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Asunto:NoticiasdelCeHu 1065/11 - As possibilidades e os limites do “realismo periférico”: a política externa do Paraguai de 195 4 a 1989
Fecha:Sabado, 22 de Octubre, 2011  12:20:15 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 1065/11
 

 

As possibilidades e os limites do “realismo periférico”:

a política externa do Paraguai de 1954 a 1989.

 

Tomaz Espósito Neto

Prof. Assistente do Curso de Relações Internacionais da FADIR/ UFGD

(Faculdade de Direito e Relações Internacionais/ Universidade Federal da Grande Dourados).

Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP

(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

 

 

Resumo

 

Os quase 35 anos da ditadura do Stroessner (1954 -1989) destoam da instabilidade política paraguaia, vivenciada desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). A longevidade desse governo é normalmente atribuída ao controle social imposto pelo aparato estatal de repressão e ao grande crescimento da economia paraguaia.

Esse bom desempenho econômico deveu-se, em certa medida, a uma política externa pragmática e “realista”.

O presente ensaio tem como objetivo analisar os principais eixos da política exterior paraguaia do governo Stroessner, de 1954 a 1989, em especial suas relações com os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina.

 

Palavras-ChaveS: Paraguai, Política Externa Paraguaia, Stroessner.

 

 

 

Abstract

 

The nearly 35-year Stroessner dictatorship (1954 -1989) Paraguayan clash of political instability, experienced since the end of the Paraguayan War (1864-1870). The longevity of this government is usually attributed to social control imposed by the state apparatus of repression and the general growth of the Paraguayan economy.

This economic performance was due to some extent, a pragmatic foreign policy "realist".

This essay aims to analyze the main lines of foreign policy Paraguayan government Stroessner from 1954 to 1989, especially its relations with the United States, Brazil and Argentina.

 

Keywords:  Paraguay, PAraguayan ForEign PoLICY, Stroessner

 

 

 

Introdução

 

No período de 1954 a 1989, Alfredo Stroessner, com apoio do Partido Colorado e das Forças Armadas, governou o Paraguai commão de ferro”. Os trinta e cinco anos de Stronato destoam da história política paraguaia pós 1870, cujo signo principal é a instabilidade política.  Quarenta e quatro pessoas, nove dessas eram militares, ocuparam a presidência do Paraguai de 1870 a 1954. Vinte e cinco golpes de Estados foram bem sucedidos neste período. Ao fazer uma média aritmética simples, nota-se que cada mandato presidencial durou aproximadamente dois anos (GOIRIS, 2000, p. 21).

Alguns autores, como Lewis (1986), Goiris (2004) e Acalá (2005), afirmam que uso extensivo da violência e o autoritarismo são parte da ideologia e da cultura política paraguaia, cujas raízes se encontram na formação do Estado paraguaio, em especial nos governos dos ditadores José Gaspar Rodríguez Francia (1811 – 1840), Carlos López (1844 – 1862) e Fernando Solano López (1862 – 1870).  

A ditadura de Stroessner também fez uso extensivo dos aparatos de repressão e perseguição aos seus opositores. No entanto, isso sozinho não explica a longevidade do Strossnato. Então, como Stroessner se manteve tanto tempo no poder?

A tese aceita é que Stroessner, como profundo conhecedor da realidade paraguaia, criou os meios de sustentação do seu regime por meio de uma estratégia articulada entre política interna, internacional regional e global, também conhecida comopolítica externa pendular” de viés “realista” (MENEZES, 1987: FARINA, 2003).

O presente ensaio tem como objetivo analisar os principais eixos da política exterior paraguaia do governo Stroessner, de 1954 a 1989, em especial suas relações com os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina.

O texto está divido em quatro partes: a primeira trata da ascensão de Stroessner à Chefia de Estado, bem como a organização das suas bases de apoio internas, em especial o Partido Colorado e as Forças de Segurança; a segunda analisa os três grandes eixos da política exterior paraguaia do período: as relações Assunção-Washington, Assunção-Brasília e Assunção-Buenos Aires. Na terceira parte se apresentam as causas do declínio e da queda do Strossnato na década de 80. Por fim, o autor tece seus comentários finais.

