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Asunto:[encuentrohumboldt] 198/11 - QUEM OUVE O CLAMOR SOCIAL REFERENTE ÀS MUDANÇ AS CLIMÁTICAS?
Fecha:Sabado, 26 de Noviembre, 2011  08:32:46 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

QUEM OUVE O CLAMOR SOCIAL

REFERENTE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

 

André Geraldo Berezuk[1]

 

RESUMO

 

A propagação de discursos, idéias, movimentos que conclamam a sociedade para uma mudança de pensamento e de ações, para a consolidação de uma nova forma de conceber e planejar a relação homem versus natureza, ocorre há mais de cinqüenta anos, desde o fortalecimento do movimento ambientalista, na década de 1960. Essa propagação é reforçada por autores como Capra (1996), o qual defende a formação de um novo paradigma ambiental. Todavia, mesmo com todo o afã sociopolítico para com esta questão, a humanidade ainda não modificou significativamente as suas bases e o seu modelo de produção econômica, acelerando a evolução do processo de degeneração ambiental em escala global, sendo seu maior exemplo a figura do próprio aquecimento global antrópico. A maior vítima desta inércia será a população mundial, com a possível concretização das prognoses referentes ao surgimento dos futuros (não tão futuros) refugiados ambientais. Será que, mesmo com a humanidade apresentando um nível de poder tecnológico como nunca antes visto, a população mundial, em especial os mais pobres, sofrerá profundamente pela própria incapacidade e relutância desta humanidade em modificar conceitos e idéias do âmbito ambiental? E com a concretização dessa futura realidade dos refugiados ambientais, qual será a ação dessa mesma humanidade, que originou esse problema com suas escolhas?

 

Palavras-chave: Mudanças climáticas, refugiados ambientais.

 

ABSTRACT

 

The propagation of ideas and movements which calls the society for the changing of thoughts and actions, for the consolidation of a new way of conceiving and planning the relationship between human being versus nature, is reforced by other authors as Capra (1996), who says about the formation of a new ambiental paradigm. This movement occurs since approximately fifty years ago, since the consolidation of the environmental movement at the 1960´s. Although existing all the socialpolitical efforts for this question, the mankind did not change in fact its bases and models of economical production, and also the mankind did not stop the evolution of degeneration of the environment in global scale; the global warming is a best example of this situation. The major victim of this inertia will be our population, with the likely concretization of the prognoses concerning the far (not so far) environmental refugees. Could the global population, especially the poorest, suffer deeply because its own inability and reluctance in changing environmental concepts and ideas, even if the mankind shows a great developed technological power? Secondly, with the existence of environmental refugees, what will be the action of the mankind that created this problem because its choices?

 

Key-words: climate changes, environmental refugees. 

 

 

 

Diariamente cada indivíduo escuta, nos diversos meios de comunicação, notícias vinculadas ao aquecimento global. Mesmo com grande parcela da própria sociedade sem saber, em detalhes técnicos básicos, sobre este processo de elevação das temperaturas médias do planeta, todos ao menos conhecem as conseqüências que tais estudos prognosticam para o futuro: em especial o colapso da produção agrícola e das reservas hídricas, megacrises econômicas e o prenúncio de grandes conflitos e guerras. A preocupação social com a própria biodiversidade do planeta encontra-se em segundo plano, já que as pessoas primeiramente pensam em seu instinto de sobrevivência, esquecendo, por sua vez, que a própria sociedade faz parte de toda a relação natural, estando toda estrutura social interligada com todos os seres vivos e também com toda a configuração física de nosso planeta, relação essa que Lovelock (2006) a enquadraria como a relação com Gaia. Contudo, é compreensível a preocupação mundial para com o aquecimento global, mesmo não estando, muitas vezes, conscientes de seu possível poder de destruição.

