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Asunto:NoticiasdelCeHu 455/08 - MUDANÇAS CLIMÁTICAS E AQUECIMENTO GLOBAL: Discursos e atores
Fecha:Domingo, 2 de Noviembre, 2008  23:20:19 (-0300)
Autor:Noticias del CeHu <ncehu @..................ar>

NCeHu 455/08

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E AQUECIMENTO GLOBAL:  

Discursos e atores

 

João Lima Sant’Anna Neto

Depto de Geografia/UNESP – Presidente Prudente

 

 

INTRODUÇÃO

 

Um dos temas mais polêmicos e, que tem despertado a atenção da mídia e de grande parcela da população mundial, nos últimos tempos, tem sido a questão do aquecimento global e dos possíveis impactos que mudanças no padrão climático podem acarretar no cotidiano da sociedade, no futuro da humanidade e do próprio Planeta.

Dada a complexidade da natureza do problema, das motivações dos discursos e dos matizes ideológicos que permeiam o debate, não é possível no tempo presente, a aceitação irrestrita da hipótese das mudanças climáticas globais de origem antrópica, como um fato científico comprovado e responsável pelas tragédias anunciadas.

O debate está colocado num contexto em que pelo menos duas grandes correntes do pensamento estão envolvidas. Majoritariamente, o discurso dos defensores da idéia de que o aquecimento global é produto da sociedade urbano/industrial cuja matriz energética baseada nos combustíveis fósseis, ocasiona uma enorme transformação na paisagem, cuja maior evidência é a emissão de gases do efeito estufa responsável pelo aumento da temperatura. Nesta perspectiva, os cenários elaborados a partir de modelos numéricos são catastróficos e exigiriam um enorme esforço mundial para neutralizar seus efeitos adversos.

Num campo oposto, defende-se que o aquecimento verificado no último século é fruto de uma variabilidade natural, determinada por ciclos de vários processos terrestres e cósmicos, principalmente do Sol. Nesta perspectiva, estaríamos experimentando a fase final do período interglacial e, que uma nova era do gelo se aproxima. O ceticismo quanto à capacidade da sociedade global em produzir tal ordem de mudanças é colocado quando se compara a magnitude das forças do mundo natural.

Dada a grande distância das formulações e dos princípios defendidos pelos dois grupos, há um enorme espaço para a elaboração de discursos de corporações, mídia, setores produtivos, ambientalistas e organizações políticas que se utilizam de informações fragmentadas e escolhidas seletivamente para defender interesses particulares. Aqui cabem tanto os ambientalistas messiânicos, quanto àqueles que revelam a catástrofe iminente no formato de um “show da vida”, ambos tendo a disposição enormes recursos financeiros, fruto do sucesso de público e renda do tema, fortemente estimulado pela mídia e com um séqüito de patrocinadores generosos.

A questão não é menor. Em nome das mudanças globais, tem-se justificado uma série de intervenções políticas e de mercado, sobre práticas cotidianas e econômicas que não se referem diretamente ao tema específico. Como exemplos muito próximos de nós, estão os certificados de reduções de emissões (os CER’s em linguagem do mercado) que são derivativos financeiros ou créditos, interessantes aos países que têm de reduzir suas emissões. Ou ainda as taxas do “apagão” cobradas pelas concessionárias de energia.

Sem dúvida, um dos grandes “milagres” da virada do século XX foi a apropriação, pelo capital, do tema das mudanças globais, das páginas dos periódicos científicos para os painéis das bolsas de valores.

O tema é complexo e os atores e interesses são variados. Incluir na pauta desta discussão uma análise crítica, ainda que pouco possa esclarecer, mas que seja pelo menos um exercício de reflexão acadêmica, pode, contudo, trazer elementos para um embate necessário, pois a tragédia anunciada, talvez não passe de uma farsa travestida de crise.

