Inicio > Mis eListas > humboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 11214 al 11233 
AsuntoAutor
660/09 - SIMPOSIO Noticias
6° Congresso Curit Zeno
661/09 - SIMPOSIO Noticias
662/09 - Turismo y Noticias
663/09 - Call for Noticias
664/09 - "EE.UU. y Noticias
665/09 - El Premio Noticias
666/09 - SIMPOSIO Noticias
667/09 - SIMPOSIO Noticias
668/09 - LA CUESTI Noticias
669/09 - CEREMONIA Noticias
novedad editorial Carvajal
670/09 - Brasil - Noticias
672/09 - APERTURA Noticias
671/09 - Se realiz Noticias
Re: NoticiasdelCeH VDC
674/09 - HOMENAJE Noticias
673/09 - Geografía Noticias
675/09 - O CONCEIT Noticias
678/09 - Wikipedia Noticias
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
Noticias del Cehu
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 11480     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:NoticiasdelCeHu 675/09 - O CONCEITO GEOGRÁFICO DE PAISAGEM E AS REPRESEN TAÇÕES SOBRE A ILHA DE SANTA CATARINA FEITAS POR VIAJA NTES DOS SÉCULOS XVIII E XIX
Fecha:Viernes, 6 de Noviembre, 2009  22:03:16 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <noticias @..............org>

NCeHu 675/09
 

O CONCEITO GEOGRÁFICO DE PAISAGEM

E AS REPRESENTAÇÕES SOBRE A ILHA DE SANTA CATARINA FEITAS POR VIAJANTES DOS SÉCULOS XVIII E XIX

 

Renata Rogowski Pozzo[1]

Leandro Moraes Vidal[2]

 

Resumo

Este ensaio objetiva fazer um breve estudo sobre o conceito geográfico de paisagem, relacionando sua origem com a origem da geografia moderna, que é concomitante às grandes expedições científicas na América Latina, inclusive a viagem de Alexander von Humboldt realizada entre 1799 e 1804. Além disso, busca apresentar algumas das representações da paisagem da Ilha de Santa Catarina descritas nos relatos de viajantes que por ela passaram nos séculos XVIII e XIX, discutindo a utilização destes relatos como fonte para a pesquisa histórico-geográfica e as re-significações do conceito de paisagem (do artístico ao científico) neles presente.

 

 

Abstract

This essay aims to make a brief study on the geographical concept of landscape, relating your origin with the beginning of the modern geography, at the time of the scientific expeditions in Latin America, including the voyage of Alexander von Humboldt, between 1799 and 1804. Furthermore, it also aims to present some of the views about the landscape of the Santa Catarina island, as described on the accounts from voyagers who have been there on the eighteenth and nineteenth centuries, discussing the usefulness of such accounts as a source for historical and geographical researches, and also the different meanings attributed to the concept of landscape in those accounts, from a artistic to a scientific point of view.

 

 

Introdução

 

            Este ensaio objetiva fazer um breve estudo sobre o conceito geográfico de paisagem, bem como sobre as paisagens da Ilha de Santa Catarina descritas nos relatos de viajantes que por ela passaram nos séculos XVIII e XIX.

A origem do conceito científico de paisagem está relacionada com as expedições européias realizadas na América e em outros continentes nos séculos XVIII e XIX. Pode-se atribuir o primeiro uso geográfico deste conceito ao cientista-viajante Alexander von Humboldt, cuja viagem à América Latina, realizada entre 1799 e 1804 constitui, ela mesma, uma espécie de ato fundador da geografia moderna. O interessante aqui é notar que o conceito de paisagem acompanha a geografia desde o princípio, constituindo-se numa preocupação básica dos primeiros tempos desta ciência. Os viajantes, ao avistarem e adentrarem terras estranhas, se deparavam com a questão fundamental para todo aquele que deixa sua terra e se lança ao mundo, e que reside no fundo de toda investigação geográfica: por que este espaço que avisto é diferente de outro, de onde eu venho?     

“Não lhe parece um país encantado? Meu Deus, que parte maravilhosa é esta parte do mundo para qual me mudei? Por que a natureza aqui aspira sempre às anomalias? Por que ela cria formas e feições tão diversas, novas e insólitas? Por que ela é aqui tão extravagante na configuração e na formação das flores e folhas?” (Mata Atlântica, 1817. Carta de Langsdorff a um Amigo Alemão. In: Costa, 1995, p; 23).

Em relação a isso, este trabalho não pretende realizar uma análise profunda da visão dos viajantes sobre a Ilha de Santa Catarina, mas apenas apresentar algumas das representações da paisagem de Florianópolis ao longo dos séculos e discutir a utilização dos relatos de viajantes como fonte para a pesquisa histórico-geográfica, partindo de algumas considerações históricas e epistemológicas sobre o significado do conceito de paisagem. 

Conceito de Paisagem

Flüsse, Bäume, Blumen und Thiere hatten menschlichen Sinn...

Rios, árvores, flores e animais tinham consciência humana...

                             Novalis

 

Nas artes visuais, percebe-se o início da valorização da paisagem no final do século XVIII. Exemplo importante desta tendência são as pinturas de Caspar David Friedrich, pioneiro na representação pictórica dos ideais estéticos do Romantismo, segundo os quais a arte deveria aproximar o ser humano da natureza pura, primordial, de que havia se separado de forma trágica (Siewerdt, 2007). Consagrando a tendência, que vinha desde o Renascimento, de abandono do protagonismo absoluto da representação do corpo humano na arte, típica da pintura religiosa tradicional, Friedrich dá um destaque especial para paisagens majestosas; comumente aparecem em seus quadros pessoas de costas que as observam com devoção.

Deve-se observar a coincidência de que grande parte das obras de Friedrich é realizada exatamente na época em que Humboldt se encontra na América, ou no período imediatamente posterior, em que este sintetiza suas volumosas “anotações de campo”, publicando-as (na França, primeiramente) como Viagem às Regiões Equinociais do Novo Continente. Isto serve para ilustrar o fato de que, se bem a preocupação com o tema da paisagem tenha surgido antes nas artes, já por este período (inicio do século XIX), a investigação do tema já se realizava por diferentes campos do conhecimento e mesmo da técnica (como testemunha o extraordinário desenvolvimento da arte da jardinagem na Europa burguesa do séc. XIX), num jogo de influências mútuas. 

 

 Friedrich_Femme

                        Figura 01. Caspar David Friedrich. Frau vor untergehender sonne, 1818.

