Inicio > Mis eListas > encuentrohumboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 3348 al 3367 
AsuntoAutor
125/12 - Primera C Encuentr
126/12 - “RECURSO Encuentr
127/12 - “LAS FORM Encuentr
128/12 - TERRITÓRI Encuentr
129/12 - Sequía en Encuentr
130/12 - LAS ISLAS Encuentr
131/12 - Isla Cedr Encuentr
132/12 - Expansión Encuentr
133/12 - Promoción Encuentr
134/12 - ESTUDO DO Encuentr
135/12 - TRANSFORM Encuentr
136/12 - La necesi Encuentr
Feliz ano novo Encuentr
137/12 - Movilidad Encuentr
138/12 - EXCLUSÃO Encuentr
139/12 - Os comple Encuentr
1/13 - XV ENCUENTR Encuentr
2/13 - O EIXO BRAS Encuentr
3/13 - QUESTÕES ME Encuentr
4/13 - A JUDICIALI Encuentr
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
ENCUENTRO HUMBOLDT
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 3423     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:[encuentrohumboldt] 128/12 - TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE NEGRA NO PIEMON TE DA DIAMANTINA– BA
Fecha:Martes, 4 de Diciembre, 2012  14:17:33 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE NEGRA NO PIEMONTE DA DIAMANTINA– BA[1]

 

Fábio Nunes de Jesus[2]

 

 

Resumo:

 

O artigo ora desenvolvido é parte dos estudos vinculados ao curso do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Através de um aporte teórico fundamentado na territorialidade negra objetiva-se entender a lógica e permanência dos espaços quilombolas na Bahia frente ao caráter hegemônico de sua configuração territorial. O Piemonte da Diamantina caracteriza-se pela dimensão produtiva originada do ciclo do ouro e mobilidade populacional recorrente na colonização e interiorização do Brasil. Representava ao mesmo tempo a área de fluxo do empreendimento da coroa em busca do ouro e também uma rede de comunicação conflituosa e estratégica da capitania da Bahia com a região das Minas Gerais.A mobilidade social resultante estabelecia conexões entre pontos aparentemente dispersos sobre o território baiano.Estes, transformaram-se em núcleos populacionais que refletiam os interesses e as contradições presentes na ocupação destes espaços .Assim, importantes rotas foram definidas contribuindo para a legitimação e afirmação do povoamento das diversas regiões. Por estes caminhos, a projeção de uma  materialidade sobre o espaço capitalista  revelavam as estratégias de dominação ,que no seu bojo tentava  também eliminar traços recorrentes dos valores culturais dos povos afros .Para este intento, os objetos geográficos dotados de simbologias presentes tornaram-se fundamentais ao contribuir para reificação de uma sociedade com valores e referências predominantes na consolidação do Estado -Nação brasileiro.Em meio a esta teia de relações materializadas no território, os povos africanos, movidos pela cosmogonia presente na interpretação cultural e geográfica de mundo criavam e reinterpretavam os sentidos estéticos e ideológicos predominantes na América à luz de conhecimentos transoceânicos e diaspóricos, produzindo paralelamente espaços subalternos com fortes traços culturais e de auto-referência.

 

Palavras-chave: Território, Territorialidade, Identidade, Bahia, Quilombos

 

 

 

BLACK TERRITORY AND TERRITORIALITY IN PIEMONTE DA DIAMANTINA   BA

 

Abstract:

 

This paper was developed as part of the studies linked to the Mastering Program in Geography of the Federal University of Rio Grande do Norte. Through a theoretical approach grounded on the black territoriality, it is aimed to understand the logic and permanence of the quilombola spaces in Bahia regarding the hegemonic feature of its territorial configuration. The Piemonte da Diamantina is characterized by the productive dimension originated from the gold cycle and population mobility recurrent in the colonization period and internalization of the Brazilian domain. It represented both an area of relevant venture of the crown in search of gold and also a troublesome and strategic communication network of the captaincy of Bahia with the region of Minas Gerais. The given social mobility established among points apparently disconnected throughout the territory of the State of Bahia turned out to be settlements which portrayed the ambitions and contradictions in the occupation of these areas. Thus, important routes were defined by contributing to the legitimization and affirmation of the settlement process in different regions. Through these paths, the projection of a materiality about the capitalist space has revealed the domination strategies, which in its wake also tried to eliminate recurrent features of the cultural values of African people. For this purpose, the geographic objects endowed with these symbols were fundamental in contributing to the reification of a society with values and references prevalent in the consolidation of the Brazilian nation. Amid this web of relationships embodied in the territory, the African people, moved by this cosmogony in the cultural and geographical interpretation of world created and reinterpreted the aesthetic and ideological meanings prevalent in America in the light of transoceanic and diasporic knowledge, producing at the same time subaltern areas with strong cultural features and self-reference.

