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Asunto:[encuentrohumboldt] 12/12 - A apre(e)nsão de conceitos da Geografia nas práticas cotidianas: grafitos de banheiro, ter ritório e identidade territorial
Fecha:Domingo, 12 de Febrero, 2012  11:16:01 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

A apre(e)nsão de conceitos da Geografia nas práticas cotidianas: grafitos de banheiro, território e identidade territorial[1]

Vivianne dos Santos Cavalcanti[2]

 

Resumen

La ciência geográfica se caracteriza por haber sido sistematizada en los años  a partir de conocimientos prévios ya adoptadas por la sociedad. La racionalidad da la ciência moderna, sin embargo, se puso rígido y se volvió de que El conocimiento fuera de las prácticas cotidianas, lo que hizo La geografia uma ciência llena de conceptos que se cerro poco o nada puede ser aprovechada em la vida cotidiana de las personas. Así que las lecciones de la geografia llegó a caracterizarse como sordo, que sólo reproduce los conceptos a priori.  A continuación, busca en este trabajo una aproximación al aprendizaje de conceptosen la geografía (territorio e identidad) con las prácticas cotidianas de las personas, eneste caso específicamente con el graffiti baño.

 

Resumo

A ciência geográfica caracteriza-se por ter sido sistematizada ao longo dos anos a partir dos conhecimentos prévios já tidos pelas sociedades. A racionalidade da ciência moderna, no entanto, enrijeceu esse conhecimento e acabou afastando-o das práticas cotidianas, o que tornou a Geografia uma ciência repleta de conceitos fechados que pouco ou nada podem ser apreendidos no dia-dia dos indivíduos. Assim as aulas de Geografia passaram a ser caracterizadas como sendo maçantes, onde só se reproduz conceitos dados a priori. Busca-se então, através do presente trabalho uma aproximação de conceitos trabalhados na Geografia (território e identidade) com práticas cotidianas dos indivíduos, neste caso especificamente com os grafitos de banheiro.

 

Abstract

 The geographical science is characterized by having been systematized over the years from previous knowledge already taken by societies. The rationality of modern science, however, stiffened and turned that knowledge away from the daily practices, which made ​​geography a science filled with concepts that closed little or nothing can be seized in the daily lives for individuals. So the lessons of geography came be to characterized as dull, which only reproduces concepts given a priori. It then searches through this work an approach to learning concepts in geography(territory and identity) with the everyday practices of individuals, in this case specifically with restroom graffiti.

 

 

 

 

Introdução

A racionalidade da Ciência Moderna levou a Geografia a se constituir como sendo uma disciplina repleta de conceitos elaborados a priori, sendo esses repassados aos alunos sem que haja nenhuma articulação com as práticas vivenciadas em seu dia-a-dia (FERRAZ, 2004).

Juntamente com a racionalidade da Ciência e a colocação dos objetos de estudo dentro de modelos fechados, houve com o passar dos anos uma desvalorização das práticas cotidianas dentro das ciências humanas e neste caso especialmente da Geografia. No entanto, a Geografia originou-se das práticas dos indivíduos com o ambiente vivido (Santos, 2007) e seu relacionamento com o cotidiano e a vivência dos mesmos mostra-se imprescindível. Como nos diz Ferraz (2008): “um saber dito geográfico (...) não pode se restringir a modelos e metodologias que não abordem a dinâmica das relações cotidianas estabelecidas pelos indivíduos na construção de seus referenciais espaciais e paisagísticos [...]” (p.11).

Com isso então coloca-se que a Geografia quando se utiliza destes modelos materializados em definições prontas e acabadas sobre o que é determinado fenômeno, apresenta-se como uma disciplina decorativa, tornando-se muitas vezes maçante, não despertando o prazer do aluno em aprender (SOUZA, 2009).

É justamente neste sentido que o presente trabalho traz a tona á necessidade, quando da transmissão de conhecimentos sobre a ciência geográfica, que haja uma associação com as práticas cotidianas dos educandos. É importante salientar que aqui o cotidiano é entendido como sendo um elemento que além de expressar, materializa temporal e espacialmente a realidade vivida e também experimentada e produzida pelos homens individualmente e em suas relações com a sociedade (FERRAZ, 2004).