 

            Segundo Salgueiro (2001), a paisagem surge na pintura como resultado da ruptura com a visão teológica medieval, e ocupa lugar proeminente na geografia por herança da estética naturalista e do romantismo, e por representar os aspectos visíveis do espaço geográfico. A partir deste rompimento com a representação ocidental cristã do mundo do medievo, surge um novo posicionamento do homem perante o ambiente.

“Efectivamente, o aparecimento da paisagem foi acompanhado de uma revolução científica e técnica que libertou a natureza do concurso divino tornando-a objecto de conhecimento e abrindo caminho à sua manipulação e transformação com diversos fins. (Salgueiro, 2001, p. 3)”.

            Ora, o berço e a época em que se acalenta a idéia de paisagem não deixam muitas dúvidas quanto à classe de homens a quem se pode atribuir a paternidade: os pensadores e artistas da burguesia revolucionária européia, em plena consolidação política e econômica, artífices de uma visão de mundo individualista (a paisagem como expressão de diferentes estados de alma...), idealista em sua relação com a natureza, e em que o espírito científico, embora já bastante desenvolvido, deixava ainda espaço, e na verdade não competia realmente, com o sentimento estético – e novamente em Humboldt vamos encontrar o melhor exemplo da síntese entre o rigor científico e a sensibilidade artística.  Não nos surpreenderá, tampouco, encontrar nas andanças de Rousseau pelos Alpes Suiços, descritas nos Devaneios de um Caminhante Solitário, o precedente literário deste movimento de “descoberta da paisagem”.

            O conceito de paisagem, em seu sentido pictórico, antecede e acompanha o surgimento e a vida da ciência geográfica, e em um sentido mais amplo, ele se liga à própria cultura burguesa em formação. Por outro lado, ele não só é fruto de uma nova concepção filosófica do mundo ou de uma nova concepção de arte (o romantismo), mas deita raízes no próprio desenvolvimento de ciências cujos avanços proporcionaram novas possibilidades à imaginação, mudando também o olhar do homem sobre o seu mundo.  A história do planeta vai se deixando revelar com o surgimento de ciências naturais como a Geologia, e a Terra deixa de ter os 4000 anos pretendidos pela Igreja, através de cálculos feitos a partir da expectativa de vida dos patriarcas bíblicos. Sua paisagem passa a ter uma história, que estende-se ao passado e ao futuro.

            Ao lado do desenvolvimento experimentado no campo das ciências e das artes, o período de que tratamos marca também a gênese do capitalismo europeu, em que as expedições para o Novo Mundo cumprem o papel de, por um lado, responder à ânsia de ampliação do âmbito de conhecimento científico, mas principalmente, de tornarem mais conhecidos os recursos destes territórios do ponto de vista do interesse econômico das potências européias, em um momento em que a burguesia procura ampliar seus espaços de atuação para além das fronteiras nacionais. De qualquer modo, com os viajantes o conceito de paisagem ganha tons mais científicos, passando paulatinamente a se traduzir na expressão visível da ordem natural do mundo (Kosmos), que ao manifestar-se em diferentes formas para diferentes regiões, dá ensejo à formulação de estudos comparativos que são a base da geografia moderna, como demonstra o trabalho pioneiro de Humboldt sobre a “geografia das plantas”, baseado em observações efetuadas em distintas latitudes e altitudes. Apesar do rigor científico, ainda é notável entre estes viajantes a influência do romantismo, equivale dizer, de uma paisagem exterior em íntima relação com a vida interior do indivíduo, causadora de determinadas emoções. A estética (do grego stesis: sensação, sentimento) da paisagem é tão importante quanto o conhecimento de sua morfologia, refletindo a busca de uma união entre ciência e arte, esferas que o mundo moderno, entretanto, colocava em crescente oposição, especialmente à medida em que os intelectuais burgueses abandonavam algumas posições mais radicais, reconciliando-se com a aristocracia e a Igreja diante da organização da classe trabalhadora. Justamente, tal separação entre ciência, arte e vida era objeto de crítica do movimento romântico e também do classicismo, que exaltava a Antigüidade enquanto mundo “não-moderno, um tempo em que ainda não havia fratura entre o sujeito e o mundo” (Stirnimann, 1994).

            Humboldt tratava a paisagem como a configuração da superfície do globo em uma região determinada, cujos caracteres individuais causam nas pessoas sensações e sentimentos (Santos, 2006).  Segundo La Blache citado por Santos (2006), foi Humboldt quem nos ofereceu a visão de conjunto da paisagem. Quanto à origem do termo na literatura geográfica propriamente dita, este mesmo autor observa que:

“Como bem colocou Tricart, a palavra ‘paisagem’ apareceu na Europa com várias traduções, como Landschaft em alemão, landscape em inglês, Paysage em francês. Todas tinham em comum o fato de não possuírem nenhuma utilização científica em particular, até o aparecimento da Geografia Alemã, em que o termo de tornou erudito” (Santos, 2006, p. 101-102).

            Para melhor elucidar este ponto, torna-se interessante aqui discutir brevemente a etimologia da palavra nas duas principais formas em que esta aparece na literatura geográfica, seja nas línguas latinas (paysage, paisaje, paisagem...), ou germânicas (Landschaft, landscape...). No primeiro caso observa-se a presença do radical latino pag- , com sentido próximo a “fixar”, do qual deriva pagus, significando um limite fixado na terra, ou um distrito rural (Houaiss, 2001). Desta origem derivou o vocábulo francês pays com o sentido de “região” e, com advento do Renascimento cunhou-se termo paysage no âmbito das artes, que foi mais tarde difundido para as outras línguas latinas, designando a extensão de território que o olhar alcança (e que portanto o artista pode representar). Landschaft, por sua vez, deriva da raíz germânica land-, registrada em diversas línguas desta origem com o sentido de espaço livre, aberto, mas logo evoluindo para o sentido de unidade administrativa (território), ou de “campo” em oposição à “cidade”, ou ainda de “terra”, em oposição à “agua”. (Kluge, 2002). Como se vê, o sentido original pouco difere em ambos os casos, ainda mais quando se tem em conta que, também a partir do Renascimento, o termo Landschaft passará a ser amplamente utilizado no universo da arte, como espaço compreendido pela visão.

