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Asunto:NoticiasdelCeHu 682/09 - A CHEGADA NEERLANDESA NO RECIFE: UM CAPÍTULO DA GEOGRAFIA COLONIAL BRASILEIRA
Fecha:Lunes, 9 de Noviembre, 2009  12:56:52 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 682/09
 

A CHEGADA NEERLANDESA NO RECIFE: UM CAPÍTULO DA GEOGRAFIA COLONIAL BRASILEIRA

 

Sidclay Cordeiro Pereira[1]

 

 

RESUMO

 

A Geografia sempre se mostrou preocupada com o entendimento da relação homem e ambiente e o seu resultado no espaço. Porém esse interesse não necessariamente trata exclusivamente do presente e o passado pode também ser contemplado dentro dos estudos geográficos. Nesse contexo, a Geografia Histórica emerge como uma vertente para contribuir nesse sentido. O artigo aqui apresentado tem como objetivo apresentar a chegada neerlandesa em Recife no século XVII a partir do conhecimento da Geografia Colonial. Para a sua elaboração foram utilizadas fontes primárias neerlandesas e portuguesas acerca do período colonial brasileiro com ênfase ao Recife; fontes secundárias,como publicações que abordam o processo de ocupação e utilização do espaço brasileiro e três fontes iconográficas produzidas no século XVII. Percebeu-se que tanto a chegada portuguesa como a neerlandesa levaram em consideração o conhecimento da Geografia Colonial produzida por ambos em seus relatos, diários, descriçoes e mapas, uma vez que a informação disponível era relevante para se estabelecer nas terras do Novo Mundo. Percebe-se, com esse trabalho, que o entendimento do presente requer um conhecimento do passado e não apenas do que ainda se encontra concretizado na paisagem. A Geografia como ciência possui uma forte interação com a História, mas carece ainda de se debruçar no passado para produzir pesquisa a partir das fontes primárias e iconográficas. Os acontecimentos da primeira metade do século XVII , a instalação portuguesa e neerlandesa repercutem até hoje na história do Recife, sendo um dos capítulos mais importantes da Geografia Colonial brasileira.

 

Palavras-chave: Geografia Histórica, Geografia Colonial, período holandês, 1630

 

 

ABSTRACT

 

Geography has always been concerned with the understanding of the connection between man and environment and the result of this interaction within space. However, this interest does not necessarily focus exclusively on the present time and the past may also be contemplated in the geographical studies. In this context, the Historical Geography emerges as an area to contribute to the studies about the past. This article aims to present the Dutch arrival in Recife on the 17th Century based on the knowledge of Colonial Geography. In order to elaborate this paper primary sources, Dutch and Portuguese, were used regarding the colonial period in Brazil with emphasis in Recife as well as secondary sources such as publications that approach the occupation process, as well as the usage of Brazilian space and three iconographical sources produced on the 17th Century. It was possible to realize that not only the Portuguese arrival but also the Dutch took into consideration the knowledge of the Colonial Geography produced by both on their reports, diaries, descriptions and maps, once the available information was relevant to establish in the lands of the New World. The understanding of the present requires knowledge of the past and not only of the one that is visible in the landscape. Geography as a science has a strong interaction with History, but it is still necessary to go back into the past to produce research from the primary and iconographical sources. The events of the first half of the 17th Century, the Portuguese and Dutch establishment remains up to these days in the History of Recife, being one of the most important chapters of the Colonial Brazilian Geography.

 

Key words: Historical Geography, Colonial Geography, Dutch times, 1630

 

 


Considerações Iniciais

 

 

            O artigo aqui apresentado tem como objetivo apresentar a chegada neerlandesa em Recife no século XVII a partir do conhecimento da Geografia Colonial. Esse trabalho foi extraído do segundo capítulo da dissertação intitulada “Caminhos na Resistência – O Espaço do Recife durante a Ocupação Neerlandesa (1630-1637) em Pernambuco (Brasil)” [2]· que tinha como objetivo levantar, caracterizar e analisar os caminhos utilizados em Recife numa perspectiva militar e econômica durante o período de resistência à ocupação neerlandesa (1630-1637) através da reconstrução da Geografia do passado.