 

Keywords: Territory, Territoriality, Identity, Bahia, Quilombos

 

 

TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE NEGRA NO PIEMONTE DA DIAMANTINA– BA

           

A presença negra na formação socioespacial brasileira possui uma forte caracterização vinculada ao processo escravista, por vezes este elo contribui por definir este grupo social de forma racializada e maniqueísta no seu entendimento. Esta construção referenda um imaginário constituído nos valores nacionais que contribuiu por deslocar o sentido da real participação negra na produção material do território brasileiro.

A espacialidade negra não poderá ser compreendida mediante o olhar fragmentado sobre seu estabelecimento como grupo humano no Brasil desvinculado de uma totalidade socioespacial com características híbridas e dialógicas, visto que, frente ao padrão e modelo hegemônico de normatização imposta, exigia-lhes a operacionalização imediata de técnicas e consequentemente uma avaliação do seu sentido e apropriação.

Para isto, torna-se necessário reavaliar esta construção territorial à luz dos processos vinculantes e nacionalmente instituídos. Neste sentido, a produção agrícola, a urbanização, a produção econômica e os aparelhos institucionais tornaram-se motores  de uma funcionalidade adequada ao ideário pujante de um espaço nacional através da eleição de um aparato técnico que representava também os ideais de uma modernidade anunciadora ,cuja redenção seria além da continuidade da participação brasileira no sistema capitalista em expansão, o fortalecimento da industrialização e conseqüentemente do território em formação.

Se o território apresenta um caráter extremamente funcionalista, o seu sentido e oficialidade representa também a simulação de uma ordem política e econômica condutora de sua delimitação já que a centralidade e os limites operacionais da época tinham como ponto inicial as cidades brasileiras e as metrópoles europeias Andrelino Campos  observa que:

 

O processo de construção espacial da cidade, em geral, não vem, ao longo da história, contemplando os grupos denominados “minorias”. O fazer a cidade  pertence aos grupos socialmente mais representativos, que participam do processo como sujeitos históricos, enquanto aos demais resta acompanhá-los como massa, sem nenhuma determinação , seja qual for a instância analisada: política, econômica ou social. (CAMPOS, 2005: 19).

 

Portanto, a ocupação exigia uma produção de espacialidades e construção de objetos simbólicos para dotar o território de uma aparência e naturalmente permitir o seu imediato reconhecimento e poder. Se a cidade protagonizava a produção de um  “acontecer” sobre o território ou nos diversos territórios, já que na prática havia uma confusa administração das elites locais frente aos ditames oficiais, o que nos indica especificidades na configuração territorial brasileira, as áreas rurais não pareciam estar totalmente submissas às orientações já que no seu interior emergiam constantes conflitos e ao mesmo tempo representava também a sustentação econômica da colônia.

Este ir e vir entre uma litoralização e interiorização constituia o cerne de todo um fluxo vinculado ao movimento de negros, colonos e indígenas em torno de ciclos produtivos. A circulação resultante permitirá que os objetos culturais materializados através do projeto europeu de ocupação no território brasileiro apresente uma fixação dos agrupamentos humanos ao espaço.Evidente , a mobilidade e o tráfego indicavam os entraves e avanços desta ocupação.

Por sua vez, é no entre espaços (rurais e urbanos, sertão e litoral, cidades e vilas, capitanias e metrópole), entre relações (negros, indígenas e brancos, colonos e escravos, ricos e pobres, intelectuais, políticos e o povo) que podemos encontrar uma territorialidade reveladora da reificação e cristalização dos limites espaciais definidos.

Neste cenário conflituoso o território brasileiro colonial e capitalista será palco de insatisfações dos grupos sociais subalternos já que tanto no campo como na cidade estavam alijados de direitos e representatividades. A elite brasileira estabelecerá o território como prioridade equipando as instituições mediadas por agentes políticos e jurídicos que se apropriaram e criaram determinações legalistas que fortaleciam seus interesses.

