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Asunto:[encuentrohumboldt] 555/04 - DA NATUREZA E DA SOCIEDADE: FRAGMENTOS PARA UMA DISCUSSÃO DA GEOPOLÍTICA
Fecha:Miercoles, 24 de Noviembre, 2004  13:06:32 (-0300)
Autor:Centro Humboldt <humboldt @...............ar>

DA NATUREZA E DA SOCIEDADE: FRAGMENTOS PARA UMA DISCUSSÃO DA GEOPOLÍTICA

    

 Profa. Dra. Vânia Rubia Farias Vlach

  Instituto de Geografia

Universidade Federal de Uberlândia

 Brasil

 

                          

Apresentação

 

A natureza e a sociedade têm sido, ao longo dos séculos, pelo menos no que se convencionou denominar de mundo ocidental, os centros da vida, no sentido de que, consideradas opostas, complementares ou em relação dialética, a vida se instaurou por meio de ambas. Podemos nos perguntar se, de imediato, não se teria estabelecido uma separação entre os objetos e os sujeitos; os primeiros entendidos como “coisas”, os últimos como “seres livres”, de maneira que a natureza remeteria ao “dado” (ou às “coisas”), e a sociedade remeteria ao esforço, por parte dos seres livres, de não se renderem ao “jugo da natureza”.

 

No ocidente, qualquer abordagem da natureza implica em alguma consideração da vida em sociedade, seja para “naturalizá-la” (o que evidencia algum controle social), seja para tentar governá-la do melhor modo possível (o que solicita o respeito aos direitos fundamentais dos homens). Em outras palavras: a política se instituiu no movimento entre a natureza e a sociedade, um movimento não linear, mas ininterrupto, o que deixa claro que os recursos naturais não entraram na pauta política apenas recentemente, como pode sugerir o relatório do Clube de Roma e sua repercussão mundial. Latour lembra que “concepções da política e concepções da natureza sempre formaram uma dupla tão rigidamente unida como os dois lados de uma gangorra, em que um se abaixa quando o outro se eleva e inversamente” (2004, p. 59).

 

Não faremos referência às inúmeras concepções de natureza, nem às suas abordagens, tanto porque a literatura é imensa, quanto porque interessa-nos assinalar que, em não poucos trabalhos de Geografia moderna, a natureza foi entendida conforme sua origem etimológica (do latim natura). Por conseguinte, tais estudos incluem as coisas não sociais (a natureza não social) e os seres sociais (a natureza social).

 

Assim, Alexander von Humboldt, que se dedicou a investigar a natureza no âmbito de um projeto científico além da Geografia, explicitou seu interesse em compreender as relações entre as denominadas “natureza física” e “natureza moral”, no intuito de estabelecer a influência que a natureza física exerce sobre a vida dos homens. Concomitantemente, suas investigações, que o trouxeram à América espanhola em 1799, lhe permitiram defender a idéia de harmonia da natureza: “A Natureza, considerada por meio da razão, isto é, submetida em seu conjunto à ação do pensamento, é a unidade na diversidade dos fenômenos, a harmonia entre as coisas criadas que diferem por sua forma, constituição e pelas forças que as animam; é o Todo animado por um sopro de vida. (...) Penetrando nos mistérios da Natureza, descobrindo seus segredos e dominando, pela ação do pensamento, os materiais recolhidos mediante a observação, é assim que o homem pode se mostrar mais digno de seu alto destino” (Apud Mendoza et al., 1982, p. 160-161).

 

Por outro lado, ao explicar a instabilidade da noção de natureza por meio do desenraizamento, da conquista, do espelho, da dialética, da relação de força, Latour (2004) sublinha que essas cinco formas não eliminam a distinção entre natureza e sociedade, mas opõem uma à outra. Se lembrarmos que há um certo consenso, entre os geógrafos, no sentido de que sua ciência estuda as relações entre a sociedade e a natureza, também é pertinente registrar que, inúmeras vezes, usaram a natureza para descaracterizar a política no movimento de organização da dinâmica das sociedades ocidentais, indiscutivelmente de caráter político.

