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Asunto:NoticiasdelCeHu 702/09 - ESPAÇOS DISCURSIVOS DE TRABALHO: o não-luga r do trabalho, novas territorialidades e configura ções de subjetividades
Fecha:Jueves, 19 de Noviembre, 2009  14:01:16 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 702/09
 

ESPAÇOS DISCURSIVOS DE TRABALHO: o não-lugar do trabalho, novas territorialidades e configurações de subjetividades

 

Carlos Alberto Máximo Pimenta

UNITAU – Universidade de Taubaté

UNIFEI - Universidade Federal de Itajubá

Rosa Frugoli

UNITAU – Universidade de Taubté

Resumo

Este trabalho reflete sobre as mudanças estruturais ocorridas na sociedade contemporânea, centrado no reconhecimento das novas territorialidades urbanas produzidas na lógica do trabalho popular e informal, exercidas nos espaços de circulação. Assume seu ter qualitativo; etnográfico, em termos de observação espacial, e sociológico, em termos de análise dos dados empíricos, sem perder de horizonte as diferentes linguagens históricas de organização da atividade humana e a referência da realidade presente em cidades  e pequeno e médio porte, a exemplo de Itajubá, sul de Minas Gerais, e Taubaté, Vale Paraíba paulista. Conclui-se que está  correndo uma ressignificação dos espaços públicos, agora também percebidos como de circulação-trabalho, o que gera um sentimento negativo da cidade, do sistema produtivo e das formas tradicionais de trabalho.

 

Abstract

This work reflects the structural changes in contemporary society, focusing on recognition of new urban territorialities produced in line with popular and informal work, performed in spaces of movement. Assumes its qualitative character, ethnographic, in terms of space observation, and sociological in terms of analysis of empirical data, without losing the historical horizon the different languages of organizing human activity and the reference to reality in this city of small and medium businesses, like Itajubá, south of Minas Gerais, and Taubaté, São Paulo Paraiba valley. It appears you're a re public spaces, now perceived as a movement to work, which creates a negative feeling of the city, the production system of traditional forms of work.

 

Introdução

Este trabalho, parte das discussões que se trava no projeto “as novas territorialidades e configurações de subjetividades no mundo do trabalho”. Tem como objeto os novos arranjos sociais do mundo do trabalho.

Entende-se por arranjos sociais do mundo do trabalho as conseqüências do processo de precarização do trabalho e perda dos direitos trabalhistas, a implantação dos sistemas produtivos transnacionais e as tendências de acumulação do capitalismo flexível, conforme apontados por Ricardo Antunes (2007), Ulrich Beck (1999) e David Harvey (1993), respectivamente1.

A partir desse contexto, propõe-se em discutir as mudanças estruturais ocorridas na sociedade contemporânea e seus desdobramentos no processo de socialização (ou institucionalização), centrando-se no reconhecimento das novas territorialidades urbanas produzidas na lógica do trabalho informal e exercidas nos espaços de circulação de pessoas, bens e consumo.

As transformações sociais em curso, sobretudo as decorrentes da internacionalização da economia e da reestruturação das escalas produtivas do sistema capitalista, têm influenciado as mudanças recentes na organização e na estrutura do trabalho e do espaço de circulação humana que vão desde os deslocamentos rurais e urbanos até as novas formas tecnológicas de distribuição de bens e serviços.

Tais mudanças não estariam ocorrendo somente nas relações clássicas do trabalho, mas no campo alargado das instituições sociais e públicas, que passariam por outra forma de ordenamento jurídico, social, cultural, e, conseqüentemente, de subjetividades.

No contexto, há que se considerar o escopo das mudanças que afetam o mundo do trabalho, hoje, e reconhece os nexos reais e conceituais que imbricam a realidade das territorialidades e das configurações de subjetividades com a concretude da vida social, na forma de novos modos de circulação de bens, produtos e pessoas.

Portanto, tem-se como objetivo refletir sobre as mudanças estruturais ocorridas na sociedade contemporânea e seus desdobramentos no processo de socialização, centrando-se no reconhecimento das novas territorialidades urbanas produzidas na lógica do trabalho informal ou de atividades econômicas populares (venda de artesanatos, salgadinhos e produtos importados da China ou Paraguai, como exemplos) e exercidas nos espaços de circulação.