Campos destaca no tecido sócio-espacial vigente uma estrutura de segregação tanto urbana como rural através de uma legislação e apropriação dos cargos importantes no período imperial que facilitavam a concentração de terras “proporcionando o aumento da distâncias sociais entre os grupos mais pobres e aqueles mais ricos” (CAMPOS,2005:20). Invariavelmente temos o recrudescimento social presente, onde diante da concentração aludida possibilitará a formação “das maiores fortunas do país” (ibidem. 2005:20). Ao ‘impedir que milhares de brasileiros tivessem acesso a parte das terras, ela possibilitou a existência de um exército de miseráveis que vive das sobras da cidade (ibidem.,2005:20).

A formação dos quilombos no Brasil acompanha a ocupação territorial e designação produtiva das diversas áreas do país em momentos distintos ou simultâneos num contexto capitalista fortemente marcado pelo escravismo. O termo denota espacialidade nas ações e territorialidade na efetivação de uma ordem social pautada num conjunto de valores coletivos e de busca legitima de alteridade. Podemos destacar na visão de Fiabani ,entre os fatores determinantes para o seu surgimento “o assinalado desejo latente de autonomia do cativo, que jamais deixou de se opor à apropriação de sua liberdade-força de trabalho”(2005:253) e as “condições geográficas” vigentes onde havia:

 

(...)território com relevo favorável – densas matas, presença de rios, montanhas escarpadas, pântanos e mangues – facilitava o estabelecimento e a estabilidade de um quilombo, dificultando sua identificação-repressão (FIABANI,2005:254)

 

Aqui, a localização e o caráter estratégico de uma prática espacial revelavam a busca de uma outra representação socioespacial calcada no domínio de técnicas e conhecimento sobre o território necessários  a defesa do grupo.

No entanto, a organização territorial do quilombo apresentava em seu interior cativos e não- cativos visto que, estava amparado na rejeição aos maus tratos e esforços produtivos constantes nas fazendas . Fiabani (2005) destaca ainda que o contingente populacional se dividia entre negros, indígenas, soldados deserdados, e ex-colonos, numa síntese conjunta dos problemas no interior da colônia.

 

Segundo Reis:

 

A fuga que levava à formação de grupos escravos fugidos, aos quais frequentemente se associavam outras personagens sociais, aconteceu nas Américas onde vicejou a escravidão. Tinha nomes diferentes: na América espanhola, palenques, cumbes etc.; na inglesa, marrons; na francesa grand marronage (para diferenciar da pett marronage, a fuga individual, em geral temporária). No Brasil esses grupos eram chamados principalmente quilombos e mocambos e seus membros, quilombolas, calhambolas ou mocambeiros ( 1996: 10).

 

A presença negra no Brasil historicamente remonta ao século XVI e na medida em que estruturava-se o sistema produtivo ampliava-se o contingente humano a ponto de representar uma maioria populacional em algumas capitanias; Bahia, Ilhéus e Pernambuco.

Para Moraes (2005) o trabalho compulsório fundamentou o projeto hegemônico europeu e a consequente instauração do sistema capitalista no Brasil. Técnica e produção ao mesmo tempo instaladas sobre uma base espacial escravocrata geraria invariavelmente distinções quanto à sua interpretação e validação já que desprovido de liberdade , o negro participava como objeto na produção de objetos espaciais sobre o território e paralelamente recriava seu espaço africano por aqui. Para REIS (1996) o lugar de formação de uma sociedade afro-brasileira passava também pela senzala. O que seria a senzala no arranjo do espaço colonial senão um espaço reserva do casarão colonial?

Sem dúvida a projeção material do espaço colonial nos revela em suas entranhas o sentido de um território que objetivado no controle, funcionalidade e hierarquia social possui uma ambiguidade no seu cerne. Reis nos lembra que:

 

                                      Para criação dessa nova sociedade, decerto contribuíram fundamentalmente instituições e sobretudo visões de mundo trazidas pelos africanos, os quais não eram tabula rasa sobre a qual o senhor , governo e igreja coloniais inscreviam seus desejos de dominação. As trocas culturais  as alianças sociais foram feitas intensamente entre os próprios africanos , oriundos de diversas regiões da África, além, é claro daquelas nascidas das relações que desenvolveram com os habitantes locais, negros e mestiços aqui nascidos, brancos e índios (1996: 12).