 

Percebe-se que apenas uma ínfima parcela social, em especial aquela constituída por cientistas, pesquisadores, professores e difusores de opinião, possui um saber mais aprofundado sobre a questão e isto constitui como preocupante, pois se configura como evidente que a grande parcela social, e incluído nela inúmeros políticos, pouco ou nada sabe sobre detalhes técnicos dos estudos vinculados ao processo de aquecimento térmico planetário. A maioria das pessoas pouco sabe sobre o impacto da “savanização” das áreas tropicais, sobre o impacto da elevação dos oceanos, sobre o impacto do degelo das calotas polares e geleiras, sobre a tendência cada vez maior dos eventos extremos climáticos, sobre o perigo das mudanças físico-químicas dos oceanos à vida como conhecemos, sobre o grande risco da gigante perda de solos férteis e da forte tendência de desertificação de extensas áreas do globo. Não imaginam que muitos grandes rios do mundo poderão se tornar ínfimos, se comparados com suas vazões atuais. A grande massa social nem sequer desconfia do perigo do metano que está aprisionado no fundo dos oceanos sobre a forma de hidrato de metano ou aprisionado no permafrost das regiões árticas e antárticas e qual a magnitude de seus impactos se esse metano vier a ser liberado (LYNAS, 2008). Muitas pessoas com grande poder de influência e decisão no mundo desconhecem até mesmo termos técnicos como permafrost, ou então feedback.

 

A sociedade deveria ter a obrigação de conhecer esses termos? Sim, deveria, por se tratar de uma questão que está diretamente relacionada à própria vida humana. Os governos, por sua vez, deveriam estar mais bem preparados para os problemas que virão, ou pelo amplamente mobilizados para melhorar a sua infra-estrutura logística para tais acontecimentos. Entretanto, tanto a sociedade desconhece as nuances da questão como os governos ainda encontram-se em “passos” muito tímidos rumo a uma consolidação de atos e procedimentos mitigatórios referentes às mudanças climáticas prognosticadas até o ano de 2100. Até mesmo a continuação do Protocolo de Quioto, que visa uma “pequena introdução de ações” rumo a uma solução ou atenuação da emissão dos gases-estufa, é objeto de árduas e muito elaboradas discussões entre as nações mundiais, que por sua vez, são fruto da significativa resistência das nações desenvolvidas e emergentes em adotar metas de redução da emissão de gases como o dióxido de carbono. Todos discutem cada percentual de redução de suas emissões que poderá reduzir o seu PIB. Diminuir a produção é uma palavra que os governos mundiais repudiam, ceder em prol do ambiente também parecer ser uma palavra proibida.

 

Mesmo há apenas vinte anos atrás, havia grandes lacunas com relação ao tema aquecimento global. As prognoses não eram bem delimitadas, pois os modelos climáticos não estavam ainda satisfatoriamente desenvolvidos e os ecos do ceticismo ainda rondavam os corredores de universidade e de organizações não governamentais. Na verdade, os ecos do ceticismo ainda rondam esses mesmos corredores, todavia com menos força quando relacionado ao processo de aquecimento global e sua capacidade de impacto ao planeta e à humanidade, devido a cada vez maior precisão dos modelos (mesmo que esses não estejam plenos em sua estruturação e nível de detalhamento). Convém deixar claro que o ceticismo é algo presente e necessário na pesquisa científica, pois suscita a dúvida, todavia, o mundo já tomou uma decisão quanto ao processo de aquecimento global, em especial com os relatórios climáticos do IPCC (Intergovernmental Panel on Climatic Change), porta-voz oficial da ONU quando se trata do tema referente às mudanças climáticas. O quarto relatório referente às mudanças climáticas (Fourth Assessment Report – AR4) relata que o processo de elevação das temperaturas médias globais é evidente e de que e de que esse processo de aquecimento está relacionado às atividades antrópicas desde 1750. O quarto relatório do IPCC é, inclusive, mais enfático do que o terceiro relatório com relação à influência antrópica no processo:

 

Warning of the climate system is unequivocal, as is now evident from observations of increases in global average air and ocean temperatures, widespread melting of snow and ice and rising global average sea level. (p. 30)