 

Nunca é demais repetir que, por meio da ciência (e a Geografia deu sua contribuição para tal!), a natureza se tornou, gradativamente, mais conhecida, controlada, dominada. E, paralelamente, se tornou o “cemitério” da política, no sentido de instrumento que uns utilizaram para controlar outros (e a Geografia não foi, nem é, a única a atuar nesse sentido!). O fato é que as coisas (a natureza, o dado) e os seres livres (o humano, a cultura) se encontram, perpetuamente, em conflito e em contradição.

 

No livro Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia (2004), Bruno Latour aborda a questão da Ecologia política. Embora não nos ocupemos dela nesse texto, concordamos, em primeiro lugar, com a observação segundo a qual “agora que os movimentos ecológicos nos anunciam a irrupção da natureza na política, será preciso imaginar, na maioria das vezes com eles e, algumas vezes, contra eles, o que poderia ser uma política enfim livre desta espada de Dâmocles: a natureza” (Latour, 2004, p. 12).

 

Perguntamo-nos, pois, se a Geografia não tem algo novo a dizer, e em que medida Geografia e Ecologia política poderiam contribuir para que se elabore um mundo comum (se é que podemos viver juntos).  Em segundo lugar, observamos que a natureza tem sido, ao longo do tempo, o objeto central das pesquisas e da prática social dos geógrafos, alguns dos quais contribuíram muito para a referida “naturalização”, instrumento do caráter apolítico tantas vezes empregado para qualificar (ou desqualificar!) a Geografia. Em terceiro lugar, interessa-nos fazer uma discussão a respeito da natureza, da sociedade, da política na Geografia, com o olhar voltado para uma nova concepção de Geopolítica (que exporemos mais à frente).

 

 

Da natureza, da sociedade e da política na Geografia: observações preliminares

           

 

De uma maneira muito resumida, podemos afirmar que conhecer a natureza dos diferentes lugares da superfície da Terra, é uma antiga preocupação da Geografia, e isso se mantém (com intensidade maior ou menor) até a atualidade. Essa curiosidade, porém, não se limitou a um inventário dos recursos naturais, nem ao seu mapeamento (nas origens, cartógrafo e geógrafo eram um só personagem), porque aqueles que desempenhavam essas funções não podiam desdenhar os demais seres livres, uma vez que eram esses que podiam representar, ou não, um perigo ou um obstáculo às pretensões (políticas, econômicas, militares) dos que solicitavam tais enquêtes. Por conseguinte, a sociedade também era estudada, mesmo se limitada aos fatos histórico-lineares de um conjunto de indivíduos e não de classes sociais, e entendida (regra geral) como um corpo desprovido de conflitos e contradições; essa situação se alteraria consideravelmente, sobretudo na segunda metade do século XX.

 

A história do pensamento geográfico registra que os estudos, cada vez mais pormenorizados dos lugares – e das sociedades neles organizadas –, obedeciam aos interesses políticos (dentre outros) de impérios, estados, grupos, de maneira que se criaram e/ou consolidaram concepções da natureza, ao mesmo tempo em que essas concepções reforçaram as concepções da política. Inúmeras vezes, tanto a sociedade quanto a política foram “naturalizadas” nesses trabalhos, algo instigante porque “a situação de conhecimento jamais coloca o indivíduo em relação com o seu objeto (...), mas [com] um conjunto crescente de pesquisadores que se controlam uns aos outros com a delimitação de uma especialidade definida e aceita por eles” (Serres, 1991, p. 31). O controle dos pares pelos pares remete ao antigo controle social, explicitando a indissociabilidade entre ciência e sociedade.

 

De qualquer maneira, para tentar encaminhar a questão de saber se a Geografia  tem algo a dizer no contexto em que se proclama que a Ecologia política é uma alternativa profícua para os desafios da ciência no mundo contemporâneo, é  preciso considerar, ainda que brevemente, as relações que os geógrafos estabeleceram entre a natureza e a sociedade do ponto de vista da  Geografia Política. E da Geopolítica;  afinal, há pouco mais de um século, falar de uma sem falar da outra, é muito difícil.