            Observa-se assim que os termos paysage e Landschaft são, em príncipio, perfeitamente substítuiveis um pelo outro, a julgar por sua coincidência de significado e por sua origem etimológica. Ocorre que o desenvolvimento da geografia no início do século XX, marcado pela rivalidade entre as escolas alemã e francesa, irá propiciar uma significativa diferença no uso dos termos. Assim, na literatura francesa a “paysage” não ganhará ares científicos, sendo o conceito mesmo criticado por geógrafos da estatura de André Cholley – que nele viam a manifestação de uma geografia meramente descritiva, pouco dinâmica – e preterido em detrimento de outros termos como “região”, e principalmente “meio” (milieu). Por outro lado, a geografia alemã, principalmente a partir do trabalho de C. Troll, insistirá no uso do termo Landschaft, delimitando-o conceitualmente até chegar na idéia de “entidade visual e espacial total do espaço vivido pelo homem” (Troll, 1971, apud Veado, 2006), ou seja, um complexo natural totalmente relacionado à ação humana (paisagem cultural). Esta idéia se aproxima do uso da noção de paisagem feito mais tarde pela escola de geossistemas, que nela enxerga o resultado da organização espacial dos geossistemas, ou nas palavras de Bertrand (1968, apud Veado, 2006): “[a paisagem é] numa determinada porção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos (...) reagindo dialeticamente uns sobre os outros”.

            O conceito de paisagem estabelecido pela escola alemã de geografia é em certa medida contemporâneo ao utilizado pelos geógrafos norte-americanos quando Carl Sauer[3] (Escola de Berkeley) fundou a geografia cultural, que embutia a este conceito a idéia da relação entre as formas físicas e culturais.  

“Para Sauer a paisagem pertence ao campo da Geografia porque ela é capaz de demonstrar a síntese de fenômenos inter-relacionados em área” (Santos, 2006, p. 104).

Na geografia de Sauer, a paisagem que interessa é aquela que diz respeito aos interesses humanos de habitar, se apropriar e transformar a natureza, chegando a considerar “uma abstração sem sentido” aquela geografia dita física que excluía metodologicamente o homem. Para Sauer, “a paisagem cultural é a paisagem que nasce da expressão cultural humana de agir sobre a área” (Santos, 2006, p.107).

Algumas das críticas a esta visão partiram de Paul Claval, segundo quem ela serviria para explicar as civilizações tradicionais mas não as modernas, pois levava em conta os elementos em si e não as representações feitas destes elementos; apenas as técnicas materiais e não as imateriais. Nesta linha, um dos primeiros geógrafos a introduzir a questão das representações e simbologias na geografia cultural foi Pierre Deffontaines. Alguns geógrafos, a começar por Olivier Dollfus[4], passam então a considerar a paisagem como uma representação do espaço, e não um objeto em si. Dollfus classificou a paisagem em: paisagens naturais (natureza virgem), paisagens modificadas (paisagem natural com pouca ação humana, como uma transição para a paisagem organizada) e paisagens organizadas (paisagem com interferência constante do homem sobre o meio).

Nesta concepção, a paisagem pode ser entendida como uma forma de representação simbólica do espaço, assim como os mapas são representações cartográficas:

“Por não possuir uma existência em si, mas sim ser a essência em si do espaço que representa, podemos representa-la de várias formas. Essa representação evoluiu na história da civilização desde as pinturas rupestres, passando pelas aquarelas, gravuras, fotografias, etc.” (Santos, 2006, p. 140).

Ou, Segundo a definição clássica de Milton Santos (1988, p. 61):

“[...] tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança, é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista alcança. Não é apenas formada de volumes, mas também de cores, movimentos, atores, sons, etc”.

            A paisagem aqui é novamente confirmada como um dado humano, algo que parte do olhar humano. Entretanto, observa-se nesta passagem uma certa limitação no uso do termo, que perde qualquer referência dinâmica ou genética para se configurar como a manifestação instantânea de um dado momento da realidade geográfica, pouco mais que uma fotografia. Não se deve estranhar, portanto, a pouca importância dada por Milton Santos ao conceito em obras teóricas fundamentais como Por uma Geografia Nova. Ali, a exemplo de seus mestres franceses, o ilustre geógrafo baiano parece até querer incluir a “paisagem” em sua crítica à geografia tradicional que “se preocupou muito mais com a forma das coisas do que com sua formação” (Santos, 1977). 

            Em estudos posteriores, Milton Santos, citado por Santos (2006), avança para uma definição mais dialética de paisagem, pensada como um conjunto de formas heterogêneas e de idades diferentes, onde as formas modernas convivem com as rugosidades, que nascem das condições econômicas, técnicas, políticas e culturais - claramente falando de paisagens urbanas:

“Em verdade, a paisagem é uma realidade provisória, que está sempre por se formar; é um quadro de devir, nunca está pronta e muda a cada momento: em suma é uma realidade efêmera” (Santos, 2006, p, 123).

            Por fim, quando Milton Santos trata, na Natureza do Espaço, da inseparabilidade das categorias de tempo e espaço, a qual implica na necessidade de uma periodização baseada na implantação de formas técnicas sobre a paisagem, essa periodização é na verdade análoga àquela própria das geociências, que lidando numa escala de tempo consideravelmente maior,  também datam o espaço em camadas de eras, definidas por padrões ambientais que atuaram de forma diferenciada na formação da paisagem. Assim, em escalas temporais distintas, o estudioso enxerga na paisagem aparentemente estática o dinamismo, seja das forças naturais que atuaram no modelado do relevo, hidrografia etc; seja das forças humanas manifestas em distintos modos de produção e formações sociais que evoluem ao longo das gerações.

            De um modo geral, contudo, o que se percebe é uma forte tendência de abandono do conceito de paisagem pela geografia, especialmente a partir da chamada “geografia crítica” e se é verdade que este vem sendo retomado pela geografia cultural, por outro lado esta o faz apenas prestando atenção aos seus aspectos estéticos, ou seja, perceptíveis pelos sentidos. Ora, por fundamentais que sejam os dados dos sentidos para a apreensão do mundo, e por importantes que sejam os dados culturais na nossa apropriação da realidade, não nos podemos esquecer que, por um lado, a paisagem é feita também de inúmeros fatores invisíveis e na verdade inapreensíveis, que são as múltiplas relações entre seus elementos; e por outro, que os próprios valores culturais são fruto de relações materiais concretas. Assim, a chamada “geografia da percepção” ao adotar a stesis como o próprio objeto de sua reflexão sobre o espaço humano na verdade inverte a ordem dos termos, pois o pressuposto da reflexão filosófica, e também da investigação científica, é que os nossos sentidos apenas são o ponto de partida para a obtenção de um conhecimento mais complexo da realidade, e nunca o contrário. Mas é claro que trata-se aqui de uma forma (entre tantas) de interpretar a paisagem.

