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Asunto:[encuentrohumboldt] 14/12 - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS RUAS DE DOU RADOS/MS: OS LUGARES DOS FAZERES E VIVERES
Fecha:Sabado, 10 de Marzo, 2012  00:46:29 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS RUAS DE DOURADOS/MS:

OS LUGARES DOS FAZERES E VIVERES

 

SOME CONSIDERATIONS ON THE STREETS OF GOLD / MS:

the places of doings and livings

 

Elaine Cristina Musculini[1]

 

Resumo

O primeiro pensamento que temos quando visamos analisar a rua, é de que ela é apenas um caminho onde passamos. Talvez se pensarmos um pouco mais, podemos percebê-la como o lugar onde estão as construções ou o lugar do encontro, do movimento. O intuito inicial da pesquisa é compreender a rua como o lugar da apropriação do espaço para o acontecimento da vida, das práticas sociais, dos fazeres e viveres dos sujeitos que dela se utilizam. A partir dessa experiência múltipla, podemos apreender esses lugares com seus diversos significados, que foram construídos (e reconstruídos), muitas vezes dando novos significados, outras vezes reformulando, outras vezes mantendo o status da rua.

 

Palavras-chave

1)    Ruas; 2) Dourados; 3) Espaço; 4) Lugar.

 

Abstract

The first thought we have when we aim to analyze the street is that she is just one way we go. Maybe if we think a little more, we can perceive it as the place where are the buildings or the meeting place of the movement. The initial purpose of the research is to understand the street as the place of the appropriation of space for the life event, social practices, and live the doings of the individuals who make use of it. From that experience multiple, we can get these places with their various meanings, which were built (and rebuilt), often giving new meanings, sometimes reshaping, sometimes keeping the status of the street.

 

Keywords

1)    Streets; 2) Dourados; 3) Space; 4) Place.

 

 

 

Introdução

 

O intuito da pesquisa, em desenvolvimento junto ao programa de pós-graduação em Geografia da UFGD, é contextualizar a formação socioespacial da cidade de Dourados-MS, tomando como referencial para compreensão o arranjo das ruas e do centro urbano. Sabemos que a produção desse espaço, bem como sua configuração reflete a forma como a sociedade se relaciona. O traçado das ruas, os padrões das construções têm significados diversos, seja para definir uma atividade, uma identidade ou, até mesmo, poder. O centro urbano da cidade de Dourados guarda inúmeros significados, de um tempo ido, e também do momento atual. As múltiplas facetas das formas, dos fixos e dos fluxos inseridos em cada rua fazem da cidade um verdadeiro mosaico. Embora a rua seja carregada de significados – onde se circulam viveres, fazeres, sentidos, percepções, para a formação de identidades, tanto individuais quanto coletivas – ainda não foi tomada como objeto de estudo em Dourados.

 

Por essa razão, estamos propondo esta pesquisa, que está em seu início, e portanto, ainda em fase de colhimento de dados, aplicação de questionários, observações e entrevistas, dentre outros procedimentos comuns ao processo de pesquisa.

 

Num primeiro momento do trabalho de pesquisa, optamos por conhecer/compreender as trajetórias e dinâmicas das ruas da cidade. Partimos para a busca de fontes que nos mostrassem/esclarecessem os atuais contornos, os enredos e formas das ruas e de todos os seus apensos – edifícios, comércios, serviços, etc.

 

A princípio também delimitamos um espaço, para que possamos esmiuçar os detalhes do centro urbano, a área mais “antiga” da cidade, e que, de certa forma, poderia nos mostrar mais do que são as ruas e como são formadas as suas particularidades. Optamos por pesquisar o espaço compreendido entre as ruas Floriano Peixoto a Toshinobu Katayama no sentido leste-oeste e as ruas Ponta Porã a Cuiabá no sentido norte-sul, conforme esquema abaixo:

 

Org. MUSCULINI, E.C., 2011. Elaboração: MORENO, B. B., 2011.