 

 

O PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS

(Os cavaleiros do apocalipse, as ONG’S oportunistas e a mídia sensacionalista)

 

O IPCC - International Panel on Climate Change (2007) afirma que, na atualidade, o aquecimento global é causado pela forma com que a sociedade tem produzido o ambiente. Milhares de cientistas e pesquisadores de todo o mundo, num esforço extraordinário têm perseguido a compreensão dos detalhes desta complexa maquinaria que é o planeta Terra, com recursos financeiros e influência política crescentes.

Cada linha dos relatórios do IPCC é fruto de longos debates e alcançado por meio de consensos, negociações e posições de interesses políticos e econômicos. Assim, os relatórios não são necessariamente o que a ciência tem a dizer, mas sim, o que é possível dizer num quadro geopolítico bastante complexo.

Em ciência, sabe-se que as “verdades” estabelecidas são datadas. Ou seja, a duração de cada nova descoberta tem uma validade efêmera que começa a ser desconstruída a partir de sua concepção. Como a ciência moderna se sustenta pela razão, a linguagem matemática, que não deveria ser mais do que uma poderosa ferramenta, com o passar do tempo tornou-se fim em si mesma. Neste contexto, os modelos matemáticos que sustentam projeções de médio e longo prazo devem ser observados mais como tendências teóricas do que previsões precisas (SANT’ANNA NETO, 2003).

Entretanto, o que se tem assistido nos últimos anos é que os cenários apontados pelas projeções e pela modelagem numérica apresentam algumas evidências concretas, várias afirmações ainda imprecisas, muitos usos oportunistas e uma enormidade de matérias sensacionalistas veiculadas pela mídia.

Após a conferência de Roma, em 1968, pela primeira vez, as questões ambientais foram discutidas em fóruns internacionais. As tensões mundiais decorrentes da Guerra Fria, quando as duas superpotências – Estados Unidos e a ex União Soviética – iniciam um diálogo que culminaria com a distensão mundial.

Neste contexto, a Conferência de Estocolmo, em 1972, foi pródiga na divulgação do desastre ambiental que se seguiu após décadas do belicismo bipolar. Concluiu-se que o estado ambiental do Planeta era alarmante. Nos 20 anos que se seguiram, até a Rio 92, os relatórios trouxeram a tona o resultado preocupante do “progresso” experimentado desde a revolução industrial. As evidências das mudanças das paisagens globais são inequívocas.

O desmatamento descontrolado a impressionante marca de 200 mil quilômetros quadrados anuais; a erosão dos solos agropastoris, cuja perda anual estava na casa dos milhões de toneladas; a destruição da biodiversidade, com milhares de espécies desaparecendo a cada década; a escassez de água potável afetando milhões de pessoas nos quatro cantos do planeta; as emissões de gases do efeito estufa, mudando a química da atmosfera; recursos naturais cada vez mais escassos e provocando danos ambientais pela poluição do ar, da água e do solo.

Mas é a partir do final da década de 1990 e início dos anos 2000, que o grande vilão responsável pelas grandes mudanças globais, o clima do planeta, é responsabilizado pela tragédia anunciada. Uma verdadeira criminalização do clima...

Entre 1982 e 985, o mundo toma conhecimento de um fenômeno excepcional: o El Niño e seu antípoda, La Niña. Tratam-se do aquecimento ou resfriamento das águas superficiais do Pacífico equatorial, que modificando os centros de pressão desta latitude, afeta o regime das chuvas em regiões tão distantes quanto a Califórnia, a Austrália ou o sertão do Nordeste brasileiro (MOLION, 1998). Durante uma década, qualquer variação ou anomalia no regime das chuvas, tragédias como enchentes e inundações ou secas e estiagens eram imediatamente associadas a este fenômeno, cuja explicação de sua origem ainda hoje é controversa. Vinte anos se passaram até que se percebeu que se tratava de um fenômeno natural e cíclico. Ou seja, sempre existiu (pelo menos desde o Quaternário), nós é que o desconhecíamos.