Por outro lado, se a realidade que vemos e sentimos diante de nós é o ponto de partida para a pesquisa geográfica, então é inevitável concluir que a observação da paisagem acompanha todo e qualquer trabalho geográfico, independente dos métodos e dos demais conceitos utilizados.

                                                                                                    

 

Representações em Paisagem como Documento Histórico.

 

Como bem sabemos, as representações de uma época estão sempre carregadas dos ideais desta mesma época. A paisagem pintada, como uma manifestação artística e cultural é uma representação de um tempo histórico, e existe em função deste. Tem-se que ter isso em mente ao se utilizar as pinturas de paisagem dos viajantes como fonte para pesquisas histórico-geográficas.

“Ao falar da construção da paisagem pelas viagens pitorescas de artistas no Brasil na primeira metade do século XIX, Belluzzo[5] constata que a paisagem pintada não deve ser atribuída simplesmente ao ‘efeito do lugar sobre o observador’, mas fundamentalmente àquilo que chama de ‘visão pictórica’ do observador artista” (Santos, 2006, p. 198).

Esta visão pictórica seria uma carga cultural prévia, uma cultura técnica. No caso dos expedicionários cientistas, havia toda uma carga filosófica em suas maneiras de representar a paisagem avistada.  A paisagem não era necessariamente representada como fora avistada, dependia dos interesses do pintor em demonstrar determinados elementos.

E hoje em dia, resta lugar para os desenhos de paisagem, na era da fotografia digital? Esta é uma pergunta recorrente, para a qual Santos (2006, p. 218), que utiliza estes documentos em sua pesquisa sobre as cidades coloniais paulistas, formulou boa resposta.

“Com o recurso da fotografia a paisagem passa a ser revelada ‘a posteriori’. O fotógrafo não vivencia todos os objetos alcançados pela visão: o campo de visão, o detalhamento dos objetos na paisagem é dado pela capacidade da objetiva das câmeras fotográficas; é sua objetividade técnica que possibilita a captura de objetos e cenas que o campo e as limitações da visão humana não conseguem capturar. [...] Os resultados e a interpretação da imagem geralmente são obtidas e realizadas pelo fotógrafo somente quando da revelação da película. No que diz respeito ao processo de captura da imagem o fotógrafo pode eu não vivenciar o horizonte observado, prestes a ser fotografado.” (Santos, 2006, p. 218).

Outra diferença em relação à fotografia, é que a ilustração cientifica da paisagem (como no caso dos croquis ainda muito utilizados para representação arquitetônica) dá liberdade ao desenhista-cientista de destacar linhas e elementos conforme seu interesse, para demonstrar mais claramente determinadas relações.

 

 

Os Viajantes e a Paisagem da Ilha de Santa Catarina.

 

No Brasil, assim como em toda América, expedições artístico-científicas são realizadas desde a época da conquista no século XVI até o século XIX, com destaque para a produção deste último século.  Estas expedições, sejam elas consideradas artísticas ou científicas, contribuíram muito para o conhecimento geográfico das regiões percorridas[6].

Um dos primeiros viajantes que se tem registro de ter passado por território brasileiro foi o alemão Hans Staden, em 1550.  Pouco depois, em 1578, tem-se o relato História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, do pastor calvinista Jean de Léry, que, como o anterior, é acompanhado de várias ilustrações da paisagem brasileira. Outros importantes relatos sobre terras brasileiras durante o período colonial são os de Albert Eckhout e Frans Post, que passaram por Pernambuco entre 1612 e 1680 (Artistas Viajantes, 2007).

Muitos viajantes passaram pela Ilha de Santa Catarina no século XVIII, mas poucos deixaram registros em forma de desenhos de paisagem, aparecendo mais representações em forma de mapas em seus relatos.

O Francês Amédée François Frézier aportou em Santa Catarina no ano de 1712. Produziu alguns mapas e perfis (Figura 02) da Ilha, e fez um relato interessante sobre a paisagem e o cotidiano da cidade na época:

“É uma floresta contínua de árvores verdes o ano inteiro, não se encontrando nela outros sítios praticáveis a não ser os desbravados em torno das habitações, isto é 12 ou 15 sítios dispersos aqui e acolá à beira mar nas pequenas enseadas fronteiras à terra firme; os moradores que as ocupam são portugueses, uma parte europeus fugitivos e alguns negros; vê-se também índios, alguns servindo voluntariamente aos portugueses, outros que são aprisionados em guerra”(Berguer, 1984, p. 23).

 

21

                                       Figura 02. Fonte: Berguer, 1984, p. 21.

 

Refletindo sobre as precárias condições de vida dos habitantes da ilha, Frézier relata:

“Esta gente, a primeira vista, parece miserável, mas eles são efetivamente mais felizes que os europeus, ignorando as curiosidades e as comodidades supérfluas que na Europa se adquire com tanto trabalho; passam eles sem pensar nelas [...]” (Berguer, 1984, p. 24).

Frézier expressa ainda a felicidade por ter finalmente conhecido o “arbusto que dá o algodão”, de que desenhou um ramo para, segundo ele, lhe servir de lembrança. De qualquer forma, o desenho demonstra uma preocupação cientifica ao descrever as partes da planta com minúcia, fato especial em relação aos primeiros relatos realizados no século XVIII (Figuras 03 e 04).

 

25b25

          Figuras 03 e 04. Fonte: Berguer, 1984, p. 25 e 26.

 

 

Poucos anos mais tarde, em 1719, a Ilha é visitada pela expedição inglesa de Shervocke e Betagh, que descrevem mais incidentes da viagem do que paisagens catarinenses, além de fazerem algumas retificações às descrições de Frézier, que teriam lido antes de viajar, o que lhes criou muita expectativa. Chamam atenção também para a abundância de animais, inclusive onças que causavam grandes transtornos aos moradores, e para a exuberância da mata atlântica:

“A ilha é toda coberta de matas incansáveis, de forma que, com exceção das plantações, não existe uma só clareira nela toda. A menor das ilhotas ao seu redor igualmente abunda em uma grande variedade de árvores e arbustos cheios de espinhos, o que lhes veda totalmente o acesso” (Berguer, 1984, p. 46).

