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Asunto:NoticiasdelCeHu 743/09 - CAMPESINATO, TURISMO E EXCLUSÃO SOCIAL
Fecha:Lunes, 14 de Diciembre, 2009  10:25:17 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 743/09

 

CAMPESINATO, TURISMO E EXCLUSÃO SOCIAL

 

Vilma Terezinha de Araújo Lima[1]

 

 

Resumo

Guaramiranga é uma das cidades de maior altitude do Estado do Ceará com 865,24m. Numa temperatura média que varia entre a mínima de 17°C e a máxima de 220C. A paisagem serrana se destaca pelo verde abundante, em contraste com as áreas semi-áridas do seu entorno. Nas duas últimas décadas, percebe-se a refuncionalização do município; enquanto na década de 70 tinha como referência a produção de café, hoje aparece como principal destino turístico do Estado em área serrana. A “invenção” de eventos como festival de Jazz & Blues, festival de vinho, festival de foundue, entre

outros apoiados pelo poder público, têm contribuído para atrair um maior número de

visitantes e aumentando a especulação imobiliária, transformando o modo de vida da

população local.

 

Abstract

Guaramiranga is one of the bigger cities on the State of Ceará with absolute elevation

865,24 m, the average temperature varies between the minim of 17°C and the maximum of 22°C. The mountain range landscape distinguished for the abundant green, in contrast with the half-barren areas around that landscape. In the last two decades, it was perceived the advance of the city, in the 70th decade the reference was the production of coffee, today this area appears as main tourist destination. The events “created” as Jazz & Blues festival, wine festival, foundue festival among others, supported for the Government has contributed to attract a bigger number of tourist, valuing the property and changing the life of the local population.

 

 

 

CAMPESINATO, TURISMO E EXCLUSÃO SOCIAL

 

Entre os que - cidadãos, intelectuais, certamente historiadores ou sociólogos – passam por uma de nossas aldeias, descobrem a sua fisionomia original ou indeterminada e assustam-se com a sua monotonia ou admiram o seu “pitoresco” quantos sabem que ela não se reduz a uma confusa mescla acidental de homens, de animais e de coisas e que seu exame revela uma organização complexa, uma “estrutura”? (LEFEBVRE; 1981: 144)

 

 

 

A crescente globalização do capitalismo forçou a construção de uma cultura mundializada, mas que não realizou a homogeneização dos modos de vida e suas manifestações, ao contrário, alimentou a contradição e a complementaridade entre os mesmos.

As diferentes formas de dominação, de apropriação dos bens materiais e simbólicos, aprofundaram desigualdades sociais entre grupos e nações, ao mesmo tempo que se multiplicaram as necessidades. Novos espaços de negociação se abriram entre as classes sociais e grupos, entre sociedade civil e Estado, novas formas de exclusão se constituíram. Identidades e alteridades passaram a desenhar cenários sociais oferecendo resistências diversificadas ao modelo uniforme de desenvolvimento.

Essas mudanças ocorridas nas relações entre os camponeses e a sociedade, o Estado ou mesmo o mercado, alteram suas relações com a terra. Os conteúdos étnicos, a preservação ambiental, o novo espaço dos assentamentos, exigem redefinir os laços com a terra, uma nova territorialidade. Inspira também um novo pertencimento, onde ser camponês não é apenas “estar dentro” de um projeto ou movimento, mas se voltar para fora. Conquistar novos espaços para se representarem como parte diferenciada da sociedade no sentido de oposição complementar.

Na unidade de produção camponesa, a dinâmica do processo de trabalho e a organização da produção dependem não só das pressões externas, da sociedade mais ampla, como dos arranjos internos que é capaz de promover. O camponês não se vê sozinho com sua família, mas sempre se orienta dentro de uma rede de relações de parentesco, de vizinhança, de territorialidade e alianças políticas, que o permite definir-se enquanto grupo. Faz parte de um universo de valores que o inscreve como classe específica dentro de uma ordem social mais ampla.