Por isso as ações realizadas no dia-a-dia têm muito a ver com a ciência geográfica, já que o cotidiano se materializa no espaço e é nele que os homens se mostram como seres humanos em suas relações entre si e com os locais em que vivem e frequentam. Por isso, aqui é defendido, de acordo com Kaercher, que

 

Mostrar que sabemos geografia não é sabermos dados ou informações compartimentadas, mas sim, relacionarmos as informações ao mundo cotidiano de nossos alunos (...). Se ajudarmos nossos alunos a perceberem que a geografia trabalha com as materializações das práticas sociais, estaremos colocando-a no seu cotidiano (KAERCHER, 2002, PP. 225-226).

Assim é nesse sentido que este trabalho busca associar o ensino de Geografia com uma prática cotidiana específica: as inscrições encontradas nos banheiros, sendo feita essa ligação entre Geografia e grafitos de banheiro (Otta e Teixeira, 1998) através da aplicação de alguns conceitos trabalhados em Geografia, como território e identidade, ao espaço do banheiro e as significações criadas pelos indivíduos por meio dos grafitos. Também através destes materiais torna-se possível a análise das relações de poder que constituem as instituições constituídas e constituintes da sociedade, buscando controlar e disciplinar os indivíduos (FOUCAULT, 1977; 1987).

 Esse material possui um caráter bem rico; apesar de serem poucos os trabalhos já realizados que analisaram os grafitos encontrados no banheiro objetivando levantar alguns aspectos dos indivíduos e de sua relação com o meio, os resultados encontrados se mostraram bem interessantes no que diz respeito à descoberta de características (comportamentais, psicológicas, sexuais) dos indivíduos, assim como do contexto social e político no qual estão inseridos (OTTA e TEIXEIRA, 1998; BARBOSA, 1984; DAMIÃO e TEIXEIRA, 2009).

Vale destacar ainda que inscrições encontradas nos banheiros das escolas são especialmente importantes, pois podem nos revelar as perspectivas dos alunos em relação a si mesmos, seus relacionamentos e ao ambiente como um todo. As escolas, por serem instituições formadoras e formadas pelas sociedades, se apresentam permeadas por regras que regulam o comportamento dos indivíduos (MOREIRA, 1995), sendo o banheiro muitas vezes o único local onde os alunos se sentem livres, livres das regras comportamentais, das tarefas, e imposições em geral.

Apesar do controle exercido pelas várias instituições sociais e que buscam reger as funções e ações dos indivíduos (FOUCAULT, 1977), no banheiro são realizadas muitas vezes atividades que a sociedade não considera “corretas”. De acordo com Barbosa (1984) “ir ao banheiro é como ir viver num ‘território do eu’, reserva de intimidade e individualidade. Ao se isolar num reservado, o indivíduo experimenta sensações de anonimato, liberdade e segurança...” (p. 75).

 Assim o banheiro,

[...] lugar solitário, secreto, interrogador, clandestino, impuro e culposo que o homem civilizado arquitetou para a excreção fisiológica e outras práticas higiênicas, acaba tornando-se (entre outras funções tidas como proibidas) também veículo de expressão pessoal, suporte físico e ambiental de uma forma literária peculiar, mural de garantida audiência para nossas acertadas e espirituosas observações sobre nós mesmos, sobre o mundo, sobre tudo...”. (BARBOSA, 1984, p.77).

 

Pelo fato dessas inscrições apresentarem todas estas singularidades é que se propõe no presente trabalho que sejam analisadas associadas à ciência geográfica, pois ao mesmo tempo em que podem nos revelar aspectos sobre os indivíduos isoladamente podem nos trazer importantes constatações sobre as sociedades, suas opiniões, impressões e constatações sobre o ambiente em que vivem. Aliás, outros tipos de escrituras podem ser utilizados para o levantamento de alguns aspectos da cultura humana como as que são encontradas em muros, paredes, monumentos, árvores e até em cédulas de papel (BARBOSA, 1984).

Este trabalho, no entanto, como já dito tratará apenas das inscrições encontradas nos banheiros associando-as aos conceitos de território e identidade, que são frequentemente discutidos nas aulas de Geografia.

 

 

Desenvolvimento

A ciência geográfica é caracterizada por ser um ramo do saber que se desenvolveu partindo de conhecimentos tidos pelo homem em sua relação com o ambiente vivido. Dessa maneira, como bem salientou Santos (2007), a Geografia não foi um campo do conhecimento criado por um sábio específico e nem a partir de pesquisas feitas por um grupo de cientistas, mas sim nasceu como uma atitude social, ou seja, partindo de conhecimentos prévios já tidos pelos homens e reforçados a partir de seu relacionamento com o meio. Assim, ainda de acordo com Santos (2007) a Geografia é “um tipo de conhecimento e, portanto, de um conjunto de respostas que a sociedade constrói para compreender alguns dos aspectos de sua relação consigo e com o mundo” (p.11).

