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Asunto:NoticiasdelCeHu 1016/11 - Fronteira, território e espaço no livr o “O Estrangeiro” de Albert Camus
Fecha:Lunes, 10 de Octubre, 2011  01:54:44 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 1016/11
 

Fronteira, território e espaço no livro “O Estrangeiro” de Albert Camus

 

Francielle Bonfim Beraldi

Graduada em Geografia - Universidade Estadual Paulista Pres. Prudente-SP

Mestranda em Geografia na Universidade Federal da Grande Dourados- MS

Professora de Educação Básica na Rede Municipal de Presidente Prudente-SP

 

 

Resumo

O propósito deste trabalho reside em buscar uma aproximação da ciência com as Artes, tentando recuperar esta relação que em algum momento, em nome da racionalização da Ciência, se perdeu, e deixou de legar à Geografia grande sensibilidade e visão, para uma ciência que carece de um olhar sensível ao espaço que se propõe a estudar. No decorrer deste texto minha messe será a de buscar um elo entre as categorias geográficas e o espaço criado por Albert Camus no livro “O estrangeiro”, escrito em 1942, e que é uma obra-prima literária, transformada em filme homônimo em 1967 pelo diretor Luchino Visconti.  Este trabalho é um ensaio do texto que será produzido em minha dissertação de mestrado pela Universidade Federal da Grande Dourados, no município de Dourados- MS, que consiste em analisar o conteúdo geográfico em obras literárias. Na dissertação especificamente, os textos analisados serão aqueles que fazem parte do rol de leituras de professores nas séries iniciais do Ensino Fundamental, portanto, Literatura Infantil. Voltando ao presente texto, o que nos chama atenção nesta obra de Camus, a frieza, a insensibilidade de Mersault, o personagem principal, é muitas vezes a frieza e descaso com que observamos o outro, o diferente e sobre eles vamos fortalecendo e criando e recriando fronteiras. Os conflitos que ocorrem no livro são também conflitos que fazem parte de nossas vivências e lidas cotidianas, pois há sempre um esforço em reconhecer no território aquilo que nos pertence, como também o outro em que se deve manter distância. O árabe do livro poderia ser qualquer um, qualquer coisa, que levou Mersault a se desterritorializar, nos termos deleuzianos e guattarianos, e mais ainda, nada há de mais geográfico do que a relação de um homem com o seu espaço vivido e com o outro que compartilha este mesmo espaço. E ainda, quando Gilles Deleuze e Guattarri perguntam no inicio do livro Mil Platôs, o que é uma corpo sem órgãos de um livro, estamos a procurar uma resposta. Sendo o corpo sem órgãos um ser dotado de potência criadora, tentamos imprimir o caráter geográfico nesta obra de Camus, enquanto força dotada de uma geograficidade enorme, não somente por tratar (subliminarmente), de uma rixa antiga entre árabes e franceses em Argel, mas também por trazer sentimentos e sensações que remetem a conceitos eminentemente geográficos. Este trabalho é então relacionado à Literatura, à Geografia que se fundem, se relacionam para a constituição de uma linguagem geográfica, ainda mais abrangente que a própria Geografia porque é movimento, é o conceito “andando” como um flaneaur por entre a sociedade que os geógrafos buscam compreender.

 

 

Abstract

 