 

Most of the observed increase in global average temperatures since the mid-20th century is very likely due to the observed increased in anthropogenic GHG concentrations. This is an advance since the TAR´s conclusion that ´most of the observed warming over the last 50 years is likely to have been due to the increase in GHG concentrations. (p. 39)

 

 

O que deve ser realçado com a seguinte afirmação não é a sua originalidade, pois praticamente todos os experts já sabiam desse quadro. A importância da afirmação reside, contudo, em seu profundo significado político. O relatório coloca, em evidência, a parcela antrópica de responsabilidade sobre a questão. Desse modo, mesmo existindo o lado natural da questão (da influência dos processos físicos no planeta e na sociedade), a humanidade possui, agora oficialmente, reconhecimento que pode alterar nocivamente e massivamente a própria biosfera, e deste modo, representa-se como um elemento ativo, e não passivo, com relação ao processo de aquecimento. Somos responsáveis não só pela nossa própria sobrevivência como também pela sobrevivência da vida atual do planeta. Esta é uma pesada condição moral e ética e, consequentemente, a responsabilidade exige uma mudança de paradigma para com o próprio ambiente.

 

Citando a condição paradigmática da questão, há mais de trinta anos, muitos notáveis pesquisadores ambientais comentam sobre a necessidade de uma mudança do paradigma filosófico do pensar e cuidar do planeta, podendo ser citados Capra (1982, 1996) e a proposta da ecologia profunda, Diamond (2004) e os exemplos de civilizações que se extinguiram por não respeitar os limites de seus recursos naturais, ou Lovelock (2006) com a formulação da Teoria de Gaia, juntamente com Lynn Margulis, não citando muitos outros. Todavia, afirmações como a do AR4, literalmente retiram a questão ambiental da esfera “alternativa” para catapultá-la de vez nas discussões políticas das nações.

 

É nesse momento que o fator acadêmico cede parcialmente seu espaço (pois ele sempre está presente), e entra o fator social em cena, com questões cernes que imediatamente são levadas à tona: se o aquecimento global é antrópico, ou também antrópico, e um conjunto de ações devem ser tomados, as ações beneficiarão a todos ou a um grupo? Haverá distinção entre nações pobres e nações ricas nas ações? Mas se for constatado que existe distinção, não estariam sendo violentamente afetados os direitos humanos? Nações ricas, nações emergentes e nações pobres deveriam ter a mesma parcela de responsabilidade? As nações ricas e as nações emergentes sacrificariam parte de sua produção para a diminuição da emissão de gases estufa, melhorando o problema? As nações cujos territórios estiverem mais preparados às adversidades climáticas, que muito provavelmente virão com maior intensidade, acolherão em sua terra, famílias provenientes de áreas totalmente destruídas (os chamados refugiados climáticos)? Como reagirão os povos mediante levas de imigração e migração em massa, caso essas se concretizem? Como o mercado reagirá mediante um mundo imerso em tamanha vulnerabilidade?

 

São questões dignas do desafio de uma mudança de paradigma, e elas nos são agora impostas. Exigindo solução. Questões plenas de significado ético e moral que intimam cada indivíduo a reformular os próprios conceitos humanos:

 

 

“A ética da sociedade dominante hoje é utilitarista e antropocêntrica. Considera que o conjunto dos seres está a serviço do ser humano, que pode dispor deles como quiser, atendendo a seus desejos e preferências. Acredita que o ser humano é a coroa do processo evolutivo e o centro do universo, o que notoriamente representa uma arrogância e uma ilusão. (...) Ético seria, então, desenvolver um sentido do limite dos desejos humanos, porquanto estes levam facilmente a procurar vantagens individuais e grupais à custa da exploração de classes, da subjugação de povos e da opressão de sexos. O ser humano é também, e principalmente, um ser de cooperação, de cuidado, de comunicação e de responsabilidade.” (BOFF, p. 124, 125)

 

 