Essa obra foi constituída a partir de uma análise de uma bibliografia diversificada sobre o tema. Trechos desse texto integram a pesquisa de doutoramento do autor, atualmente em andamento, a qual visa compreender melhor a relação entre Brasil Paraguai entre 1962 a 1979, especialmente no que tange as negociações sobre Itaipu.

 

A Ascensão de Stroessner

 

Alfredo Stroessner nasceu e cresceu na pequena Encanación e, devido a sua descendência alemã, ficou conhecido como “El Rubio”. Posteriormente, na presidência, ganhou um outro apelido, “El Supremo”.  Ingressou ainda adolescente na Escola Militar em 1929. Ganhou projeção na Guerra do Chaco (1932 -1935), quando comandou uma força da artilharia paraguaia. Stroessner causou boa impressão nos seus superiores e subordinados e passou a ser tido como um oficial valoroso e promissor (FARINA, 2003, p. 43: LEWIS, 1986, p. 128).

Entre 1940 e 1941, Stroessner fez um curso de artilharia no Brasil, quando cultivou uma rede de contatos com os militares brasileiros, que se mostrou muito útil em diversos momentos para brasileiros e paraguaios.  Desde então, “El Rubio” ascendeu gradualmente na carreira militar e passou a se envolver diretamente na política paraguaia.

Stroessner teve papel crucial na frente sul da guerra civil de 1947, quando permaneceu fiel ao então presidente Morínigo e combateu as forças revoltosas, comandadas pelo coronel Franco. (LEWIS, 1986, p.132).  

Em 1948, “El Rubio” participou de dois golpes de Estados. O primeiro, em 3 de junho de 1948, derrubou o presidente Moríngo. Aproveitou a oportunidade e eliminou grande parte dos seus desafetos, como o coronel Enrique Gimenez. O segundo, em novembro do mesmo ano, conspirou contra o presidente Natalício González. No entanto, o golpe foi frustrado por forças leais ao presidente (LEWIS, 1986, p.139).

Perseguido, Stroessner teve de se esconder no porta-malas de um veículo da Missão Militar Brasileira para entrar na embaixada do Brasil em Assunção, aonde se refugiou até a concessão de um salvo-conduto para o exílio em Posadas, na Argentina.  (FARINA, 2003, p. 67). Stroessner retornaria ao Paraguai em 1949, após o sucesso de um novo golpe, capitaneado por Frederico Chávez  e Mólas López, contra Natalício.  Graças aos seus contatos internos e externos e seu prestígio entre os militares paraguaios, Alfredo Stroessner não apenas retornou aos quadros das forças armadas paraguaias, mas também, assumiu cargos importantes (LEWIS, 1986, p. 140).

Em 1951, “El Rubio” é nomeado comandante em chefe das Forças Armadas Paraguaias. Discretamente, iniciou a reorganização e redistribuição das tropas no território paraguaio.  Perseguiu os oficiais “inimigos” e substituindo-os por homens de sua total confiança. Com incremento de sua influência política, Stroessner atraiu as atenções de autoridades argentinas, brasileiras e estadunidenses (LEWIS, 1986, p. 140).

“Don Stroessner” percebeu a importância dos militares no conturbado contexto político paraguaio, marcado pela constante luta pelo poder entre o Partido Colorado, o Partido Liberal e o Partido Febrista. Assim, mesmo filiado ao Partido Colorado, “El Rubio”, mantinha um imenso desprezo pela maioria dos políticos paraguaios, como expressou no comentário: “Los civiles crean problemas y luego quieren solucinarlos mandando a militares a balearse”  (FARINA, 2003, p. 99).

Em 1954, o Paraguai se encontrava em mais uma crise política. Stroessner aproveitou a oportunidade e deu o golpe de Estado em 5 de maio de 1954, quando se impôs sobre as demais forças políticas com o apoio dos militares.  Assumiu formalmente a Presidência da República em 15 de agosto de 1954.

“El Supremo” iniciou uma perseguição política aos seus reais e potenciais adversários. Seu objetivo eradomar” as forças políticas paraguaias enquanto expandia  sua influência seja pela cooptação, seja pelas eliminação, de lideranças e vozes divergentes.

 Os opositores, que escaparam da perseguição, se exilaram em território argentino. De e com apoio do governo da Argentina, conspiravam contra “Don Alfredo”.