 

Santos, observando a geograficidade presente no espaço marcadamente híbrido e potencializador das “ações humanas”, destaca a intencionalidade e perspectiva relacional “na contemplação do processo de produção e de produção das coisas, considerados como um resultado da relação entre o homem e o mundo, entre o homem e o seu entorno (1997:73). Esta ação potencializadora produz no território cisões e relocamentos de sentidos, transformando seu conjunto de objetos em peças fundamentais de um determinado sistema e ou arranjo geográfico. Sodré (2002) identifica no espaço da extensão cartesiano um “positivismo” através de uma corporalidade consequente que se manifesta no homem. Este princípio fundamentará o olhar das ocupações europeias cuja base material revelaria o poder cultural espacializado globalmente mostrando a pretensão universalista dos referidos projetos. Se do ponto de vista material “as coisas” e “seres” parecem se confundir, do ponto de vista existencial elas coexistem, já que não poderemos retirar a valoração dos sentidos estabelecidos para a funcionalidade de qualquer coisa, inclusive o espaço racionalizado pelo sistema capitalista. O espaço coisa, apropriado e reprodutor do capital fornecerá ao europeu instrumentos técnicos de transformação e adequação dos lugares ao seu jugo.

 

Assim é que, a partir do século XV, a objetivação das coisas e dos seres é realizada por um sujeito que constitui o seu olhar  como soberano num espaço homogeneizado. Os planos políticos passam necessariamente pelas estratégias “oculares”, que levaram ao remanejamento dos cadastros  e dos territórios.( SODRÉ, 2002: 28)

 

O surgimento do quilombo está situado neste momento dentro de eventos geradores de práticas hegemônicas, ao mesmo tempo torna-se um outro evento. Para Santos (1997:76) o “evento é o resultado de um feixe de vetores, conduzido por um processo, levando uma nova função ao meio preexistente”, ou seja, o quilombo num contexto de escravismo, industrialização e internacionalização, infra-estrutura, delimitações de fronteiras e formação do Estado-Nação.

No entanto, uma avaliação se faz necessário. Os eventos não são forças externas que controlam e conduzem intencionalidades e referendam projetos hegemônicos de mundo, reside ai o hibridismo espacial destacado por Santos ao demonstrar que os atores sociais permitem, legitimam ou se apropriem da sua funcionalidade. Se os quilombos rurais estavam amplamente estruturados entre áreas, fronteiras agrícolas  , os instrumentos utilizados para sua efetivação eram redefinidos a partir do olhar do outro (do negro, do indígena ) na composição socioespacial dos  sítios. Neste sentido, não há somente um redimensionamento das técnicas, mas, sua apropriação para utilização de uma outra espacialidade que na contemporaneidade representará “os de baixo”.

 

 

OBJETOS TÉCNICOS E APROPRIAÇÃO GEOGRÁFICA E CIENTÍFICA DOS ESPAÇOS

 

A racionalidade como cânone e parâmetro de compreensão da realidade produzida na sociedade moderna contribuiu para a reificação de um território cujo fundamento e escalas de apropriação sedimentassem um projeto de poder representado sobretudo na materialidade do espaço geográfico .Esta materialidade dominante e geradora de práticas espaciais fragmentárias permitiu que uma cisão se estabelecesse na interpretação e compreensão da realidade constituida promovendo nas grandes estruturas sistêmicas o papel de mediação e finalismo na interpretação e sentido da totalidade/mundo que se anunciava.

O controle, a padronização e os modelos estabelecidos encerravam assim o papel determinante do Estado- nação clássico constituido por um sistema territorial/espacial funcionalista cujo finalismo amparava-se na produção de um arranjo espacial fortemente centralizador, hierárquico e dominante. Ao mesmo tempo este espaço permitia a eleição dos lugares possibilitando assim a ascensão de pessoas ou grupos na construção e apropriação das diversas escalas geográficas configuradoras de uma dada formação territorial.

Desta forma, a compreensão dos objetos em uma dada organização espacial passa pela composição de um conjunto de sentidos que caracterizam e explicam a produção do espaço a partir de uma negação ou assimilação do objeto posto. Neste sentido uma perspectiva dialética é estabelecida e a territorialidade torna-se assim, um meio legitimador dos processos espaciais autorizados.

Podemos frente a esta análise de processos legitimadores do território destacar o papel da mediação, do arranjo, da configuração e da classificação na construção dos lugares. Entre estes, podemos destacar a mediação pela técnica, foco primordial de uma requalificação sócio-espacial produtiva marcada pelo aprimoramento técnico-científico nas sociedades consideradas modernas.