Para a sua elaboração foram utilizadas fontes primárias acerca do período colonial brasileiro com ênfase ao Recife, destacando-se relatos, descrições de viajantes, militares e pessoas ligadas à economia e à política do período, tanto neerlandeses, como portugueses[3]. Foram de grande importância os relatos de Cuthbert Pudsey, Johan Nieuhof e as Nótulas Diárias[4]. Como fontes secundárias, foram utilizadas publicações que abordam o processo de ocupação e utilização do espaço brasileiro, tais como livros, teses, dissertações, periódicos e outros impressos. Como fontes iconográficas, foram estudados três mapas que apresentam o Recife no século XVII, “Porto e Barra de Pernambuco de 1630” “Perspectiva do Recife e Vila de Olinda de 1616” e “Carta de trecho da costa pernambucana, entre a Ilha de Antônio Vaz e o Rio Pau Amarelo de 1630”.

A busca de dados em fontes impressas seguiu primeiramente a seleção das obras, em seguida a leitura de todo o conteúdo, anotando os dados referentes às localidades e os acontecimentos em seu entorno para depois serem confrontados com os dois mapas.

 

 

 

A Geografia estudando o passado

 

 

A Geografia sempre se mostrou preocupada com o entendimento da relação homem e meio-ambiente no espaço. Com isso, tornaram-se freqüentes, em suas discussões teóricas e elaboração de trabalhos, o estudo dessa temática e a utilização do conhecimento histórico como uma ferramenta para alcançar seus objetivos[5].

Frequêntemente, a Geografia se debruça apenas no que se pode ver ou mensurar, tratando apenas da realidade que se encontra materializada. Essa visão está bem caracterizada na Geografia produzida no século XIX e XX. Porém isso não implica que o tempo deva ser encarado apenas como coadjuvante numa visão retrospectiva para se entender o presente e, para isso, abre-se a necessidade de se trabalhar também o passado e, assim, questionar seus procedimentos metodológicos de abordagens e conceituação. A descrição tanto do presente como do passado pode também contribuir com a análise da atuação, adaptação, apropriação do meio-ambiente pelo homem.

Estudar o passado dentro de uma perspectiva geográfica é uma das tarefas da Geografia Histórica. Essa, auxilia a mostrar a relação do homem com o espaço no passado, buscando, através de fontes primárias, secundárias e iconográficas, uma melhor interepretação do presente. No caso aqui proposto, dentro dentro da Geografia Colonial brasileira.

Santos (1978, p. 31) tratando da Geografia Colonial afirma que sua utilização “como instrumento de conquista colonial não foi uma orientação isolada, particular a um país. Em todos os países colonizadores, houve geógrafos empenhados nessa tarefa, readaptada segundo as condições e renovada sob novos artifícios cada vez que a marcha da História conhecia uma inflexão”. Isso está presente nos registros de cada época, quando os estrategistas montavam suas ações, o faziam de acordo com o conhecimento prévio de cada localidade e dos seus interesses políticos, econômicos e militares[6].

A afirmação de Santos é pertinente, principalmente quando tomamos como exemplo o século XV na história européia. É nesse período em que ganha força o processo expansionista ultramarino. O fortalecimento do Estado; a participação cada vez maior da iniciativa privada; o desestímulo da importação e estímulo da exportação que fortaleceram o Mercantilismo e a busca por novos mercados e terras para expandir sua economia estimularam a Europa à navegação e exploração. A saída dos europeus de seu continente foi o berço do que se pode chamar de eventos históricos globais.

É nesse ponto que a Geografia, considerando-se seu objeto de estudo a relação do homem com o ambiente, tem a preocupação de estudar também eventos globais que não priorizavam apenas a natureza. Corrobora com essa idéia Moraes (2000) ao trabalhar, em sua obra, o processo de expansão européia e seu estabelecimento na América. Nesse contexto, o estabelecimento do empreendimento português em terras do Novo Mundo no século XVI e a invasão neerlandesa dessas terras no século seguinte é um momento da Geografia Colonial brasileira.