A expansão de uma economia de mercado, incluindo os bens apropriados pelo turismo, como a cultura e a natureza, estabeleceu uma hierarquia social de acesso aos bens, levando um grande número de comunidades à situação de privação, que passou a ser ditada pela apropriação privada dos bens - gerando escassez a um grande número da população rural do país.

 

 

O município de Guaramiranga e o turismo

 

Guaramiranga localiza-se na Macrorregião Norte-Cearense, mais precisamente na Microrregião de Baturité, a 4º15’48” de latitude sul e 38o55’59” longitude oeste de Greenwich. Tem uma área de 95,00km2, é uma das cidades de maior altitude do estado do Ceará com 865m. A temperatura média varia entre a mínima de 17°C e a máxima de 220C. A população, conforme censo do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 2000 era de 5.712 habitantes, sendo 2.331 residentes na área urbana (40,8%) e 3.381 na área rural (59,2%), com uma densidade demográfica de 60,12 hab/km2. (IBGE, 2000).

Nas duas últimas décadas ocorreram mudanças significativas no município de Guaramiranga; pois a região de Baturité da qual faz parte, historicamente era concebida como importante fornecedora de frutas e legumes para a capital; cana-de-açúcar (transformada em rapadura) para os “sertões”[2] e café para exportação. A partir da década de 1970, houve uma estagnação na economia com a decadência do café, os problemas ambientais intensificados e a nítida exaustão dos solos.

Mesmo sem ter valor de mercado as marcas deixadas pelo domínio do café são evidentes na paisagem e nas lembranças dos mais velhos.

Arrancaram quase todo o café, foi muito triste, era uma coisa que gerava renda uma vez por ano, mas agente já tinha certeza que tinha como se manter. A primeira apanha que era apanha de cima aí depois passava a apanhar o que caia no chão era um bom dinheirinho. Hoje poucas pessoas ainda trabalham com o café. (agricultora e artesã -  Pé de Ladeira).

Assim, no final da década de 80, empresários locais[3], que viam suas terras improdutivas e alguns moradores ambientalistas, formaram um grupo que reivindicavam a criação da Área de Proteção Ambiental de Baturité, que foi instituída através do Decreto Estadual N0 20.956 de 18 de setembro de 1990.

No entanto, as taxas de crescimento da região de Baturité se apresentavam praticamente inalteradas. As terras improdutivas, foram colocadas à venda e compradas por investidores que usavam a serra para lazer, descanso e tratamento de saúde.

A atividade turística paulatinamente foi sendo implementada como uma alternativa encontrada pelos empresários e governantes na esfera local e estadual para buscar o crescimento econômico e o desenvolvimento territorial.

A paisagem serrana se destaca pelo verde abundante, em contraste com as áreas semi-áridas do seu entorno. Assim, características naturais, temperaturas amenas, presença de cachoeiras, belas paisagens e o fato de possuir a maior oferta de leitos da região contribuem de forma significativa para que o município tenha sido escolhido como sendo uma das áreas de lazer, pelas classes média e alta de Fortaleza.

Nas últimas décadas, diversos festivais e mostras culturais têm se apresentado nos palcos de Guaramiranga, sendo os principais: Festival de Jazz e Blues, Festival de Fondue, Festival de Gastronomia, Festival de Vinhos, entre outros apoiados pelo poder público. Eles têm contribuído para atrair um maior número de visitantes, aumentando a especulação imobiliária.

 Os que compraram a terra para lazer, passam a usufruir da área preservada – o que contribui para a agregação de valor à sua propriedade –, enquanto a população local fica impedida do acesso à terra, uma vez que se insere nesse processo apenas como mão-de-obra necessária para o funcionamento da atividade ou ainda utilizando-se da infra-estrutura implantada para viabilizar a expansão do turismo local, mas é claro que o desenvolvimento territorial não atinge a toda sociedade local de uma maneira benéfica e justa, assim, poucos são realmente beneficiados enquanto a maioria é incluída marginalmente nesse processo. Dessa forma Martins(2002,p.21) enfatiza:

A exclusão moderna é um problema social porque abrange a todos: a uns porque os priva do básico para viver com dignidade, como cidadãos; a outros porque lhes impõe o terror da incerteza quanto ao próprio destino e ao destino dos filhos e dos próximos. A verdadeira exclusão está na desumanização própria da sociedade contemporânea, que ou nos torna panfletários na mentalidade ou nos torna indiferentes em relação aos seus indícios visíveis no sorriso pálido dos que não tem um teto, não têm trabalho e, sobretudo, não têm esperança.