A proposta ganha relevância, quando se questiona a idéia de organização urbana em torno da lógica e das formalidades esperados pelo sistema socioprodutivo.

Na medida em que cresce o trabalho informal e, junto com ele, vê-se a valorização, mesmo que no âmbito da tentativa de gestão pública, de práticas organizativas e atividades de geração de renda precárias.

Por tratar-se de pesquisa qualitativa, assumiu o caráter etnográfico, em termos de observação espacial, e sociológica, em termos de levantamento de dados empíricos, das conversas (entrevistas informais) e análise critica dessas informações coletadas.

Os locais de pesquisa são a cidade de Itajubá (Minas Gerais) e Taubaté (São Paulo), em face dos discursos de políticas públicas de desenvolvimento econômico de base empresarial tecnológica.

a. a cidade de Itajubá, situada na microrregião de Itajubá2, sul do estado de Minas Gerais. Sabe-se, conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (2007), que essa microrregião compreende uma área de 2.979.130 Km2, com uma população de 194.144 habitantes. Ela compõe-se de 13 municípios, quais sejam: Brasópolis, Consolação, Cristina, Delfim Moreira, Dom Viçoso, Itajubá, Maria da Fé, Marmelópolis, Paraisópolis, Piranguinho, Virgínia e Wenceslau Braz, todos num conjunto presente na Serra da Mantiqueira, próximo as regiões do vale do Paraíba paulista e sul fluminense. Esta microrregião tem arrecadação bruta de ICMS, nos anos de 2006 e 2007, em torno de R$ 102.905.941,00 e R$ 113.992.102,55, respectivamente e, com esse quadro, apresenta-se como importante pólo de desenvolvimento;

b. a cidade de Taubaté, situada na região do Vale do Paraíba do Sul3, interior do estado de São Paulo. Esta região localiza-se no nordeste do Estado de São Paulo, entre a região metropolitana da capital, o sul do Estado do Rio de Janeiro e o sudoeste do Estado de Minas Gerais. Abrange uma área pouco superior a dezesseis mil km2, com uma população estimada em mais de dois milhões e duzentos mil habitantes, para o ano de 2005 (IBGE, 2006). A região encontra-se dividida entre trinta e nove municípios (hoje, cinco deles possuem mais de cem mil habitantes).

Segundo dados do NIPPC (2008), no caso do Vale do Paraíba, esta “estrutura direciona a maior parte dos investimentos econômicos destinados à região para a cidade de São José dos Campos, pólo industrial diversificado”. Por outro lado, “a outra parte é divida entre as outras quatro maiores cidades da região (Taubaté, Jacareí, Pindamonhangaba e Guaratinguetá)”. Quanto ao restante dos municípios, os investimentos são praticamente nulos. Trata-se de processo universal de monopolização capitalista que acaba também a organizar a lógica das questões culturais.

De alguma forma, a industrialização dessas regiões, respeitado as proporções de cada uma delas, inaugura uma relação de tipo capitalista-monopolista que passou a organizar a distribuição de investimentos industriais e de riqueza segundo a relação centro-periferia, materializada localmente a estrutura de organização econômica mundial (cf. ARRIGHI, 1997).

A título de esclarecimento, a predisposição do método a ser utilizado é a de estabelecer um diálogo de fronteiras abertas entre a Sociologia e a Antropologia, sem perder de horizonte a História e as diferentes formas de organização da atividade humana. Ou seja, é uma possibilidade de inserção ao mundo do trabalho informal, por intermédio do instrumento da observação etnográfica, ao modo de vida das pessoas.

Dentro do critério de acessibilidade, estabeleceram-se conversas informais com duas pessoas, ambos com barraca no Shopping Beira Rio (Itajubá, MG), como é chamado, e com quatro vendedores ambulantes (Camelódromo de Taubaté, SP). Eles4, em face da presença de um estrangeiro naquele local de trabalho, vieram na presença do pesquisador questionando os por quês da presença e das fotos.

O diálogo só ganhou sentido e significação quando do esclarecimento da proposta de pesquisa. As conversas informais duraram mais de uma hora, nas experiências das duas cidades, e um dos sujeitos sugeriu o uso de um gravador para registrar a conversa, o que não possível pelo caráter desta inserção exploratória.