  

Esclarecemos que a Geografia Política precede a Geopolítica e geralmente tem um caráter mais acadêmico, o que decorre, pelo menos em parte, da dificuldade de os geógrafos assumirem a política e o político em suas obras. É esse tom acadêmico que encontramos na Politische Geographie, mesmo se Ratzel entende que a Geografia Política “deve ser completamente assimilada pelo observador dos fenômenos geopolíticos” (1987, p. 55), conforme escreveu no prefácio da primeira edição dessa obra (1897). Na França, a Geografia Política acabou sendo denominada de Geografia Humana, na tentativa de se evitar o uso do termo política, principalmente no pós Primeira Guerra Mundial, pois essa obra de Ratzel foi interpretada como um marco inaugural da Geopolítica alemã (o que é discutível). Paralelamente, a sinonímia entre geopolítica e nazismo (outro equívoco), antes e durante a Segunda Guerra Mundial, permite-nos concordar com um geógrafo francês: “De maneira clara, Ratzel, depois a Geopolitik, criaram um bloqueio psicológico. Por duas vezes, em 1932 e em 1939, Demangeon, um dos mestres da Sorbonne, adverte rigorosamente contra tudo o que ele considera uma negação do espírito científico” (Sanguin, 1996, p. 204).

 

Esse “espírito científico”, concordante com a tradição epistemológica francesa, fortemente marcada pela objetividade, pela racionalidade, pela autoridade e pela neutralidade, pode ser evocado para explicar porque a Geografia Política não se desenvolveu na França de fins do século XIX e início do século XX, quando a “escola francesa de geografia” se consolidou. Por que?  

 

Nesse sentido, é preciso lembrar que Paul Vidal De La Blache (1845-1918), o fundador dessa escola que se disseminou pelo mundo, a exemplo do Brasil, abordou efetivamente a política e os fenômenos políticos apenas em sua última obra: La France de l’Est (Lorraine-Alsace) 1917, cuja primeira edição é de 1917. Por sinal, essa obra ainda hoje é pouco conhecida.

 

Um parêntesis se impõe para registrar que tais temas não eram ignorados na França: Élisée Reclus (1830-1905) não só havia trabalhado questões polêmicas e temas que a corporação não queria enfrentar nem desenvolver, a exemplo da política, do político (relações de poder, Estado, críticas ao Estado francês [participou da Comuna de Paris, em 1870] ), do urbano etc. como publicara muitas obras, das quais a Nouvelle géographie universelle, em 19 volumes, também se destaca porque inclui questões sociais. Entretanto, porque assumia sua posição de anarquista, ficou à margem da vida universitária francesa.

 

Por outro lado, é verdade que, desde o início da primeira década do século XX, La Blache revê os objetos de estudo de seu “modelo” de monografia regional, já consagrado na França e segundo o qual a Geografia corresponde a uma análise compartimentada e apolítica de um espaço (nesse caso, à escala regional), e a sociedade é reduzida ao conjunto de homens que vivem, na sua grande maioria, no campo (o “homem habitante”), como se a cidade industrial e os modernos meios de transporte e comunicações não atuassem na organização do espaço francês.

 

Em 1903, com a publicação do livro Tableau de la géographie de la France, Vidal consolidou o “modelo” da monografia regional. Não explicitou os critérios que teriam definido o que chamou de “individualidade geográfica”, não obstante assinalar que a mesma “não resulta de simples considerações de geologia e de clima. Não é uma coisa dada de antemão pela natureza. É preciso partir da idéia de que uma região é um reservatório onde dormem energias cujo germe a natureza depositou, mas cujo emprego depende do homem. É ele que, curvando-a a seu uso, evidencia sua individualidade. Ele estabelece uma conexão entre fatos esparsos; aos efeitos incoerentes de circunstâncias locais, substitui um concurso sistemático de forças. É então que uma região se precisa e se diferencia, e se torna, com o tempo, uma espécie de medalha cunhada segundo a efígie de um povo. Esse termo de personalidade pertence ao domínio e ao vocabulário da geografia humana. Ele corresponde a um grau de desenvolvimento já avançado das relações gerais” (Vidal De La Blache, 1994, p. 20).

