Inicio > Mis eListas > encuentrohumboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 3195 al 3214 
AsuntoAutor
197/11 - ABORDA Encuentr
198/11 - QUEM OUVE Encuentr
199/11 - ESTUDO DE Encuentr
200/11 - Territóri Encuentr
201/11 - GÊNERO Y Encuentr
202/11 - “AMIGO-IN Encuentr
203/11 - Urbanizaç Encuentr
204/11 - AS FEIRAS Encuentr
205/11 - A produçã Encuentr
206/11 - ATIVIDADE Encuentr
207/11 - CONFLICTO Encuentr
208/11 - OS IMPACT Encuentr
209/11 - PANORAMA- Encuentr
210/11 - EDUCAÇÃO Encuentr
211/ 11 - UM OLHAR Encuentr
212/11 - EDUCAÇÃO Encuentr
213/11 - Panel “Br Encuentr
214/11 - Espaço Gu Encuentr
215/11 - Análise s Encuentr
216/11 - A PARTICI Encuentr
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
ENCUENTRO HUMBOLDT
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 3270     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:[encuentrohumboldt] 206/11 - ATIVIDADE PRODUTIVA E A RELAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE: O CASO DO GRUPO DE AGROECOLOGIA TERRA VIVA – ASSENTAMENTO SUL BONITO
Fecha:Lunes, 5 de Diciembre, 2011  12:32:21 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

ATIVIDADE PRODUTIVA E A RELAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE:

O CASO DO GRUPO DE AGROECOLOGIA TERRA VIVA – ASSENTAMENTO SUL BONITO[1]

 

PRODUCTIVE ACTIVITIES AND RELATIONSHIP WITH THE ENVIRONMENT:

THE CASE OF THE GROUP AGROECOLOGY TERRA VIVA SUL BONITO SETTLEMENT

 

 

Daiane Alencar da Silva[2]

Universidade Federal da Grande Dourados

 

RESUMO

 

Este ensaio aborda a relação das atividades produtivas desenvolvidas no assentamento Sul Bonito com o meio ambiente, identificando como as praticas de produção local podem afetar o meio ambiente ou permitir sua valorização. O assentamento rural Sul Bonito está localizado no município de Itaquiraí, Mato Grosso do Sul, Brasil. O assentamento surgiu de uma fazenda desapropriada denominada “Empresa Água Mansa Ltda.” e contava com cerca de 6.653 hectares. Constituído de 421 lotes, organizados inicialmente por movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST e, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Mato Grosso do Sul – FETAGRI, este assentamento foi implantado em dezembro de 1996. Apresenta características de importante relevância para analise geográfica, tendo em vista as relações e transformações ocorridas neste espaço através da inserção de atividades produtivas alternativas. Permitindo, portanto, o estudo geográfico desse espaço, levando em consideração as alternativas de produção desenvolvidas no assentamento e a relação delas com o meio ambiente, nesse estudo analisado a partir do grupo de agroecologia Terra Viva.

 

Palavras-chave: assentamento rural; produção alternativa; agroecologia; meio ambiente.

 

 

ABSTRACT

 

This paper discusses the relations of productive activities developed in the settlement Sul Bonito with the environment, identifying how the practices of local production can affect the environment or to allow their recovery. The Sul Bonito is a rural settlement in the city of Itaquiraí, Mato Grosso do Sul, Brazil. The settlement arose from a farm expropriated called "Water Company Ltd. Mansa." And had about 6,653 hectares. Consisting of 421 lots, originally organized by social movements like the Landless Workers Movement - MST, and the Federation of Agricultural Workers of Mato Grosso do Sul - FETAGRI, this settlement was established in december 1996. Presents important features of relevance to geographical analysis, in view of the relations and transformations in this space by the insertion of production activities. Therefore allowing the study of geographical space, taking into account the production alternatives developed in the settlement and their relationship with the environment, this study analyzed from the agroecology group Terra Viva.

 

Keywords: rural settlement; alternative production, agroecology, environment.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A intensa investida em tecnologia para a produção agrícola e o desenvolvimento de atividades não agrícolas tem incentivado as transformações no campo, e como conseqüência disso tem-se a redefinição das praticas no espaço rural. Ocorre um misto de atividades, sejam as tradicionais, voltadas para a produção agrícola e pecuária, sejam as atividades alternativas, inseridas no campo a fim de dinamizar a economia e proporcionar alternativas de renda para as famílias que residem no campo e, que já não conseguem sobreviver apenas da renda extraída das práticas tradicionais.