Essa característica da Geografia de fundamentar-se nas práticas realizadas cotidianamente pelos indivíduos perdeu muito de seu significado ao longo do desenvolvimento da Ciência Moderna, onde modelos científicos foram aplicados ao conhecimento, racionalizando-o e tornando o mesmo extremamente rigoroso (FERRAZ, 2004).

Assim, ao longo de sua consolidação, a ciência foi deixando de fora de suas investigações elementos cruciais do cotidiano do homem e que revelavam as suas relações com seu espaço vivido/frequentado. Dessa maneira o conhecimento científico, e nesse caso específico de relação da sociedade com o espaço, as ciências humanas e dentro destas a Geografia, não levou em consideração em suas pesquisas atividades que poderiam ser utilizadas para o levantamento de alguns aspectos imprescindíveis e que dizem respeito ao homem. Nas palavras de Ferraz (2004):

 

“[...] os sonhos, emoções, vícios, sentimentos, gestos, gostos, desejos, loucuras, banalidades e detalhes do dia-a dia (...) foram negligenciados por não serem passíveis de catalogação, manuseio, classificação, controle, rigor e enquadramento em algum modelo científico”. (p. 177).

 

O cotidiano e suas práticas, apesar de considerados elementos centrais no que diz respeito à análise das relações sócio-espaciais (Ferraz, 2004), foram então como já dito, esquecidos pelos discursos absolutalizantes e generalizadores que constituem o saber científico fazendo assim com que alguns elementos fundamentais e que dizem respeito ao homem e ao seu relacionamento com o meio não fossem analisados. As práticas cotidianas dentro desses modelos científicos então se perdem, não possuindo sentido nem importância.

As aulas de Geografia então, como reflexos dessas características da Ciência Moderna, tornaram-se um local onde o conhecimento científico é repassado aos alunos de forma maçante, onde conceitos já elaborados a priori são dados e decorados, sem que nenhuma relação com o cotidiano dos alunos seja feita (SOUZA, 2009). Trata-se de uma “Educação Bancária” como nos diz Freire (1986) e que consiste no processo em que

 

“o educador faz ‘depósitos’ de conteúdos que devem ser arquivados pelos educandos. Desta maneira a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante. O educador será tanto melhor educador quanto mais conseguir ‘depositar nos educandos’. Os educandos, por sua vez, serão tanto melhores educados, quanto mais conseguirem arquivar os depósitos feitos” (p.66).

 

Na contramão deste quadro, o presente trabalho propõe que nas aulas de Geografia sejam adotadas algumas práticas discutidas por Freire (1983; 2004), onde é defendido que o diálogo em sala de aula deve ser priorizado, não devendo haver uma imposição por parte dos professores e uma aceitação estática dos alunos; propõe ainda que o conteúdo passado em sala de aula seja associado às práticas e situações vivenciadas pelos alunos.  Desse modo, busca-se um ensino que valorize as idéias tidas pelos alunos e que não leve em conta somente os conceitos estanques já elaborados previamente e que são reproduzidos no ambiente escolar.

Propõe-se uma participação efetiva dos alunos em sala de aula com diálogos que valorizem as idéias dos mesmos e que contribuam para que desenvolvam uma concepção crítica da realidade. De acordo com Benincá (1978, p.6) “a sala de aula só assumirá a sua verdadeira função pedagógica quando se transformar num palco de debates sobre os conteúdos em foco e não apenas narrações repetidoras”. Desse modo a memorização, que representa a chamada “Educação Bancária” deve ser deixada de lado, devendo a aprendizagem ser feita através do diálogo, da troca de experiências entre alunos e professores, fazendo assim com que a aprendizado ocorra de uma maneira mais prazerosa.

A construção do conhecimento deve ocorrer então através da interação entre professores e alunos, onde a realidade dos mesmos seja problematizada para que o entendimento do real e das relações e contradições que perpassam a sociedade sejam reveladas e analisadas.

Deve-se partir então de uma “Educação Problematizadora” (Freire, 1986), que nos dizeres de Pitano (2004)

 

“caracteriza-se por sua vinculação contextual à realidade dos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, no caso, os educandos. Partindo do próprio contexto, estes conseguem mais facilmente compreender o sentido dos conteúdos propostos, não de forma imposta externamente pelos educadores, mas adaptados as reais condições da comunidade. Ao mesmo tempo, conhecendo a própria situação como objeto do conhecimento, os educandos começam a desenvolver conjuntamente sua conscientização, que resulta da reflexão acerca de seu contexto. É uma problematização constante, cujo objetivo maior é proporcionar às pessoas que construam sua autonomia, sua capacidade de entender não só o entorno, o local, mas a realidade em sua complexa totalidade, que os envolve e condiciona (p. 105)”.