A maior parte dos visitantes de Guaramiranga vem da capital do estado Fortaleza, cidade com aproximadamente dois milhões e meio de habitantes e que enfrenta muitos problemas sociais com alto índice de desigualdade social. Dessa forma as mudanças ocorridas no município nem sempre são percebidas pelos visitantes que buscam no local o lazer.

Com o turismo a área foi valorizada, os sítios se transformaram em área de lazer, dispensando os antigos moradores. Sem muitas alternativas de sobrevivência e diante das ofertas tentadoras os moradores acabam vendendo suas terras. Como mostra a fala a seguir:

Tá ficando dum jeito que se eu quiser vender minha casa eu vendo e vou comprar uma casa muito boa em Fortaleza, mas aí nós vamos vender nossa dignidade. Aqui é desse jeito, se eu vender minha casa nunca mais eu vou ter o gosto de voltar pra cá, porque a especulação imobiliária é muito grande. Já ofereceram R$ 250.000,00 na minha casa de 35m por 15m. Os que já saíram daqui morrem de vontade de voltar, mas como? Se sair é pra nunca mais voltar. (Aposentada e comerciante no centro de artesanato)

O município com aproximadamente seis mil habitantes tem apenas um distrito, Pernambuquinho e várias localidades, a maioria formada por grupos familiares que trabalhavam na colheita do café os que não conseguem comprar a moradia migram para a capital. Para Andrade (1995, p. 10), ao mesmo tempo em que o urbano se expande no meio rural, este se estende também na periferia das cidades, passando a formar grandes arruados, conjunto de casebres para pessoas de baixa renda, em áreas em que subsistem algumas atividades agrícolas, beneficiadas com a proximidade do mercado urbano. Como exemplifica uma das entrevistadas:

Esse é um sistema de expulsão indireta do homem do campo. Tem colônias de Guaramiranguenses no Edson Queirós, no Barroso, na Messejana[4] eram agricultores e foram prá lá. Dá dó, quando vejo pessoas que foram criadas direto em contato com a natureza produzindo pra sobreviver. Quando chego em Fortaleza e vejo aquele povo que não pode mais sentar nas calçadas, as portas com cadeado isso me dói demais. Quando vejo meus irmãos e meus filhos que gostariam de estar aqui. A nossa situação é muito dolorosa a historia do nosso povo é muito dolorosa. (Aposentada, comerciante no centro de artesanato).

Percebe-se, então, que a imagem do município que está se construindo a partir do foco do turismo e dos interesses da especulação imobiliária se torna superficial e com muitas contradições. A fala a seguir esclarece que:

Isso aqui é bom de acordo com sua criatividade com sua intuição que ai você transforma aquilo que poderia ser ruim, como é o meu caso né. Muitas pessoas desistiram de lutar aqui porque viram que o turismo pra eles não é uma saída porque eles foram pessoas que se firmaram na agricultura e quando a atividade passou a ser turismo eles ficaram desnorteado sem saber encontrar outros caminhos pra seguir. Quem só sabia trabalhar com horta com roçado ficou perdido. Agora aqui é uma APA não pode desmatar. Pra mim eu acho que foi bom porque comecei mexer com retalho comecei fazer aproveitamento de fruta fazendo poupa, xarope, doce, café ecológico tudo isso eu sei fazer. (Aposentada e comerciante no centro de artesanato)

 

A comunidade Linha da Serra: os que vêm de fora

 

A Linha da Serra é na verdade a cimeira da serra com uma altitude média de 900 m, nesse local ocorre a separação entre as áreas mais elevadas como é o caso do Pico Alto com 1.114m de altitude e as mais baixas em direção ao Sertão. Localizada a 12 km da sede fica no limite entre o platô úmido e a vertente ocidental, apresentando uma excelente vista dos sertões de Canindé/Caridade. Sem dúvida esta é a localidade que mais recebe influências do turismo, grandes modificações ocorreram principalmente após a década de 1990, a construção de pousadas, restaurantes e casas de veraneios.