Essas atividades alternativas se fortalecem ao passo que conseguem oferecer ao pequeno proprietário a oportunidade de melhorar as condições de vida, através de uma renda extra. Com isso, as praticas produtivas tradicionais não deixam de existir, mas passam a dividir o lugar com novas atividades.

Essas atividades demonstram importância no cenário brasileiro atual, tendo em vista que são apropriadas pelos pequenos produtores a fim de contribuir para a permanência da família na terra.

A busca por atividades alternativas está relacionada com a busca por um desenvolvimento alternativo, como coloca Milton Santos (2002).

Para Santos (2002, p.46) a diferença entre desenvolvimento alternativo e alternativa ao desenvolvimento deve ser levada em consideração. O autor aponta que “o desenvolvimento alternativo é formulado com base em uma crítica de fundo à estrita racionalidade econômica que inspirou o pensamento e as políticas de desenvolvimento dominantes”. Além disso, essa visão de desenvolvimento alternativo propõe modificações e limites ao crescimento, como esclarece o autor, não põe em causa a própria idéia de crescimento econômico.

Quanto à alternativa ao desenvolvimento, Santos (2002, p.54) afirma que “as propostas de alternativas ao desenvolvimento radicalizam a crítica à noção de crescimento e, por conseguinte, exploram alternativas pós-desenvolvimentistas”. Sendo assim, esclarece Santos (2002, p.56) que “uma alternativa ao desenvolvimento implica uma forma de ver o mundo que privilegie a produção de bens para consumo básico em vez da produção de novas necessidades e de artigos para satisfazer a troco de dinheiro”.

Entende-se que tal visão precisa ser priorizada nos assentamentos rurais, a busca de alternativas ao desenvolvimento, e não alternativas de desenvolvimento, que visam somente o crescimento econômico em detrimento à qualidade de vida.

Para que aconteça o aparecimento, a sobrevivência e a expansão das alternativas ao desenvolvimento, é fundamental a existência de um movimento social mais amplo que as produza e mantenha a sua integridade. O caso do MST é a ilustração mais clara desta afirmação. Mas é preciso ter cautela ao afirmar sobre a solidez do movimento, ao ponto que, o MST falha em alguns aspectos organizacionais no assentamento, nem todas as famílias assentadas pelo movimento continua recebendo assistência depois do momento que recebem seus lotes.

Depois de adentrarem seus lotes, os assentados necessitam de um suporte técnico especifico para darem inicio ao trabalho na terra e no correto direcionamento das finanças. Tendo em vista que muitos investem mal seus recursos financeiros vindo a sofrer sérias conseqüências após um curto período de tempo, principalmente por investirem em um só tipo de atividade produtiva, que no caso do assentamento Sul Bonito pode-se verificar na mandioca.

Para superar a crise advinda com o mal direcionamento dos recursos financeiros, é preciso buscar alternativas de produção que sejam capazes de superar os prejuízos na lavoura errada e oferecer condições de melhorias na qualidade de vida das famílias assentadas.

Levando em consideração essa necessidade muitos assentados estão procurando, através da produção orgânica, se reerguer financeiramente e socialmente. O grupo de agroecologia Terra Viva é um exemplo claro dessa tentativa.

 

 

A PRODUÇÃO DE ORGÂNICOS NO SUL BONITO

 

No município de Itaquiraí, Mato Grosso do Sul, existe pequenos produtores rurais que estão desenvolvendo a produção orgânica, através da iniciativa de um produtor do assentamento Sul Bonito.