 

 

 

Interesse neerlandês no Novo Mundo

 

 

Em 1580, com a União Ibérica, o Brasil passou ao domínio da coroa espanhola, acontecimento que vai ser fundamental para a vinda da Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie, ou W.I.C.)[7] no século XVII ao Brasil.

A WIC chegou ao Brasil pela segunda vez em 1630, a primeira tentativa de tomada foi em Salvador, seis anos antes, que fracassou. A permanência na Capitania de Pernambuco durou 24 anos e durante esse período seus domínios se expandiram e retraíram-se, mas sempre tendo Pernambuco como ponto central.

A chegada Neerlandesa no Brasil não se constituiu em fato isolado da História mundial. “A WIC conquistou Pernambuco e outras cinco capitanias do Nordeste[8] açucareiro com o fim de diminuir a capacidade econômica da monarquia ibérica e incrementar o seu domínio das rotas comerciais do Atlântico” [9] (PÉREZ & SOUZA, 2006, p. 9).

Até o fim do século XVI os Países Baixos possuíam investimentos na então colônia portuguesa da América do Sul, o Brasil. Segundo Andrade (1984), do ponto de vista econômico, havia a dependência dos Países Baixos, pois tanto o comércio do açúcar, através do transporte, como os financiamentos para a implantação de engenhos e desenvolvimento da cultura da cana-de-açúcar eram controlados pelos seus comerciantes.

Esses investimentos foram ameaçados com a unificação das coroas de Portugal e Espanha em 1580, período de sessenta anos conhecido na historiografia como União Ibérica. Sendo assim, a relação entre os Países Baixos e Portugal entrou em crise devido aos sucessivos embargos sofridos por navios neerlandeses em portos ibéricos que comprometiam o suprimento de uma série de produtos considerados indispensáveis. Tais dificuldades foram em grande parte responsáveis pela expansão colonial neerlandesa iniciada em fins do século XVI (MELLO, 1998).

Para controlar o capital já investido no Brasil e ainda o comércio dos produtos oriundos dele, os neerlandeses, através da WIC, prosseguiram com a empreitada de invadir os domínios portugueses no novo mundo. A primeira tentativa de invasão ocorreu na capitania da Bahia, centro político da colônia, porém, não tendo êxito, direcionaram-se para Pernambuco, centro econômico.

A incursão neerlandesa no Brasil foi facilitada por serem conhecedores das condições econômicas e sociais das colônias portuguesas na América[10], bem como o litoral e portos, fruto dos constantes contatos mantidos com a colônia. Isso foi de fundamental importância para a execução dos ataques tanto por mar, como por terra e a conseqüente tomada.

 

 

 

Pernambuco ante bellun[11]

 

 

Antes da chegada neerlandesa, a então Capitania de Pernambuco apresentava duas localidades bem próximas e que viriam a protagonizar os acontecimentos referentes ao período ante bellum. A Vila de Olinda, centro das decisões políticas e administrativas e a pequena povoação dos arrecifes. São comuns nos trabalhos que contemplam Pernambuco, sobretudo aqueles com enfoque antes do século XIX, tratar o Recife como se fosse todo Pernambuco.

A vila de Olinda tornou-se sede da Capitania de Pernambuco, seguindo a opção portuguesa de se instalar em terrenos colinosos para maior facilidade de defesa. Devido à vantagem da presença dos arrecifes, instalou-se ao sul dessa vila, povoação dos arrecifes, que depois veio a se chamar Recife. 

Nas várzeas dos rios, os colonizadores portugueses implantaram a área produtora de cana-de-açúcar com os canaviais e engenhos e ainda procederam com a extração do pau-brasil que existia no litoral. Por ser a capitania mais próxima à Europa, recebia visitas mais frequentes dos navios oriundos desse continente fazendo prosperar o comércio. (CAPISTRANO DE ABREU, 1930)

Desde meados do século XVI, Pernambuco tornou-se centro da expansão portuguesa pelo litoral norte. Dessa localidade partiam expedições para colonização da Paraíba e do Rio Grande, ao norte e do que viria a ser Alagoas e Sergipe, ao sul. Pernambuco apresentava-se ainda como rota[12] de entrada para o interior do continente, utilizando, principalmente, o Rio Capibaribe, pois partindo da sua foz podia-se chegar ao agreste.