A especulação imobiliária é bem visível, com a grande procura de terrenos por aqueles que se encantam com o lugar. Inclusive, muitos moradores são convencidos a venderem sua única moradia. O número de casas de veranistas aumentou, e vários terrenos estão a venda. As placas de venda indicam que o projeto já foi aprovado sendo uma facilidade para o comprador construir, já que a SEMACE[5] exige licença ambiental. (Foto 1).

           

 

 

 

 

 

 

 

 Foto 1. Terrenos a venda com projeto aprovado. Foto da autora/ jul. 08

 

Mas a fala de um morador revela a dificuldade para construir uma nova casa no local, já que é exigida uma licença ambiental.

Teve uma coisa que mudou muito foi esse negócio de construção. Pelo menos se eu fosse construir hoje talvez não desse nem certo. A SEMACE dar em cima demais. Pros ricos é fácil e pra nós é difícil. É que eles não liberam pra gente construir uma casinha,  é caro, tem que pagar, ai quem não tem condição de pagar fica difícil construir, o dinheiro que era pra comprar material tem que passar pra eles (SEMACE) tem que pagar. (morador da Linha da Serra, 07.2008)

 

Recentemente, foi inaugurada uma pousada com diárias acima de cem reais. Possui um restaurante mirante privilegiando a paisagem. Funciona nos finais de semana, férias e feriados. Apesar do turismo está sendo desenvolvido em uma área com fortes traços rurais não é desenvolvido atividade ligada ao turismo rural. Assim fica claro que o turismo local depende da conservação da paisagem. Foto 2.

 

 

Foto 2. Pousada e restaurante na Linha da Serra. Foto da autora/ fev. 08

 

     

As visitas a área identificam que nem todos conseguem sobreviver do turismo, esse setor exige investimento com melhorias de infra-estrutura e mão-de-obra qualificada. Na área, ainda existe um expressivo grupo de famílias que sempre viveu da agricultura e atualmente enfrentam dificuldades.

A paisagem apreciada pelos visitantes, nos mirantes, nada mais é do que o local de trabalho daqueles que vivem da agricultura e que percorrem um longo caminho diariamente. São longas caminhadas ladeira abaixo para cuidar do roçado, quase sempre em terra alheia. No final da tarde, após o dia de trabalho, enfrentando o calor do sertão, retornam para suas casas ladeira acima, para no outro dia o trabalho se repetir. (Fotos 3 e 4).

 

Foto 3: Mirante do restaurante Tramonto.          Foto 4: Vista do Sertão - Quebradas

 

 

A comunidade Linha da Serra: o trabalho e terra.

 

Para a população local formada por pequenos comerciantes e agricultores algumas melhorias foram observadas em relação a infra-estrutura, como a construção de um posto de saúde, uma escola, água encanada, casas populares construídas pela associação de moradores, melhoria das estradas. No entanto, inexiste saneamento básico, não dispõe de transporte público, apenas um ônibus escolar faz o transporte dos alunos do Ensino Médio para a Sede. Os que não têm transporte próprio resta o serviço de mototaxi, os usuários em Julho de 2008, pagavam 10,00 reais para ir até a sede de Guaramiranga. Já os novos moradores e visitantes usam transporte particular. Além da vila que já se forma no local várias casas estão em áreas com declives acentuados. Os antigos moradores construíam a entrada do lado oposto da paisagem já as novas construções preferem dar destaque a paisagem. Foto 5 e 6.

      

   

Foto 5. Casa de agricultor                                         Foto 6. Casa de veraneio.