Pouco depois, a comunidade científica descobriria o Buraco na Camada de Ozônio. A emissão de gases do grupo CFC (clorofluorcarbonos), entre outros, estaria destruindo a camada de ozônio estratosférico. Chegou-se a anunciar que a extensão do “buraco” já era duas a três vezes maior que o continente antártico. Em 1992, a mídia divulgou que o buraco da camada de ozônio havia chegado ao Brasil. Uma década depois, verificou-se que o aumento não era linear como se propalava. A subsidência do ar na região polar obedecia a um ciclo de perturbações que provocava o aumento e a diminuição do ozônio na atmosfera, independente das emissões dos gases destruidores do ozônio.

De qualquer forma, este episódio dos CFC’s foi o centro de uma batalha entre gigantes do setor químico, como a Ródia (Rhone Polanc) e a Down Chemical pelo mercado dos aerossóis, em cujo enredo, não faltaram espionagem industrial, sabotagem e interferência de estados nacionais (WEINER, 1992).

Por fim, no início do século atual, nova catástrofe é anunciada: o aquecimento global. O relatório do IPCC (2007) traz a mensagem: “Agora não há mais dúvidas, o aquecimento global é um fato consumado e as incertezas não oferecem mais condições de afirmações em contrário”. Dois gráficos aparentemente simples são oferecidos como provas cabais: um que demonstra o aumento de 0,8º C nos últimos 150 anos (figura 1); o outro, anunciando o aumento da concentração de CO2 de 300 ppm para cerca de 380 ppm, neste mesmo período (figura 2).

 

Figura 1. Desvios da temperatura média anual global com relação á normal 1961/1990.

 

 

Nesta perspectiva, os cenários para as próximas décadas apontam para mudanças nos padrões pluviais, em que áreas mais secas podem receber totais de chuvas superiores a média e, regiões densamente povoadas podem ver reduzidas suas disponibilidades hídricas. Com o aumento das temperaturas, o degelo das altas cadeias montanhosas e das regiões glaciais Ártica e Antártica já perderam mais de 1/3 de seu volume e, num prazo relativamente curto, provocaria uma substancial subida no nível do mar, em torno de até um metro.

 

 

Figura 2. Concentração média de CO2 na atmosfera.

 

 

A concentração de aerossóis e gases do efeito estufa, além de produzir a intensificação das ilhas de calor e enchentes urbanas, representa papel crucial no aumento das doenças respiratórias e do aparelho circulatório.

Todo este conjunto de mudanças, ainda segundo o IPCC (2007), poderia ser responsável por enormes migrações humanas mundiais, diminuição da oferta de alimentos, aumento da morbidade por enfermidades, pobreza e, inclusive, conflitos generalizados, tanto pelo controle dos recursos hídricos, quanto por guerras regionais.

Como medidas mitigatórias, o Protocolo de Quioto criou o MDL (mecanismo de desenvolvimento limpo), em que os países do Anexo 2 (não obrigados à redução de CO2) ao desenvolverem projetos de tecnologia limpa (não poluidores) e reflorestamento para seqüestro de carbono, podem obter os CERS (Certificados de Reduções de Emissões). Propõem-se mudanças da matriz energética mundial, em que além do controle do uso dos combustíveis fósseis, incentive-se a utilização de energia renovável e biocombustíveis.

Em linhas gerais, este é o discurso que majoritariamente tem comparecido na mídia e nos fóruns mundiais em que participam os adeptos das formulações do IPCC. A idéia central é a de que as mudanças climáticas e o aquecimento global são fatos cientificamente comprovados e o planeta já estaria em rota de degradação continuada. Grande parte dos desastres naturais já seria decorrente deste desequilíbrio e a tendência é o aumento tanto em freqüência quanto em intensidade de episódios extremos. A opção, colocada como ordem do dia é a “neutralização do carbono”.

Ora, neste imenso universo de possibilidades, navegam ONG’s e outros atores sociais com enorme potencial de captação de recursos, com fácil acesso aos meios de comunicação e ao poder público. Estima-se que, somente no Brasil, nos últimos 5 anos as organizações não governamentais movimentaram alguns bilhões de reais.

Parte disto, efetivamente utilizada para financiar projetos relevantes. Mas, um volume significativo destes recursos, destina-se mais para a manutenção do sistema que, por não terem (oficialmente) fins lucrativos, margeiam muitas vezes de forma pouco transparente, servindo para engordar contas bancárias de indivíduos oportunistas.