O resultado foi que

 

Pernambuco, nas últimas décadas do século XVI, já se conforma como uma região colonial em formação, com uma rede de núcleos, uma estrutura de circulação, áreas de produção especializada, divisão espacial de trabalho e zonas de expansão definidas (MORAES, 2000, p. 312).

 

Com isso, se qualificava com um centro de irradiação de povoamento costeiro. Sendo um dos pontos que também contava com Itamaracá, Bahia, Santo Amaro e São Vicente. Em 1630, a capitania possuía os seguintes limites: ao sul a Capitania de Sergipe d’El-Rei e ao norte com a Capitania de Itamaracá, tendo um litoral com extensão de 46 milhas (MELLO, 1981).

Aliás, na instalação portuguesa há claramente um conhecimento da Geografia Colonial, pois para se instalar numa extensa faixa de terra ao longo da costa necessitavam do conhecimento do espaço natural, com seus rios e caminhos necessários a entrada no interior do continente. Os primeiros mapeamentos do Brasil apontam claramente essa preocupação. 

O conhecimento europeu sobre o Novo Mundo não se restringia ao litoral, mas tinha nele seu ponto forte, os primeiros mapas de Pernambuco mostram o interior ainda pouco cartografado, com imagens se repetindo ao fundo. Os primeiros mapas mostram uma clara preocupação em registrar o conhecimento do espaço que estava sendo apropriado.

O transporte sempre foi um problema a se superar desde o início da colonização portuguesa devido a dificuldade de se locomover sobre o terreno irregular, a falta de meios de transporte adequados e os constantes ataques indígenas. O problema se agravava nas chuvas de inverno com os diversos alagados que se apresentavam em todo o território.

A utilização da rede fluvial de Pernambuco foi importante para a penetração no continente e o escoamento da produção. As entradas eram feitas pelos rios, vias naturais que permitiam o deslocamento rápido, facilidade no transporte de artigos pesados e escoamento da produção para os portos. Isso acontecia levando-se em consideração as influências das marés devido ao pouco volume d´água.

O Recife possuía o principal porto da capitania, mas a documentação registra freqüentemente, a utilização de outros portos ao longo da costa brasileira. Esta evidência mostra que a produção era distribuída e não havia, no Recife, uma centralização logística absoluta para o comércio do açúcar.

 

 

 

O Recife ante bellum

 

 

O espaço do Recife antes da chegada portuguesa se caracterizava por “coroas e bancos de areia, cordões litorâneos, arenosos e restingas, associado tudo a pântanos de água salobra, manguezais, lagamares, esteios e camboas, ou seja, do estuário afogado comum dos rios Capibaribe, Beberibe e Tejipió” (LINS, 1982, p. 99) [13].

Essa configuração, aliada à profundidade na foz dos rios, deu ao Recife a possibilidade de instalação de um porto natural para o atracamento de navios com a finalidade de carregamento, descarregamento e reparos, valendo-se da proteção oferecida pelos arrecifes como apresenta a Figura 1. No interior, devido ao solo e aos regimes de chuva, foi possível a instalação dos engenhos nas várzeas dos rios citados acima.

            A Figura 1 é bem esquemática e informativa para a navegação. Apresenta no lado direito, a Vila de Olinda (2), as fortificações que se encontravam entre essa e o povoado do Recife (1) pelo istmo (6), o porto o curso baixo do Rio Beberibe (4) e uma incipiente ocupação na Ilha de Antonio Vaz (3). Fica bem evidente o pouco conhecimento do interior.

 

 

 

Para Arrais (2004) na marcha da colonização, a redução das manchas verdes dos manguazais e o dessecamento do solo lodoso tomado aos rios atestam a capacidade crescente dos colonizadores de coordenar trabalhos e recursos técnicos e financeirospara abrigar uma população crescente. A expansão da área habitada foi-se efetuando na proximidade dos mangues, dos alagados, das gamboas, vizinhos dos veios de rio que, cortando ilhotas mal delineadas, vinham se extinguir no interior da planície.