Fotos da autora/ agosto de 2008

 

 

Geralmente as famílias trabalham em terras arrendadas, a aproximadamente, duas horas de caminhada em direção ao sertão. Martins (2002, p. 61-62) comenta os tipos de arrendamento:

O arrendamento pode ser feito mediante pagamento da renda em trabalho[6] ou uma segunda modalidade de renda é a renda em espécie paga diretamente com uma parte da produção do camponês. Ele tem mais liberdade do que o camponês que paga renda em trabalho porque pode usar a parcela de terra como se fosse sua enquanto durar o arrendamento. No Brasil, o arrendamento em espécie se concretiza basicamente na figura do parceiro, aquele que paga o aluguel da terra entregando ao proprietário uma parte de sua produção.

A partir da criação da APA de Baturité as terras acima de 600m de altitude aumentaram as restrições quanto ao seu uso. Os roçados tradicionais com a limpa e queima do terreno não podem ser realizados na área que abrange essa unidade de conservação. E mesmo no entorno é necessário tirar licença ambiental. Carneiro (1996, p. 99) esclarece que:

Surge uma nova hierarquia de valores em que a agricultura, como forma de uso social da terra, é colocada no degrau mais inferior. Se, de um lado, os agricultores mais velhos, acuados pela expansão do turismo e pelo avanço da mata, se ressentem ao verem diminuídas as condições para a realização de sua identidade social, de outro, percebem que não há alternativas para seus filhos a não ser que também se engajarem em atividades fora do setor agrícola.

Dessa forma os que dependem da terra para tirar o seu sustento com a prática da agricultura procuram terras mais distantes nas áreas fora da área preservada, nas “quebradas” como é de costume chamar. Essa denominação não existe nos mapas oficiais mas si encontra presente na memória de todos que lá trabalham e se deslocam diariamente. No período de plantio alguns agricultores preferem ficar acampados em barracas cobertas apenas com folhas, fazem as refeições e alguns dormem com a família.

 

Nas quebradas é bom, tem barraca, agente faz comida pros trabalhador, eu gosto mais de lá, se eu pudesse nem via aqui. Eu só acho mais ruim pra subir eu subo bem devagar. (Agricultora, 70 anos)

A produção da agricultura local apesar de envolver várias famílias é pequena muitas vezes insuficiente para o consumo familiar anual, com poucos recursos. Wanderley (2001,p. 33) esclarece: A agricultura camponesa é, em geral, pequena; dispõe de poucos recursos e tem restrições para potencializar suas forças produtivas; porém, ela não é camponesa porque é pequena, isto é, não é a sua dimensão que determina sua natureza, e, sim, suas relações internas e externas.

 

O conhecimento camponês é um patrimônio transmitido a partir da experiência vivida, através do qual essas famílias conseguem sobreviver retirando da terra seu sustento, aproveitando os recursos disponíveis. Segundo Ellen Woortman, a  herança cultural,  é adquirida desde cedo pelos filhos quando acompanhavam seus pais na roça. Em seu livro: O Trabalho da Terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa, a autora esclarece:

A transmissão do saber para o trabalho faz-se no próprio trabalho – pois o saber é um saber-fazer, parte da hierarquia familiar – subordinado ao chefe da família, via de regra o pai. Se é este quem governa o trabalho, como dizem os sitiantes, ele é também quem governa o fazer-aprender. A transmissão do saber é mais do que transmissão de técnicas: ela envolve valores, construção de papéis, etc. (WOORTMANN, 1997,p.11)

Atualmente essa prática está ameaçada de extinção seja pela falta de terra para plantar, seja pelas leis ambientais ou ainda a falta de incentivos governamentais. Assim, Wanderley (2001, p.29) comenta:

Para enfrentar o presente e preparar o futuro, o agricultor camponês recorre ao passado, que lhe permite construir um saber tradicional, transmissível aos filhos, e justificar as decisões referentes à alocação dos recursos, especialmente do trabalho familiar, bem como à maneira como deverá diferir no tempo o consumo da família. O campesinato tem, pois, uma cultura própria, que se refere a uma tradição, inspiradora, entre outras, das regras de parentesco, de herança e das formas de vida local, etc. 