 

Uma leitura do livro, porém, não deixa dúvida de que as regiões que individualizou na França tiveram como marco algum fenômeno da natureza (o mar, a água, o solo, o relevo etc.), ou da sociedade (o “homem habitante”, a vida urbana com raras menções à “aglomeração industrial” ou à “indústria”, o papel da História [iniciou o livro afirmando: “A história de um povo é inseparável da região que ele habita”], algumas referências à política etc).

 

Se a região não é “dada de antemão pela natureza”, mas o homem coloca a natureza a “seu uso” em cada região, e Vidal não vai além do “homem habitante”, nem precisa como, onde, quando e porque essa ou aquela região se definiu, é ainda o conceito de região natural que Vidal emprega nessa obra, que alguns, como André Meynier (1969), consideram o seu chef-d’oeuvre. Nesse sentido, entendemos que a região natural vidaliana, enquanto expressão de uma “síntese” entre a natureza não social e a natureza social, resume muito bem a “naturalização” da sociedade e da política, a que nos referimos no começo desse texto.

 

Paradoxalmente, foi nesse livro que, pela primeira vez, Vidal destacou o novo papel da cidade. Ao constatar que as atividades industriais estavam modificando radicalmente a organização do espaço em Lyon, “(...) uma cidade regional que, para a região que gravita em seu torno, é a cidade por excelência; porém, também é uma cidade européia” (Vidal De La Blache, 1994, p. 368), Vidal reviu inclusive sua concepção de Geografia.

 

Ao avaliar o papel da indústria em Lyon, não lhe escapou à compreensão que algo novo se apresentava à análise geográfica: as atividades industriais, relacionadas com os modernos meios de transporte e comunicações, propiciam a polarização do espaço geográfico pela cidade que as sedia (ou concentra). Vidal introduziu, pois, a noção de região urbana.

 

Nesse momento, afastou-se do conceito de região natural, que havia aperfeiçoado no contexto de uma crítica da divisão político-administrativa do território da França. No artigo intitulado Des divisions fondamentales du sol français (1888), Vidal argumentou que a região natural (definida a partir da contribuição das ciências naturais) constituía o único critério geográfico para a divisão do espaço francês.

 

Esse conceito de região natural faz parte de “sua ambição primeira de fundar uma ciência nova” (Ozouf-Marignier, 1993, p. 15), no sentido de que Vidal se opôs à geografia tradicional por meio do paradigma naturalista; isso explica porque acabou “naturalizando” a sociedade em suas monografias regionais, como constatamos na maior parte do famoso Tableau ..., no que foi seguido por seus discípulos, de maneira geral. Essa ambição deve ser compreendida como um esforço que permitisse a individualização e o reconhecimento de uma escola francesa de geografia. Mas, deve-se registrar também que “a geografia de que Vidal foi o grande inspirador pôde melhor unir, em uma extraordinária síntese, a contribuição geográfica alemã e os elementos esparsos, porém significativos, do pensamento francês da época” (Berdoulay, 1995, p. 226). 

 

Em 1910, Vidal propôs a regionalização da França com base na polarização urbana, sem dúvida um avanço metodológico notável: utilizou critérios urbano-industriais para dividir a França em 17 regiões, cada qual definida a partir da cidade mais importante. Por conseguinte, começou a colocar em prática a idéia de que a região “não é uma coisa dada de antemão pela natureza”, nem algo “dado pelo homem habitante”!