Vende-se de tudo neste local de atividades de geração de renda, hoje formalizado pelas Prefeituras de Itajubá e de Taubaté: desde produtos de papelaria, roupas e acessórios, calçados, brinquedos importados, chaveiro até tecnologias digitais (máquinas fotográficas, computadores, CD’s, dentre outros).

No campo de pesquisa, partiu-se da convicção de que as observações e análise teriam uma vigilância sociológica constante, uma vez que a tradição reflexiva da sociologia, enquanto ciência moderna e do homem, desde Weber, afirma que só é possível produzir um entendimento satisfatório de um questionamento científico mediante uma constante vigilância epistemológica. Nessa vigilância epistemológica toma-se como partida a obra “A Miséria do Mundo” organizada por Pierre BOURDIEU (2003), que sugeri critérios de referências e elementos que permitam a segurança da reflexão e da compreensão do objeto estudado.

Portanto, os dados até aqui coletados, embora iniciais, foram sistematizados e levando-se em conta os seguintes critérios:

a. Dimensões Históricas. Não perder de horizonte a contextualização de cada tempo e espaço urbano identificado, sem desconectar a referência do processo histórico com a existência de conflitos.

b. Elementos Objetivos e Subjetivos do Objeto de Estudo. Outra convicção necessária é a de que essa contextualização histórica compõe-se de interditos objetivos (leis, normas, regras) e que é composta por elementos subjetivos (ideologia, poderes simbólicos, características e memórias regionais, entre outros), resultantes do próprio processo sociocultural humano.

c. Trajeto de Análise. Parte-se do entendimento da totalidade à particularidade, das questões macro às micros, pois é no jogo do macro (contexto político, econômico e sociocultural de determinado tempo) ao micro (o objeto específico de pesquisa: o cotidiano, a memória local, entre outros) que pode ser possível apreender as contradições do processo histórico e explicar algumas ambigüidades experimentadas em face das fragmentações, inseguranças, fluidez e instabilidades, características das atuais relações sociais.

d. A Pluralidade do Presente. A totalidade deverá ser vista em relação aos seus integrantes, contudo esta mesma é parte na condição de instituição social e possibilita a manifestação da totalidade social enquanto parte desta. Dessa forma, os processos sociais de relação do trabalho compõem formas padronizadoras de subjetividades (totalidade), porém o pesquisador deverá definir as singularidades que melhor expressem, no momento da pesquisa de campo, na sua particularidade, a pluralidade do grupo.

e. Relações de Poder. Parte-se da convicção de que o entendimento das relações de poder presentes nas estruturas que sustentam o sistema produtivo contemporâneo é condição importante e necessária. Não há como negar a influência ideológica de forças sobre as tendências e estratégias de desenvolvimento.

No esforço de síntese, para refletir sobre as mudanças estruturais ocorridas na sociedade contemporânea e seus desdobramentos no processo de socialização, das novas territorialidades urbanas, da lógica do trabalho informal e dos espaços de circulação estruturou-se este artigo em duas partes: a primeira teórica de localização das mudanças na lógica da modernidade e a segunda, de ordem empírica, demonstrar como essa lógica interfere nas territorialidades urbanas e nos espaços de circulação.

O Mundo do Trabalho: dimensões teóricas

Como o percurso de pesquisa também é empírico, não se limitando às relações produzidas no espaço específico da relação do trabalho formal, pensa-se, por primeiro, no movimento dialético da realidade por intermédio do trabalho informal que, cada vez mais, ganha corpo e preocupação na agenda da organização do espaço urbano.

Por outra via, buscar o entendimento sobre o contexto particular das cidades de Itajubá e de Taubaté, em especial das estratégias de desenvolvimento empreendidas pelos poderes públicos e econômicos locais, não se pode cometer o erro de separar esta realidade com as transformações de ordem global em curso.

Sabe-se que o trabalho ganhou importante centralidade no mundo moderno urbano e desde o final do século XX os seus modos clássicos têm dado lugar para uma série de outras formas de atividade laboral, amplamente difundida em uma série de arranjos socioculturais. Esses arranjos trazem transformações contundentes ao mundo da produção e do próprio trabalho ao produzirem crescentes precarização do trabalho, elevados índices de desemprego no mundo.