O senhor Cícero Carneiro, do lote 148, foi um dos primeiros agricultores do assentamento que tomou conhecimento da produção agroecológica, através de “um seminário sobre produção de mel”, oferecido pela Associação de Agricultores Orgânicos de Mato Grosso do Sul – APOMS, em Itaquiraí, em 2006, e já trabalha com a produção de orgânicos há cinco anos. A partir das discussões do seminário, reconheceu a necessidade de mudança em seu sistema de produção, segundo seu próprio relato:

 

Tinha muita coisa que eu plantava, mas perdia por causa do frio ou da seca, não tinha garantia de nada e em 2006 teve um seminário da APOMS na Escola Agrícola que eu e mais alguns companheiros assistimos. A partir daí comecei a procurar informação sozinho, por vontade própria e estudar, ganhei um livro e passei a noite lendo. Comecei a fazer experiência aqui e ali...Umas deram certo, outras não...Plantei mil mudas de erva-mate que morreram por causa da seca, mas agora já arranjei mais que vou plantar de novo. Comecei então a pensar sobre a água e a nascente que tem no sítio, que nasceu dentro da voçoroca, cerquei e cuidei e hoje tem água que derrama da caixa, foi então que comecei a irrigar com aquele sistema de gotejamento que você viu, eu que inventei... Tenho plantado guandu para fazer adubação verde e dar para os animais, plantei pupunha e um monte de outras sementes que vou catando por aí e guardando, coisa que muita gente não tem mais... Então fui procurar parceiros e encontrei pessoas aqui no assentamento com os mesmos interesses, no início eram só cinco, agora já tem um monte querendo fazer parte do grupo (Sr. Carneiro, entrevista gravada em. 10 de março de 2009 apud Comar; Menegat, 2009, p.08).

 

O Sr. Carneiro relatou-nos em entrevista[3] sobre sua iniciativa de trabalhar sozinho com agroecologia, e segundo ele, as dúvidas de como iniciar a produção e mantê-la era o maior empecilho para alavancar a produção.

 

A minha bíblia é o livro que ganhei, ele fala desde o inicio da agricultura, começa lá atrás 50 anos atrás, a nível mundial, eu estudei aquele livrinho, qual era minha duvida, como que eu vou produzir se eu vou plantar uma coisa, ai eu vou ver os insetos chegar e destruir aquilo lá, eu não vou plantar, eu não quero perder. Então não tinha alternativa com o que eu vou combater as pragas que poderiam vir, e nesse livrinho tinha tudo quanto é receita, falei agora eu tenho o que eu precisava, eu tenho a receita na mão, ai eu falei agora eu vou trabalhar, comecei sozinho. Através desse seminário que teve na escola família ai me reanimou mais ainda, vi que tinha o selo, vi que tinha gente pra pedir apoio. Eu vou seguir em frente.

 

Verifica-se no decorrer da pesquisa, através dos trabalhos de campo, que apesar dos assentados compreenderem a necessidade de diversificar a produção no lote, poucos se interessam de fato nessa atividade com princípios agroecologicos.

A agricultura orgânica, uma forma alternativa de produção, frente às práticas tradicionais agropecuárias, representa a possibilidade de maior fixação do homem no campo, através da produção orgânica o agricultor é capaz de manter o sustento da família e ainda evitar complicações financeiras, sendo este tipo de produção responsável, em muitos casos, pela salvação econômica da família, como afirma o assentado Luis Pinto Barbosa, do Sul Bonito, quando indagado sobre o que melhorou na sua vida e na da família após iniciar a produção orgânica em seu lote.

 

No caso a gente não tinha geladeira, já tem. Comprei com o dinheiro dos orgânicos. Tinha uma geladeira veia, derrubada, ta melhorando aos poucos. Nossa parcela no banco no caso, no prazo certo, que é de 3 em 3 meses, pago uma parcela de R$ 223,00, que nem agora mesmo, dia 25 eu paguei lá, vencia dia 30, mas eu já paguei logo dia 25, sobra, já não tem mais dificuldade também. É financiamento, que eu fiz pra construir aquela mangueira, e a seca. Financiei seis mil, e já to conseguindo quitar. É mil reais por ano. Falta ainda três anos.

 

Sobre a comercialização dos produtos orgânicos no município de Itaquiraí, percebe-se que as pessoas ainda não reconhecem a potencialidade desse nicho de mercado, além dos benefícios em adquirir alimentos produzidos organicamente. As hortaliças produzidas pelos assentados do Sul Bonito são comercializadas no município de Itaquiraí uma vez por semana, quando os produtores levam até a cidade seus produtos.

Os agricultores orgânicos precisam superar os obstáculos referentes a comercialização dos produtos, tendo em vista não possuírem, ainda, um ponto de fixo de comercialização e a divulgação ser precária. De acordo com o Sr. Carneiro, suas hortaliças são entregues na cidade, de forma improvisada.

