Alessandri Carlos, 1999, pág. 175.

[9] Ana Fani Alessandri Carlos, 1996, pag. 20-21.

 


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.  






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