Trata-se de um movimento mundial em torno do trabalho que em seu efeito negativo expulsa milhares de trabalhadores para o mercado informal, especialmente quando se fala de cidades de grande e médio porte, ou desloca milhares de pessoas das zonas rurais às cidades de maior potencial de “desenvolvimento”.

A preocupação desta pesquisa refere-se às conseqüências do primeiro movimento descrito e ao crescimento, agregado, de uma economia cada vez mais informal, o que tem feito proliferar ocupações exercidas nos espaços antes reconhecidos como de circulação (rua, praças, largos etc), modificando a lógica do trabalho, como atividade, que agora se confunde com o espaço ampliado da cidade.

Antes de avançar, abre-se um parêntese para explicitar as interferências desse processo às subjetividades e ao sujeito social, uma vez que os chamados processos globais5 (ou as recentes transformações socioculturais decorrentes da internacionalização da economia) têm afetado o mundo do trabalho e gerado contextos diversificados de relações.

Autores como DUBET (1996), TOURAINE (1999), entre outros, têm analisado o impacto dessas transformações na vida humana, em um plano de abordagem macroeconômica, considerando suas conseqüências com problemas decorrentes do reordenamento institucional promovido no âmbito das mudanças estruturais em desenvolvimento.

Da perspectiva dessa abordagem macroeconômica, acentuam-se algumas conseqüências: a interferência de agências multilaterais internacionais na organização e estruturação dos sistemas produtivos (sobretudo em países periféricos6); a mudança do discurso oficial sobre as políticas de formação e de enfrentamento às modificações na lógica do trabalho; a introdução de mecanismos avaliativos, baseados na produtividade, por intermédio da definição das prioridades de investimento; o crescente processo de exclusão social; as transformações no estatuto do sujeito contemporâneo; a ruptura ou a dissolução do papel mediador do trabalho formal no acesso aos “benefícios” apontados pelo mercado ou pelo consumo, entre outras.

Essas conseqüências, muito acentuadas por TOURAINE (1999) e DUBET (1996), assentam-se na análise de que a internacionalização da economia é uma sobredeterminação desse componente-meio para um componente-fim, que rompe não só com a configuração e a soberania da nação, mas também com a idéia de sociedade e, em extensão, com a idéia de sujeito (como ator social), em uma nova combinação de fatores objetivos e subjetivos da experiência social.

TOURAINE defende a tese de que a humanidade vive sobre as ruínas do marxismo-leninismo e da sociedade burguesa e que “sem a morte da sociedade e do ego, a procura e a defesa do sujeito não teriam sentido” (1999, p. 71). E denuncia de modo incisivo: “o sujeito se acha tão ameaçado no mundo de hoje, pela sociedade de consumo que nos manipula ou pela busca de um prazer que nos aprisiona em nossas paixões, como o era no passado pela submissão à lei de Deus ou da sociedade” (Idem, p. 70). Para ele, o sujeito é a procura pelo próprio indivíduo, “das condições que lhe permitem ser o ator da sua própria história”, configurando dois processos, ou seja, 1. “o desejo do indivíduo de ser um ator”; 2. “o desejo de individualização”.

No processo do indivíduo em ser um ator, o sujeito não é uma simples forma da razão, mas “é liberdade, libertação e negação”. No processo da vontade da individuação constitui-se a subjetivação quando “o indivíduo se define novamente por aquilo que faz, por aquilo que valoriza e pelas relações sociais nas quais se acha assim engajado”(Idem, p. 76). Dessa forma, para TOURAINE, o sujeito resulta da reconstrução e recuperação da unidade do indivíduo – seu desejo de ser ator, seu esforço de subjetivação – como unidade consciente e com uma identidade.

Permanecendo o indivíduo na dualidade, ele aceita os apelos do mercado e cai no consumismo desenfreado e acrítico. Não tendo essa possibilidade, sucumbe no mundo das drogas, da violência e dos excluídos do sistema. Os sujeitos excluídos do sistema podem encontrar suas saídas na construção comunitária, nas redes solidárias e na solidariedade.