The purpose of this paper is precisely to seek a rapprochement of science and the arts, trying to regain the relationship that at some point, on behalf of the rationalization of Science, has been lost, and left to bequeath to Geography great sensitivity and vision for a science that requires a sensitive eye to the space that aims to examine. Throughout this text my harvest will be to seek a link between categories and geographical space created by Albert Camus in his book "The Stranger," written in 1942, and that is a literary masterpiece, made into a movie titled in 1967 by director Luchino Visconti. This work is a test text to be produced in my master's thesis,in  Federal University of Grande Dourados, Dourados-MS, which involves analyzing the geographic content in literary works. In the dissertation specifically, the texts analyzed are those that are on the list of readings for teachers in early grades of elementary school, so Children's Literature. Returning to the present text, which strikes us in this work of Camus, the coldness, insensitivity of Mersault, the main character, is often the coldness and indifference with which we look at the other, the different about them and we are strengthening and creating and recreating borders. The conflicts that occur in the book are also conflicts that are part of our everyday experiences and read, because there is always an effort to recognize that the territory belongs to us, but also the one where you should stay away. The Arabic of the book could be anyone, anything, that led to Mersault deterritorialise under Deleuzian and Guattarian and further, there is nothing more than the geographical relationship of one man and his living space and with the other sharing the same space. And yet, as Gilles Deleuze and Guattarri ask at the beginning of the book A Thousand Plateaus, which is a body without organs of a book, we are seeking an answer. As the body without organs is a being endowed with creative power, we try to print the geographical character in this work of Camus, as a force with enormous geographical experiences, not only by treating (subliminal) in an ancient feud between Arabs and Frenchmen in Algiers, but also to bring feelings and sensations that refer to spatial concepts eminently. This work is related to the Literature, Geography merging relate to the formation of a spatial language, even more comprehensive than the very geography because it is movement, is the concept of "walking" as a flaneaur through the company making the Geographers seek to understand.

 

Résumé

Le but de cet article est précisément de chercher un rapprochement de la science et les arts, en essayant de retrouver la relation qui à un moment donné, au nom de la rationalisation de la science, a été perdu, et à gauche de léguer à la géographie d'une grande sensibilité et la vision d'une science qui nécessite un regard sensible à l'espace qui vise à examiner. Tout au long de ce texte ma récolte sera de rechercher un lien entre les catégories et dans l'espace géographique, créé par Albert Camus dans son livre "L´étranger ", écrite en 1942, et qui est un chef-d'œuvre littéraire, fait un film intitulé en 1967 par le directeur Luchino Visconti. Ce travail est un texte de test destinés à servir en ma thèse de maîtrise, Université Fédérale de Grande Dourados, Dourados-MS, qui consiste à analyser le contenu géographique sur les œuvres littéraires. Dans le mémoire spécifiquement, les textes analysés sont ceux qui sont sur la liste des lectures pour les enseignants dans les premières années du primaire, afin de littérature de jeunesse. Retour au texte actuel, qui nous frappe dans cette œuvre de Camus, la froideur, l'insensibilité de Meursault, le personnage principal, est souvent la froideur et l'indifférence avec laquelle on regarde l'autre, le différent à leur sujet et nous sommes le renforcement et la création et la de recréer des frontières. Les conflits qui se produisent dans le livre sont aussi les conflits qui font partie de nos expériences quotidiennes et de lire, parce qu'il ya toujours un effort pour reconnaître que le territoire qui nous appartient, mais aussi celui où vous devez rester à l'écart. L'arabe du livre pourrait être n'importe qui, n'importe quoi, qui a conduit à déterritorialiser Mersault sous deleuzienne et Guattarian et de plus, il n'y a rien de plus que le lien géographique entre un homme et son espace de vie et de l'autre partagent le même espace. Et pourtant, comme Gilles Deleuze et Guattarri poser au début du livre Mille Plateaux, qui est un corps sans organes d'un livre, nous cherchons une réponse. Comme le corps sans organes est un être doté du pouvoir créateur, nous essayons d'imprimer le caractère géographique dans cette œuvre de Camus, comme une force avec d'énormes expériences géographiques, non seulement par le traitement (subliminal) dans un ancien fief entre les Arabes et les Français à Alger, mais également à provoquer des émotions et des sensations qui font référence à des concepts spatiaux éminemment. Ce travail est lié à la littérature, la géographie fusion se rapportent à la formation d'un langage spatial, encore plus complète que la géographie même parce que c'est le mouvement, est le concept de «marcher» comme flaneaur par la société de la Les géographes cherchent à comprendre.

 

Introdução

            A Geografia, enquanto ciência que trata do espaço vivido, muitas vezes percorreu em sua trajetória, o caminho que primava pela busca da verdade absoluta como na transição da mitologia para a ciência moderna, da intuição para a razão. O que se inaugura em Galileu Galilei, chega a Descartes, Kant, e desemboca em autores clássicos e fundadores da Geografia Moderna como Ratzel, Humboldt, Ritter, Brun, enfim, levaram a cabo a ciência como fragmentação do saber e da natureza e sociedade em esferas diferentes de análise.