 

            Para um início focado nas transformações pelas quais passaram as ruas de Dourados, procuramos fotos que pudessem evidenciar a “evolução”, a construção e reconstrução dos lugares no espaço acima mencionado. Em virtude de muitos outros trabalhos, sejam dissertações, teses ou mesmo livros de pesquisadores locais, encontramos muitos registros de imagens que evidenciam as transformações (e também as permanências). Este foi o primeiro passo, e, a partir dele, passamos a fotografar vários pontos do local proposto para a pesquisa. Cremos que estes registros de imagens possam nos guiar para percepções mais apuradas desse espaço, traçando paralelos, reconhecendo o passado e apontando o novo. Abaixo, demonstramos um trecho da avenida principal da cidade de Dourados – Avenida Marcelino Pires – em três momentos, década de 60, década de 70 e nos dias atuais:

 

Avenida Marcelino Pires, esquina com a Rua João Rosa Góes na década de 60. Foto: Acervo do Centro de Documentação Regional da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal da Grande Dourados.

 

Mesmo trecho na década de 70. Foto: Disponível em http://www.opalass.com.br/conheca-o-opala/reportagens-legais/foto-historica-dourados-ms-1976.

 

Mesmo trecho, em data de 09/04/2011. Foto: Elaine Cristina Musculini.

 

Inicialmente, também procuramos saber acerca dos aspectos da formação da cidade de Dourados. Buscamos informações sobre os primórdios do povoado, a organização, ainda prévia do núcleo urbano, os primeiros momentos do município e daí a ampliação constante do cenário urbano, conforme passamos a elucidar.

 

A formação do centro urbano de Dourados: uma trajetória no tempo

 

A nossa tendência é pensar a formação de um núcleo urbano e sua evolução a partir de dinâmicas sequenciais no desenrolar da história da cidade. Mas reavendo os acontecimentos, podemos pontuar consideráveis fatores para compreendermos as trajetórias do urbano e de suas construções e consequentes reconstruções. Necessário se faz traçar uma linha do tempo, bem como todos os feitos, todas as transformações ocorridas nesse lapso temporal, uma vez que a cidade não surgiu de um passe de mágica, ela foi elaborada, pensada, construída gradativamente.

 

Para pensar o processo de urbanização de Dourados precisamos considerar que a cidade seguiu a dinâmica regional, que com suas transformações, modificaram, consequentemente, a cidade.

 

De acordo com Silva (2000), a análise da evolução urbana de Dourados revela quatro etapas distintas. Sendo a primeira, no início do século XX indo até 1940, num período de consolidação do núcleo urbano no aspecto de centro de abastecimento local, um entreposto resultante da interação das duas principais atividades econômicas regionais: o extrativismo da erva-mate e a pecuária extensiva.

 

Após este primeiro momento, há outro que vai do início da década de 40 a 1970, definido por intervenções e projetos públicos e privados de colonização no Mato Grosso do Sul, que criam uma readequação das atividades econômicas na região de Dourados. Ainda de acordo com Silva:

 

Por um lado, essas intervenções contribuíram para a desarticulação do extrativismo ervateiro e sua substituição por uma policultura de pequenos produtores familiares, que passou a conviver com a pecuária tradicional, herdada do período anterior. Por outro lado, tais intervenções desencadearam um intenso processo de especulação imobiliária, com importantes repercussões na nova escala que assumiu o processo de urbanização de Dourados e na redefinição do papel da cidade, que assumiu a função de centro de beneficiamento rudimentar e de comercialização da produção agrícola regional (p. 78, 2000).

 

 

A respeito de tal momento, Gressler e Swensson apontam:

 

A colonização no Estado de Mato Grosso do Sul consistiu na distribuição ou venda de terras localizadas, em sua maior parte, na Zona da Mata, por intermédio do governo federal, estadual, municipal, ou grupos particulares.

Foi um período caracterizado pela intensa derrubada das matas, até então preservadas pela Cia. Mate Laranjeira[2]; pela vinda de apreciáveis contingentes populacionais, onde se destacam os nordestinos, paulistas, paranaenses e mineiros, os quais tiveram como objetivo principal o cultivo de novos cafezais. Caracteriza-se, também, pela erradicação destes mesmos cafezais, substituídos por outros cultivos comerciais (p. 81, 1988).