O sentido dos objetos passa por uma dinâmica funcional e ocorre dentro de múltiplas escalas, o que exige perceber como o mesmo objeto pode ter diferentes funções e significados dentro de um sistema técnico operacionalizado. Assim o evento (globalização) transforma-se em eventos ao materializar-se e consequentemente ressignificar-se. Desta forma, o territorio brasileiro como materialidade e totalidade exige que sejam compreendidos os processos definidores de uma configuração socioespacial dentro de temporalidades e espacialidades reificadoras, definidoras, hegemônicas ou não. Assim, o espaço torna-se dinâmico e um conjunto de possibilidades , lócus das ações e ao mesmo tempo materialmente intencional. É justamente nesta dinâmica que o quilombo é uma referência espacial que se constrói dentre e entre espaços, visto que, se constitui em práticas espaciais historicizadas cuja dimensão política e social torna-se reveladora de um questionamento dos espaços projetados e funcionalizados.

Ao mesmo tempo, e na sociedade atual, cabe verificar o caráter configurador das formas espaciais a partir de padrões e modelos que promovem o espaço da modernidade anunciadora , como uma promessa de mundo e de futuro objetivada em projeções descontextualizadas e absurdamente amparadas em interferências descaracterizadoras e homogeneizantes.

Invariavelmente, a análise teórica dos estudos geográficos nos conduzirá ao processo dialético presente na construção de um conhecimento científico que dialogue com a dimensão empírica do seu objeto de estudo, ou seja, a conjunção nos levará efetivamente ao espaço. O espaço contém e está contido nas formas pensadas e reificadas sobre uma construção de mundo amparada nas experiências, produção e interpretação da realidade.

Esta preocupação da geografia com a empiria remonta à sua origem mediante a observação, descrição e busca de significados. Este processo gerou no sujeito observador um contato direto com o objeto externalizado e que interferirá significativamente na conceituação e apreensão dos objetos concretos. Trata-se aqui de um devir, onde a intenção está formalizada na busca e compreensão através de uma racionalidade posta. Segundo Athusser:

 

conceitos empíricos não são dados puros, decalque puro e simples ,pura e simples leitura imediata da realidade . Eles próprios são o resultado de todo um processo de conhecimento, comportando vários níveis ou graus de elaboração (ibidem,978:21)

 

Esta condição concreta do objeto geográfico nos conduz a uma complexidade na sua composição ao promover:

o conhecimento <<concreto>> de objectos formais -abstratos , ou teóricos em sentido estrito, de conceitos, de relações e sistemas conceptuais teóricos, que devem e podem intervir seguidamente no sentido de contribuir , numa grande fase , para o conhecimento dos objectos reais-concretos (ibidem, 1978:29).

 

Fundamentado na teoria marxista, Althusser (1978) destaca o papel dos objectos abstratos na elaboração de uma concretude dos objectos reais cuja existência apresenta-se em dois campos referenciais (formais-abstractos) e (objectos reais concretos) ao mesmo tempo e indissociáveis.

 

temos pois em vista não o material inicial , mas o resultado de um processo de conhecimento , ele próprio complexo, em que o material inicial, e depois a matéria-prima obtida são transformados em conceitos empíricos pela intervenção de conceitos teóricos (ibidem.,1978:23).

 

Sem dúvida, a proposta teórica de análise científica deste conhecimento produzido configura uma materialidade cuja totalidade encontra-se vinculada a processos dinâmicos que por vezes aparecem como "ilustrações "  superficiais e vulgares da teoria. 

 

A dificuldade de um discurso teórico em sentido estrito reside pois, por um lado , na natureza formal-abstracta do seu objeto e, por outro, no rigor da sua <<ordem>>, isto é , do seu método de exposição. O que dito do objecto deve também ser dito do método: como o objecto, ele é necessariamente formal-abstracto (ibidem,1978:39).

 

A apropriação da realidade pela ciência geográfica cujo campo de interesse pressupõe uma totalidade que representa um desafio teórico e metodológico frente às constantes intervenções produzidas pela sociedade no espaço geográfico exige cada vez mais um contato imediato do geógrafo com o instante e as formas de mediações que se estabelecem na dinâmica social vigente. Escolar fala em uma identidade disciplinar necessária para o estabelecimento de abordagens e conteúdos próprios do nosso campo científico de análise, no entanto, reconhece duas condições básicas para o estabelecimento de um discurso científico coerente, a dimensão epistemológica e a contextual (1997). A epistemológica refere-se ao critério científico presente no objeto próprio da disciplina e a contextual compreendendo às problemáticas reais objetivando "circunscrever quais são os fatos objetivos da comunidade em questão" (ibidem,1997:12).