No âmbito interno, o governo de Stroessner apoiou-se no seguinte tripé: as forças de segurança (forças armadas e policiais) o Partido Colorado e a burocracia.

 As forças de segurança, detentoras do monopólio da violência, eram responsáveis pela repressão e perseguição dos inimigos do regime. Essa é uma das faces mais terríveis da ditadura de Stroessner. Afora isso, todos os oficiais eram obrigados a pertencerem aos quadros do Partido Colorado e jurar lealdade a Stroessner.

O controle social estendia-se para dentro de outras instituições, como as do poder judiciário, cujas autoridades foram corrompidas por Stroessner;  e  o Serviço de Inteligência formado pelos pyraques[i], os quais aprisionavam, torturavam, condenavam e matavam os opositores do regime.  Muitas vezes, essas ações eram levadas a cabo sem denúncia formal. Dessa forma, “El Supremo” espalhou o clima de medo e de Terror. Chiavenato (1980, p. 8) afirma que o terrorismo político e a corrupção foram as bases de sustentação do Stronato.

Afora isso, o controle estatal sobre as informações e os veículos de imprensa impedia a circulação de idéias dissonantes do repertório oficial, o que dificultava, ainda mais, a organização da oposição e a emergência de novas lideranças político-sociais.

o Partido Colorado era o interlocutor privilegiado entre o Estado e a sociedade, além de ser capaz identificar e desarticular segmentos descontentes com o governo.

Os cargos burocráticos eram ocupados por membros do Partido Colorado e das Forças Armadas, fiéis ao Presidente, que não raramente utilizavam-se das suas posições para extrair prebendas, privilégios e favores diversos (GOIRIS, 2000, p. 43). Muitos ministérios tornaram-se “verdadeiros feudos” de famílias importantes do Paraguai (LEWIS, 1986, p.224).

O controle estatal das principais atividades produtivas, como o estabelecimento de monopólios comerciais e a obrigatoriedade de licença prévia, criou uma grande dependência sociedade dos favores das autoridades do Estado, o que alimentava a corrupção. Também era notório o vínculo de algumas autoridades do primeiro escalão com atividades ilícitas, como tráfico de drogas, em especial a heroína, receptação de carros roubados no Brasil, contrabando de armas, comércio ilegal de mercadorias, lavagem de dinheiro e proteção a criminosos internacionais (FARINA, 2003, p 281-286).

 “Don Stroessner”, mesmo sem ser um líder carismático, utilizou as mais diversas instâncias paraguaias para culto a sua personalidade. As fotos do “El Supremo” estavam em todos os lugares, nos rádios tocavam músicas como a polca “Don Alfredo”.  Stroessner batizou e / ou re-nomeou com seu nome autarquias, estradas, aeroportos, bairros e mesmo cidades, como Puerto Stroessner, atual Ciudad del Leste (LEWIS.1986, p. 200).

Segundo Lewis (1986, p. 200), Stroessner centralizava em torno de si as principais decisões de Estado e acompanhava com muita atenção a movimentação dos diversos grupos político-sociais paraguaios.

 

Resumiendo, Stroessner constituye la fuerza directriz y cohersiva del régimen. Sin él, podría disolverse en una serie de facciones incoherentes. Ha suoerado la aparentemente endémica anarquía en Paraguay con sólo exiliar a todos los políticos de mentalidad independiente y concentrar en sus manos una gran cantidad de poder. Ejerce una supervisión cercana y personal sobre las tres burocarcia que rodean su régimen: la militar, la del partido y la del servicio civil del gobierno. Cada nombramiento y acenso militar, cada reunión, resolución o elección del partido, cada miembro mayoritario dentro del Congreso, cada disposicón legislativa, cada magistratura, cada puesto ejecutivo y cada decisión del gabinete deve llevar su sello de aprobación. (LEWIS, 1986, p. 200).

 

Stroessner compreendeu que a chave para a sua manutenção no poder era o crescimento econômico, que,  além de atenuar a pobreza na base da sociedade, manteria lubrificadas as engrenagens da corrupção política pelo fluxo ininterrupto de recursos para os grupos leais ao governo (FARINA,2003,p.93).