            Com o advento de novas tecnologias, dos encurtamentos das distâncias entre os países, e da tão proclamada “globalização”, a relação entre a ciência e a realidade sofreu um impacto muito grande quando o cotidiano nem sempre comprovava aquilo que a ciência dizia sobre ele.

Com isto a aproximação da ciência com as Artes, com a pintura, a fotografia, a Literatura, pode ser uma alternativa não para ordenar o caos, mas para ver nele sentidos para a existência do homem naquilo que ele produz. Citando Deleuze e Guattari, (1995 p. 19), temos a interessante colocação acerca do livro, objeto que será analisado neste trabalho:

 O livro não é a imagem do mundo segundo uma crença enraizada. Ele faz rizoma com o mundo, há evolução a-paralela do livro e do mundo, o livro assegura a desterritorialização do mundo, mas o mundo opera uma reterritorialização do livro, que se desterritorializa por sua vez em si mesmo no mundo (se ele é disto capaz e se ele pode).

 

Partindo para a análise do livro, este artigo inicia-se com a tarefa de buscar fugir de clichês, o que parece ser uma dura empreita ao tratar de um clássico tal qual o livro “O estrangeiro” de Albert Camus, escrito em 1957. O referido autor desta obra que é ambientada na cidade de Argel, nasceu na Aldeia de Mondovi, na Argélia Francesa e segundo Moacir Scliar no prefácio de O direito e o Avesso, outro livro de Camus, era este autor de origem pobre e enfrentou sérios problemas com a tuberculose desde os 17 anos.

No entanto, em texto introdutório ao livro O Direito e o Avesso, Camus deixa claro que a pobreza e a miséria não eram para ele desgraças e sim que havia uma luz que espalhava nelas suas riquezas. Camus, apesar de ter morrido jovem, aos 28 anos em um acidente automobilístico, deixou-nos tão cara obra que tomo a licença de utilizar para tratar de fronteiras, espaços, territórios, assim no plural, com o por que se explicitará adiante. Por ora vamos à discussão de “O estrangeiro”.

Desde o inicio o autor já lança um dos fatos capitais para o decorrer da história de Mersault, o personagem principal,  ao relatar  que sua mãe morreu. Ora, este seria apenas um acontecimento fatídico não fosse todo o desdobramento que se segue a partir de então. A mãe morreu e as convenções que demandam deste acontecimento, a morte, deveriam ser por ele seguidas e ressentidas.

Este momento, a morte da mãe, constituiu-se uma fronteira na vida de Meursault, se considerarmos as palavras de Heidgger apud Bhabha, (1998 p. 17), que argui que “uma fronteira não é ponto onde algo termina, mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente. E neste contexto, de constituição de fronteira que se vai Mersault ao enterro da mãe.

Neste momento, de contemplação da morte ele  demonstra pouco interesse pela situação na qual se vê colocado, que seria a de sentir profundamente a perda da mãe que, distante de seu convívio, estava desde que foi por ele colocada em  um asilo, em um local relativamente distante. Mas distante quanto, em relação a quê?

No velório estavam presentes o diretor do asilo, o velho porteiro e uma enfermeira, que como Mersault pode perceber era ela árabe. Este foi o primeiro ponto em que se faz menção a árabes no livro. Do enterro de sua mãe, Mersault retorna à sua cidade, deita-se e deleita-se com a namorada nas areias de uma praia argelina, vai ter com seus amigos, e ao conhecer Raimundo está prestes a ver se desterritorializar por um fato que envolve imigração, diferença, intolerância e violência.

Raimundo Sintés, seu vizinho do segundo andar tem um caso com uma mulher árabe que andava a traí-lo, o que fez com que Raimundo viesse a espancá-la e a  planejar uma vingança que envolvia Mersault. Deveria ele escrever uma carta para ela, já que Raimundo não se achava capaz de faze-lo, e Mersault o faz como relata no trecho que se segue:

Escrevi-a um pouco ao acaso, mas apliquei-me o mais possível  para contentar Raimundo, pois não tinha razão nenhuma para não o contentar. Depois li a carta em voz alta.