George Anson comandou a esquadra inglesa que aportou em Santa Catarina no ano de 1740. Produziu uma bela descrição, em que já é possível notar algumas diferenças na paisagem em relação às descrições anteriores, e alguns perfis. Nesta época, estavam em construção os primeiros fortes da Ilha, conforme o relato:

“O Brigadeiro Dom José da Silva Paes, Governador desta Colônia”, tem a reputação de ser um hábil engenheiro; e não se pode negar que ele entende de seu assunto, pelo menos em parte, estando certo das vantagens que a construção de algumas novas obras acarretam, porque, além da contenda de que já falei, existem ainda três outros fortes para defender a entrada do porto, nos quais ainda trabalham, não estando nenhum deles prontos. (Berguer, 1984, p. 64).

Percebe-se aqui também o grande interesse militar e geopolítico que possuia este tipo de informação, obtida muitas vezes em primeira mão por viajantes à serviço das coroas européias. O viajante destaca o lugar privilegiado que consiste a baía abrigada de Santa Catarina para descanso dos navios antes de seguirem para os mares do sul. Conta que a Ilha, num passado recente, era uma terra sem lei habitada por bandidos vindos de Portugal e de várias partes do Brasil. Porém que recentemente fora submetida ao governo da Coroa Portuguesa, que enviara José da Silva Paes para impor governo. Somente em 1740 a Corte Portuguesa estabeleceu governo regular nesta Ilha. Parte das novas leis regulamentava o comércio dos habitantes com os viajantes que ali aportavam. Se antes este comércio consistia basicamente em troca de alimentos por qualquer produto vindo da Europa, já que o dinheiro não valia muito num lugar praticamente desabitado, agora o governo impunha preços exorbitantes aos produtos vendidos na Ilha, causando má impressão entre os visitantes.

Em 1763 a expedição francesa de Dom Pernetty faz importantes ilustrações dos fortes já estruturados e algumas descrições de espanto quanto às moradias, às vestimentas dos habitantes e aos pratos que lhes foram servidos no almoço e no jantar, dos quais, segundo eles, só gostaram do vinho, que era do Porto:

 

“As casas [cerca de 150] de que falo, são as construções ao rés-do-chão, como as casas dos nosso paisanos franceses. São ordinariamente cobertas de canas e folhas de bananeiras ou de uma outra espécie de cana ou junco. Normalmente não se vêem chaminés. Os negros escravos aprontam suas comidas sobre um fogo aceso ao meio do quarto e ali vivem sem se incomodarem, no meio da fumaça” (Berguer, 1984, p. 80).

Em um capítulo do relato intitulado “História Natural da Ilha de Santa Catarina e da Costa do Brasil”, aparece uma descrição geral do ambiente local. Os animais, principalmente onças, macacos, serpentes e insetos, aparecem com freqüência relacionados com os inconvenientes que causam à população - além dos peixes e dos pássaros, que assombraram os estrangeiros por sua beleza. Alguns animais são desenhados e descritos nos relatos (Figuras 05, 06 e 07).

 

939192

Figuras 05, 06 e 07. Fonte: Berguer, 1984, p. 91.

 

Data de 1785 uma das primeiras ilustrações propriamente ditas da paisagem da Ilha de Santa Catarina. De autoria de Duché de Farney, a estampa ilustra o Atlas du Voyage de La Pérouse, que acompanha a edição Voyage de La Pérouse autour du monde, publicada em Paris em 1797 (Figura 08).  Nesta gravura, apesar de pessoas estarem em primeiro plano, a paisagem tem destaque óbvio, e, à esquerda, uma pessoa aparece de costas observando-a. Esta ilustração ficou tão conhecida que foi reproduzida por vários pintores e desenhistas para ilustrar seus relatos e estudos sobre a Ilha.

 

                        Figura 08. Fonte: Reis, 2004.

 

La Perouse, quando visitou A Ilha de Desterro, já indica a existência de cerca de 400 casas e 3.000 habitantes. Como nos relatos anteriores, percebemos a referência às descrições de outros viajantes. Segundo Costa (1995, p. 24), como expressa a vontade descrita por Spix e Martius, “todo viajante gosta de identificar as suas sensações com as de seus predecessores”, mas também de percorrer caminhos ainda não descritos.

Já em finais do século XVIII, em 1797, Semple Lisle atraca na Ilha de Santa Catarina, vindo antes de Laguna, fazendo alguns poucos relatos sobre o cotidiano da Ilha. Segundo suas observações:

“A ilha de Santa Catarina é notavelmente fértil e poderia, com pouco esforço, tornar-se um local muito produtivo; mas tão grande é a preguiça dos seus habitantes, que muito pouco ou nada é feito por eles, sendo que o próprio gado para consumo deve ser trazido de Rio Grande” (Berguer, 1984, p. 126).

A primeira expedição a passar por Santa Catarina no século XIX de que se tem registro data de 1803 e foi organizada pelo Czar Alexander da Rússia, sendo formada por Krusenstern, Lisiansky e Langsdorff. Krusenstern ilustra a “Veduta Della Citta di Nuestra Senhora del Desterro Nell’Isola di S. Caterina”, segundo edição italiana (Figura 09).

 

135

                                     Figura 09. Fonte: Berguer, 1984, p. 135.

 

Segundo suas percepções, a paisagem ainda não havia se alterado muito em relação ao último relato sobre o local, o de La Pérouse:

“A cidade, que está situada em local muito agradável, consiste de cerca de 100 casas mal construídas, e é habitada por 2.000 ou 3.000 pobres e escravos negros. A casa do Governador e o quartel são as únicas construções que se distinguem, por sua aparência, das outras. Eles estavam, nessa época, construindo uma igreja, que em muitos países católicos é considerada muito mais importante que hospitais ou outras edificações úteis” (Berguer, 1984, p. 139).

Fazia parte desta expedição também um astrônomo, Dr Horn, que realizou observações diárias com um telescópio e localizou com precisão a localização da Ilha nas coordenadas geográficas de latitude e longitude.

Na tentativa de dar uma idéia do lugar para os leitores europeus, os viajantes descrevem desta forma a paisagem que avistam e vivenciam:

“O verde luxuriante e a rica fertilidade desta ilha favorecida formam um singular contraste com o elemento cincunvizado. Observam-se por toda a costa laranjeiras e limoeiros, montanhas de árvores frutíferas, vales, planícies e campos espargidos de plantas aromáticas e de belíssimas flores, que parecem brotar espontaneamente; nossas vistas tornam-se encantadas com a paisagem” (Berguer, 1984, p. 152).

Registram já habitarem a Ilha cerca de 10.142 almas em 400 ou 500 casas, e a população total da província seria de 25 a 30 mil pessoas.