A busca de uma compreensão da realidade  nos remete ao encontro dos códigos , valores e sentidos presentes na vida em curso e que pulsa sobre as diferentes escalas ou bases geográficas, exigindo do pesquisador o estabelecimento de uma articulação necessária onde a apreensão da realidade propicia o surgimento de um discurso fortemente elaborado em um determinado contexto histórico e ampara-se nos objetos e processos cujos padrões são afirmados no contato com o real.

Neste sentido, Escolar lança luz sobre uma discussão geográfica que vêm à tona e se estabelece a partir da realidade produzida, o que não significa abrir mão de sua identidade disciplinar, dos conceitos e categorias mas, considerar a dinâmica socioespacial presente .Segundo Escolar é imprescindível praticar a geografia , que devemos e podemos conceituar com perspectivas próprias da realidade social"(ibidem,1996:10)

Este movimento consiste numa crítica aos limites e confusões que cercam o entendimento dos processos relacionados à produção do espaço na América Latina. Escolar destaca ainda:

 

Por outro lado, não nego a existência de teorias geográficas ou conceituações sobre o espaço, ou sobre "os processos de sua produção"; simplesmente afirmo que o que existe não basta para conformar um campo teórico-conceitual com autonomia própria. O que existe, justamente por não conceitualizar suas noções, depende, na interpretação dos processos da realidade social, de elementos teóricos alheios à disciplina (coisa que não traz consigo juízo de valor a esse respeito)  (ibidem.,1997:11).

 

Não se trata de uma recusa ao diálogo pois ele está posto, a sociedade recusa, dialoga, constrói, desconstrói e promove o espaço geográfico, portanto, sua definição invariavelmente  não terá sentido sem o reconhecimento de uma mediação social que se espacializa independente da teoria alcançada.

 

(...) um olhar demorado sobre como são usados tanto "os processos de produção" como o "espaço" em diversos discursos pertencentes ao campo da geografia , permitiria afirmar que não é tão óbvio que efetivamente sejam conceitos ,sendo  mais provável que funcionem como metáforas , ou talvez como noções não teorizadas. Como pseudoconceitos de base consensual (ibidem,1997:11).

 

Esta crítica ou autocrítica científica coloca em pauta a dimensão de totalidade assumida pelo discurso científico descontextualizado onde o teórico institui conceitos. Sendo assim,

 

O teórico, no discurso de qualquer comunidade científica, está historicamente determinado por duas condições básicas: uma epistemológica, que supõe que o critério de cientificidade assumido pela tradição e grupos atuais garante que os discursos enunciados pelos diferentes setores que o compõem permitem compreender e explicar os fatos da realidade que são o objeto próprio da disciplina; a outra contextual, que faz referência às problemáticas reais, que, ao responder  determinadas perguntas , podem  circunscrever  quais são os fatos objetivos da comunidade em questão (ibidem, 1997:12)

 

O conceito que se formaliza enquanto um ente abstrato cristaliza também a representação espacial de mundo cuja base de experienciação social é constante.

 

O discurso, que é o resultado da ação empreendida pelo grupo (no sentido de interpretar aspectos ou dimensões preferenciais da realidade), torna-se teórico uma vez que explicite os aspectos antes enunciados. Em compensação, não vai ser ter teórico o discurso que só se limite a descrever a realidade (por intermédio de uma investigação empírica do caso, por exemplo), ainda que possa ter, mais ou menos explicitamente formulados, padrões teóricos de referência. Penso que é o desenvolvimento histórico de uma disciplina científica, a contínua e concomitante relação entre reflexão e prática, que diacronicamente constroem a teoria. .(ibidem, 1997:12)

 

Remetendo à uma ontologia do espaço e os limites de sua análise categorial, Escolar identifica nos sujeitos constituidores da realidade o papel cada vez mais importante na constituição dos espaços onde a “investigação empírica pressupõe a teórica ,sendo que ambas, dentro de uma “perspectiva (comunitária )” possibilitam a interpretação da “realidade social”. Desta forma a “realidade está espacializada toda vez que nosso conhecimento espacializa a realidade” revelada na sua  “concreção tanto objetal como subjetiva (ibidem, 1997:17)