 

            A seguir ao executar seu plano a polícia surpreende Raimundo a bater na amante árabe, que decerto causa a ira de seus familiares, os quais surpreenderão Mersault, Maria sua namorada, Raimundo e um terceiro amigo, de nome Masson em uma praia distante. O desfecho desta feita com os árabes resulta em uma briga onde os Árabes ferem Raimundo. Ao voltar à praia, Mersault, num momento de delírio, sob um inebriante sol dispara quatro tiros em um dos Árabes e acaba matando-o.

 

Entre si mesmo e um “outro”: a apreensão de fronteiras e territórios a partir da diferença

 

Neste ponto inicia-se o fantástico, o absurdo desta história. Mersault é levado à delegacia, mas surpreendentemente toda a discussão das autoridades policiais gira em torno de sua frieza ao velar e enterrar sua mãe. Ora, como pudera tal sujeito demonstrar-se tão frio diante do insepulto corpo de sua mãe, como diante do enterro de sua mãe permanece frio e incapaz de exprimir tristeza ou sofrimento, apesar de dizer que gostava dela.

Mersault, ao longo do interrogatório e do julgamento demonstra sua angústia por não ser julgado por aquilo que ele julgava deveras ser um crime grave, que era o homicídio atentado por ele ao Árabe desconhecido.

O meu caso era delicado, mas se eu tivesse confiança nele, não duvidava do êxito final. Agradeci-lhe e ele disse-me: "Entremos no fundo da questão". Sentou-se na cama e explicou-me que tinham andado a investigar a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu "dera provas de insensibilidade" no dia do enterro.

 

            O desfecho desta história, inconclusivo e conclusivo acima de tudo, deixa a crer uma condenação de Mersault pelo que, fora condenado à execução em praça pública em nome do povo francês. E nada muito além deste desfecho é relatado no livro, a pena é conhecida pelo leitor mas não sabemos ao certo quando ela ocorrerá e se de fato ocorre.

            A partir deste momento podemos empreender a nossa análise começando por uma afirmação feita por Mersault após sua condenação onde ele diz :

O fato de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite, o fato de que podia ter sido outra completamente diferente, de que fora resolvida por homens que mudam de roupa de baixo e de que fora dada em nome de uma noção tão imprecisa como o povo francês (ou alemão, ou chinês), tudo isto me parecia tirar seriedade a uma decisão tão grave. Era obrigado a reconhecer, no entanto que, a partir do instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios como a presença desta parede ao longo da qual eu me estendia.

             

A questão do lugar em que fora proferida a sentença, as circunstâncias em que ela ocorreu foi, muito mais importante do que o crime cometido contra o outro. Afinal, quem era este outro. Apesar de Mersault colocar-se ele mesmo enquanto outro,  estrangeiro em seu próprio meio, também paradoxalmente há o outro, que consiste na figura do Árabe.

            Para entendermos a figura do árabe para Mersault é preciso conhecermos um pouco da história de Argel, capital da Argélia. A história da Argélia, país que fica ao Norte da África, na região de Magrebe, é marcada por conflitos e tensões com a França que, vê nos imigrantes argelinos uma ameaça aos seus empregos e à sua soberania nacional. Embora esta não tenha sido a visão de outrora, quando a França carecia da mão-de-obra barata argelina, esta tem sido a postura hodierna com relação à presença de argelinos em território francês, ainda que a migração de argelinos para o Canadá seja muito maior do que para a França.[1]

            A cidade de onde fala Mersault é justamente Argel, local de conflitos internos porque, apesar das lutas da Argélia por se tornar independente da França, segundo Houarani, 2006, as cidades de Argel e Orã eram mais francesas do que argelinas, o que provavelmente refletia nestas tensões internas entre os árabes e aqueles que Houarani, 2006 chama de argelinos educados. Um pouco da história da independência da Argélia podemos encontrar em Zanottelli, (2005 p. 56), num livro de entrevistas com Yves Lacoste, em que ele explica que:

A Argélia era como o Marrocos  e a Tunísia, uma colônia francesa. Nessa época os movimentos independentistas, eram fortes e a luta pela independência desses países se consolidava. A Argélia, pelo fato de ser a mais importante colônia francesa da África , contava com uma forte presença de franceses em seu território, sobretudo de grandes proprietários agrícolas. Em função do que foi descrito, a descolonização  do país foi a mais complicada em razão da resistência dos franceses que ali viviam havia várias décadas. Por isso mesmo a independência da Argélia somente foi consumada em 1962. 