Langsdorff organizou cerca de 20 anos mais tarde uma das mais importantes expedições científicas a passarem pelo Brasil, a qual falaremos mais tarde. No seu relato deste ano de 1803, assim aparece descrita sua primeira impressão sobre a paisagem avistada:

 

“O panorama da paisagem a nossa frente, coberta por roupagem de um verde vivo, semeada de flores multicolores, prometia-nos a todo instante o maior prazer durante a nossa estada naquele lugar e o mais confortável bem-estar” (Berguer, 1984, p. 161).

Na descrição da vegetação feita por Langsdorff, muitas espécimes já aparecem com seu nome científico identificado.

Em 1807, o viajante inglês John Mawe chega a Ilha se Santa Catarina. Impressiona a diferença da paisagem urbana descrita por Mawe em relação a recente expedição de Langsdorff:

“As casas são bem construídas, com dois ou três andares, assoalhadas de madeira, jardins tratados, apresentando excelente vegetação e flores. A cidade possui várias ruas e conta de cinco a seis mil habitantes.” (Berguer, 1984, p. 190).

Os relatos já apresentam preocupações claramente científicas, como a descrição dos tipos de rocha que afloram na ilha e seus graus de decomposição, os tipos de solos etc.

A partir da abertura dos portos, em 1808, as expedições pelo Brasil se intensificam, fazendo com que Sergio Buarque de Holanda nomeasse este momento de um “novo descobrimento do Brasil”. 

“A contar de 1808 ficam enfim suspensas as barreiras que, ainda pouco antes, motivaram o célebre episódio daquela ordem régia mandando atalhar a entrada em terras da Coroa de Portugal de ‘certo Barão de Humboldt, natural de Berlim’, por parecer suspeita a sua expedição e sumamente prejudicial aos interesses políticos do Reino” (Lahuerta, 2006).

Data deste ano a expedição de Golovnin, que passou por Desterro, lugar que lhe chamou atenção especial pelo seu aspecto desabitado e desértico:

“Por curiosidade andei pelas principais ruas da cidade. Basta meia hora para ver toda a cidade: ao todo tem umas 400 ou 500 casas. Todas elas são construídas de tijolos, pintadas de branco e têm um ou dois andares com grandes janelas e sem vidros. Não há nada de notável na cidade que merecesse atenção dos viajantes” (Berguer, 1984, p. 201).

Poucos anos depois, em 1812, é o oficial norte-americano David Porter quem aporta em terras catarinenses.   Os atributos naturais da paisagem, a paisagem das praias que acabam em morros, foi o que mais chamou a atenção do comandante.

Entre 1815 e 1818, na expedição Rurick, o naturalista Loius Choris realiza mais registros de paisagem da Ilha de Santa Catarina. As pranchas encontram-se detalhadamente explicadas no relato. Observamos que a ilustração não representa uma paisagem observada de um ponto, mas o agrupamento de elementos de destaque na natureza da ilha que Choris escolheu para mostrar aos leitores, estes sim colocados em uma paisagem (Figuras 10, 11, 12 e 13).

 

choris01choris04

 

Figuras 10 e 11.Fonte: Berguer, 1984, p. 237 e 238.

 

choris02choris03

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figuras 12 e 13. Fonte: Berguer, 1984, p. 239 e 240.

 

Esta expedição foi comandada por Otto Von Kotzebue e contou também com a participação do botânico Adalbert Von Chamisso.  As descrições da paisagem feitas por Chamisso são impressionantes; destacamos o seguinte trecho para demonstrar suas qualidades de observador:

“Quase todas as formas arquitetônicas da botânica estão comprimidas na floresta em rica variação. Cito as acácias com folhas multipenadas, troncos altos e ramos espairecidos em forma de leque. Abaixo destas, e da altura de uma pessoa; ainda de permeio, palmeiras anãs e troncos samambaiais. Cipós emaranhados erguem-se do chão ao cimo das árvores, de lá pendendo para baixo; nos ramos mais altos situam-se alegres jardins de orquídeas e bromeliáceas” (Berguer, 1984, p. 233).

Como nas descrições anteriores, a paisagem natural chama atenção pela sua exuberância, mas a paisagem urbana é apenas descrita por sua precariedade.

A expedição do navegador francês Duperrey passa por Santa Catarina em 1822, acompanhada pelo naturalista Lesson. Estes fazem um extenso relato sobre a paisagem da Ilha, porém não deixando ilustrações. No relato constam inclusive informações sobre os recentes fatos que resultaram na Independência do Brasil, e as circunstâncias políticas atuais do país.  São descritas também as outras freguesias que compõe a Ilha e percebe-se uma evolução da urbanização da Vila de Nossa Senhora do Desterro, que, segundo seu relato, já apresentava cerca de 600 casas e uma população de 6.000 almas. A população da ilha seria de 10.000 pessoas. Indica também a existência de alguns prédios administrativos ao redor da praça central, 4 igrejas nos arredores desta região, e um hospital, o Hospital de Caridade. Consta no relato de Lesson uma interessante percepção sobre o olhar estrangeiro em relação a natureza brasileira:

“Sem querer tornar mais belos os quadros imponentes que diversos viajantes têm feito do Brasil, o naturalista que visita este litoral com os olhos exclusivamente habituados à criação das zonas temperadas da Europa, não se pode furtar, à vista da produção brasileira, de uma emoção tanto mais forte, que ela sobrepuja ainda à que sua imaginação lhe prometia, após as relações de viagem que ele tivesse lido. Nos primeiros dias ele pode apenas se familiarizar com esta pompa e esta grandeza que por toda parte se mostra ao olhar. Somente algum tempo depois é que ele se habitua  a este luxo de vegetação e ao brilhante adorno dos pássaros ou dos répteis que pululam sobre este solo fecundo” (Berguer, 1984, p. 271).

Outras importantes expedições destes anos foram a organizada pelo barão Gerg Heinrich Von Langsdorff entre 1824 e 1829, cujos artistas contratados eram o desenhista topógrafo Hercule Florence, e os pintores Rugendas e Adrien Taunay; e a expedição Thayer chefiada pelo naturalista Louis Agassiz que percorreu o país no ano de 1865, com registros de paisagem feitos por Jacques Burckhardt.  Também, é claro, não poderíamos esquecer que na Missão Artística Francesa participaram muitos outros artistas, entre eles Debret.