A temática do sujeito necessita ser recheada de conteúdo social e político que ultrapasse as demandas do Ego e atenda as exigências da liberdade, da igualdade e da justiça. Não são meras especulações cognitivas, mas buscas concretas para uma melhor organização da sociedade, tornando-a mais justa. Para tanto, TOURAINE sugere que deve haver avanços em três níveis: 1. “o conflito aberto – exigência pessoal de liberdade quanto ao poder dos sistemas”; 2. “o debate pelo qual se definem as condições institucionais de respeito e encorajamento da liberdade de cada um”; e 3. “a formação geral da eqüidade, mas, sobretudo, mais concretamente, das condições da integração social e de uma mudança sustentável” (Idem, p. 87). Para ele, na seqüência das etapas, a análise oscila “do sujeito pessoal para a comunicação entre os sujeitos e depois para as instituições, à liberdade do sujeito pessoal numa análise sempre mais cognitiva das regras de funcionamento da sociedade” (Idem, p. 87).

Este autor enquadra sua trajetória intelectual de compreensão e interpretação do sujeito, desde a análise do movimento operário até as recentes posições em relação aos movimentos sociais. Afirma que o lugar central dado à idéia de sujeito deve ser identificado em cada momento histórico, quando talvez se localize a “imagem de uma sociedade ideal ou historicamente necessária”, porque “muitos falam em nome da liberdade e da justiça – e sobretudo da igualdade” (Idem, p. 91). Então, ele sinaliza que prevalece a “exigência de cada indivíduo de se tornar um ator da própria história, um ser humano à procura da felicidade e um cidadão que procura, tanto para os outros como para a sua própria liberdade, a proteção da lei” (Idem, p. 94), num mundo dividido entre o das identidades comunitárias e o da economia mundializada.

E os sujeitos coletivos? São construídos e constituídos pelos diferentes movimentos sociais, sindicatos, organizações de base que podem ser abarcados pelo movimento cidadão. Assim, [...] no movimento cidadão as referências simbólicas e de ação social dizem respeito aos valores da cidadania e da democracia, compreendendo vários desdobramentos. A cidadania inclui as noções de direitos humanos e civis, sociais e de terceira geração. A democracia inclui os ideários de justiça, participação, reconhecimento das diferenças e outros que vão sendo construídos no próprio processo de democratização (ROSSIAUD; SCHERER-WARREN, 2000, p. 35).

É na práxis dos movimentos sociais que se burilam os sujeitos sociais, os sujeitos culturais que se constituem em sujeitos políticos. Eles constroem saberes, valores, cultura. Os processos educativos desses sujeitos brotam das tensões, dos conflitos, das contradições, da ordem social vigente. E [...] as lutas sociais formam os novos sujeitos sociais em cada espaço e em cada tempo da história e este é um processo cultural. Isto significa em síntese: a) que um grupo ou um movimento se torna sujeito social quando se sabe sujeito, e não necessariamente no sentido intelectual deste termo, e este saber-se sujeito implica em experimentar sua condição em termos culturais; b) que a cultura produzida no processo que forma sujeitos passa a ser um elo importante para a compreensão mais profunda do próprio processo histórico (CALDARI, 2000, p. 51-52).

Em contrapartida, quando analisa o retorno do sujeito, TOURAINE expressa sua preocupação em relação à reflexão sobre a educação e fala da necessidade da escola do sujeito. A sociedade industrial, segundo ele, estava “centrada na produção e nas relações de trabalho (1999, p. 317)”, dando pouca atenção à educação7, porque enxergava o indivíduo como trabalhador e não mais como cidadão de uma “sociedade política”. Também a sociedade contemporânea, segundo ele, valoriza mais a educação que prepara para o mercado de trabalho do que para o exercício da cidadania.

Tanto para TOURAINE quanto para DUBET a educação tem papel central no atual mundo do trabalho e ao sistema produtivo que se desenha. A questão é que a educação, privilegiando um determinado tipo de desenvolvimento sem sustentabilidade ou humana, desconsidera os projetos pessoais dos educandos, sendo quase que impossível adaptar os jovens de hoje a uma profissão do futuro.

Em DUBET, uma vez rompidos os liames tradicionais entre sujeito e instituições, chegamos ao “fim da idéia segundo a qual o ator é um sistema”(1996, p. 10). Dessa forma, DUBET não acredita “que a socialização se faça mais através do aprendizado de um papel, mas através da construção de uma experiência” (1996, p. 12). Essas perspectivas mereçam aprofundamentos dentro dos processos sociais de trabalho, mas, sobretudo, sugerem uma possibilidade de interpretação das novas formas de circulação do espaço urbano em torno do consumo de bens e sobrevivência e, conseqüentemente, das configurações de subjetividades nesse contexto.