Partindo destes pontos “em vistas” e procurando estabelecer nesta pesquisa a distinção teórica e processual de seu redimensionamento reconhece-se o necessário e emergente diálogo com a realidade cotidiana e portadora de um movimento formador e social na América relacionados com a espacialidade negra no Brasil através de seu papel na produção e configuração territorial brasileira. Ao mesmo tempo este processo se constitui num avanço ou recuo muitas vezes epistemológicos. No caso brasileiro, o desafio está na construção de uma representação pretensamente totalizadora, visto que, o território fora construído e produzido sob os auspícios de um movimento excludente e conservador de práticas e sentidos. Logo, de qual território poderemos nos reportar ao falar em cidadania no Brasil?

A resposta para este questionamento nos levará a uma discussão sobre o espaço que desenhamos ou vislumbramos para os grupos expropriados socialmente. É justamente aí que a técnica como imposição encontra seu limite adquirindo outros sentidos, na alteridade e compreensão solidária do agir sobre e para o grupo.

 

Essas contra-racionalidades se localizam, de um ponto de vista social, entre os pobres, os migrantes, os excluídos, as minorias; de um ponto de vista económico, entre as atividades marginais, tradicional ou recentemente marginalizadas; e, de um ponto de vista geográfico, nas áreas menos modernas e mais "opacas", tornadas irracionais para usos hegemónicos. Todas essas situações se definem pela sua incapacidade de subordinação completa às racionalidades dominantes, já que não dispõem dos meios para ter acesso à modernidade material contempo- rânea. Essa experiência da escassez é a base de uma adaptação criadora à realidade existente (SANTOS,2008: 309). 

 

 

O TERRITÓRIO A PARTIR DOS "DE BAIXO" E A CIDADANIA REIFICADORA DE UMA POSSÍVEL ESPACIALIDADE SUBALTERNA

 

"...uma geografia pensada como filosofia e arte"

 

Esta frase, proferida por Matinas Suzuki Júnior referindo-se ao Prof. Milton Santos na apresentação do programa Roda Viva realizado em 31 de março de 1997 revela o propósito contemporâneo de uma prática científica considerada por muitos como periférica, assim como também um deslocamento do pensamento tradicionalmente amparado na estrutura de centralidade produzida pela sociedade sistema-mundo através de complexas apropriações e intervenções para uma lugaridade de um pensar sobre o espaço com forte característica reificadora dos grupos marginalizados presentes.

Neste sentido, a história dos povos e o presente como continuidade de um pretenso progresso técnico unificador demonstram que as intensões e propósitos invariavelmente passam pela idéia objetivada onde somente se realizará na materialidade do espaço geográfico. Logo, os processos históricos demonstram que há um conjunto de possibilidades de entendimento da organização social dos espaços através de combinações reveladoras de caminhos a serem trilhados cuja validade dará sentido a realidade constituida. De acordo com Santos (2011), é necessário "buscar através da análise as formas de sugerir outras maneiras de combinar o que aí está",para isto é necessário perceber que no quadro da modernidade configuradora dos espaços formalizados pelo processo global esboça-se também uma reação ao universalismo global através de proposições das sociedades envolvidas, revelando nas contradições presentes as vozes ,silêncios e reações .Para Santos (2011) há “um turbilhão, há uma efervescência de baixo que a gente não está captando completa e nem integralmente, mas vai confluir com a produção de idéias para forçar um outro caminho”. Assim, a importância desta força geradora e ressignificadora propiciará que o Estado, cuja temporalidade legitimadora das projeções políticas parecem ser colocadas em cheques possa redefinir o seu sentido territorial, tarefa complicada tratando-se do Brasil onde a cidadania ainda precisa ser construida.  O entrevistado conjectura:

 

"Eu creio que isso vai se dar no Brasil também com um pouco mais de dificuldade em função da história do próprio Brasil. Quer dizer, um país que nunca pode construir uma idéia de cidadania, que nunca teve uma cidadania. Então, essa ausência de cidadania tem uma implicação na produção de um projeto nacional (ibidem,2011) .