 Constitui-se sinal de ingenuidade pensar que poderíamos continuar com o modelo de produção ilimitada e sempre crescente como a indicada desde o final da Segunda Guerra Mundial. Não podemos, o planeta não comporta. Entretanto, andando na contramão da questão, países como a China e a Índia querem crescer em seu PIB 8 a 9% ao ano, o Brasil almeja os seus 5 a 6% e os Estados Unidos, o Japão, a Rússia e a União Européia também não abdicam de seu crescimento econômico. Não abdicam e também não podem abdicar, pois a própria sociedade econômica mundial necessita de cada vez mais víveres, mais água, mais energia, não “abrindo a mão” de mais conforto, de mais praticidade e de maiores níveis de qualidade de vida.

 

No outro lado da questão, e “exilados” da comunidade econômica mundial, países da África do Sahel (como os esquecidos Níger, Mali, Chade ou Somália) ou mesmo outros países africanos extremamente pobres como o Malawi, Botswana, Zimbábue ou República Centro Africana, nem sequer são mencionados nos meios de comunicação e a sua população é dizimada pela AIDS e doença típicas de países subdesenvolvidos. Países na própria América, como o Haiti e a República Dominicana estão sendo afetados pela cólera, e países no sudeste e centro asiático constituem-se também como extremamente pobres, sendo também importante citar alguns de seus nomes, tais como: o Laos, o Camboja, o Myamar, o Tadjiquistão, o Butão, o Nepal, o Paquistão (que tem bombas atômicas), dentre outros. É evidente que a mudança de paradigma está longe de se concretizar e a divisão entre as nações ricas e pobres não é metodologia aceitável para a sua concretização.

 

Imediatamente fortalece-se uma agressiva tensão social, em escala global, que já existia antes com a exacerbada distinção entre pobres e ricos. Não é necessária uma ampla reflexão para saber que tamanha divisão entre as nações ocasionará uma multiplicação desenfreada de conflitos armados em escalas regionais, nacionais e globais, que acirrará as tensões étnicas, religiosas e econômicas, mesmo muito antes da consumação das prognoses climáticas mais árduas. Economicamente, tais conflitos certamente irão “ejetar” os preços dos alimentos e supervalorizar os recursos hídricos, o que desencadeará em uma crise econômica com uma abrangência muito maior do que a crise econômica de 2008 e 2009. A surgência de uma guerra em maiores proporções, além de inserir o planeta novamente em uma forte tensão de conflito nuclear, iria piorar ainda mais a crise dos preços dos alimentos e, logicamente, a recessão.

 

Diante de tal quadro, é imprescindível uma mudança filosófica de como conceber o próprio mundo e as próprias relações sociais. Entretanto, a ênfase histórica no ato de dominação de um grupo, nação, império, Estado sobre outro, concretizando o ato de subjugação do grupo mais forte sobre o grupo mais fraco, é um fato mais do que tradicional, é antropológico, que remonta desde o período Neolítico, a dez mil anos atrás, quando as primeiras tribos humanas deixaram de ser nômades para sobreviverem da agricultura. Modificar essa característica humana, transformando a sociedade em uma sociedade de cooperação intrínseca, tal como Boff o apresenta, seria, sem dúvida, o maior desafio humano de toda a história da humanidade. Contudo, parece ser o preço que o próprio planeta impõe aos seus “inquilinos” para que estes possam viver com o nível tecnológico e com a qualidade de vida almejada. Tradicionalmente, diante de tão grande desafio, surge sempre uma outra via de raciocínio e ação, que não substitui a inegável e insubstituível mudança de paradigma, mas possibilita, ao menos, um maior ganho de tempo para a própria preparação filosófica da humanidade em conceber um mundo de maior cooperação e menor rivalidade e competição: constitui-se essa via, portanto, na ênfase da evolução tecnológica, através do aumento significativo das metodologias e técnicas científicas. Desta forma, a grande aposta reside na solução da questão da emissão excessiva dos gases estufa através de inovações tecnológicas, enquanto que a sociedade continua a pensar em conceitos para transformar o mundo em um mundo mais igualitário, justo e cooperativo.