É notória a abundância financeira demonstrada por algumas delas, quer pela estrutura física de suas sedes, quer pela contratação de profissionais especializados em captar recursos os setores públicos e privados. Certas ONG’s, inclusive, já tem operadores no mercado financeiro (bolsa de valores) trabalhando com papéis “verdes”. Não o verde dos dólares, mas o das florestas tropicais. O romantismo ambiental de décadas passadas parece não ter mais lugar nesta nova era. Este espaço tem sido ocupado por grupos messiânicos e pragmáticos oportunistas.

Este processo é facilitado pela nova “onda verde”, em que cientistas dispostos a serem garotos propaganda da tragédia anunciada, em associação com uma mídia ávida por notícias de impacto e, ambientalistas oportunistas, criaram uma mensagem tão poderosa quanto enganadora: a de que o planeta está em perigo.

Ora, o planeta não está em perigo, quem corre enormes riscos é a espécie humana. Num recente artigo publicado pela “Folha de S.Paulo”, José Eli da Veiga chama a atenção para dois fatos. O primeiro trata da afirmação de que “... nada que a espécie humana possa fazer afetará o planeta na escala geológica do tempo de milhões de anos”. Afinal, o que está em jogo é “...a possibilidade de a espécie humana evitar que o processo de sua própria extinção seja acelerado pela depleção de boa parte dos ecossistemas que constituem a biosfera” (VEIGA, 2008).

Vêm da própria ciência, duas máximas axiomáticas: da biologia, o Darwinismo evolucionário nos ensina que é impossível qualquer espécie se eternizar neste planeta; da física, os postulados termodinâmicos nos mostra a certeza inexorável da entropia, ou seja, a qualidade da energia em um sistema isolado tende a se degradar, tornando-se indisponível.

Se for verdadeiro supor que a origem dos problemas que a humanidade tem enfrentado não se relaciona com as mudanças globais, uma vez que não é o clima o algoz da ruptura do equilíbrio planetário, devem-se buscar as respostas, mudando o foco do debate. E, nesta perspectiva, a responsabilidade do modelo de desenvolvimento imposto pelo sistema econômico, historicamente predatório, fortemente consumista, alicerçado sobre uma estrutura social altamente segregacionista, deve ser considerada como a gênese de todo este processo.

Assim, é inútil continuar buscando na atmosfera, os processos que podem estar nos guiando a uma ruptura global. Boa parte deste trabalho tem-se realizado há séculos, com a exploração predatória da natureza e dos homens, pelo próprio homem. Estamos diante de uma outra mudança: sai de cena a força simbólica do conceito de justiça social, entrando em seu lugar o apelo a luta pela preservação e conservação do planeta.

Talvez, a “verdade inconveniente” que nos revelou o ex vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, não se relacione às mazelas do clima do planeta, mas sim, ao enredo farsesco do qual se reveste o discurso catastrofista. Farsa travestida de crise, como estratégia para justificar outras mudanças... a da geopolítica global e da renovação do capitalismo.

 

 

OS CRÍTICOS DO IPCC

(os céticos, os inconformados e os poetas)

 

Pressupondo que muitos dos aspectos considerados pelo IPCC ainda dependem de estudos mais aprofundados, como as teleconexões entre as diferentes dinâmicas atmosféricas, oceânicas e ecológicas, além do papel ainda impreciso do Sol e dos fatores cósmicos, cujos processos, ainda carecem de conhecimento, os críticos do IPCC consideram que as relações de causalidade com outros fenômenos não permitem que as afirmações “catastrofistas” se sustentam cientificamente.