 

El Paraguay de 1954, com sus 1.500.000 habitantes, era um país paupérrimo, sin infraestructura física, sin caminos (de 1.215 kilómetros de rutas, solo 87 kilómetros tenían asfalto), con casi nula producción industrial, La única ciudad que podía preciarse de tal era Asunción y ni tan siquera contaba con servicio de agua potable, un anhelo desde 1901 que nunca se podía concretar porque los gobiernos de la época estaban más inmernsos en sus problemas internos con revoluciones y contrarrevoulciones...

El Paraguay era el único país en Sudamérica que no tenía una solo ciudad, ni tan sólo su capital, servida por agua corriente. Tal era el grado de pobreza y atraso... (FARINA, 2003, p. 93.  grifo do autor).

 

Para tanto, “Don Alfredo” Stroessner iniciou a articulação entre as políticas doméstica e internacional para estabilizar a economia e obter financiamentos externos para obras de infraestrutura e investimentos em atividades produtivas, essenciais para o crescimento da economia paraguaia.

 

A Política Externa do Paraguai de 1954 a 1989.

 

O principal objetivo da política externa paraguaia de 1954 a 1959 era manter as bases de sustentação do Stronatto, por meio do isolamento dos opositores do regime e pela obtenção de financiamentos e investimentos externos, essenciais para o crescimento da economia paraguaia.

Os três eixos principais de sua política externa eram: a manutenção da boa relação com os Estados Unidos para obter recursos externos e apoio político essencial para a legitimação do regime; a aproximação com o Brasil para conseguir investimentos e, assim, diminuir a influência argentina na vida política paraguaia e; por fim, a manutenção de relações maduras com a Argentina para evitar a “satelitização” do Paraguai pelo Brasil.

A política internacional de Stroessner, por sua vez, é dividida em três grandes fases: a construção de sua política externa (1954-1973); o apogeu dessa política (1973 -1982) e; o esgotamento desse modelo de inserção internacional (1982-1989).

 

As contraditórias relações entre Paraguai e Estados Unidos

 

A ascensão de Stroessner, com sua política de combate aos movimentos “subversivos” de esquerda e sua retórica anticomunista, agradou muitas autoridades norte-americanas. O alinhamento político do Palácio López, as diretrizes e a ideologia da Casa Branca tornaram as relações paraguaio-estadunidenses muito amistosas dentre 1954 e 1960 (MORA, 2001, p. 4-5). O Paraguai, em contrapartida ao apoio e aos “serviços prestados”, recebeu cerca de 53,2 milhões de dólares de ajuda norte-americana no período (MORA, 2001: FARINA, 2003).

Washington redimensionou as suas relações com Assunção no período entre 1960 e 1977.  A Casa Branca pressionou o Palácio López para uma maior cooperação no combate as atividades ilícitas, como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, prostituição infantil, entre outros. Stroessner fez “ouvido de mercador” as reclamações norte-americanas.

Na gestão Jimmy Carter (1977 – 1981), com a política de promoção dos direitos humanos, iniciou-se o desgaste nas relações estadunidense-paraguaias.  O embaixador norte-americano denunciou a violência praticada pelas forças paraguaias de segurança. Os Estados Unidos reduziram sensivelmente a ajuda financeira ao Paraguai.

Curiosamente, as relações Assunção-Washington se deterioraram ainda mais no mandado de Ronald Reagan (1981 – 1989).  A “guerra” às drogas, promovida pelo governo norte-americano, aumentou a pressão sobre o governo paraguaio. Washington praticamente cortou os repasses financeiros a Assunção e suspendeu o Paraguai da lista do Sistema Geral de Preferência (SGP) (FARINA, 2003; MORA, 2001, p. 12).


As relações Brasil e Paraguai: destinos unidos por Itaipu.

 

Desde o início do seu governo, Stroessner priorizou uma aproximação entre Assunção e Brasília para contrabalançar a influência argentina no território paraguaio, oriundas da dependência do Paraguai, devido as questões geográficas, do porto de Buenos Aires para as comunicações externas.

 

... O governo de Stroessner punha grande importância na nova relação por motivos econômicos e políticos. A razão econômica era que aquela aproximação representava um novo caminho para exportar e importar produtos sem a imperiosa necessidade de ir através do porto de Buenos Aires. A razão política era que Buenos Aires era a base e o quartel general da oposição ao seu governo...(MENEZES, 1987, p. 54).