 

Estava aberto o caminho para, alguns anos depois, aprofundar e valorizar a dinâmica das atividades secundárias e terciárias, e o seu papel na organização do espaço, o que fez no livro La France de l’Est. Comparando Lyon à Mulhouse, duas metrópoles regionais, tem clareza de que “a idéia regional é sob sua forma moderna uma concepção da indústria; ela se associa à idéia de metrópole industrial. Não se concebe mais a ação preponderante de uma cidade afastada, ainda que Paris” (Vidal De La Blache, 1920, p. 163). Compreendeu, portanto, o papel que as metrópoles regionais poderiam desempenhar na (re)organização do espaço francês, o que diminuiria o peso da histórica centralização de Paris.

 

No prefácio desse livro, redigido em dezembro de 1916, em meio a atrozes combates entre franceses e alemães, Vidal assumiu o político: “Não há uma linha deste livro que não se ressente das circunstâncias dentre as quais foi redigido. Como poderia ser de outra maneira? Seja-me permitido dizer, entretanto, que esta não é uma obra de circunstância” (Vidal De La Blache, 1920, p. 1).

 

“Não é uma obra de circunstância” porque Vidal defendia o retorno dessa região fronteiriça ao Estado francês, assim que terminasse a Primeira Guerra. Dessa maneira,  enfatizou que seus habitantes, a partir do século XIV, desenvolveram o sentimento de pertencerem à França, não obstante o fato de que uma parte do território da França de Leste pertencia à Alemanha naquele momento (em decorrência de sua vitória na guerra franco-prussiana de 1870/1871). Sabendo que a “política das nacionalidades”, defendida pelo presidente Woodrow Wilson dos Estados Unidos, representava a possibilidade de esse território continuar alemão, Vidal argumentou que, apesar de um percentual significativo da população da França de Leste ser de língua e cultura alemãs, sobretudo no campo, essa população permanecia francesa em sua maneira de ser. Em outras palavras, reforçou o patriotismo de seus habitantes que, em sua maioria, manifestaram o desejo de reintegrarem o Estado francês: “assim na guerra como na paz se afirma uma personalidade regional que, com plena consciência de si mesma, livremente ofereceu sua adesão à grande pátria” (Vidal De La Blache, 1920, p. 105). E lembrou que foi na cidade de Estrasburgo (Alsácia) que eclodiu o Chant du Rhin, transformado em La Marseillaise em 1792, quando os revolucionários de Marselha se dirigiram à Paris, pouco antes da proclamação da I República (21 de setembro de 1792).

 

O Vidal que incorporou a política e o político à Geografia terminou esse livro defendendo a unidade do Estado francês: “(...) O gênio inventivo de Mulhouse aumentou com a importância dos interesses que ele teve de enfrentar. Desejemos que, amanhã, a França se lembre desse exemplo. Após nossas revoluções e nossas guerras, é ao espírito de empreendimento e à cooperação de esforços que cabe refundir, de um metal sólido, a unidade francesa” (Vidal De La Blache, 1920, p. 265).

 

Que outro “metal” poderia refundir a unidade da França, se não o sentimento de pertencimento, por parte dos habitantes dessa região fronteiriça, ao seu território? Não há, pois, como negar o caráter geopolítico dessa obra de Vidal ... mesmo se ele nunca empregou esse termo!

 

As indiscutíveis contribuições que Vidal ofereceu, nesse livro, à Geografia Política, porém, permaneceram esquecidas. Entre 1945 e 1975, a Geografia Política quase não se manifestou na França.

 

Entretanto, “em 1918, uma geografia política à francesa poderia haver começado apoiando-se em duas bases sólidas. De um lado, as duas últimas obras de Vidal de la Blache, La France de l’Est e Le Bassin de la Sarre eram claramente contribuições de geografia política. De outro lado, a reorganização do mapa político da Europa quando dos cinco tratados de paz de 1919-1920 havia levado o governo a cercar-se de uma plêiade de geógrafos ao redor das mesas de negociação (Auerbach, Blache, Chabot, Demangeon, de Margerie, de Martonne, Gallois...). Gallois, o discípulo fiel, havia publicado, entre 1918 e 1924, artigos perspicazes sobre as novas fronteiras da Alemanha e da nova Iugoslávia, assim como sobre a divisão colonial do Pacífico, resultante da Conferência de Washington (1921-1922). O salto verdadeiro infelizmente não ocorreu, porque rapidamente se confrontou com uma reação violenta de rejeição da Geopolitik alemã, ao mesmo tempo em que a geografia política, nos países anglo-saxões, continuava avançando e se desenvolvia” (Sanguin,1999, p. 203-204).