Ocorre que o caráter dessas novas experiências de relacionamento tem um duplo registro: o dos atores macroeconômicos e o dos atores microeconômicos. O registro macroeconômico, já mencionado anteriormente, permite supor que o papel do trabalho, mais que suprimido no processo de socialização, parece ter-se deslocado para o campo do não-trabalho8, em uma nova combinação dos fatores objetivos e subjetivos da experiência social, que aponta para o mercado, cada vez mais, como princípio condicionante geral.

Vale ressaltar que não se trata de pensar, por exemplo, o processo de exclusão do trabalho como reflexo da exclusão social, mas como novos arranjos do sistema produtivo que atingem a centralidade da idéia clássica de trabalho, impondo à sociedade, à identidade, à subjetividade, às representações sociais e ao sujeito uma busca, vezes interminável, por respostas e caminhos.

 

O Mundo do Trabalho: dimensões empíricas

No conjunto das preocupações sobre o levantamento de dados, cotejados com a teoria privilegiada, deve ser ressaltado que a expressão extraída do universo empírico poderá ser captada nos depoimentos orais, mais também por imagens corporais. Na soma das conversas informais e fotos realizadas se evidencia os novos arranjos do sistema produtivo.

O registro fotográfico de situações cotidianas coletadas do Shopping Beira Rio e de um “carro de catar papel”, este estacionado na porta de uma loja convencional, trazem significações e sentidos à cidade, à idéia de urbano e de espaço de circulação de bens, pessoas e serviços e, principalmente, à relação espaço-indivíduo, na medida em que as relações de trabalho se revelem na “trama” da vida cotidiana.

 

Foto 1 : Shopping Beira Rio

Após vinte e dois anos, o que um agrupamento de pessoas começaram a organizar pontos de venda de roupas e produtos do Paraguai, aos poucos, foi se constituindo em um “shopping” popular de venda de mercadorias. Hoje, as configurações caminham à venda de produtos e tecnologia chinesa. Foram se constituindo nas margens do Rio Sapucaí, uma importante via pública da cidade de Itajubá. Mede aproximadamente duzentos metros, em linha reta, e ocupa todo o passeio que beira as citadas margens.

Diante dos diversos conflitos que essa “organização empresarial popular” causou à certos setores da sociedade local, a prefeitura, por volta de uns oito anos, passou a organizar aquela atividade de renda exigindo certa padronização nos boxes e cobrando taxa. Exigiu, também, a institucionalização de uma associação para estabelecer o diálogo entre poder público e trabalhadores, o que, segunda uma das entrevistadas, tem pouco funcionalidade coletiva.

A idéia da prefeitura, conforme conversas informais com os entrevistos, era a de dar concessão-licença de uso do espaço urbano para os trabalhadores pobres, popularmente chamados de “camelo”, e da cidade de Itajubá. Nos diálogos iniciais essas pessoas não se intitulam de “camelos”, muito menos são informais, e indicaram que nem todos são de Itajubá.

Na realidade o que se almeja é uma aproximação da lógica de organização socialmente reconhecida, embora se tenha a crença de que se trate de uma atividade diferenciada e popular.

Parte da cidade, esta com melhor potencial de consumo, vê no Shopping Beira Rio uma possibilidade de acesso ao consumo e aos bens. Porém, nem todos, de acordo com os entrevistados, acham o local apropriado para negócios e que a cidade poderia ficar mais bonita se o Shopping fosse em outro lugar e não as margens do rio9.

 

Foto 2 : Entrada do Shopping Beira Rio

O Shopping Beira Rio não é a única forma de geração de renda popular.

Aparecem nas diversas praças públicas da cidade e na antiga estação de trem feiras de artesanato, de barganhas e de circulação de produtos rurais10. Aparecem também os “catadores de papéis” ou “sucateiros”, os quais recolhem do comércio, dos domicílios e do espaço urbano o “lixo”. Esses movimentos têm, no mínimo, duas funções: geração de renda e sustentabilidade ambiental.

Os fornecedores das matérias primas coletadas pelos catadores de papeis estabelecem os horários e as regras dessa atividade. Normalmente, eles circulam na primeira hora ou na última hora da jornada do comércio.