 

Eu entrego na cidade. Eu saio vendendo na rua, tem o freguês que a gente sabe mais ou menos que compra, mas a gente vende pra qualquer um.

A feira a gente não freqüentava devido ao transporte, porque eu ainda pago o frete, então na feira você tem que ficar lá e não pode sair, e se vender vendeu, se não vender você tem que pagar o frete igual, talvez não viabiliza, você paga o frete, você fala “a não vende nem o do frete”. Mas agora eu mudei, sábado eu já fui, se der prejuízo não vai fazer muita falta, o pessoal ta cobrando que é para levar na feira então vou começar, mas não saiu muito bem não.

 

Tentando superar essa dificuldade, o Sr. Carneiro colocou em frente ao seu sítio uma placa de divulgação, feita pelo próprio assentado, a fim de atrair consumidores do próprio assentamento, algo que segundo ele tem dado resultado.

 

O pessoal ta vindo buscar aqui em casa, (...). Eu fiz uma placa e coloquei lá em cima. Vem comprar abobrinha, couve, repolho, cebola de cabeça. Do próprio assentamento vem buscar, mas a questão é que não consegue produzir orgânico e água também.

 

 

Foto 01-Placa de divulgação de venda de produtos orgânicos no lote do assentado Carneiro.

Autora: SILVA, D. A. Novembro de 2010.

 

Foto 02-Etiqueta dos produtos orgânicos do Grupo de Agroecologia Terra Viva, do assentamento Sul Bonito.

Autora: SILVA, D. A. Novembro de 2010.

 

No que se refere ao que é produzido pelos agricultores orgânicos, existe uma variedade de hortaliças, frutas e grãos que diversificam a produção, permitindo a não dependência de somente uma variedade de produtos.

 

Hoje tem erva mate plantada pra longo prazo, plantei uma vez e morreu tudo, tornei plantar ai pegou uns 60%, já ta bom. Tem palmito pupunha, tem as hortaliças tem tudo que é variedade. Tem couve, tem repolho, tem tomate semeado, tem alface, almeirão, cebola de cabeça, tem feijão, tem milho pipoca, mandioca, uma infinidade, diversificada. Tem feijão granando, tem feijão madurando, tudo que é coisa. E dentro de mil metros quadrado, milho plantado.

Tem caixa de abelha, tem o mel orgânico, to com dez caixas.

No meio da erva mate eu plantei uma variedade de frutas, ameixa, pitanga, jabuticaba, jaracatiá, nem sei direito o que tem plantado ali.

Tem guavira, cenoura, açaí, beterraba, repolho roxo; mudas de mamão, cedro. Tem ainda mamona, que serve para remédio e contra lagarta. Tem cravo de defunto que serve como repelente e inseticida. Tem canjarana que é madeira de lei, está em extinção. Tem angico e ipê roxo. Tem limão Taiti, tomate pêra.

 

E para garantir a permanência dos agricultores no trabalho com orgânicos, e conseguir encontrar mais adeptos a essa prática alternativa, o assentado afirma que é importante a formação de um cinturão verde, onde os assentados possam desenvolver suas atividades produtivas sem a ameaça de agrotóxicos nos lotes vizinhos, o que poderia prejudicar a produção.

 

O mais importante que os que estão aqui é tudo quase que vizinhança, só tem um mais fora, retirado, mas a maioria é quase vizinho. Então nos estamos formando uma cerca aqui pra não entrar nada de fora, aqui não vai plantar nada de agrotóxico, então você já tem uma proteção. Eu posso dizer que sou privilegiado, o vizinho de cima não usa nada e já estamos conversando pra ele ficar no grupo do banco de sementes.

 

Em função da ausência de conhecimento por parte da população de Itaquiraí em relação aos produtos orgânicos, os produtos não podem ser vendidos a um valor muito acima dos produtos convencionais, tendo em vista que isso implicaria na pouca comercialização dos produtos.

Estudando sobre isso, Saquet apud Alves et al (2008, p.148) constata que se deve levar em consideração o baixo poder de compra do brasileiro, o que o leva a adquirir os produtos de menor preço.