Os moradores locais não costumam cercar os quintais, o que facilita o acesso entre as casas. No entanto, comentam que o turista ao comprar a terra logo constrói muros, dificultando a passagem dos que moram lá, quebrando a sociabilidade existente. Nesse sentido Para MARTINS (1993,p.63)

Não se trata de introduzir nada na vida dessas populações, mas de tirar-lhes o que tem de vital para sua sobrevivência, não só econômica: terras e territórios, meios e condições de existência material, social, cultural e política. È como se elas não existissem ou, existindo, não tivessem direito ao reconhecimento da sua humanidade.

Uma das famílias visitadas, em fevereiro de 2007, composta de um casal e duas filhas, relatou que, além de contar com R$ 94,00 (noventa e quatro reais) de Bolsa Escola, vive da agricultura de subsistência. Mas como na área serrana esta prática é proibida por Lei, eles deslocam-se diariamente para o sertão nos períodos de preparo da terra, plantio, capina e colheita. Em fevereiro de 2008, já haviam realizado o primeiro plantio, mas com a estiagem já haviam perdido tudo. Deram entrada no seguro safra[7], mas por morarem em área serrana, com  umidade superior ao sertão semi-árido, não foram contemplados.

Como estratégia de sobrevivência, alguns moradores criam animais como cabra, porco e galhinha, para ajudar na dieta alimentar – animais muitas vezes conseguidos através com pequenos empréstimos bancários – em torno de R$ 1.500,00 (Mil e quinhentos reais), pagos em duas prestações anuais.

Fiz um empréstimo de R$ 1.500,00 e comprei a cabra por R$ 550,00 isso aí é uma pedra de ouro é uma mina de ouro, pra quem tem criança, eu não compro leite. A minha cabra só não da mais leite porque a comida é pouca, é criada preza e agente não pode comprar ração (agricultora da Linha da Serra, fev. 2007)

 

A rotina do agricultor começa antes do amanhecer, nas tarefas domésticas. As  sete horas da manhã após um café com bolacha estão pronto para ir para o roçado fazer a colheita antes do sol esquentar. Numa segunda-feira Agosto de 2008, acompanhei um grupo de agricultores que iam colher fava em um roçado próximo uns  40 minutos de caminhada. O percurso foi feito em estreitos caminhos de terra, ora descendo ora subido. O roçado tinha sido plantado pelo Sr. (nome) e sua esposa (nome), com milho, feijão e fava os dois primeiros já haviam sido colhidos. Para o agricultor esse ano deu pouco porque demorou a chover e a primeira planta foi perdida e ao plantar a segunda vez já não se desenvolve como se fosse a primeira, o tempo de chuva não foi suficiente. Como nesse período o sol é muito quente a fava já começa abrir dando sinal que está na hora de ser colhida. A terra plantada foi emprestada por um amigo que também participou da colheita, ainda tinha um segundo convidado, aposentado morava sozinho já não faz mais roçado, mas não deixa de participar de uma colheita com os amigos além de garantir o alimento de boa qualidade também é uma distração.

Minha profissão mesmo é agricultor, agora não planto mais roçado os meus filhos são tudo casado e eu sozinho não dá. E hoje em dia o serviço da roça só é vantagem a pessoa plantar pro consumo, pra fazer gasto pra vender e tirar a despesa não compensa não. (agricultor aposentado)

Apesar da dificuldade em colher a fava já que o terreno era bem íngreme e com muitas rochas, as dez horas os sacos e baldes já estavam cheios e o sol já começava a esquentar, um dos convidados comenta: isso aqui da meidia pra tarde não é qualquer um que aguenta não, aqui  o sol treme e a fava começa a estalar, aí tem que ir embora mesmo.