 

Stroessner buscou atrair a atenção brasileira para o potencial hidráulico do Paraguai e enredá-lo, assim, na política e na economia paraguaia (BOETTNER, 2004). O Brasil, por sua vez, vislumbrava transformar o Paraguai em um aliado político e um importante mercado para o comércio e os investimentos brasileiros na região (MENEZES, 1987, p. 54).

Os laços se estreitaram ainda mais em 1957, quando as autoridades dos dois Estados assinaram acordos importantes, como a construção de estradas entre o Brasil e o Paraguai, a construção da usina de Acaray, a construção da ponte da Amizade, a qual ligaria a cidade de Foz Iguaçu com Puerto Stroessner; abertura de uma Missão cultural e a construção do Colégio Experimental Paraguai-Brasil, entre outros convênios (SILVA, 2006, p. 67). No entanto, o litígio territorial por Sete Quedas quase pôs tudo a perder. “Tudo parecia perfeito entre Brasil e Paraguai desde a administração de Juscelino Kubitschek. Mas a polêmica sobre Sete Quedas quase partiu ao meio aquela nova relação” (MENEZES, 1987, p.64).

O litígio territorial sobre Sete Quedas, ou Salto de Guairá, se iniciou com a divulgação do projeto de construção de uma imensa usina na região em 1962. O Paraguai, por meio de uma “reinterpretação” do Tratado de 1872, afirmou que a área da futura barragem era território paraguaio. No entanto, o Brasil reinterou que as cataratas estavam localizadas no território brasileiro. Ambas as partes elevaram o tom das discussões nas diversas notas. Em 1964 e 1965, uma série de incidentes na fronteira colocou os dois países muito próximos de um conflito. O “mal estarsomente foi resolvido com a assinatura das “Atas das Cataratas”, em 1966, que não resolvia a questão da soberania sobre Sete Quedas, mas garantia aos dois países igual participação em qualquer projeto hidroelétrico na área (ESPÓSITO NETO, 2008).

Pouco tempo depois, o governo brasileiro nomeou Gibson Barboza como embaixador brasileiro em Assunção. No seu livro de memória, Barboza relembra as tensões vividas na época. Afirma ser de sua autoria a idéia de construir Itaipu e “submergir” o litígio territorial com o Paraguai (BARBOZA, 1992).

Em 1967, os dois países criaram uma comissão mista para analisar a viabilidade e os detalhes técnicos da construção da obra. Após intensas negociações por anos a fio, os dois Estados assinaram o Tratado de Itaipu (1973), o qual versa sobre o aproveitamento hidroelétrico das cataratas de Sete Quedas. Assim, ambos Estados, apesar de suas assimetrias, tornaram-se sócios na empreitada de Itaipu. Os destinos dos dois estariam, a partir de então, unidos pelo concreto e pela energia dessa grandiosa obra.

Essa iniciativa, no entanto, enfrentou uma obstinada oposição de Buenos Aires, pois as autoridades da Casa Rosada acreditavam que Itaipu representaria o rompimento do equilíbrio de poder na região, em favor do Brasil e em detrimento da Argentina (GUGLIAMELLI, 2007). Essa questão somente seria resolvida com Tratado Tripartite (1979).

Apesar do “casamentoentre o Brasil e o Paraguai, Assunção iniciou um “affair” com Buenos Aires, quando assinou os acordos para a construção de Yaciretá e Corpus, ainda em 1973.  Stroessner mudou a sua política externa de aliança com o Brasil para outra de uma “neutralidade pragmática” (MENEZES, 1987, p. 112).

 

... Na verdade, quem se encontrava em uma boa posição era o país Guarany pois o que ele perdesse em Itaipu com o rebaixamento da cota, recuperaria das usinas de Corpus e  Yacirita. Assim o desacordo era mais entre Brasil e Argentina, com o Paraguai em uma excelente posição, principalmente porque um daqueles projetos estava em construção e desse modo seu poder de barganha aumentava. (MENEZES,1987,p. 112).

 

A partir do final da década de 1970, novos desentendimentos (ciclagem, preço de energia, entre outros), a crise econômica da década de 80 e mudanças sistêmicas levaram uma redefinição das relações entre o Palácio López e o Palácio do Planalto.