                E no centro desta resistência está boa parte da população de Argel, onde na região montanhosa a leste da capital vive a maior parte da população francesa da Argélia. E como se percebe, Mersault era francês, o que fica claro quando ele trata o árabe não como um dos seus, mas como um outro.  

            Talvez, neste imbróglio tenha se dado esta escolha por retratar o outro, o assassinado, como um árabe, para tratar de forma tal que, ao mesmo tempo em que Merseault não consegue enquadrar-se, também relata que o outro está também deslocado, faz-se estrangeiro a si mesmo e retrata a estrangeirice do outro. 

            A questão da fronteira, enquanto discussão geográfica é perceptível no livro de Camus, claramente, quando Mersault cria um distanciamento em relação ao outro, que perpassa a questão da distância. O árabe vive em seu território, mas também é um estrangeiro, entre eles há também uma fronteira.

Ao buscarmos em Martins, (1997 p. 12), uma definição de fronteira, temos a brilhante construção do autor:

É na fronteira que se pode observar melhor como as sociedades se formam, se desorganizam ou se reproduzem. É lá que melhor se vê quais são as concepções que asseguram esses processos e lhe dão sentidos. Na fronteira , o homem não se encontra- se desencontra.

            Assim, a fronteira entre Mersault e o árabe vai além da barreira física, vai além das diferenças religiosas, mas ela se interpõe na relação de forma tal que, matar o outro nada mais importa. Ainda que Mersault se mostre indignado por ser julgado por mostrar frieza no velório de sua mãe, a corte de homens franceses que o julga, em nome da vaga e imprecisa noção de povo francês também desconsideram o árabe, também mantêm a fronteira em que o outro não existe, a não ser no momento da violência gratuita em que a eliminação dele se dera.

             Quando analisamos a questão do território, a constituição do espaço geográfico na obra de Camus fica ainda mais claro. O território, neste trabalho é visto com uma  relação intrínseca  com o espaço,  segundo Raffestin, (1993 p. 143):

É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator “territorializa” o espaço. [...] O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder.

           

            A questão se torna mais interessante na medida em que analisamos o contexto da capital Argel com relação ao povo árabe. Apesar de ser capital de um país na África, com a descolonização os franceses que lá viviam, e mesmo aqueles que não eram franceses, mas se identificavam com os colonizadores, optaram por incorporarem em si o que em tese seria o outro, porque entendiam que eram mais cosmopolitas do que o restante da Argélia.

Este sentimento de  constituição de barreiras com relação ao outro fica bastante claro nas falas de Raimundo, Mersault, Maria, quando estes sempre remetem ao outro, ao árabe como pessoa fora de seu convívio, da mesma forma quando nos remetemos aos membros da comunidade judaica como “judeus”, aos que confessam a Alá como “muçulmanos”, e como não chamamos (ao menos não habitualmente no Brasil de maioria católica)[2], àqueles que professam o catolicismo de “católico”, para se referir à pessoa.

Esta forma de reforçar a estrangeirice do outro em seu meio, além de ser uma afirmação de si é também a afirmação do outro, como não pertencente e não compartilhante daquilo que se tem a oferecer, tanto em bens materiais, quanto (i) materiais, por assim dizer. Os territórios físicos, palpáveis demonstram de certa forma esta cisão de idéias e de fronteiras quando a maior parte da população francesa, por exemplo, se aglomera na capital Argel, constituindo uma parte “francesa” da Argélia, e tratando de forma pejorativa aos seus próprios.

A coetaneidade de tempos, nas palavras de Doreen Massey, convive também no contexto da capital argelina, onde há a convivência de Mersault, que não demonstra tristeza à morte da mãe, e de outro lado, há o irmão árabe da amante de Raimundo, que deseja ver vingada a honra da irmã. Ainda, da prisão de Mersault ocorrem tempos paralelos, na medida em que o tempo passa a ter uma outra conotação para ele, que passa a se adaptar a uma outra noção temporal, quando ele afirma que:

Todo o problema, repito-o, estava em matar o tempo. Por último, acabei por já não me massar, a partir do instante em que aprendi a recordar. Punha-me às vezes a pensar no meu quarto e, em imaginação, partia de um canto e dava a volta ao quarto, enumerando mentalmente tudo o que encontrava pelo caminho.