 

Buscando então relacionar a Geografia com o dia-a-dia dos educandos e exaltando a importância do cotidiano na elaboração de alguns elementos formadores desta ciência, este trabalho propõe a análise e a associação de uma prática cotidiana específica, as inscrições encontradas, com alguns conceitos discutidos na ciência geográfica, sendo estes o conceito de território e identidade, além também de serem utilizados para a discussão de como a sociedade se organiza a partir de relações de poder.

Essas inscrições encontradas nos banheiros que podem também ser denominadas grafitos de banheiro e escritas latrinárias (Otta e Teixeira, 1998), são visualizadas em alguns destes estabelecimentos em suas portas, paredes e até em seus tetos. O banheiro, por ser um local considerado seguro e onde o anonimato é garantido, é um dos locais onde mais se produzem inscrições, sendo expressas através destas, idéias, fantasias e outras expressões dos indivíduos.

Dessa maneira pode-se dizer que o banheiro por ser o espaço onde o homem reproduz alguns aspectos de si e de suas interações com a sociedade, é o território do eu, um espaço contraditório onde há ao mesmo tempo controle e liberação (BARBOSA, 1984). O controle se manifesta aí principalmente em banheiros localizados em espaços públicos onde é preciso muitas vezes se ter a permissão para utilizá-los, como em banheiros que se situam em bares, onde a chave precisa ser solicitada e retirada no balcão ou então em banheiros de praças e rodoviárias onde funcionários que inspecionam o local e cuidam da limpeza acabam inspecionando também seus frequentadores. Além disso, há também sanitários pagos onde há a necessidade de se ultrapassar uma roleta para utilizá-los.

Também em banheiros localizados em instituições de ensino, mais notadamente em escolas até o nível médio, é preciso se ter a permissão, no caso de professores, para usá-los. A escola como um todo, aliás, é um local permeado por normas que regulamentam o comportamento e de certa forma o “funcionamento” dos indivíduos. Para constatar isso “basta ler, por exemplo, os regulamentos escolares onde encontramos todas as restrições possíveis sobre a corporeidade, desde os tempos destinados às tarefas e às aulas, até como deverão ser o comportamento e a posição espacial na classe” (MOREIRA, 1995, pp. 20-21).

O banheiro como já dito, apesar de se constituir em espaço de controle é também um espaço de plena liberdade, pois aí o indivíduo pode se manifestar livremente e de forma anônima, já que o controle que sofre é “barrado” na porta dos gabinetes sanitários, e dentro deles só há uma pessoa, o indivíduo, que pode mostrar aos outros o que pensa sobre si e sobre o mundo, além de ter total liberdade para exprimir os desejos e vontades de seu corpo, de sua sexualidade, sendo o banheiro por isso mesmo o território do corpo (BARBOSA, 1984). 

Estando no banheiro o indivíduo através das escritas deixa no espaço as suas impressões, suas marcas, carregando assim o mesmo de simbolismos e significados ao mesmo tempo em que concretiza o seu sentimento de pertencer ao local. Diz-se então que o sentido de pertencimento ocorre quando para o mesmo (indivíduo) um dado local seja carregado de significações (SANTOS, 2007), não havendo propriamente a necessidade de que o mesmo seja o espaço em que vive o indivíduo. Ainda nos dizeres de Douglas Santos (2007):

 

[...] o território só pode ser o resultado da observação, da vivência, da sistematização de um conjunto de experiências que se torne algo ordenado em nossa cabeça, tanto do ponto de vista da distância relativa (e, portanto dos posicionamentos) entre os objetos que o compõe, quanto ao significado que cada um desses objetos possui para cada um de nós. (p.6).

           

Dessa maneira podemos abordar o conceito de território a partir de vários enfoques, como bem nos apontou Haesbaert (1999). Partindo das relações humanas que se estabelecem no território, o autor aborda este conceito por meio de três enfoques principais: o político, onde a relação Estado-poder é vista claramente através da delimitação feita em uma determinada porção do espaço que vive sob controle do Estado-nação; o cultural, onde predomina a dimensão simbólico-cultural, ou seja, a valorização simbólica criada por um grupo em relação ao espaço; o econômico, quando priorizam-se as relações econômicas dadas em determinada porção do espaço ou então a mesma é vista como fonte de recursos, dando-se aí a relação capital-trabalho assim como as contradições existentes entre as classes sociais.