 

Inseridas nessa linha de ação há um universo de projetos que procuram solucionar ou amenizar a questão. Já que um dos principais pontos de preocupação para com a questão do aquecimento global é a produção alimentícia, surge como grande estratégia, por exemplo, o desenvolvimento de cada vez mais avançados insumos agrícolas, em especial a evolução de sementes que resistam mais aos extremos climáticos, ou seja, que tenham maior resiliência perante prolongados períodos de seca ou de impactantes períodos de chuva concentrada. Refere-se, portanto, à consolidação do uso das sementes transgênicas. As sementes transgênicas ainda são alvo de acirrados e polêmicos debates em muitos foros. Diversos grupos criticam a ainda falta de comprovações de impactos de produtos que provenham dessas sementes no organismo humano. Outros criticam a forte tendência dessa tecnologia em estar fortalecendo diversos grupos de poder e específicas nações, o que vai contra as diretrizes almejadas por uma sociedade mais cooperativa e igualitária (esses grupos, aproveitando-se da ocasião do aquecimento global, poderiam estar instaurando uma “ditadura do alimento”, onde só poderiam produzir aquelas nações que possuíssem capital para comprar os seus insumos). No entanto, é inegável a importância do desenvolvimento das tecnologias transgênicas, em um mundo que sofrerá com as alterações climáticas cada vez mais extremas. Um futuro sem os transgênicos, mesmo com as afirmações críticas de inúmeros grupos, parece ser altamente improvável.

 

Outro ponto que não há como ser esquecido ou marginalizado é a questão da utilização dos combustíveis “limpos” em detrimento dos combustíveis fósseis. Entretanto, mesmo com todos os avanços tecnológicos em pesquisas aplicadas em combustíveis alternativos, e mesmo com toda a pressão dos grupos ambientalistas para com a necessidade de desenvolvimento de utilização de combustíveis alternativos, tais como o hidrogênio, a energia solar ou mesmo os biocombustíveis (via criticada por muitos pesquisadores por utilizar áreas agrícolas que poderiam ser utilizadas para a produção de alimentos), os combustíveis fósseis continuam a ser explorados e cada vez mais utilizados. Nações emergentes do globo que possuem ainda importantes jazidas, como os Estados Unidos, a Rússia e o Brasil (com a descoberta de novas jazidas), não cederão do seu direito de explorá-las. Os países árabes muito menos, mesmo porque dependem totalmente de suas jazidas, economicamente. Países como a China e os Estados Unidos provém grande parte de sua energia das usinas termelétricas. O mundo ainda conviverá muitas décadas com a maciça presença do petróleo, do diesel e do gás natural, o que constitui como “andar na contramão” da questão ambiental.

 

Outras ações que poderão mitigar a humanidade parecem vir de obras de ficção científica, mas merecem reflexão e discussão: a possibilidade de coletar e injetar gás carbônico em formações geológicas que possam aprisionar ou conter o gás (mas existe o risco deste ser liberado devido a terremotos); o investimento para o barateamento de tecnologias embasadas em dessalinização da água; o investimento em artefatos tecnológicos que realizem o papel de fotossíntese das árvores, eliminando o gás carbônico em excesso da atmosfera; a possibilidade de enviar para o espaço e liberar, longe do raio de ação gravitacional do planeta, gigatoneladas de dióxido de carbono e metano concentrados. Outro importante ramo de desenvolvimento tecnológico que poderá ter o potencial de originar uma verdadeira solução ao problema do aquecimento global são ações embasadas pelo viés da nanotecnologia, que poderia desencadear mais eficientes modos de retenção e reciclagem de gás carbônico com uma eficiência ainda por poucos estudada e conhecida. Bem mais em longo prazo, a raça humana poderia aliviar a tensão populacional sobre o planeta, iniciando o processo de colonização de astros rochosos localizados no Sistema Solar, tais como a própria lua, o tradicionalmente sonhado e almejado planeta Marte, ou mesmo outros satélites rochosos como as luas Europa e Io de Júpiter. Todavia, essa possibilidade ainda está mais próxima nas obras de Isaac Asimov e muito provavelmente improvável por alguns séculos.