 

Jacques Ancel, falecido em 1943, era mal conhecido entre os pares, que não aceitaram a inclusão da geopolítica na análise geográfica, mesmo se sua análise não divergisse fundamentalmente das observações que Vidal fez, inclusive em suas últimas obras; seu livro Géopolitique (1936) não recebeu atenção maior. Por sua vez, a Geografia Política de Yves-Marie Goblet, morto em 1955, também não recebeu acolhida melhor, ainda que ele a entendesse como algo que poderia contribuir para estabelecer a paz mundial. Na verdade, apenas Jean Gottmann (1915-1994) se destacaria na Geografia Política francesa. E esse destaque decorre do fato de que concedeu primazia ao conceito de território, na perspectiva da política  e do político.

 

Ademais, é importante assinalar que, na obra de Gottmann, o território não é apenas algo material. “Não obstante ser uma entidade concreta, mensurável, material e substancial, o território político é também o resultado e a expressão de traços psicológicos dos grupos humanos. Portanto, é um  fenômeno psicossomático da comunidade e, como tal, cheio de conflitos internos e de contradições aparentes. Esse conceito conduz diretamente a uma geografia da ética” (Gottmann, 1975, grifo do autor). Observador do fato de que o território político se altera conforme as injunções da História, algumas das quais remetem ao que aqui denominou de fenômenos psicossomáticos, deixou claro que a ética se impõe inclusive no território onde o Estado-nação atua livremente, dada a soberania que se  lhe reconhece. O mesmo é válido no que diz respeito à atuação dos Estados na arena internacional.

 

Considerando as alterações do território político, destacou o papel do movimento na dinâmica das relações políticas entre os homens, acentuando que o mesmo não se limita às fronteiras nacionais, nem aos aspectos materiais da existência humana, ainda que tenha admitido que a política definida por um Estado é materialista quanto aos seus fins. No sentido das referidas alterações, identificou os “sistemas de movimento” e os “sistemas de resistência ao movimento”. Os primeiros compreendem “a circulação” no espaço; aos segundos, denominou “iconografia” (Gottmann, 1952).

 

As “iconografias”, ou seja, as representações sociais que um grupo elabora a partir de símbolos, é uma contribuição original do pensamento de Gottmann à Geografia Política, porque explicitam a força das idéias, do poder simbólico na política, inclusive no que se refere aos Estados, interna e externamente confrontados ao antigo conflito entre o desejo (de uma comunidade política, ou parte dela) de se fechar em seu território ou de se abrir ao mundo, para estabelecer trocas de todo tipo. Por sinal, não hesitou em admitir que o poder simbólico é o fenômeno decisivo em política (Gottmann, 1973).

 

Quantos avanços as obras de Gottmann trouxeram à Geografia Política! Todavia, seus pares praticamente as desconheceram, e continuaram desdenhando esse ramo da Geografia.

 

Isso contribuiu, pelo menos a nosso ver, para que a Geopolítica continuasse mal vista na França, situação que mudaria quando a carência de debates epistemológicos, em parte atribuídos ao caráter apolítico da Geografia definida por La Blache, passaria a ser enfrentada, a partir da década de 1970, por um geógrafo que a entende como um raciocínio que permite, simultaneamente, refletir sobre a complexidade do espaço e agir nele de maneira eficaz (Lacoste, 1976).