A questão da ciclagem da energia gerada por Itaipu estremeceu as relações brasileiro-paraguaias em 1977. Esse problema se iniciou quando Assunção exigiu que a metade das turbinas de Itaipu gerasse energia ao padrão 50Hz, ou seja, o adotado por todos os países do continente sul-americano, exceto o Brasil, cujo padrão é de 60 HZ. Na prática, o Brasil não poderia comprar a energia paraguaia de Itaipu, ao menos que investisse uma vultosa soma na construção de um sistema de conversão da energia paraguaia para o padrão brasileiro (MENEZES, 1987: ESPÓSITO NETO, 2006). Outra solução possível era mudar o padrão do sistema paraguaio para 60 Hz, o que implicaria na troca de grande parte dos eletro-eletrônicos do Paraguai, mas sem nenhum ônus ao Tesouro brasileiro.

Stroessner, ao retardar a decisão, procurou forçar uma nova barganha com as autoridades brasileiras. No entanto, essas estavam cansadas da postura paraguaia e decidiram arcar com os custos do sistema de conversão (MENEZES, 1987, p.124).

Os inúmeros reclamos paraguaios por um papel mais proeminente na direção de Itaipu binacional (DEBERNARDI, 1996, p. 356) e os apelos de Assunção para um o aumento real no preço da energia paraguaia ao mercado brasileiro (MENEZES, 1987, p. 127: DEBERNARDI, 1996) foram outros motivos para o esfriamento no relacionamento brasileiro–paraguaio.

Na década de 80, outros fatores, como a crise econômica, a redemocratização e o endurecimento brasileiro no combate às atividades ilegais na fronteira com o Paraguai, como narcotráfico, contrabando, roubo de carros, entre outros, - os quais envolviam diretamente altas autoridades paraguaias – fizeram com que as relações brasileiro-paraguaias perdessem o seufôlego”.

 

As relações Paraguai – Argentina: o afastamento pragmático.

 

Stroessner, logo após o golpe, reorientou a política externa paraguaia e iniciou um processo de distanciamento de Assunção em relação a Buenos Aires. Uma das suas primeiras medidas foi denunciar o Convênio da União Econômica entre a Argentina e o Paraguai, assinado em 1953 (MORAES, 2003, p 382-383). 

A diplomacia argentina não conseguiu obstruir o processo de aproximação entre Brasília e Assunção em virtude das inúmeras crises políticas e econômicas, oriundas das lutas entre peronistas e “anti-peronistas”. As autoridades de Buenos Aires agiram somente quando iniciaram as tratativas brasileiro-paraguaias, que redundaram para o Tratado de Itaipu.

As elites políticas argentinas temiam a ruptura do equilíbrio de poder no subsistema do Prata em favor do Brasil em detrimento da Argentina com a, conseqüente, “satelitização” do Paraguai (GUGLIAMELLI, 2007).

A estratégia argentina era impedir a construção da imensa barragem pela “multilateralização” da questão de Sete Quedas e pela introdução do princípio da consulta prévia. Sem oferecer ao Brasil e ao Paraguai nenhuma alternativa para solver a necessidade brasileira de energia e as demandas paraguaias de desenvolvimento. Assim, a Casa Rosada enfrentou uma forte oposição do Palácio López e do Palácio do Planalto, que passaram não apenas a coordenar a ação na arena internacional, bem como aceleraram as negociações sobre Itaipu (ESPOSITO NETO, 2008).

No seu segundo mandato, Juan Domingo Perón (1973 – 1974) alterou as diretrizes da política externa argentina. Ao invés da simples obstrução de Itaipu, Perón passou a cortejar as autoridades paraguaias e oferecer duas hidroelétricas (Yaciretá e Corpus), em termos similares ao acordo brasileiro-paraguaio de Itaipu. Perón buscava cindir a aliança entre Brasil-Paraguai, ao suscitar a questão da ciclagem, e impedir a construção de Itaipu por meio de questões técnicas, como a necessidade da harmonização do nível das cotas da lâmina d’água entre o projeto de Itaipu e de Corpus (PARDO & FRANKEL, 2004, p, 239).

A morte de Perón (1974) e a lutas entre as diversas facções argentinas pelo poder provocaram uma nova série de crises econômicas e políticas que impediram a continuidade de sua política. Agregou-se também às crises a disposição brasileira em negociar a partir de uma posição de força por meio da construção de Itaipu.