O dono do plantio concordou que era melhor subir, pois o que tinham colhido já era suficiente para garantir o almoço da semana. Os convidados com os sacos cheios de fava mostravam satisfação pois o que tinham colhido lhes pertencia. Quando todo o alimento for colhido a terra é devolvida ao proprietário e servirá de pasto para seus animais. (Foto 7 e 8)

 

      Foto 7. Caminho da roça                          Foto 8. Colheita da fava

 

Quando chegam em casa é hora da debulha, mais uma vez a participação da família e amigos. Para o agricultor esse momento é de alegria já que tem fartura de alimento, mesmo que sendo momentâneo pois sabe que não é suficiente para a alimentação da família o ano todo, mesmo assim os que participaram da colheita recebem a fava.

A fava dá pouco, o cabra vai apanhando e vai comendo, no fim não dá um saco. Uma pessoa que não dá valor plantar e quiser pra comer, eu não tenho pena de dar não. (agricultor, dono da roça visitada, Agosto de 2008)

 

                                   

                            Foto 9. Debulha da fava.   08.2008

 

A manutenção das famílias produtoras durante o período seco (localmente chamado de verão embora não corresponda a estação climática) depende quase exclusivamente do que for colhido depois da estação chuvosa (localmente chamado de inverno) assim, a boa ou má safra depende diretamente do período de iníco, fim e quantidade de chuvas. Se o agricultor plantar nas primeiras chuvas e em seguida ocorrer uma estiagem, a primeira planta é perdida então é necessário plantar novamente sendo que a segunda planta não costuma dar uma boa produção como a primeira como enfatiza um agricultor na roça de um amigo:

 

o milho dele não deu muito bom não, já tô vendo que não deu porque a primeira planta dele foi perdida pela metade. Colhe a primeira planta, aí a segunda não dá de jeito nenhum como a primeira. (Agricultor Linha da Serra em  04.08.2008)

 

A fala do agricultor revela a importância do trabalho autônomo que a agricultura proporciona, enquanto os que trabalham empregado não tem liberdade com seus horários.

 

Sô mais viver a minha vida trabalhando pra mim no mato de roçado de que eu viver trabalhando de empregado,  porque quem trabalha empregado não tem uma folga. No dia que tô enfadado não vou trabalhar, no dia que não quero não vou. Mas trabalho direto, não gosto de ficar parado não. Já fui morador dos outros, hoje tá melhor porque tenho minha casinha…A terra era da minha mãe aí o projeto São José ajudou a construir a casa. (agricultor e artesão, Linha da Serra, julho de 2008)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Considerações Finais

Em Guaramiranga ainda percebe-se um imenso abismo entre o lugar que o turista visita (área preservada com riqueza natural, cachoeiras, paisagens exuberantes, trilhas ecológicas, diversidade de artesanato, restaurantes com cardápios variados) e aquele vivido pelos moradores dos sítios e povoados. Para esses a natureza, é a principal fonte de renda e matéria-prima para a sua sobrevivência, através do artesanato e de pequenos cultivos agrícolas.

A paisagem apreciada pelos visitantes, nos mirantes, nada mais é do que o local de trabalho daqueles que tem na agricultura seu único saber, quase sempre a única herança deixada pelos pais. Diariamente percorrem longas caminhadas ladeira abaixo para cuidar do roçado, quase sempre em terra alheia. No final da tarde, após o dia de trabalho, enfrentando o calor do sertão, retornam para suas casas ladeira acima, para no outro dia tudo se repetir.

Como a realidade turística já faz parte do calendário do município, cabe ao poder público incentivar outras atividades, pois o turismo não pode ser a principal fonte de desenvolvimento do Município, já que a cidade é visitada apenas nos finais de semana, período de férias, feriados e festivais. Durante a semana os que trabalham no ramo ficam ociosos e a cidade fica praticamente parada, bares, restaurantes e algumas pousadas fecham e como a maioria dos funcionários não têm carteira assinada não recebem pelos dias que não trabalham, a maior movimentação é nos serviços públicos.