 

            A Geografia, quando se propõe a discutir as simultaneidades de estórias até aqui, citando novamente Doreen Massey está dando novas configurações ao espaço e tornando a geografia uma ciência em movimento, capaz de analisar a dimensão que o tempo tem para o espaço, sem perder de vista sua matéria-prima, que é a relação entre o homem e o espaço, vendo o tempo como elemento do espaço, não tendo a linearidade como base de suas análises.

Proposições finais

            Muitos aspectos poderiam ser trabalhados da obra de Albert Camus, sem deixar de lado o objetivo central deste trabalho, que consistia em discutir a relação entre Geografia e Literatura. No entanto, optamos por trabalhar os aspectos de território, migração e fronteira, que são temas caros à geografia e não versam necessariamente sobre aspectos da paisagem geográfica.

Este exercício é importante para nos estimular a pensar na constituição de espaços geográficos nos textos da literatura, sem a preocupação em encontrar aquilo que seriam elementos mais típicos da geografia, geralmente relacionados à elementos físicos como hidrografia, relevo, clima.

Todos esses elementos claramente fazem parte do enredo, como quando Mersault descreve a praia, em como estava o dia quando saiu com Maria, quando descreve a paisagem. Mas é preciso ir além. Estes elementos da paisagem estão presentes mas são pano de fundo para algo maior, que são as relações que se estabelecem entre as pessoas e que geram fenômenos geográficos.

E este trabalho que será tentado ao longo do meu trabalho dissertativo. Trazer a Literatura para as aulas de Geografia, como forma de contextualizar, de experimentar os espaços construídos pelos autores numa perspectiva que aborde as categorias geográficas de forma interrelacionada e não mais de forma estanque e mecaniscista, como a ciência por um longo momento pretendeu fazer.

A Geografia, que se quer mais próxima do cotidiano, mais próxima da realidade não deve se privar do contato com a Arte, com a Literatura, ou então, nós geógrafos perderemos grandes oportunidades de constructos teóricos importantes e relacionais, quanto às categorias geográficas e quanto a elementos suleadores da geografia, como fenômenos migratórios, territoriais, fronteiriços, amplamente relatados na literatura brasileira e mundial.

 

Referências

CAMUS, Albert. O estrangeiro. São Paulo: Record: 1999.

DELEUZE, G. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pal Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

_________ G & GUATTARI F. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1 . Rio de Janeiro : Editora 34, 1995

FERRAZ, Cláudio Benito Oliveira . O ensino de Geografia para além da geometrização do espaço: apontamentos entre o redondo e as retas. Caderno Prudentino de Geografia, Presidente Prudente, v. 23, p. 38-50, 2001

HOURANI. Albert. Uma história dos povos árabes. Tradução Marcos Santarrita. Companhia das Letras. São Paulo: 2006 p.483 – 487

 

MARTINS, José de Souza. Fronteira: a Degradação do Outro nos confins do humano. São Paulo: Hucitec, 1997

MASSEY. Pelo espaço: por uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

NIETZSCHE. F. Escritos sobre Educação. Tradução de Noeli Correia de Melo Sobrinho. São Paulo: Loyola, 2004.

SANTOS, D. A reinvenção do espaço: diálogos em torno da construção do significado de uma categoria. São Paulo: UNESP, 2002.

RAFFESTIN, Claude. O que é o Território? In: Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993. pp.144-220.

 

ZANOTELLI. Cláudio Luís. Yves Lacoste: Entrevistas. Transcrição de Florence Baltz Zanotelli. São Paulo: Annablume: 2005

 

Sites

http://historia.abril.com.br/guerra/argelia-x-franca-relacoes-explosivas-435070.shtml

http://www2.mre.gov.br/deaf/daf_3/argelia2.htm      


[1] Informação retirada do site: http://historia.abril.com.br/guerra/argelia-x-franca-relacoes-explosivas-435070.shtm

[2] Segundo o IBGE, no último censo de 2000, a estatística  de brasileiros católicos é de 73,08%, portanto a maioria da população brasileira.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.  

 






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