 

A partir de 1970 inicia-se o terceiro período com o advento das lavouras de soja e trigo aliadas à tecnologia que se instaurava no setor agropecuário. Somam-se a isso, as intervenções federias no espaço regional se intensificavam. Tais ações propiciaram grandes alterações no espaço urbano e rural, tanto da região quanto da cidade. O êxodo rural, originado em boa parte pela inserção de novas tecnologias no campo, fez com que houvesse uma dinamização no processo de urbanização de Dourados. Nas palavras de Silva,

 

os efeitos desses novos fluxos de dinamização da economia regional concentraram-se sobretudo em Dourados, que, em decorrência, assumiu o papel de principal pólo urbano e capital regional do cone sul do Estado. A convergência dos processos anteriormente mencionados – a dinamização da economia regional, a urbanização acelerada e a crescente dependência do crescimento urbano dos investimentos federais – sinaliza a incorporação de Dourados ao que no capítulo anterior denominamos de padrão desenvolvimentista de urbanização (p. 85, 2000).

 

 

Já a partir de 1990, inicia-se o quarto período, marcado, principalmente, pelo fim do modelo de urbanização fortemente dependente do financiamento federal e com a emergência de um novo padrão urbano em Dourados. Já nos anos 80, isto é, na fase anterior a década de 90, verifica-se uma elevada expansão da urbanização da cidade, criando novas realidades, emergindo novas espacialidades, e ainda de acordo com Silva, passado o poder público local a assumir maiores fatias de responsabilidade na gestão do espaço urbano.

 

Ainda sobre o assunto, Gressler e Swensson apontam:

 

O setor urbano de Dourados também não ficou alheio às mutações ocorridas na área rural e evoluiu rapidamente. A população urbana que era de 25.977 habitantes em 1970, passa para 83.256 em 1980. O elevado crescimento populacional, por sua vez, desencadeou uma verdadeira “onda” de novas construções, cujas conseqüências imediatas formam a ampliação desmesurada do perímetro urbano (...) (p. 106, 1988).

 

A partir de breves conversas com alguns moradores mais antigos da cidade, comerciantes, dentre outros sujeitos, percebemos que o discurso é comum: os anos 80, para a cidade de Dourados, foi o período de maior “crescimento”. A respeito do assunto, relata um lojista do centro urbano, desde meados dessa década na cidade:

 

Cheguei aqui em Dourados em 1984, tinha a intenção de ficar rico aqui, porque todo mundo dizia que era o melhor lugar para se ganhar dinheiro (...). Quando cheguei, a cidade já estava tomando corpo, com cara de cidade grande, a avenida já era avenida. (...). Aí eu vi umas fotos da cidade de alguns anos anteriores e nem acreditava, parecia outro lugar, parecia um vilarejo. E era coisa de 5 ou 6 anos atrás, muito estranho.

 

Temos então, como breve e superficial conclusão acerca da trajetória de Dourados no tempo, que a cidade recebeu intenso contingente populacional, oriundo, principalmente, da expansão das fronteiras agrícolas, que gradativamente foram ocupando novos espaços, perfazendo seus territórios. Isso desencadeou rápidas e profundas mudanças estruturais, que conseguiremos visualizar a partir de uma pesquisa mais detalhada. Percebemos, porém, através de nossos prévios estudos sobre a cidade de Dourados, que a população urbana cresceu rapidamente, em contraponto à população rural que decresceu.

 

Pensando as ruas de Dourados

 

Quando pensamos na rua, a primeira coisa que nos ocorre é que ela é apenas um caminho, uma via por onde podemos passar. Se nos forçarem a pensar um pouco mais, talvez consigamos apreendê-la como o lugar onde estão nossas casas, nossos locais de trabalho, isto é, os prédios, as construções. E também, consigamos vislumbrar a rua como o lugar do encontro, do movimento. E nesse momento já estamos pensando a rua com alguns de seus diversos significados, que foram construídos (e reconstruídos) pelos sujeitos, a partir de suas práticas, de seu cotidiano.

 

Tal análise pode ser um tanto complexa, afinal, a rua possui vários significados e símbolos que muitas vezes são ofuscados, ou não conseguimos apreender por estarmos imageticamente guiados, seja por leis, seja por costumes, por normas implícitas e explícitas, que nos fazem trilhar o nosso momento na rua, imaginando ser ela apenas um local de passagem, obscurecendo as variadas facetas que ela guarda em si.

 

Partindo dessa análise mais detalhada, podemos então passar a traduzir o que a rua tem a nos dizer, a nos mostrar, seja com seu simbolismo, seja com suas imagens, com suas paisagens, no anseio de compreender as significações por trás do conjunto de edificações, no fluxo de pessoas, nas configurações de calçadas, dentre outros. De acordo com Carlos, a paisagem urbana e a cidade nos abrem perspectiva de entendermos o urbano, a sociedade e a dimensão social e histórica do espaço urbano (p. 23, 2007).