 

Os pontos acima citados são possibilidades de ação que possuem um sentido “de cima para baixo”, talvez contribuindo pouco para uma definitiva mudança ética e moral da humanidade. Constituem-se como possibilidades que perpetuam e solidificam as velhas metodologias de produção econômica e os seus velhos problemas, como a desigualdade alimentícia, intelectual e produtiva das nações, agravando ainda mais a divisão entre ricos e pobres. Devem, portanto, também ser incentivadas ações que possuam um sentido inverso para com o combate do aquecimento global, que provém da ação através das classes sociais mais básicas, modificando gradativamente problemas sociais mais abrangentes. Tais como uma maior educação e sensibilização para com a preservação e conservação de áreas florestais e para com a biodiversidade dos biomas; a ênfase no estudo e na utilização dos chamados “indicadores biológicos” para o controle de pragas nas lavouras; uma preocupação de cada empresa e empresário, ou organização jurídica, para com um maior conhecimento técnico dos processos de lançamentos de efluentes líquidos e gasosos, diminuindo a emissão de poluentes; um combate cada vez maior, por parte da população, dos empresários e demais organizações jurídicas e do próprio Estado para com o desperdício hídrico, alimentar e edáfico, além de uma maior preocupação mundial para com os próprios biomas. Além disso, programas de combate e erradicação da pobreza constituem-se como vitais para a atenuação do problema, pois nesses programas estão os mais fundamentais aspectos para uma mudança de paradigma ambiental e social: trabalhos de sensibilização e educação ambiental à comunidade que pouco sabe sobre o processo de aquecimento global e ações que dêem condições às populações menos favorecidas de se inserirem mais fortemente no sistema de produção econômica.

 

Caminhos metodológicos e técnicos para uma maior inserção da energia e dos combustíveis limpos, portanto, existem, e constitui-se apenas como questão de tempo a sua aplicação cada vez mais freqüente no sistema de mercado. Entretanto, o tempo é algo que não dispomos em abundância para a solução da questão dos gases estufa e do consequentemente processo de aquecimento desenfreado. Citando Lynas (2008), temos uma meta a obrigatoriamente designar, com relação ao aumento das temperaturas médias, e essa meta é a de dois graus Celsius de aumento permitido. Todavia, segundo diversos estudos científicos analisados pelo próprio autor, caso não consigamos alcançar essa meta até o já próximo ano de 2015, a humanidade poderia ultrapassar o “ponto de desequilíbrio” e desencadear no planeta reações físicas que deixariam a humanidade “à mercê” das alteração climáticas vindouras, ameaçando a própria espécie humana. Entretanto, para conseguir este difícil objetivo, o autor revela que seria necessária a diminuição de até 60% das emissões de gases mundiais até 2030, o que está, por exemplo, muito aquém das modestas porcentagens do polêmico Protocolo de Quioto e dos planos para a sua continuação:

 

“Assim, se a nossa meta é de dois graus, para podermos confiantemente evitar o irreversível efeito dominó climático dos feedbacks positivos, as emissões de todos os gases estufa devem atingir o seu pico até 2015 e decididamente cair daí em diante, com uma derradeira meta de estabilização de CO2 em 400 ppm (ou 450 ppm de carbono equivalente), por mais politicamente fora da realidade que possa ser essa trajetória de emissões. A porcentagem real de cortes de emissões que essa meta implica dependerá de como se comportar o ciclo de carbono da Terra, porém, a meu ver, a ciência de hoje indica que isso corresponde a um corte mundial de 60% até 2030 e de 85% até 2050. Mais uma vez, isso é consistente com as projeções do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, de 2007” (p. 239)

 

O autor faz uma conclusão com relação às emissões em outro parágrafo:

 

“Então, para ser direto: a conclusão desse livro é de que temos apenas sete anos adiante para atingir o pico de emissões globais, antes de enfrentarmos a escalada de perigos de um aquecimento global desenfreado. Sou o primeiro a admitir que, inevitavelmente, essa meta parece inatingível. Mas acredito que é isso que a ciência está reivindicando, mesmo que se baseie em convicções conservadoras, e presumindo que nós já não tenhamos ultrapassado o limite. E sejamos honestos: os motivos para um grande pessimismo são muitos e variados, como já falei antes, a taxa de aumento das emissões de carbono no mundo quadruplicou durante a última década. Pelo mundo inteiro, as emissões ainda estão subindo aceleradamente”. (p. 240 e 241)

 

Uma configuração estratégica parece, portanto, surgir de modo cada vez mais claro: mesmo que uma mudança de paradigma com relação ao pensar e ao conceber as relações referentes à sociedade e o planeta seja estritamente necessária, o quadro urge, clama, por uma valorização e um agressivo desenvolvimento das tecnologias que minimizem a emissão de gases estufa. O avanço tecnológico que nos inseriu nessa atual condição problemática (se bem que, na verdade, foi a falta de reflexão da humanidade para com a utilização dessas novas tecnologias que nos colocou a esse ponto de tensão histórico) terá de ser o ponto de solução (ou de tentativa de solução) para esse atual impasse ambiental. Toda e qualquer tentativa de utilização de inovadoras metodologias ou técnicas científicas deverá, ou pelo menos deveria, envolver toda a sociedade nesse esforço conjunto. E a primeira estratégia parece estar focada na substituição imediata das fontes de energia tradicionais. Tecnologias existem (tecnologias de energia eólica, energia solar, energia de hidrogênio, e de energia nuclear), todavia, tão importante quanto o know-how é a vontade política dos governantes e de empresários. Investimentos tão amplos como a modificação significativa e consubstancial do parque energético do mundo, além de oferecer maiores esperanças à humanidade e ao planeta, envolveria a criação de milhões de empregos e de oportunidade de ganho e renda para todas as classes mundiais. Á primeira vista, mão de obra qualificada seria (mas sempre é) um problema, no entanto, com um quadro ameaçador como o apresentado, ou se realizam grandes modificações ou confirmamos de vez as piores prognoses. Trata-se de um período de decisões, de grandes decisões que obrigatoriamente envolvem a força coletiva de todos e não somente de uma parcela. A omissão perante tais desafios e necessidades é inclusive um ato de imoralidade social.

 

É inadmissível, portanto, pensar o aquecimento global sem pensar na erradicação da pobreza. Ações já foram estruturadas e colocadas a conhecimento da humanidade, citando somente, como exemplo, as propostas apresentadas na Cúpula do Milênio em 2000, sendo propostas às nações participantes metas como: a de que a pobreza teria de se reduzir à metade a proporção da população mundial (atualmente 22%), cuja renda seja menor do que o equivalente a um dólar por dia até 2015”; a de que se reduziria “à metade a proporção de pessoas que não têm acesso à água potável, atualmente 20%, até 2015”; a de que se diminuiria “a disparidade entre gêneros na educação primária e secundária até 2005 e assegurar que, em 2015, todas as crianças tenham acesso ao curso completo de educação primária”. (PNUMA, 2004)

 

A erradicação da pobreza já foi relatada, em muitos outros congressos e conferências. Linhas e linhas de propostas e ações de combate à pobreza, direta ou indiretamente, desde 1972, com a Conferência de Estocolmo, foram apresentadas, discutidas e muitas vezes ratificadas perante os líderes mundiais. Entretanto, continuamos a nossa caminhada rumo a um colapso dos recursos naturais, do clima do próprio planeta e da própria sociedade. E isto se deve por causa do nosso próprio sistema de produção na qual todos nós estamos atrelados. Sempre que as propostas conflitam com as estruturas do mercado, nações recuam em suas metas (e incluem-se aí todas as nações) e cria-se a inércia ou um substancial apequenamento entre as ações realizadas e as propostas anteriormente defendidas.