Segundo Lahuerta (2006):

“[...] os viajantes que aportaram no país entre 1808 e 1822 podiam ser classificados como: naturalistas, assim como Auguste de Saint-Hilaire, Edward Pohl e Johann von Spix e Carl von Martius; artistas, como Jean Debret e os membros da missão artística francesa; militares, como os prussianos Leithold e Raugo; alguns especialistas contratados pela Coroa para um serviço específico, como o mineralogista Eschwege; e ainda os viajantes renomados, membros de uma burguesia comercial inglesa e francesa, como John Luccock, Koster e Tollenare, geralmente interessados em verificar assuntos de importância econômica”.

Poucos anos depois, em 1825, Carl Friedrich Gustav Seidler aporta em Santa Catarina, cheio de expectativas sobre o lugar, a partir da leitura de outros relatos de viajantes onde ela aparecia descrita como o “Jardim do Brasil”. Grande parte de seu relato descreve o cotidiano dos pescadores da Ilha, dos escravos e a tradicional descrição da precariedade urbana da vila. 

O relato da expedição do suíço Trachsler, que visitou a ilha em 1828, da mesma forma trata mais dos incidentes do cotidiano em relação a sua estadia na ilha, não fazendo grande esforço de descrição da paisagem.

Com a chegada do daguerreótipo no Brasil em 1839, a fotografia passa também a ser usada como forma de registro da paisagem, entre estas estão as famosas fotografias de Victor Frond[7] e Marc Ferrez[8]. A primeira técnica fotográfica que se tem registro foi chamada de Heliografia, desenvolvida na França em 1826 por Joseph Niepce. Este trocava correspondências com Louis Daguirre, o inventor do daguerreótipo[9], participando da concepção desta técnica de produzir imagens pelo processo positivo, vindo porém a falecer antes do projeto ser concluído, em 1837.

Em Santa Catarina, quase um século mais tarde, mas ainda de forma muito rudimentar (porém revolucionário para a época), temos os registros fotográficos da Baronesa Edla von Wangenheim (Figura 14), nascida em Santa Catarina, mas que viveu cerca de 15 anos na Alemanha.

joaquina_ou_campeche

Figura 14 – Campeche ou Joaquina?

Fonte: http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/Edla/

 

            Fotógrafa amadora, Edla retratou muitas paisagens naturais e urbanas tanto da Ilha de Santa Catarina, como outros lugares do Estado nas décadas de 1920 e 1930, porém muitas de suas fotografias ainda não foram identificadas, em virtude da intensa transformação dos espaços. Os originais das fotografias não foram preservadas, apenas os negativos impressos em vidro (as revolucionárias placas de gelatino-brometo de prata).

 

 

Considerações Finais

          “[A Paisagem é] Herança dos processos fisiográficos e biológicos, patrimônio coletivo dos povos que historicamente a herdaram como território de ação de suas comunidades”. Aziz Ab`Saber[10]

 

Lendo os relatos de viajantes que passaram pela Ilha de Santa Catarina, percebemos como a imagem (visão imagética) e os escritos (visão literária) se complementam. Também, a diferença da preocupação (e da precisão) científica, tanto nas pinturas como nos textos, são marcantes entre o século XVIII e XIX, atestando que vivia-se em uma época de transição, de grandes transformações. A partir do século XIX, praticamente todas as expedições contavam com a participação de um ou mais naturalistas, fato que raramente acontecia no século XVIII. Assim, tais relatos, produzidos em diferentes momentos ao longo de praticamente dois séculos, testemunham o grande avanço experimentado pelas ciências da terra no período, o que se verifica por uma apreciação cada vez mais objetiva e científica das paisagens vistas, diferença importante que deve ser levada em conta também por aqueles que desejem utilizar tais relatos como ponto de partida para estudos histórico-geográficos sobre a Ilha de Santa Catarina.

Não por acaso, mas como partes coerentes de um mesmo fenômeno histórico, o período em que os relatos se tornam mais ricos culmina com o da própria gênese da geografia moderna, constituindo-se a obra de Humboldt sobre a América Latina como, simultâneamente: a) o último e o mais completo dos relatos de viajantes feito sobre os domínios coloniais, já que pouco depois eclodiriam os movimentos de emancipação política da maior parte das nações latino-americanas; e b) o primeiro tratado de uma nova ciência, a geografia. 

Outra observação necessária é a de que, nos relatos, é notável o desprezo dos viajantes em geral pela paisagem urbana e o cotidiano dos moradores da vila do Desterro, ocorrendo uma super-valorização da paisagem natural.

Sobre as transformações do conceito de paisagem, concomitantemente ao abandono desta categoria pela geografia atual notamos que esta tendência é mais típica de uma geografia exclusivamente focada em processos sociais, já que este conceito continua sendo desenvolvido na Geografia Física dentro da Teoria dos Sistemas, através dos Geossistemas, ou por exemplo nos estudos da Escola de Ecologia da Paisagem (Landscape Ecology), onde autores como Godron e Forman[11] estudam as estruturas da paisagem, e descrevem sua morfologia com ênfase nos fluxos de energia e matéria. Assim, a paisagem vem avançando do conceito estático “do que a vista alcança” e adquirindo caráter relacional[12].  Concluímos que o conceito de paisagem, se liberado de uma possível idéia de imobilidade ou de uma função meramente descritiva a ele muitas vezes associada, continua a possuir uma grande importância para a geografia, sendo mesmo um dos poucos conceitos capazes hoje de serem igualmente manejados pelas geografias ditas “humana” e “física”, contribuindo desta forma para uma prática geográfica mais integral, voltada à compreensão do complexo sociedade-natureza e de suas múltiplas determinações.

E nem poderia ser diferente, já que, como vimos, a observação da paisagem é fruto de uma mudança de sensibilidade trazida pela época moderna que se encontra na própria raiz do pensamento geográfico, através da figura paradigmática de Alexander von Humboldt, geógrafo de alma artística. Além disso, é justamente a observação “daquilo que a vista alcança”, e as sensações daí advindas, que fazem despertar no estudioso da geografia, por natureza um viajante, a curiosidade de estudar o mundo em que vive, induzindo-o, somente então, a ir além da mera realidade aparente.

 

 

Bibliografia

 

AB’SABER, Aziz Nacib. Os Domínios da Natureza do Brasil. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

                                          

Artistas Viajantes. Exposição do Itaú Cultural, 2007. Enciclopédia Itaú de Artes Visuais. www.itaucultural.com.br - Acessado em outubro de 2008.

 

BERGUER, Paulo (compilação). Ilha de Santa Catarina: relatos de viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Editora da UFSC / Assembléia Legislativa, 1984.