Na figura 2, de 1616, é visível o caminho das embarcações, protegido por uma paliçada de madeira e um forte de terra e a ilha de Antônio Vaz, que mesmo bem delimitada, ainda se apresenta sem ocupação. Percebe-se a preocupação portuguesa em mapear o espaço que estavam ocupando uma vez que o conhecimento do terreno era fundamental para a utilização econômica, bem como evitar as diversas áreas alagadas para o transporte e instalação de engenhos[14].

 

 

A figura 2 demonstra a preocupação portuguesa em cartografar os rios que serviam de entrada para o interior e escoamento da produção oriunda dos, sendo o Rio Jordão (4), Rio Tejipió (5), Rio Capibaribe (6), Rio Beberibe (8) e ainda áreas alagadas do atual Canal do Arruda (7). 

A delimitação da vegetação é bem visível, nas margens dos rios demonstram os alagados, enquanto as que aparecem no interior apontam as matas. Quatro zonas se configuram bem definidas: a urbana com Olinda (2); a rural, com os engenhos ao longo da Várzea do Capibaribe[15]; as áreas de plantação de cana-de-açúcar (9) e o porto do Recife (1).

Não se percebe, todavia, a presença de caminhos por terra no interior. Porém, os desenhos de casas apontam os engenhos e os sete quadrados (9) como áreas de plantação de cana-de-açúcar o que comprova a existência de caminhos pelo terreno. O conhecimento do espaço do Recife não pertencia apenas aos portugueses e espanhóis, a chegada neerlandesa comprovará isso.

 

 

 

Neerlandeses chegam ao Brasil

 

 

A invasão das terras brasileiras por neerlandeses teve início em fevereiro de 1630 com o desembarque do efetivo na barra do Rio Pau Amarelo (Figura 3), seguindo em direção ao norte de Olinda enquanto recebiam cobertura de barcos que os escoltavam pelo mar. A montagem da estratégia para a tomada da Capitania de Pernambuco foi realizada a partir do conhecimento do espaço brasileiro.

Suas tropas eram formadas por três colunas, uma com cerca de 934 homens na vanguarda, outra com 1049 na segunda coluna e na retaguarda 935. Até chegarem ao Rio Doce sofreram alguma resistência por parte de luso-brasileiros e indígenas, cuja tropa era formada por cerca de 650 homens, mas conseguiram avançar. A vanguarda atingiu o Convento dos Jesuítas, a segunda coluna se apossou do Convento dos Franciscanos enquanto a retaguarda seguiu contra o Forte do Norte, nas vizinhanças de Olinda, só recebendo resistência mais forte no Convento dos Jesuítas. Ao chegarem em Olinda, receberam um reforço de 500 homens que haviam desembarcado ao sul da vila que já se encontrava sob posse neerlandesa[16]. Isso aconteceu devido à fuga dos habitantes e de alguns soldados para Recife e interior[17].

Após a tomada de Olinda prosseguiram os neerlandeses em direção ao sul, pelo istmo. Chegaram ao povoado de Recife e foram ao encontro do Castelo da Terra ou Forte de São Jorge que após a luta se rendeu. No dia seguinte, o Recife já se encontrava sem resistência, uma vez que os luso-brasileiros haviam fugido, queimando navios e armazéns. Por fim, rendeu-se o Castelo da Água ou Forte São Francisco[18]. Tomando Recife e Olinda, a Capitania de Pernambuco estaria sob domínio neerlandês nos próximos vinte e quatro anos.

A figura 3 ilustra a chegada neerlandesa, apresenta Olinda (2) ao centro com a chegada das tropas neerlandesas pelo mar (6) e depois por terra (7). O mapeamento do interior ainda aparece de maneira tímida, mas já é visível o relevo colinoso a oeste de Olinda. Pode se acompanhar o caminho seguido pelas tropas para invadir Olinda desde o desembarque em Pau Amarelo (3) até a Vila (2), passando pelos rios Doce (4) e Tapado (5). Apresenta ainda o istmo (8) por onde seguiram ao encontro do povoado do Recife (1) com suas fortificações.