 

Foto 3 : Veículo de “Catador de papel” estacionado na via pública

Aproximando essas observações preliminares, pode-se acrescentar que a informalidade (ou o trabalho informal) passa a ser uma crescente no mundo em desenvolvimento. Portanto, entender as transformações que desencadeiam nos arranjos à estrutura da sociedade industrial moderna se faz necessário.

Acrescentam-se, inclusive, as sugestões de AUGÉ (1994), no texto "Não-Lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade", para promover o entendimento do que ele chamou de: "supermodernidade", sem perder de horizonte questões levantadas por TOURAINE (2002), em críticas à modernidade, por BAUMAN (1999; 2001), no que diz respeito à liquidez da modernidade. Acrescenta-se, ainda, às análises de GIDDENS (1991), quando apresenta questões relacionadas à supermodernidade, principalmente no que se refere à noção de tempo-espaço. Isto é, segundo GIDDENS, a concepção do encurtamento das distâncias e do tempo em decorrência das novas tecnologias.

No contexto, utilizou-se dos apontamentos de BECK (1999) quando indicou respostas críticas à globalização. Ao trazer o dado empírico para reflexão teórica pode-se, em BECK, apreender com maior precisão a questão atual da tensão capital versus trabalho, relação essa que provoca mudanças significativas na sociedade globalizada. O que era certo e determinado passa a ser incerto. Essas leituras são relevantes e indispensáveis para se pensar não, somente, a precarização do trabalho, mas, essencialmente, as estratégias e linguagens que o homem simples apresentar para superar as suas dificuldades e necessidades.

Como afirma ROSANVALLON (1995), esse movimento não caracteriza uma forma jurídica precisa de atividade, um tipo determinado, mas um conjunto de práticas sociais experimentais. Esses aspectos, se bem identificados, permitem supor que o estatuto do trabalho, no processo de socialização, passa por uma “crise” ou “arranjos produtivos”, mas também coloca as novas possibilidades de formação.

Por outro lado, enfatizando o aspecto microeconômico desse trabalho, fica consignado que no registro microeconômico, embora se pressuponha um conjunto de práticas ainda não caracterizadas no processo de socialização do trabalho, não é possível aceitar ou enxergar esses arranjos socioculturais do trabalho.

Contudo, não deve haver ingenuidade quanto as práticas populares junto aos novos arranjos socioculturais do trabalho, pois, em geral, essas práticas correspondem às tentativas de combater, ou evitar, a exclusão social, mas de entrada a uma certa ordem social.

Na cidade de Taubaté, o procedimento de institucionalização de um espaço de venda de produtos populares (Camelódromo), também ganha a interferência organizativa do poder público local, o qual constituiu um espaço apropriado ao comércio desses produtos, seguindo a mesma lógica de Itajubá.

A foto abaixo mostra o exemplo de uma estrutura de comércio popular na cidade de Taubaté. O chamado “Camelódromo”, institucionalizado e organizado, não sem tensão, pelo poder público.

 

Foto 4 – Camelódromo de Taubaté

Área central da cidade – próximo ao Mercado Municipal

 

A rua, as praças públicas, as festas, os espaços de circulação são apropriados por certos setores populares no sentido de auferir renda. Os produtos comercializados são de caráter artesanal ou produtos tecnológicos oriundos da China, Paraguai, dentro outros objetos de consumo de caráter informal e popular. Essa parece ser uma tendência nos centros de grandes e médios portes, enquanto estratégias aos setores populares de geração de renda e de sobrevivência.

 

Considerações finais

Pensar o não-lugar do trabalho implica, sobremaneira, identificar as novas territorialidades e configurações de subjetividades, presentes no espaço urbano. Nesse contexto, os sujeitos, seus papéis e os instrumentos à sua disposição é que configuravam as relações mediadoras pela idéia de trabalho contida na moderna sociedade industrial e no processo de socialização. No interior do movimento, passam por inúmeras transformações, cuja repercussão recai na necessidade de produção de um novo ordenamento na sociedade, a partir da óptica do jurídico e institucional, privado e público, Por outro lado, ao valorizar as observações de campo, em especial dos registros etnográficos, em que se permite realizar descrições do cotidiano do trabalhador e do trabalho informal nas cidades de Itajubá e de Taubaté. Tudo não sem análise reflexiva e crítica. Com essas estratégias e instrumentos pode-se apontar que atuais arranjos sociais do trabalho, as suas dimensões objetivas (localização espacial, estilo de vida, contrastes culturais e econômicos, entre outras percepções possíveis) e subjetivas (símbolos e códigos sociais, preconceitos, constituição ideológica das novas relações de trabalho, entre outras possibilidades) compor e aparece em um quadro de questões socioculturais relacionadas com a atual lógica urbana, as novas territorialidades e as configurações de subjetividades inscritas no âmbito do trabalho informal aparecem.