 

É sabido que os produtos orgânicos possuem custos mais elevados em função do volume de produção e produtividade mais baixos comparados aos convencionais, porém, deveríamos levar em conta, primeiramente a qualidade do produto expressa pelo seu valor nutricional e segurança alimentar ao adquirirmos os gêneros alimentícios.

 

É preciso acentuar sobre as dificuldades que surgem na produção orgânica. Nem todos os assentados conseguiram lotes com abundância de água, muitos assentados receberam lotes que a precariedade de água se torna um grande empecilho para o desenvolvimento de atividades produtivas, como a agricultura. Afirma o Sr. Luis, “aqui não tem água fácil, tem água mais é da rua, só da pra horta mesmo. Aqui na roça tem que esperar a chuva, só Deus pra aguar. Agora ta bonita, mas eu sofri um pouco, teve uma seca ai”.

Os assentados do Sul Bonito que trabalham com orgânicos, além dos desafios impostos pela falta de conhecimento sobre os alimentos orgânicos na região, a cobrança em relação à certificação, as dificuldades com irrigação, ainda precisam superar a pequena área disponível para essa produção.

Mas como afirma Saquet apud Alves et al (2008, p.145-146) o sistema de produção orgânico é viável em pequenas áreas e permite produção em pequena escala. Mesmo que a quantidade produzida pelo agricultor seja pequena, a comercialização de alimentos orgânicos diretamente com os consumidores é possível, quer seja por meio da distribuição em residências, quer seja pela venda em feiras livres especializadas. A necessidade de aumentar a quantidade disponibilizada para comercialização em determinados pontos de venda, bem como de incrementar a variedade de produtos exige que os pequenos agricultores se organizem em associações.

Como aponta Lucato Moretti e Almeida (2009, p.90) a associação se torna um meio viável dos produtores conseguirem resistir ao modelo convencional de produção.

 

(...) os pequenos produtores rurais que produzem orgânicos tentam por meio desse processo de construção de identidades, agruparem-se em associações e resistirem ao domínio do modelo de desenvolvimento agrícola tradicional. Ao mesmo tempo, eles buscam uma nova relação sociocultural e ambiental que possa garantir a sua subsistência enquanto produtores diferenciados, num estado de economia baseado no agronegócio.

 

Não se pode deixar de notar a satisfação dos agricultores em trabalhar com a produção orgânica, tendo em vista que encontraram a partir de uma forma alternativa de produção, a possibilidade de ampliar a renda da família, de se desvencilhar do modo convencional de produção e, além disso, ter a consciência de que estão contribuindo com o meio ambiente, não utilizando agrotóxicos em suas lavouras.

Em conseqüência da diversificação dos lotes do Sul Bonito, é possível observar a mudança na paisagem do assentamento, que já não se manifesta somente a partir da visão tradicional de pecuária e agricultura, principalmente, cana-de-açúcar e soja.

A paisagem do assentamento Sul Bonito configura-se de variedades produtivas, observam-se lotes onde existe a pecuária leiteira, a agricultura de subsistência, a produção de hortaliças e pomares, a atividade voltada à piscicultura, a produção aviária, a atividade de silvicultura, a produção orgânica, a produção de artesanatos de fibra de bananeira, etc. É preciso frisar que nem todos os lotes desse assentamento apresentam a diversidade produtiva ressaltada aqui, alguns lotes ainda se retêm ao tradicional, agricultura e pecuária.

 

Os produtores orgânicos “territorializam” o espaço ao desenvolverem ações concretas e mesmo simbólicas relacionadas à produção agrícola relacionada à busca da sustentabilidade social. A permanência na terra e o seu uso tem como significado o pertencimento ao lugar (Lucato Moretti; Almeida, 2009, p.88).

 

A produção orgânica no assentamento tem propiciado ao assentado o sentimento de pertencimento ao lugar, de retorno efetivo ao campo. Quando o assentado recebe a terra, e inicia os projetos de produção no lote, é praticamente inevitável o endividamento do indivíduo.

É preciso reconhecer as trajetórias de vidas dos assentados, são trajetórias diferentes e, que precisam ser respeitadas. Os assentados têm distintos passados que vão desde a situação de ex-pequenos proprietários que perderam a terra até assalariados urbanos afetados pelo problema do desemprego (Alentejano, 2000, p.95).