 

Uma vez inseridos na composição de uma modernidade tardia cujas ações formuladoras de um projeto de nação, de Estado, pensado e "tutorado" pelas elites que o moldaram estruturalmente, a formação do território brasileiro expõe uma ambiguidade que retrata o utilitarismo de seu uso e funcionalidade já que sua origem remonta à inserção de seu papel nesta mundialidade bem como a apropriação social de seu quadro e busca permanente e duradoura de significado. O quilombo surge dentro deste contexto histórico que revela o prático inerte (SANTOS, 1996), onde a configuração espacial realiza e potencializa as práticas sociais. Em seu bojo, todas as contradições de uma sociedade paradoxal cuja permanência exigirá o entendimento do hibridismo espacial presente.

 

À GUISA DE CONCLUSÃO

 

A partir do desenho teórico aqui exposto, este estudo em desenvolvimento reconhece que para entender o processo de formação territorial brasileiro e as formas consequentes geradas é importante questionar a materialidade e racionalidade dominante fundamentada em conceitos e teorias que ilustram e produzem sentidos aos objetos espaciais . Estes, contextualizados no espaço (aqui territorialmente delimitado) através das formas erguidas, apropriadas e funcionalizadas promoveram sentidos duradouros que somente podem ser questionados quando confrontados com a realidade. Desta forma, os quilombos como o prática socioespacial  considerada periférica e marginal diante da lógica territorial estabelecida pelo Estado Nação dialeticamente propõe o direito e reconhecimento da participação social negra na construção da sociedade brasileira e confronta politicamente os modelos e padrões organizacionais  estabelecidos sob uma lógica segregadora e excludente.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALTHUSSER, L. Sobre o trabalho teórico. Lisboa: editorial Presença, 1978.

CAMPOS, A. Do quilombo à favela:a produção do “espaço criminalizado” no Rio de Janeiro.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

CARRIL, L. Quilombo, favela e periferia: a longa busca da cidadania.São Paulo: Annablume;  Fapesp, 2006.

ESCOLAR, M.. Crítica do discurso geográfico. São Paulo: Hucitec,1997.

FIABANI, Adelmir.Mato ,palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão às comunidades remanescentes. (1532-2004).São Paulo: Expressão Popular, 2005.

GOMES, P. C. da C. Geografia fin-de-siècle : o discurso sobre a ordem do mundo e o fim das ilusões. In: Paulo Cesar da Costa Gomes; Ina Elias de Castro; Roberto Lobato Correa. (Org.). Explorações geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997

HAESBAERT, R. Identidades territoriais. In: CORRÊA, R. L; ROSENDAHL, Z.(orgs.). Manifestações da Cultura no Espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999, p.169-190.

HARVEY, D. Condição pós-moderna.7ªed. São Paulo: Edições Loyola.1998

LEFEBVRE, H. O direito à cidade.São Paulo: Centauro Editora, 2001.

LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.São Paulo: Selo Negro, 2004.

MORAES, A.C.R. Bases da formação territorial do Brasil: O território colonial brasileiro no longo séc.   Paulo: Hucitec, 2000.

_______.Geografia histórica do Brasil: cinco ensaios , uma proposta e uma crítica. São Paulo: Annablume, 2009.

_______. Território e historia no Brasil. 2.ed. São Paulo: Annablume, 2005.

NEVES, E. F.MIGUEL,A.(Org) Caminhos do Sertão: ocupação territorial , sistema viário  e intercâmbios coloniais dos sertões da Bahia. Salvador: Arcadia / Fapesb, 2007.

RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática: 1993

REIS, J. J.GOMES,F. S.(Orgs.)Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil.São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1997.

_______.A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 2008.

_______.O país distorcido :o Brasil, a globalização e a cidadania.São Paulo: Publifolha, 2002.

_______. Pensando o espaço do homem.São Paulo:Hucitec, 1997.

_______.M.Em:http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/112/entrevistados/milton_santos_1997.htm,2011

SANTOS,R. E. dos (Org.) Diversidade , espaço e relações étnico-raciais: O negro na Geografia do Brasil.Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

SPOSITO, E. S. O método cientifico. In: Geografia e Filosofia: Contribuição para o ensino do pensamento geográfico. São Paulo: UNESP, 2004.

WALLERSTEIN,I.O fim do mundo como o concebemos: ciência social para o século XXI.Rio de Janeiro:Revan, 2002.

 



[1]Este artigo constitui parte de pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN sob orientação do Prof. Dr. Anelino Francisco da Silva

[2] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia/UFRN

 

 


 

Ponencia expuesta en el XIV Encuentro Internacional Humboldt. Las Termas de Río Hondo, provincia de Santiago del Estero - Argentina. 15 al 19 de octubre de 2012.