Segundo Jones (2003) a temperatura média global do ar, com relação à média da normal do período 1961/1990, aumentou cerca de 0,6ºC desde 1850. Entretanto, este aumento não foi linear. Subiu 0,37ºC entre 1920 e 1945, diminuiu 0,14ºC entre 1945 e 1978 e voltou a subir entre 1978 e 1999 (0,32ºC). Aliás, nos anos 60 e 70 do século passado, a mídia não cansou de anunciar a chegada da nova era do gelo. Um dos maiores especialistas na questão, o meteorologista britânico Phil Jones afirma que estes desvios podem ser explicados por várias perspectivas, pois muitas variáveis estão envolvidas, como por exemplo, a diminuição do albedo planetário provocado pela fraca atividade vulcânica na primeira metade do século, ou, ainda, a influência urbana nos dados meteorológicos das estações nas últimas décadas (JONES, 2003).

Além disto, é importante lembrar que o que se considera como um “clima normal” para a humanidade são as condições mais quentes interglaciais do Holoceno que tem persistido por cerca de 10.000 anos. Mas, para o planeta, a regra geral são as condições glaciais que predominaram durante a maior parte do Quaternário (último milhão e meio de anos), quando as médias oscilaram entre 8ºC e 14ºC (Bradley, 2002).

Mudanças climáticas são particularmente freqüentes na história geoecológica da Terra. Desde a formação do planeta, sistematicamente o padrão do clima tem mudado de forma mais suave ou mais intensa, em função de um complexo conjunto de fatores, determinando novas combinações dos processos físicos da natureza, como a intensidade da radiação solar e a combinação de forçantes orbitais.

Desde o início do Quaternário, nosso planeta experimentou, grosso modo, uma grande glaciação a cada 100.000 anos. A última delas, a de Würm, encerrou-se a cerca de 10.000 anos. As glaciações quaternárias provocaram diminuição da temperatura média da Terra, que oscilou entre 8º C e 10º C (a média dos últimos 30 anos é de 15,7ºC).

No Holoceno, a temperatura média tem oscilado entre 14º C e 16º C até o tempo presente, com picos máximos registrados a cerca de 7.000 anos atrás (chamado de optimum climático) e entre os séculos XII e XIII (aquecimento da Idade Média). Dois outros períodos foram marcados pelas baixas temperaturas: há 3.000 anos e entre os séculos XV e XIX (pequena idade do gelo).

Uma observação atenta da figura 3 demonstra que nos últimos 10.000 anos a temperatura da Terra variou pouco, quando comparada com épocas geológicas pretéritas, apresentando amplitudes que não chegaram a atingir 2º C.

 

Figura 2. Evolução da temperatura média da Terra estimada a partir de registros paleoclimáticos, segundo Bradley (2002)

 

 

As projeções elaboradas a partir dos modelos climáticos para as próximas décadas são conflitantes e contraditórias e uma das grandes dificuldades está na definição da variabilidade do clima, tanto no que se refere à sua dinâmica quanto nos fatores que ocasionam os ciclos e a periodicidade de seus elementos.

Mas o ceticismo dos críticos advém da hipótese na qual ainda que a sociedade seja capaz de modificar drasticamente o clima nas escalas locais e, de influenciá-lo em escalas regionais, nas escalas superiores, ou globais, as forças físicas envolvidas no processo de mudanças são tão extraordinariamente poderosas que não há como compara-las com as de origem antrópica. Sustentam, por exemplo, que qualquer pequena modificação na emissão de radiação do Sol, afeta de forma muito mais contundente do que qualquer grande ação que a sociedade possa provocar.

Algo em torno de dez erupções vulcânicas da magnitude do Pinatubo (ocorrida em 1991/1992) do El Chichón (em 1982/1983) ou do Monte Agung (em 1963), podem lançar para a atmosfera maior quantidade de partículas e gases (material piroclástico) do que tudo o que a sociedade urbano/industrial conseguiu emitir em todo o século XX (MOLION, 1994).

A questão central é que em tempos interglaciais, como este que estamos vivendo, e está se esgotando, a história ecológica do planeta tem nos mostrado que a amplitude térmica apresenta enorme variabilidade natural. Em termos paleoclimáticos, estamos mais próximos de uma nova era glacial, do que na eminência de um aquecimento global sem precedentes. O elemento novo neste processo é a enorme capacidade que a sociedade atual tem em modificar os padrões de uso, ocupação e produção do território num segmento de tempo tão curto e de forma tão intensa.