Os primeiros resultados desse estudo mostram que a maioria da população local tem baixo nível de renda. As modificações ocorridas nas últimas décadas em pouco contribuíram para a melhoria da qualidade de vida da população. Pois, se de um lado foram beneficiados com estradas, moradias, trabalhos informais, por outro foram impedidos do acesso a terra tanto no que diz respeito ao poder de compra como a terra de trabalho. Assim, o estudo pretende contribuir divulgando e colocando em debate essas contradições que vêm aumentando nas localidades do município principalmente com o incentivo público que aposta na “indústria do turismo” como principal atividade para o desenvolvimento.

È necessário que o poder público ao pensar em desenvolvimento passe a contar com essas pessoas que fazem parte da história do lugar e que dê condições para os que não tiveram e provavelmente não vão ter oportunidades de aprender uma nova profissão e dependem da atividade agrícola para sua sobrevivência. Quando estas pessoas são convencidas a deixarem o lugar onde exercem uma profissão adquirida durante uma vida toda de experiência com acertos e erros, dificilmente terão essa mesma oportunidade nas periferias dos grandes centros para onde a maioria migra, contribuindo para o grande aumento dos problemas sociais.

 

 

  

Referências

 

Andrade, A. C. & Vieira, M. L. (2006). Crescimento populacional e modificações na paisagem e na qualidade de vida dos moradores de um centro receptor de turistas. In: Geografia: ações e reflexões. Gerardi, L. H. O; Carvalho, P. F. (Org.) Rio Claro:Unesp/IGCE: AGETEO.

 

ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia rural: questões teórico-metodológicas e técnicas. Boletim de Geografia Teórética, vol. 25, n0 49-50, 1995.

 

Araújo, V. T. (2008). Natureza e Cultura: Bens de Negócio, Bens de Sobrevivência. Revista Ateliê Geográfico, Goiânia-GO v. 2, n. 3 maio/ p.103-118.

 

Carneiro, M. J. (2003) Agricultura, Meio Ambiente e Turismo: desafios para uma agricultura multifuncional (Nova Friburgo, RJ) in: Para além da produção: Multifuncionalidade e AgriculturaFamiliar. Carneiro, M. J.: Maluf, R. S. (Org). Rio de Janeiro: MAUAD.

 

LEFEBVRE, Henri. Problemas de Sociologia Rural. In: Introdução Crítica a Sociologia Rural. (Org.)  MARTINS, José de Souza. São Paulo: Hucitec: 1981.

 

MARTINS, José de Souza. A chegada do estranho. Editora HUCITEC. São Paulo, 1993.

 

_____. (2002). A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais. Petrópolis, RJ: Vozes.

 

WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. Raízes históricas do campesinato brasileiro. In. TEDESCO, João Carlos (Org.) Agricultura familiar: realidades e perspectivas. Passo Fundo: UPE, 2001.

 

WOORTMANN, Ellen F. O Trabalho da Terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília. Editora da Universidade de Brasília, 1997.

 



[1] Geógrafa, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia UNESP–Rio Claro. Bolsista CNPQ. E-mail: araujovilma@hotmail.com. Sob a orientação da Profa. Dra. Bernadete A. C. Castro.

[2]  Região interior, distante de povoações e afastada da costa.

[3] Apesar dos empresários possuírem terras e negócios na Serra a maioria das famílias residiam em Fortaleza e muitos filhos estudavam na Europa.

[4] Bairros com concentração de população de baixa renda em Fortaleza.

[5] SEMACE- Superintendência Estadual do Meio Ambiente, órgão ambiental que administra a APA de Baturité. 

[6] O arrendatário dá ao proprietário um certo número de dias de trabalho nos cultivos do proprietário.

[7] O Seguro safra é um programa instituído pelas Leis n° 10.420/10.700, tomando como base o efeito cíclico da seca no semi-árido, e com o objetivo de oferecer uma renda mínima aos agricultores de base familiar, que porventura venham a ter prejuízos de 50% ou mais de suas lavouras prejudicadas pela estiagem.

 


Ponencia presentada en el XI Encuentro Internacional Humboldt – 26 al 30 de octubre de 2009. Ubatuba, SP, Brasil.  




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