Sendo assim, os assentados que optaram por trabalhar com orgânicos, encontraram um modo de superar os obstáculos advindos do mercado capitalista, que se apresenta como opressor, alienante e explorador do pequeno produtor. 

 

 

O GRUPO TERRA VIVA E O MEIO AMBIENTE

 

 

A agricultura convencional, grande absorvedora de maquinas, implementos e insumos químicos, começou a ser duramente criticada pelos movimentos sociais e ambientalistas, os quais passaram a demonstrar a nocividade do pacote tecnológico da revolução verde ao solo, à água, à atmosfera, aos animais e à própria saúde e bem-estar do homem.

Surgem então, algumas formas alternativas de produção que empregam menos insumos externos e que, em conseqüência, agridem menos o meio ambiente. (Hespanhol, 2008, p.121)

Existem muitas diferenças entre o modelo convencional de produção e o modelo de produção orgânica, mas essas diferenças são percebidas não somente em relação aos métodos e técnicas de cultivo, mas também, como afirma Saquet (2008, p.138), “alguns fatores sociais tais como a inclusão social com a geração de empregos no campo, a saúde do produtor e consumidores, além das questões relacionadas à preservação do meio ambiente como um todo”.

O sistema de produção orgânico visa à manutenção do meio ambiente, utilizando-se de algumas técnicas para produzir que não interfiram drasticamente no sistema. De acordo com Saquet (2008, p.140) esse modelo de produção emprega muita adubação verde com espécies leguminosas para fins de produção e preservação de solos e ambiente em geral. A produção é totalmente ecológica visando a qualidade elevada dos produtos. Além disso, a fertilidade natural do solo é preservada através do emprego de métodos conservativos com o uso de estercos, adubação verde e restos de colheitas, o que eleva bastante a atividade microbiana e melhora a estrutura física dos solos.

São muitos os fatores que favorecem o desenvolvimento da agricultura orgânica. Um estudo desenvolvido por pesquisadores suíços do Instituto de Pesquisa sobre Agricultura Orgânica, em Frick, Suíça, apresentam 90 argumentos em favor da agricultura orgânica (Saquet, 2008, p.140-143), e discute-se no presente texto apenas alguns que podem ser relacionados ao grupo Terra Viva.

No caso do leite, que é o carro chefe da economia do assentamento, segundo os pesquisadores, o leite procedente de vacas criadas no sistema orgânico possui maiores quantidades do ômega 3, importante ácido graxo para a prevenção de doenças circulatórias e do câncer. Diante disso, percebe-se a grande importância em desenvolver a pecuária leiteira no assentamento Sul Bonito de maneira orgânica, dentro das possibilidades dos produtores.

No caso das hortaliças, frutas e hortaliças orgânicas contêm maiores concentrações de elementos funcionais tais como flavonóides e resveratrol, os quais são antioxidantes muito eficientes que retardam o processo de envelhecimento e previnem doenças do coração. Para a produção desses alimentos, os assentados produtores do grupo Terra Viva não utilizam nenhum tipo de elemento químico para controle de pragas e insetos. O combate é feito através de produtos alternativos, como o cravo-de-defunto, que serve como repelente para alguns insetos.

A agricultura orgânica tem um caráter mais social, apontam os pesquisadores. Diminui os custos com a saúde da população em geral, porque os alimentos são mais saudáveis. Promove inclusão social das pessoas no campo e melhora a saúde do produtor, o qual não se envolve diretamente com produtos químicos perigosos.

 No que diz respeito aos benefícios advindos com a inserção de atividades produtivas orgânicas, pode-se destacar os benefícios à saúde da população, seja os produtores sejam os consumidores. Na propriedade do Sr. Carneiro os benefícios foram sentidos na própria família, quando os filhos já não apresentam tantos problemas de saúde como antes.

 

A gente percebeu que depois que começamos a trabalhar dificilmente alguém fica doente, e outra quando fica a gente já sabe qual o remédio que vai tomar, ou você já toma ele antes. Por exemplo, ta a hortaliça então já vamos fazendo a saladinha, a gente faz suco de couve, suco de beterraba, fanta de cenoura, essas coisas.

 

Diante dessas constatações, é evidente que a agricultura orgânica oferece mais benefícios a saúde do produtor e do consumidor, em detrimento da agricultura convencional. Além disso, diminui os riscos de contaminação do solo e da água, tendo em vista que não são utilizados agrotóxicos nesse sistema de produção.