 

Alguns anos mais tarde, Yves Lacoste propõe uma nova concepção de geopolítica. E a apresenta como uma démarche para explicar as rivalidades de poder sobre territórios, “quer se trate de analisar rivalidades territoriais entre diferentes tipos de poder, cada território disputado sendo um desafio enquanto tal, por razões estratégicas, econômicas ou simbólicas, seja somente o campo onde se enfrentam as influências rivais” (Lacoste, 1993, p. 29). Contudo, tal démarche se realiza apenas no contexto de sociedades democráticas, pois é nelas que os indivíduos, porque reconhecidos como cidadãos, discutem seus problemas em praça pública; como sabemos, seus problemas se ligam, de uma maneira ou outra, ao território, qualquer que seja a sua escala. Por conseguinte, trata-se de uma geopolítica democrática e cidadã, o que a difere radicalmente das geopolíticas clássicas, relacionadas diretamente ao Estado e a um controle, geralmente militar, do território e da população, como a escola brasileira de geopolítica ilustrou, principalmente no período da ditadura militar (VLACH, 1997).

 

 

 

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Hoje, pois, a Geografia tem algo novo a dizer por meio dessa démarche. É o saber pensar o espaço, por meio da política e do político,  que nos permite enfrentar o desafio de construir um mundo comum. Podemos contribuir ativamente nesse sentido e – por que não? – em conjunto com a Ecologia política. De qualquer maneira, o mais significativo é a decisão – política – de vivermos juntos, como cidadãos cosmopolitas da Terra, o único planeta vivo e da vida.

 

 

 

Referências bibliográficas

  BERDOULAY, Vincent. La formation de l’école française de géographie (1870-1914). 2è. Paris: Comité des travaux historiques et scientifiques, 1995.

 GOTTMANN, Jean. La politique des Etats et leur géographie. Paris: Armand Collin, 1952.

 GOTTMANN, Jean. The significance of territory. Charlottesville: The University Press of Virginia, 1973.

 GOTTMANN, Jean. The evolution of the concept of territory. Social Science Information, v. 14, n. 3-4.

 LACOSTE, Yves. La geographie, ça sert, d’abord, à faire la guerre. Paris: François Maspero, 1976.

 LACOSTE, Yves. Préambule. In:  LACOSTE, Yves (sous la direction de). Dictionnaire de géopolitique. Paris: Flammarion, 1993.

 LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de Souza. Bauru: EDUSC, 2004.

 MENDOZA, Josefina Gómez et al. El pensamiento geográfico. Estudio interpretativo y antología de textos (De Humboldt a las tendencias radicales). Madrid: Alianza, 1982.

MEYNIER, André. Histoire de la pensée géographique en France (1872-1969). Paris: PUF, 1969.

 OZOUF-MARIGNIER, Marie-Vic. Les géographes et le découpage administratif de la France. In: Colloque L’aministration territoriale de la France (1750-1940). Orléans: Comission Espace et territoire, 1993, p. 1-19.

 RATZEL, Friedrich. La géographie politique. Les concepts fondamentaux. Choix de textes et traduction de l’allemand par François Ewald. Paris: Fayard, 1987.

 SANGUIN, André-Louis. La géographie politique. In: CLAVAL, Paul et SANGUIN, André-Louis (sous la direction de). La géographie française à l’époque classique (1918-1968). Paris: l’Harmattan, 1996.

 SERRES, Michel. O contrato natural.Trad. Beatriz Sidoux. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

 VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Tableau de la géographie de la France. Paris: La table ronde, 1994.

 VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Des divisions fondamentales du sol français. Bulletin littéraire, 10 octobre et 10 novembre 1888.

 VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Régions françaises. Revue de Paris, 15 déc. 1910.

 VIDAL DE LA BLACHE, Paul. La France de l’Est (Lorraine-Alsace) 1917. Paris: Armand Colin, 1920.

 VLACH, Vânia Rubia F. La formation d’un grand Etat et la construction de l’unité nationale du Brésil. Université de Paris VIII (thèse de doctorat), 1997.


Ponencia presentada durante el Sexto Encuentro Internacional Humboldt. Villa Carlos Paz, Argentina. Setiembre de 2004.


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