 

 

Caracterizando-se como uma sociedade urbana e comercial, os neerlandeses se estabeleceram no litoral para implantar a sede de seu governo e, desde o início, poucos se aplicaram a produção de açúcar, concentrando-se no seu financiamento e transporte. Isso foi refletido  na utilização do espaço nos anos seguintes.

A WIC chegou ao Brasil com o fim de estabelecer uma infra-estrutura que permitisse extrair da colônia todo o lucro que esta pudesse gerar, principalmente, com o comércio da cana-de-açúcar. Para isso buscou desenvolver uma ocupação e utilização racional do espaço em que se assentaram, implementando modificações de acordo com seus interesses e necessidades.

As primeiras resoluções do comando da WIC foram a volta do funcionamento do porto para o escoamento da produção e a fortificação dos seus domínios. Quando da sua chegada em Recife haviam apenas duas fortificações, o Forte São Jorge, entre Olinda e Recife, para proteger o caminho que ligava essas duas localidades e o Forte São Francisco, também conhecido como Forte do Mar, que protegia o principal acesso ao porto, ao norte dos arrecifes. A primeira foi incluída no sistema de defesa neerlandês, enquanto a segunda foi transformada em hospital.

Os neerlandeses se fixaram primeiramente na vila de Olinda, sede da capitania, que exercia influência direta sobre quase todo o interior. Porém, a constante guerrilha com os luso-brasileiros e a conseqüente dificuldade de manter a defesa dessa e da povoação do Recife ao mesmo tempo fez com que optassem por uma delas.

Segundo Andrade (1984), várias eram as vantagens de instalação da sede do empreendimento neerlandês no Recife, uma vez que ainda não dominavam o interior, dependiam do abastecimento remetido da Europa e só poderiam receber esses suprimentos se dominassem o porto; como comerciantes e objetivando conquistar a área produtora do açúcar, preferiram, localizar-se na entrada da área mais abundante em engenhos e então partir para a conquista, garantindo o escoamento da produção e, ocupando um istmo de pequena extensão e uma ilha ao lado, além de grandes extensões de manguezais, teriam, assim, uma forma mais eficiente de se proteger. Porém, as discussões sobre a localização da sede da WIC no Brasil foram constantes nos primeiros anos, como apontam as nótulas diárias. Em vários momentos, Itamaracá foi cogitada como possibilidade de sede devido à capacidade de defesa e haviam ainda aqueles que defendiam a sede em Olinda.

No fim, optou-se por Recife para a sede da ocupação neerlandesa que tornou-se o centro de irradiação da conquista que seguia para o norte e sul do Brasil. A atuação neerlandesa se estendeu também aos territórios portugueses na África com o intuito de assegurar o fornecimento de escravos, naquela época considerados mercadoria imprescindível para a cultura de cana-de-açúcar[19][20].

Recife tornou-se o grande empório comercial, onde era armazenada a produção derivada do açúcar e por onde transitavam todas as mercadorias que demandassem o porto e nele fossem desembarcadas, considerando que era o principal centro abastecedor de todo o interior das demais capitanias conquistadas e das colônias neerlandesas na África. Recife, nesse contexto, experimentou um dos momentos mais importantes da sua História ao tornar-se nó da rede que unia Portugal, Espanha, Itália (ainda não unificada), Inglaterra, Países Baixos, as colônias inglesas da América do Norte, África e Ásia.

Tal fato colocou como principal ponto receptor de produtos tanto por mar, como por terra influenciando diretamente da configuração dos caminhos terrestres e no arcabouço militar para sua proteção. Dentro desse contexto, Recife era a sede política, econômica e militar da ocupação neerlandesa. Era a base para as decisões políticas, principal porto de escoamento da produção açucareira e receptor de produtos e escravos oriundos da Europa e África, bem como ponto de saída das expedições para conquistas de territórios, tanto ao norte quanto ao sul do Brasil.