Distinguir o quanto deste aquecimento verificado desde o final da pequena idade do gelo até a atualidade é de origem natural e o quanto foi produzido pela humanidade é crucial para entendermos os processos e suas causas. Pode ser que o aquecimento de origem antrópica esteja retardando a entrada de uma nova era glacial. Talvez as mudanças climáticas possam ser tão devastadoras no curto prazo, que a humanidade não esteja mais presente quando a nova idade do gelo chegar. Mas com toda dificuldade que ainda temos para avançar mais rapidamente no desvendamento da complexidade dos fenômenos envolvidos, ainda é prematuro considerar a hipótese do aquecimento global de origem antrópica como fato científico consumado. Talvez uma das posturas mais adequadas neste momento histórico, seja aquela dos poetas: “O acaso não existe, o que chamamos de acaso é a nossa ignorância acerca da complexa maquinaria da causalidade” (Jorge Luis Borges).

 

 

AS INDUGÊNCIAS VERDES

 

Num recente artigo publicado pelo “Los Angeles Times” em 2007, o jornalista norte americano Alan Zarembo, ao tecer ásperas críticas ao filme “Uma Verdade Inconveniente” patrocinado por Al Gore, chama a atenção para a questão do novo messianismo ecológico e aquilo que ele trata como a compra de indulgências verdes.

A compra de indulgências era prática comum na igreja medieval. Uma equipe de valorosos cobradores de impostos profissionais era responsável pela venda de indulgências, uma espécie de letra de câmbio papal, em que os nobres da época pagavam pelo perdão dos pecados cometidos.

De acordo com Blainey (2007), em 1517, o frade dominicano Johann Tetzel chega a Alemanha, enviado por Roma, para vender indulgências. Martinho Lutero, que era um ardoroso crítico desta prática, afixou na porta da Igreja de Wittenberg o seu protesto, com as famosas 95 teses. Foi o manifesto que originou a reforma protestante, na véspera do Dia de Todos os Santos, à 31 de outubro de 1517.

Quase 500 anos depois, Al Gore trouxe a tona um episódio, cuja semelhança, não é mera coincidência. Ao término de seu filme, segundo a Folha de S.Paulo (2007) o ex-vice-presidente norte americano contratou um profissional para contabilizar todas as atividades que emitiram gases do efeito estufa e converte-las em toneladas equivalentes de gás carbônico, ao todo, cerca de 41 toneladas ao custo de 496 US$. Um corretor de títulos de carbono comprou-as no mercado livre e a empresa Native Energy empregou o dinheiro para comprar e repassar, com lucro aproximado de 10 US$ a tonelada, títulos de projetos que haviam economizado emissões de gases.

É mais ou menos assim que funciona a compra de “indulgências” verdes. Paga-se pelo pecado de emitir gases-estufa, com investimentos em projetos de baixa emissão. Não demorará muito tempo para que os títulos para a neutralização do carbono transformem-se em commodities. Uma nova trupe de novos milionários já desponta no horizonte ostentando o selo de “ecologicamente corretos”.

Impressiona a capacidade do sistema capitalista em transformar crises em lucro (e, também, lucro em crises). Mais impressionante, ainda, é a aceitação de cientistas sérios e ambientalistas engajados deste esquema, que em última análise é uma verdadeira fraude contra a natureza e um engodo contábil. Como se o carbono produzido pela poluição originada da queima de combustíveis fósseis ou emissões industriais nas grandes metrópoles pudesse ser neutralizada com o plantio de árvores nas margens de um pequeno córrego num recanto qualquer do planeta. Isto atenta contra qualquer raciocínio minimamente inteligente.

O novo fundamentalismo ambiental, se sob um aspecto, é conivente com a prática das indulgências verdes, por outro lado, apresenta o discurso de que a conservação da natureza é a principal forma de superar as ameaças à vida na Terra.