 

Foi possível constatar alguns fatos no centro urbano de Dourados, a partir de algumas observações feitas: pessoas que fazem o trajeto casa-trabalho diariamente; vendedores ambulantes; outros vendedores que instalam seus “carrinhos” de raízes ou outros produtos em determinados pontos; a feira; a praça; o trânsito; enfim, os sujeitos que “fazem” o lugar.

 

Além das observações feitas, tivemos também conversas com algumas pessoas, no intuito, a princípio, de sentir as percepções das pessoas acerca do lugar, ou seja, como o homem percebe o mundo. De acordo com Carlos (2007), é através do seu corpo, de seus sentidos que o homem constrói e se apropria do espaço e do mundo. Nas palavras da autora, o lugar é a porção do espaço apropriável para a vida (p. 17, 2007).

 

Indagamo-nos, em decorrência dessas observações, quais seriam as transformações que os sujeitos perfazem no espaço com suas ações. Como o cotidiano das pessoas modifica o lugar.

 

Como a pesquisa ainda está em construção, nos atemos até então a conhecer o centro urbano de Dourados, no perímetro pré-estabelecido, fazendo uma trajetória da cidade no tempo, tentando compreender as transformações e também as permanências. Conforme aponta Carlos:

 

Os percursos realizados pelos habitantes ligam o lugar de domicílio aos lugares de lazer, de comunicação, mas o importante é que essas mediações espaciais são ordenadas segundo as propriedades do tempo vivido. Um mesmo trajeto convoca o privado e o público, o individual e o coletivo, o necessário e o gratuito. Enfim, o ato de caminhar é intermediário e parece banal – é uma prática preciosa porque pouco ocultada pelas representações abstratas; ela deixa ver como a vida do habitante é petrificada de sensações muito imediatas e de ações interrompidas (p. 23, 2007).

 

Essas percepções acerca das ruas, do urbano, da cidade, não são atuais porém, em pesquisa em edições antigas de jornais, foi possível constatar que os sujeitos já observavam os ambientes, os lugares da vida. Conforme pode ser constatado abaixo, em recorte da primeira edição do Jornal O Progresso da cidade de Dourados:

 

 

 

São notórias algumas modificações no centro urbano de Dourados. E é claro que para analisar todas seriam necessários muitos anos de pesquisa, porque cada uma possui suas peculiaridades, seus porquês. Destacamos, porém, algumas que aparecem mais concretamente. Algumas segmentações comerciais instauram-se em determinados pontos: lojas de um padrão social mais elevado e em outros pontos, lojas mais populares; concentração de clínicas médicas, laboratórios de análise clínicas, consultórios, no entorno de dois hospitais existentes no perímetro pesquisado (Hospital do Coração e Hospital Santa Rita).

 

Além do espaço físico, procuramos estabelecer percepções que pudessem nos demonstrar os outros significados das ruas, construídos a partir da vivência, do cotidiano. Isto é, os territórios, as territorialidades produzidas, o movimento, revelam os múltiplos significados, e como as pessoas reagem, vivem, se fazem nessas configurações. Salienta-se também, a constante modificação nas e das ruas, seja pelo transcurso do dia (alternância dia-noite), como também de lapsos temporais maiores. A rua, portanto, está sempre num processo de transformação, de ressignificação.

 

Após algumas constatações, percebemos também certa ressignificação dos lugares, a substituição do velho pelo novo, inúmeras reformas em prédios comerciais no intuito de torná-los “modernos” conforme os ditames de uma tendência comum nas cidades maiores: a busca pelo novo, pelo diferente.

 

A rua enseja percebermos os novos objetos formados por novas dinâmicas, e que modificam as relações entre os homens, e dos homens com a cidade. A tecnologia, as inovações, como por exemplo, carros, celulares, mp3, ipod, dentre outros materiais que podemos considerar “a cara do urbano”, nos fazem discutir a formação de novos significados na cidade. A partir disso, pensar a rua não só compreendê-la como o lugar de passagem, mas como o lugar das vivências, dos fazeres, das atividades.

 

Ainda de acordo com Carlos:

 

O desenvolvimento das forças produtivas produz mudanças constantes e com essas a modificação do espaço urbano. Essas mudanças são hoje cada vez mais rápidas e profundas, gerando novas formas de configuração espacial, novo ritmo de vida, novo relacionamento entre as pessoas, novos valores (p. 29, 2009).