Aos luso-brasileiros coube a permanência no interior estabelecendo a tática de guerrilha contra o domínio neerlandês. Os 24 anos seguintes foram fundamentais para a História do novo mundo, repercutindo até os dias de hoje.

 

 

 

Considerações Finais

 

 

Salienta-se que o melhor entendimento do presente acontece quando se há um conhecimento do passado. Não apenas dos objetos que ainda estão presentes na paisagem, mas aqueles que tiveram sua importância em um determinado momento e ainda os fluxos originados e modelados por eles. Sendo assim, pode-se almejar um aprofundamento do conhecimento acerca do espaço brasileiro e suas questões territoriais.

É frequênte em trabalhos de interesse geográfico se propor a análise da intereção do homem com o ambiente, porém, nem sempre a execução do trabalho alcança o propósito. Por vezes há uma descrição desse espaço e depois uma discussão superficial sobre a sua interação com as ações humanas. Salienta-se, contudo, que tal façanha se apresenta de maneira complexa para o geógrafo devido as armadilhas do determinismo geográfico.

A Geografia como ciência possui vários elementos históricos, porém quando tratando do passado, cede à História uma das suas principais ferramentas, o mapa. Os mapas e cartas são a representação do espaço conhecido pelo homem e constituem-se de ferramentas fundamentais para os estudos geográficos. O enorme arsenal cartográfico elaborado pela humanidade até o presente se apresenta como registro de um período específico, bem como ferramenta de trabalho. Os mapas são, preliminarmente, uma linguagem de poder. Olhando-se para o passado, eram utilizados na promoção colonial. Algumas terras estavam mapeadas antes mesmo de serem ocupadas.

Sendo assim, o presente trabalho procurou fazer uso dessa ferramenta ao analisar três mapas produzidos no século XVII que ilustram o conhecimento da Geografia Colonial adquirido e registrado.

Além das fontes iconográficas há as fontes primárias. Os diversos regisrros do passado sejam eles relatos, descrições ou diários precisam ser descobertos e exlorados sob à ótica da Geografia. Necessita-se analisar o passado brasileiro sob a ótica da da História do pensamento geográfico. O enorme volume de fontes primárias e iconográficas carecem de uma análise geográfica mais aprofundada.

O estabelecimento português nas terras do novo mundo levou em considerações as dificuldades de se adaptar a esse ambiente. desde cedo a Geografia Colonial portuguesa desenvolveu técnicas e para o uso do espaço e estratégias geopolíticas para domínio do novo mundo. Com o neerlandês, o espaço foi ainda mais explorado, uma vez que apropriado por uma empresa que buscava lucro e, para isso, desde cedo se preocupou em registrar todo o conhecimento necessário para alcançar o êxito que começou com a invasão de 1630.

A chegada e o estabelecimento neerlandês no Brasil é tema de larga discussão dentro da História, apresentando um interessante volume de pesquisas e publicações, espera-se que o mesmo venha a acontecer com a Geografia. Novas fontes vem sendo traduzidas e se colocam à disposição dos pesquisadores que se interessem pelo tema. Com isso, o trabalho aqui apresentado procura contribuir com o tema a fomentar discussões acerca do estudo do passado dentro de uma perspectiva geográfica.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

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[1] Professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Petrolina. Atualmente lecionando as disciplinas: Geografia de Pernambuco, História de Pernambuco, Introdução à Ciência Geográfica e Geografia Urbana nos cursos de graduação em Geografia e História.

[2] Dissertação defendida em 29/08/2006 no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco. Teve a orientação do Prof. Dr. Jan Bitoun (Departamento de Geografia/UFPE) e Co-Orientação do Prof. Dr. Marcos Galindo (Departamento de Ciência da Informação/UFPE), participaram da banca como examinadora externa a Profa. Dra. Bartira Ferraz (Departamento de História/UFPE) e o examinador interno Prof. Dr. Manuel Correia de Andrade (Cátedra Gilberto Freyre/UFPE)

[3] Quanto à nomenclatura de localidades, há presença de nomes portugueses e holandeses para a mesma toponímia, seguindo na maioria das vezes ortografia do período, porém decidiu-se utilizar os nomes em português atual para todas as toponímias apresentadas.