Na medida em que se observa o crescimento da economia informal, o que tem feito proliferar ocupações exercidas nos espaços antes reconhecidos como de circulação (rua, praças, largos etc.), modificando a lógica do trabalho, como atividade, que agora se confunde com o espaço ampliado da cidade.

Tomado como referência a realidade dos grandes centros urbanos, pode-se atentar que há um jeito peculiar, em termos de observação da cidade de Itajubá, município sede da microrregião de Itajubá, de uma ressignificação dos espaços públicos, agora percebidos como de circulação-trabalho, mas que não deixa de gerarcausar um sentimento “negativo” de determinados setores da cidade, do comércio e das formas tradicionais de trabalho. Esse sentimento de negatividade aparece, inclusive, na fala de um dos entrevistados quando diz que fala, constantemente, na “cabeça” do filho para que abandone os importados da China e diz: “essa atividade ainda não é crime, mais vai virar”.

Em termos de organização política, os vendedores do Shopping Beira Rio e do Camelódromo taubateano, embora tenham representatividade em associações, não têm força e muito menos canais de diálogos com o órgão público.

Por outro lado, começam a perceber, pelo menos em termos de discurso, que é na práxis dos movimentos sociais que se burilam os sujeitos sociais, os sujeitos culturais, os quais, só assim, na ação, se constituem em sujeitos políticos. Eles percebem que estão construindo saberes, valores e cultura.

Conclui-se que está ocorrendo uma ressignificação dos espaços públicos, agora eles são, também, percebidos como espaço de circulação-trabalho, o que gera um sentimento negativo de determinada parcela da cidade, do sistema produtivo e das formas tradicionais de trabalho.

 

IX – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 12. ed. São Paulo, SP. Cortez; Campinas, SP:

Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2007.

ARRIGHI, Giovanni. A ilusão do desenvolvimento. 3 ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 1997.

AUGÉ, Marc. Não-Lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 3. ed. Campinas, SP, Papirus, 1994.

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.

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O trabalho de Souza (2008) sobre os coletivos de catadores de material reciclável é um exemplo dessas conseqüências.

 2 Inclusive, cabe explicitar que a população economicamente ativa da microrregião (SENSO IBGE, 2000) divide-se em: 16.243 trabalhadores agrícolas; 17.380 industriais; 9.202 comerciários; e, 26.021 no setor de serviços. Disponível em http://www.indi.mg.gov.br/. Acesso em outubro de 2008.

3 Dados extraídos do IBGE (2006) e das atividades de pesquisas do NIPPC- Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas de Práxis Contemporâneas da UNITAU.

4 Os nomes foram suprimidos por questões éticas.

 5 Para aprofundar sobre “os processos globais”: Boaventura de Sousa SANTOS (2002, p. 25-102).

6 A distinção entre países centrais e periféricos é uma das referências constantes em estudos sobre a internacionalização da economia e seus desdobramentos no campo das relações sociais. Uma visão sucinta desses desdobramentos pode ser obtida em ARRIGHI (1997) e DUPAS (1999).

7 Touraine remete-se ao conceito alemão de Bildung (com o significado de formação), assim como Bourdieu. Esse ainda sinaliza com o sentido subjetivo da palavra inglesa de cultivation.

8 Por não-trabalho se inscreve o desemprego, a informalidade, enfim toda atividade que não está no campo do trabalho formal. Este conceito deve ser aprofundado no desenvolvimento deste projeto.

9 Essa questão será melhor explorada em outra reflexão, quando avolumar-se os dados.

10 Pretende-se incorporar essa discussão no momento oportuno.


Ponencia presentada en el XI Encuentro Internacional Humboldt – 26 al 30 de octubre de 2009. Ubatuba, SP, Brasil.




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