O fracasso do Processo de Reorganização Nacional (PRN), imposto pela ditadura argentina (1976 – 1983), a guerra das Falklands/Malvinas (1982), a crise econômica da década de 1980 e o  governo de Raul Afonsín (1983 – 1989) - que nutria um verdadeiro desprezo pelas ditaduras - fez com as relações argentino-paraguaias esfriassem e os projetos de cooperação fossem atrasados ou abortados, seja por falta de recursos, seja por mudança de prioridades.

 

A Queda de Stroessner

 

Ao lado do caráter repressivo, o sistema de legitimação do Stronatto basicamente dependia da atração de recursos externos para sustentar o crescimento paraguaio, por meio do investimento estatal em infraestrutura, e para manter lubrificadas as engrenagens da corrupção dos diversos grupos do Partido Colorado e dos militares.  Os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina eram os potenciais financiadores do Estado paraguaio.

Durante anos, a estratégia paraguaia funcionou muito bem. Contudo, as mudanças nas diretrizes da política externa norte-americana, as transformações no cenário internacional com o fim da Guerra Fria, a prolongada crise econômica e a mudança dos regimes políticos na América do Sul na década de 80 erodiram a base da política interna e externa paraguaia de Stroessner (FARINA, 2003, p. 329).

Assim, “El supremo” viu-se sem recursos para manter a sua base de apoio. Logo, os seusantigos aliados” e os tradicionais opositores iniciaram as maquinações contra Stroessner. Em 3 de fevereiro de 1989, as forças conspiradoras, lideradas pelo General Andrés Rodrigues, destituíram Alfredo Stroessner, o qual se refugiou na embaixada brasileira e asilou-se, até a sua morte, em território brasileiro.

 

 

Considerações Finais

 

O presente trabalho apresentou os principais eixos da política externa do ditador Alfredo Stroessner. Certamente, uma das ditaduras mais duradouras na América do Sul. Essa longevidade é explicada por uma estratégia, a qual articulava as políticas interna e externa do Paraguai.

O seu principal objetivo era conseguir os recursos necessários para o desenvolvimento do país e para manter em funcionamento a “máquina de corrupção” paraguaia.

Os três grandes eixos da inserção internacional paraguaia eram o alinhamento com os Estados Unidos, a aproximação com o Brasil e o afastamento pragmático da Argentina. São considerados êxitos desse período grande crescimento econômico e a construção de grandes obras de infraestrutura no Paraguai, como Itaipu, Yaciretá, rodovias, ferrovias e aeroportos, dentre outros.

No entanto, Stroessner não conseguiu se adaptar as mudanças na política, na economia e nos valores da comunidade internacional da década de 80, o que resultou no isolamento internacional do Paraguai e a perda de prestígio do ditador. Os “velhos” e “novos” conspiradores encontraram então um terreno fértil para depor Stroessner, velho, carcomido e fraco, como a sua ditadura.

Os resquícios do Stronatto permaneceram durante muitos anos, basta ver a perenidade da máquina política do Partido Colorado. Somente agora com o governo de Fernando Lugo, é que se inicia a uma nova etapa na política paraguaia.

 

 

ReferênciaS Bibliográficas

 

BARBOZA, Mario Gibson. Na diplomacia o traço todo da vida. Rio de Janeiro. Editora Record, 1992.

BOETTNER, Luis M. R. Memórias: sessenta y seis años de vida internacional. Paraguay, Assunción. Intercontinental Editora. 2004.

CHIAVENATO, Julio José. Stroessner: Retrato de uma ditadura. São Paulo. Editora Brasiliense.1980.

DEBERNARDI, Enzo. Apuntes para la Historia de Itaipu. Assunción, Paraguai, Editorial Gráfica Contunua S. A. 1996.

ESPÓSITO NETO, Tomaz. A política externa brasileira frente ao conflito das Falklands/Malvinas (1982). Dissertação de mestrado. São Paulo. PUC-SP. 2006.

ESPÓSITO NETO, Tomaz. Itaipu e as águas da discórdia. Niterói. ABED. 2008

GOIRIS, Fábio Aníbal Jará. Autoritarismo e Democracia no Paraguai Contemporâneo. Curitiba. Ed. UFPR.  2000.

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[i] Funcionários públicos e membros do Partido Colorado que trabalhavam à paisana como delatores de possíveis oposicionistas


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.