Veiga (2008) em artigo recente sobre o ambientalismo, crença e ciência, afirma com propriedade que:

“A continuidade da maior parte das formas de vida – das bactérias às baratas, passando pelas amebas, nem de longe está ameaçada pela capacidade destruidora adquirida pela espécie humana. O que deve ser motivo de preocupação é que tal capacidade exacerba a falha metabólica entre sociedades humanas e natureza. Que permaneceu incipiente sob o domínio do fogo, mas que se aprofunda exponencialmente desde a máquina a vapor gerou dependência de fontes fósseis de energia.” (Folha de S.Paulo, 06/01/2008)

O problema maior do discurso aparentemente racional, defendido por setores comprometidos com o sistema, além de insuficiente do ponto de vista científico, é perigoso por tratar a questão como um componente externo as relações sociais.

A busca messiânica pela “salvação do planeta”, como defendem muitos grupos e setores da sociedade, pertence mais ao domínio da religião do que da ciência. O discurso catastrofista encerra em si mesmo uma visão fatalista cuja única saída é o controle do processo de desenvolvimento planetário e a aceitação do conceito de sustentabilidade. Estes conceitos carregam a face mais perversa do antropocentrismo: a que supõe a espécie humana (sua elite) tão sábia e poderosa que é capaz até de obter sua própria perpetuação.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS (MAS NÃO CONCLUSIVAS)

 

Os discursos trazidos á cena sobre as mudanças climáticas e seu papel no desencadeamento de catástrofes, desastres e eventos extremos associados ao aquecimento global pode ser interpretado de várias maneiras.

Pode ser um alerta global, evidenciando o modo de produção baseado em práticas predatórias de exploração da natureza, demonstrando que a capacidade do Planeta em suportar tais impactos atingiu um limite, que nas palavras de James Lovelock (2006) significaria uma ruptura global, pois o frágil equilíbrio entre os processos envolvidos na manutenção de uma situação ótima atingiu seu ponto máximo de suporte.

De outra forma, o discurso catastrofista também pode ser interpretado como uma estratégia para justificar outras “mudanças” na geopolítica global, ou seja, a criação de uma “emergência” global cuja intencionalidade dos agentes políticos e econômicos justificariam a crise de um modelo de desenvolvimento, crise que o sistema necessita para recriar-se, sem que se modifique o modo de produção, mantendo as relações de poder, dominação e concentração de riqueza, responsáveis pelas desigualdades sociais.

Ao se responsabilizar o clima pela “doença” do Planeta, procura-se uma forma de minimizar o papel que os agentes e atores sociais têm na condução do processo de exploração econômica e de seu gerenciamento. Desta maneira, não se coloca em cheque “como” se tem produzido o território, mas, sim, o “quanto” tem sido produzido, numa clara estratégia de se buscar na causalidade do problema, aquilo que, em realidade, somente se encontraria em sua essência.

A tragédia anunciada é um prognóstico do mundo futuro ou uma farsa travestida de crise?

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAINEY, Geofrey. Uma breve história do mundo. São Paulo, Ed. Fundamento, 2007.

BRADLEY, Raymond. Paleoclimatology. Boston: Elsevier/Academic Press, 2002.

FOLHA DE S.PAULO. Primeiro Caderno. Edição de 06 de janeiro de 2008

IPCC. Climate Change. Impacts, adaptation, and vulnerability. Contribution of Working Group II. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.

LEITE, Marcelo. Indulgências verdes. Folha de S.Paulo (Caderno Mais), São Paulo, 09/09/2007.

MOLION, Luis Carlos B. Efeitos de vulcões no clima. Cadernos de Geociencias, Rio de Janeiro, 12:12-23, 1994.

SANT’ANNA NETO, João Lima. Da complexidade física do universo ao cotidiano da sociedade: mudança, variabilidade e ritmo climático. Terra Livre, São Paulo, 20:51-64, 2003.

VEIGA, José Eli da. Ambientalismo, entre a crença e ciência. Folha de S.Paulo, (Tendência/Debates), São Paulo, 06/01/2008.

WEINER, Jonathan. Os próximos cem anos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

 

Conferencia dicatda en las X Jornadas Cuyanas La geografía frente a la necesidad de integrar territorios y voluntades, realizadas en Mendoza, Argentina entre el 28 y el 31 de mayo de 2008.