[4] Nótulas Diárias do Conselho Supremo e Secreto do Brasil, 1635-1654.

[5] Uma discussão sobre o tema pode ser vista na obra “Geografia e Modernidade” de Paulo Gomes. O autor apresenta diversas etapas vivenciadas pela Geografia e seu tratamento quanto ao seu objeto de estudo e procedimentos metodológicos.

[6] Segundo Moraes (2005) a Geografia Colonial ainda se encontra pouco estudada pelos países centrais por historiadores e geógrafos, porém “tais geografias não podem de modo nenhum ser confundidas com as geografias geradas nas colônias, isto é, as geradas por interesses autóctones. Estas são movidas por outras determinações históricas, respondendo a processos historicamente particulares. Contudo, a distinção não nega relações e intercâmbios de parte a parte (MORAES, 2005, p. 29)

[7] West Indische Compagnie, em holandês. Empresa que recebia do governo confederal neerlandês o monopólio do comércio, da navegação e da conquista em toda a área compreendida entre a Terra Nova e o Estreito de Magalhães, de um lado do Atlântico e entre o Trópico de Câncer e o Cabo da Boa Esperança, do outro. É comumente conhecida pela sigla WIC.

[8] Alguns autores referem a região norte do Brasil nos primeiros séculos como Nordeste, porém essa denominação só aparece de maneira formal em princípios do século XX com a divisão do território brasileiro em cinco macro-regiões baseada na escola francesa de Geografia. (MORAES, 2003)

[9] Tradução livre do texto: La Compañía Holandesa de Índias Occidentales, conquistó Pernambuco y otras cinco capitanías del nordeste azucarero con el doble fin de mermar la capacidad económica de la Monarquia Ibérica e incrementar su dominio de las rutas comerciales del Atlántico.

[10] Que nesse momento pertencia a coroa espanhola.

[11] Expressão retirada da obra de Mello (1998) que se refere ao período da História de Pernambuco antes da invasão neerlandesa.

[12] Rotas que utilizavam também o caminho pelo sul da capitania, onde hoje é o estado de Alagoas, que através de vários rios se chegava o São Francisco e o Rio Ipojuca, bastante utilizado pelos criadores de gado como atesta Barbosa (2003)

[13] Para uma descrição mais detalhada e evolutiva do espaço do Recife ver: Barreto, Ângela M. O Recife através dos tempos – a formação da sua paisagem. Recife: FUNDARPE, 1994. p. 21-25.

[14] A preocupação neerlandesa fará o mesmo, porém indo além, uma vez que dispunham de técnicas mais avançadas de mapeamento e possuíam uma preocupação em manter o território ocupado do ponto de vista militar.

[15] O termo várzea do Capibaribe é freqüentemente utilizado na documentação para às localidades no interior e pode ser confundido com o atual bairro da várzea.

[16] Uma descrição mais detalhada ver: Hullsman, L.; Teensma, B. N. Descrição da Conquista de Pernambuco por H.C.Lonk. In: Galindo, Marcos (Org.). Viver e Morrer no Brasil Holandês. Recife : FUNDAJ. 2005. p. 141-174.

[17] Calado, Manoel. Valeroso Lucideno ou Triunfo da Liberdade. 4 ed. Recife: FUNDARPE, 1985. 2v.

[18] Que também era chamado da Barra, da Laje ou do Picão.

[19] Mello (2003) permeia os bastidores da estada e do interesse neerlandês no Brasil, apontando que esse não terminou com sua saída em 1654 e mostrando a relação da rede de comércio criada pela WIC abrangendo o Brasil, África e Europa.

[20] Nos últimos anos vem se discutindo basrtante essa ligação entre Brasil é África, Alecantro (2000) apresenta a defesa de que sem o comércio de Tabaco com Angola não seria possível o empreendimento no Novo Mundo.


Ponencia presentada en el XI Encuentro Internacional Humboldt – 26 al 30 de octubre de 2009. Ubatuba, SP, Brasil.





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