 

A dinâmica da rua nos faz pensar também na dialética de dois movimentos: um de revelação da diferença e o outro de regulação do cotidiano. O primeiro movimento pode ser explicado pelos variados motivos que levam as pessoas às ruas, seja pelo trabalho (camelôs, ambulantes), seja pela passagem (estudantes indo para a escola, pessoas indo para o trabalho), dentre outras formas. O segundo movimento, que diz respeito ao cotidiano, manifesta-se pelo fator da subordinação ao mundo das mercadorias, ditado pelo capitalismo. Percebemos na cidade de Dourados todo aquele aparato que transforma a cidade em fetiche, em luzes chamativas, em imagens instigantes. Percebemos a mudança no ritmo da vida, que passa a ser ditado pelos mandos das relações sociais, que por sua vez é permeado por relações mercadológicas (compra, venda, troca, especulação).

 

Essa lógica que pauta a vida moderna faz com que pensemos a rua apenas como o lugar da passagem, e o tempo, ou melhor, a falta dele, faz com que passemos por ela sem percebê-la. A rua está ligada à maneira como a vida se realiza, no sentido não só de produção, mas também de reprodução das relações sociais. Essa reprodução acontece por conta da apropriação do espaço, a partir de nossas vivências, de nossos fazeres.

 

É por meio do uso, que o lugar agrega sentido. O viver, o fazer, o perceber através dos nossos sentidos, do nosso corpo, pois é através deles que realmente vivenciamos o espaço. A rua é ainda, espaço público, e muitas vezes é apenas caracterizada no seu conceito jurídico, em que o espaço é submetido a uma regulação específica, que garanta a acessibilidade a todos e fixe as condições de utilização e de instalação de atividades.

 

Podemos perceber também, a partir da rua, a multiplicidade de territórios existentes, cada qual com suas especificidades, ditando regras, ditando comportamentos. Estes territórios, formados a partir das ruas, são constituídos pela apropriação das pessoas, com seus ritmos, tanto do trabalho, quanto de ideias ou de mudanças, revelando o fazer e o viver, não só no espaço, como também no tempo. Hoje podemos perceber como as formas urbanas (e aqui se inclui a rua) se modificam rapidamente, obedecendo ao discurso do progresso, do desenvolvimento, do crescimento. O espaço passa a ser visto então como um amontoamento de tempos.

 

Em busca de uma conclusão

 

            A pesquisa ainda encontra-se em fase de andamento, ou seja, nossos trabalhos acerca das ruas de Dourados precisam trilhar um longo caminho para quiçá chegarmos a uma conclusão, se é que conseguiremos obtê-la, haja vista as constantes transformações nas e das ruas.

 

Até o presente momento do trabalho, deparamo-nos com diversos sujeitos, diversas (re)significações dos lugares, diferentes relações com os espaços, dentre outros aspectos que nos proporcionam perceber questões variadas sobre as ruas da cidade de Dourados. Seja a partir de breves conversas com as pessoas, seja após algumas observações, entrevistas, podemos perceber que existe uma gama de pontos ainda a serem desenvolvidos, há uma “riqueza” de detalhes que contribuirá para um resultado positivo do projeto que se apresenta.

 

 Por ser vista como “espaço de liberdade”, a rua deveria ser vivida, experimentada e conhecida, porém, ela ainda é um objeto de estudo pouco explorado.  Porém, tentar compreender a rua pode vir a constituir-se como importante forma de análise da vida urbana atual. Por ser espaço público, comum, de acesso irrestrito (não há quem não possa transitar por ela), e onde também se convivem as diversidades, o coletivo, os embates e os negócios, é o espaço onde tudo acontece, onde tudo é vivido e feito. É o lugar da apropriação, da produção e da reprodução de usos, de vínculos, de táticas, de práticas, de relações, de dinâmicas sociais, de transformações.

 

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[1] Aluna Regular do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Geografia – Universidade Federal da Grande Dourados.

[2] A Companhia Mate Laranjeira, dirigida por Tomáz Laranjeira, chegou à região em 1872. Pelo Decreto Lei nº 8799 de 9 de dezembro de 1882, o Governo liberou para Tomáz a exploração dos ervais em terras devolutas na fronteira.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS - Brasil. 26 al 30 de setiembre de 2011.