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Tendo em vista a necessidade da sociedade atual em melhorar as condições de alimentação, os alimentos orgânicos se colocam com uma alternativa para suprir essa necessidade. E o grupo Terra Viva de produção orgânica se apresenta nessa lógica como um grupo de resistência as praticas tradicionais de produção, o que permite aos assentados permanecerem na terra, produzindo e sobrevivendo do próprio lote, sem precisar abandoná-lo nem procurar fontes de renda fora da propriedade.

Os produtores orgânicos, apesar das dificuldades relacionadas a produção, como falta de incentivo em relação a comercialização, falta de crédito para produção, etc., tentam superá-las resistindo ao modelo convencional de produção adotado no assentamento Sul Bonito, através do grupo Terra Viva.

É importante ressaltar a que o desenvolvimento desse grupo de produção orgânica no assentamento Sul Bonito, reforça a idéia colocada pelo próprio movimento social, MST, de luta pela terra, sobre a importância dos assentados buscarem alternativas de fonte de renda dentro do lote, e de maneira sustentável, o que gera e impulsiona melhorias no próprio lote, no assentamento e na sociedade como um todo, através não só da sustentabilidade ambiental que este tipo de produção oferece, mas também, da sustentabilidade social dos próprios envolvidos na pratica.

Isso promove a (re) inserção dos assentados produtores de orgânicos na sociedade e no mercado, o que significa o triunfo sobre as adversidades, é como se estivessem retornando à sociedade, inserindo-se novamente nas relações sociais e de produção.

Para encerrar esse trabalho traz-se a fala do assentado Sr. Carneiro, quando durante a entrevista lhe foi perguntado sobre o que ele conseguiu melhorar em seu lote e sua residência após iniciar a produção orgânica. Esperando uma resposta voltada a compra de bens materiais para a casa ou melhorias na estrutura do lote, o assentado simplesmente responde:

 

Acho que eu adquiri liberdade, a gente ta se sentindo um pouco independente do mercado. Eu ia na cidade, queria trazer alguma coisa mas eu não tinha dinheiro, tinha que comprar fiado, agora não, eu vou lá, eu vendo dois ou três pés de alface, eu trago o que eu quero e não devo nada pra ninguém. Então é independência. E outra tem que comer em casa, o que tiver, os alimentos com qualidade (Cícero Carneiro).

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALENTEJANO, P. R. R. O que há de novo no rural brasileiro? Revista Terra Livre, São Paulo, n.15, p.87-112, 2000.

COMAR, S. E.; MENEGAT, A. S. A produção agroecológica no assentamento Sul Bonito em Itaquiraí: em estudo de caso. Artigo de Iniciação Científica. Dourados: UFGD, 2009.

HESPANHOL, R. A. M. Agroecologia: limites e perspectivas. In: ALVES, A. F.; CORRIJO, B. R.; CANDIOTTO, L. Z. P. (Orgs.) Desenvolvimento territorial e agroecologia. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

LUCATO MORETTI, S. A.; ALMEIDA, M. G. Território e agricultura orgânica em Mato Grosso do Sul: quando o passado ensina o futuro. Revista Terra Livre, Ano 25, v.02, n.33, p.85-96, jul-dez/ 2009.

SANTOS, B. S. (Org.) Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

SAQUET, A. A. Reflexões sobre a agroecologia no Brasil. In: ALVES, A. F.; CORRIJO, B. R.; CANDIOTTO, L. Z. P. (Orgs.) Desenvolvimento territorial e agroecologia. São Paulo: Expressão Popular, 2008.



[1] Trabalho integrante da Dissertação de Mestrado “A produção territorial e as formas de resistência no assentamento rural Sul Bonito em Itaquiraí/ MS”, defendida em março de 2011, sob orientação do Prof. Dr. Edvaldo César Moretti.

[2] Mestre em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados.

[3] Entrevista realizada com assentado do Sul Bonito, concedida a autora em trabalho de campo no dia 30 de novembro de 2010.






BeRuby te regala un euro!
- SOLO PARA ESPAÑA - En BeRuby puedes ganar dinero haciendo lo que ya haces en la red
beruby