 Aqui, a partir dos escritos presentes no espaço do banheiro o mesmo é visto como a referência (recorte territorial) para a construção simbólica da identidade sentida pelos indivíduos. Os grafitos de banheiro por possuírem uma forte significação para os indivíduos que os produzem, representam à simbologia que fundamenta a identificação que os mesmos sentem pelo espaço do banheiro e que consequentemente o constitui como sendo um território simbólico/ subjetivo. 

Por ser feita uma abordagem do território em seu sentido simbólico, a identidade aqui trabalhada têm um sentido cultural, pois ela diz respeito às relações humanas praticadas no local em que as mesmas se territorializam, sendo ao longo do tempo e através das atividades cotidianas o sentido de pertencimento de cada indivíduo com seus semelhantes e com o espaço fortificado (GUERRA, 1993).

Assim coloca-se a importância dessas escrituras nas discussões acerca desses conceitos geográficos e sua relevância para o entendimento de algumas dinâmicas que regem a sociedade côo as relações de poder e suas transgressões feitas no espaço do banheiro.

 

 

 

Considerações Finais

 

Dessa maneira, após todas as exposições feitas, este trabalho destaca a importância de haver um inter-relacionamento entre o ensino de geografia e nossas práticas cotidianas, pois como já dito a própria Geografia originou-se das experiências e conhecimentos do dia-a-dia do homem.

A associação de conceitos da Geografia com a vivência dos indivíduos fortalece o ensino da Geografia, pois torna o ato de aprender Geografia mais prazeroso (Souza, 2004), não sendo uma sequência de memorizações maçantes de conceitos estanques e previamente definidos.

As práticas cotidianas aqui analisadas, as inscrições encontradas no banheiro, se mostram como elementos possíveis para que se faça essa conexão entre teoria e prática. O espaço do banheiro identificado como sendo um território para os indivíduos que grafitam no local, ganha significado pelo fato de que aí os mesmos se encontram livres das normas comportamentais impostas pelas instituições constituintes da sociedade, podendo se manifestar livremente, “ouvir” e serem “ouvidos”.

As representações feitas no banheiro se manifestam também como a simbologia que fundamenta a identificação sentida pelos indivíduos quanto aos valores organizadores de seus territórios cotidianos, ou seja, qualificam os lugares e os referenciais determinantes que os permitem se localizarem e se orientarem no mundo a partir dos ambientes por eles frequentados ou idealizados.

Além disso, a análise destes materiais pode contribuir para que seus resultados levem a um melhor entendimento de quem são esses indivíduos que grafitam no banheiro e de como seus referenciais expressos, ou ocultos, nas inscrições podem identificar outros olhares para o trabalho do ensino de Geografia na sala de aula.

Essas e outras práticas cotidianas utilizadas nas aulas de Geografia podem ser utilizadas para reencantar o ensino, tornando assim com isso os alunos também protagonistas do ensino e não somente corpos estáticos que recebem informações e mais informações, sem refletir e problematizar as mesmas.

O professor nesse processo tem um papel fundamental que é o demonstrar que a geografia faz parte do cotidiano do aluno, fazendo assim com que a apreensão e compreensão da disciplina por parte dos mesmos se dêem de uma maneira mais prazerosa e a aula se torne mais rica. O ato de ensinar exige que nós enxerguemos que os alunos possuem experiências que devem ser levadas em consideração sendo exploradas no processo de aprendizagem, levantando questões e fazendo com que os mesmos possuam um olhar inquieto sobre o mundo que os rodeia. Para que isso ocorra se faz necessária a busca por novas metodologias de ensino, que valorizem o aluno enquanto ser pensante, que cria e levanta dúvidas sobre o que está sendo exposto, não aceitando passivamente o que recebe como se fossem verdades absolutas e por isso inquestionáveis (CASTROGIOVANNI (ORG.), 2007).

 

 

Bibliografia

 

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FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. Vol. I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

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[1] Este trabalho possui uma temática semelhante à dissertação de mestrado que será defendida por mim em 2013, sob orientação do Profº Drº Cláudio Benito de Oliveira Ferraz. Nela, as abordagens feitas terão uma maior aproximação com o grupo de Pesquisa Linguagens Geográficas coordenado também pelo Profº Benito e do qual também faço parte.

[2] Aluna mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Dourados, MS.

 


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.