 

CANTERO, Nicolás Ortega. Entre la Explicación y la Comprensión: el Concepto de Paisaje en la Geografia Moderna. In MADERUELO; Javier. Paisaje y Pensamiento. Madrid, 2006, ISBN 84-962-5884-X , p. 107-130.

 

CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. (orgs.) Paisagem, tempo e cultura. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

 

COSTA, Maria de Fática G. O Brasil de hoje no espelho do século XIX: artistas refazem a expedição Langsdorff. São Paulo: Estação Liberdade, 1995.

 

INSTITUTO Antonio Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

 

KLUGE. Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache. Berlin, De Gruyter, 2002. 

                                                                                                           

LAHUERTA, Flora Medeiros. Viajantes e a Construção de uma idéia de Brasil no ocaso da colonização (1808 – 1822).  Scripta Nova. Revista Eelectrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. Vol. X, num. 218 (64), 1 de agosto de 2006.

 

MAMIGONIAN, Armen. A Escola Francesa de Geografia e o papel de Andre Cholley. Florianópolis, Cadernos Geográficos da UFSC, 2003.

 

MEYER-ABICH, Adolf. Alexander von Humboldt. Hamburg, Rowohlt, 1967.

 

PESAVENTO, Sandra Jatahy. O imaginário da cidade: visões literárias do urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

 

REIS FILHO, Nestor Goulart. Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: EDUSP/IMESP, 2001.

 

SALGUEIRO, Teresa Barata. Paisagem e Geografia. Finisterra, XXXVI, 72, 2001, pp. 37-53.

 

SANTOS, Marcio Pereira. O Espaço humanizado, a Paisagem humanizada e algumas reflexões sobre a paisagem em São Paulo no século XVIII e XIX. 2006, 192 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

 

SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: HUCITEC, 1988.

 

________, Milton. Por uma geografia nova: da critica da geografia a uma geografia critica. 2. ed. São Paulo: HUCITEC, 1980.

                      

________, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Huctec, 1996.

 

________, Milton. Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método. In: Espaço e Sociedade. Petrópolis: VOZES, 1979.

 

 

SIEWERDT, Teresa. A Paisagem em Ana Mendieta: Distância, Fissura e Vestígio. Florianópolis, Trabalho de Conclusão do Curso de Bacharelado em Artes Plásticas/UDESC, 2007.

 

STIRNIMANN, Victor-Pierre. Schlegel, Carícias de um Martelo In SCHLEGEL, Friedrich. Conversa sobre a Poesia e outros Fragmentos. São Paulo, Iluminuras, 1994.

 

VEADO, Ricardo Wagner ad-Víncula. Noção de Paisagem Geográfica. Florianópolis, material inédito distribuído aos alunos da disciplina de Geografia Física/UDESC, 2006.

 

http://www.inf.ufsc.br/~awangenh/Edla/  - Acesso em outubro de 2008.

 

www.geocities.com  - Acesso em outubro de 2008.

 

 

 

 

                                     



[1] Mestranda em Desenvolvimento Regional e Urbano no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista do CNPq.

[2] Graduando em Geografia na Universidade do Estado de Santa Catarina. Bolsista PIBIC-CNPq.

[3] Sobre isso, ver: Sauer, Carl. A morfologia da Paisagem. In: Corrêa e Rosendahl (orgs.).  Paisagem tempo e cultura. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1998, p. 17-74.

[4] Sobre isso, ver: Dollfus, Olivier. O Espaço Geográfico. São Paulo: DIFEL, 1972.

[5] Sobre isso, ver: Belluzo, Ana Maria de Moraes. “O Brasil dos Viajantes: a construção da paisagem”. Salvador: Ed. Metalivros, 1994.

[6] Lahuerta (2006), chama a atenção que nesta época, “[...] a própria distinção entre arte e ciência não fazia tanto sentido, e era comum um botânico ou zoólogo, por exemplo, realizar belos exemplos de pintura, considerados como arte”.

[7] Sobre o trabalho de Vitor Frond, um artigo intitulado “Prescriptive observation and illustration of Brazil: Victor Frond's hotographic project”  apresenta muitas informações:

http://findarticles.com/p/articles/mi_6748/is_1_23/ai_n28437190/pg_1?tag=artBody;col1.

Suas fotografias também são facilmente encontradas na internet.

[8] Sobre Marc Ferrez, a publicação mais completa e sistemática é o livro “O Brasil de Marc Ferrez”, publicado em 2005.

[9] “O daguerreótipo utiliza-se de uma propriedade da prata de tornar-se enegrecida quando é exposta a luz e assim formar uma imagem.  Que é negra nos locais onde a prata recebe intensa quantidade de luz, cinzenta onde recebe média intensidade e branca (ou inalterada) onde nenhuma luz a atinge.  Apesar desta técnica fotográfica basear-se na prata, ela nada tem a ver com a fotografia como a conhecemos atualmente. A técnica do daguerreótipo consistia de usar como material sensível a luz uma placa revestida de prata e sensibilizada com o iodeto de prata, que depois de exposta era revelada com vapor de mercúrio aquecido.  E finalmente fixada com tiossulfato de sódio, conhecido como o hipossulfito dos fotógrafos.  Vários foram os motivos que fizeram com que o daguerreótipo não sobrevivesse por mais do que algumas décadas: apesar da alta qualidade das imagens, a mesma era invertida lateralmente e produzia imagens que eram as vezes vistas de um ângulo em positivo e em outro negativo ou as duas coisas ao mesmo tempo. Não era possível ter cópias ou mesmo ampliá-las, sem contar que o processo utilizava-se de vapor de mercúrio que é extremamente tóxico”

Fonte: http://www.geocities.com/soho/studios/2677/Manualfotoweb/Manual/apostila1.htm.

[10]AB’SABER, Aziz Nacib. Os Domínios da Natureza do Brasil. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

[11] Ver: Godron e Forman. Landscape Ecology, 1986.  Trabalhos recentes muito interessantes em arte-paisagem ver: www.robertsmithson.com.

[12] Para Bertrand, por exemplo, a paisagem é, numa determinada porção do Espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto, instável, de elementos físicos, biológicos e morfológicos.  Portanto, a relação, e não a simples soma dos elementos.


Ponencia presentada en el XI Encuentro Internacional Humboldt – 26 al 30 de octubre de 2009. Ubatuba, SP, Brasil.




Crea tu propia Red Social de Noticias
O participa en las muchas ya creadas. ¡Es lo último, es útil y divertido! ¿A qué esperas?
es.corank.com