 

 Não convém, nessas linhas, iniciar um discurso maniqueísta entre o bem e o mal, entre o que está certo e o que está errado, mas convém realçar que todos os instrumentos, que compõem mundialmente esse altamente complexo sistema chamado de capitalista, está fortemente atrelado em todas, ou praticamente todas, as atividades humanas, e não possuímos tempo, com relação à questão do aquecimento global, em imaginar uma nova sociedade, por mais importante que seja uma mudança paradigmática do pensar o mundo, para até 2020, menos ainda para 2015. Visar mudanças mundiais em se pensar o planeta e em modernizar e humanizar um sistema de produção, eliminando as suas mazelas, não pode, portanto, possuir um prazo temporal de concretização. Elas são gradativas e demorarão muito mais tempo para ser implementadas. Desse modo, uma possível solução para com a manutenção do nível de emissão de gases estufa virá, nesse pouco tempo que dispomos, do viés tecnológico. E através da utilização dessas novas tecnologias se reproduzirá a participação de todas as classes sociais, amenizando e modificando os conceitos de pobreza, do que é ser pobre e ser rico.

 

A situação, de todas as formas, constitui-se como complexa, porque a ênfase na solução através da modernização dos instrumentos, ao invés de se alterar a estruturação das relações de produção, parece colocar o um bilhão de pobres e miseráveis do mundo novamente na constante marginalidade. Não se trata disso. Trata-se em reconhecer o problema da questão climática como um problema urgente, em que não dispomos de cinco séculos para uma “revolução social”, mas de uma década ou duas para colocar em prática ações que permitam, ao menos, um ganho temporal para todas as pessoas do mundo. Nesse meio tempo, políticas sociais continuarão a ser debatidas, conflitos étnicos continuarão a causar preocupação e a necessidade abrupta de conscientização e sensibilização populacional para com as questões ambientais continuarão imprescindíveis, já que o quadro atual exige que cada cidadão conheça o mundo no qual vive para que ele possa se situar. Grande parcela das pessoas continua ainda totalmente ignorante para com o que se está sucedendo em escala global.

 

Entretanto, outro ponto de vista não pode ser esquecido. Mesmo que se venha a solucionar ou amenizar o problema das mudanças climáticas para as próximas décadas, muitos povos e nações já estão ou estarão irreversivelmente impactados. E essas nações ou povos precisarão ser indenizados, inclusive mediante repatriação. Isso porque o planeta não se constitui como um sistema em que as ações no meio natural possuam um efeito imediato em alguns biomas, citando no caso o meio marinho. Alguns impactos referentes a emissões de gases estufa do passado estão e estarão influenciando o sistema marinho somente agora, impactando novamente todo o sistema natural. É por isso que, mesmo que todas as emissões fossem controladas a partir de agora, um aumento das médias de temperatura na ordem de 0,5º a 1ºC, são esperadas. Desse modo, países como Tuvalu, Samoa, Kiribati, Vanuatu, Maldivas, além de muitas outras áreas do globo serão impactadas. E muito pouco foi discutido e acordado para com relação a esses países e seus habitantes, revelando a inércia política para com relação a esses casos. Entretanto, caso as temperaturas continuem a se elevar, o número de refugiados ambientais (e isso mediante uma estimativa aproximada) será muito maior que a população desses países, podendo ser da ordem de 200 a 300 milhões em todo o mundo, tanto em países ricos, como, e predominantemente, entre nações pobres.

 

Quem irá refugiar essas pessoas? Como as nações poderão, sem deixar em colapso suas economias e seus próprios habitantes, além de suas culturas e sua história, acolher 200 a 300 milhões de refugiados ambientais? Como impedir o alastramento de ondas xenofóbicas em seus territórios? Como impedir uma crise econômica sem precedentes, devido a 300 milhões de pessoas que perderão absolutamente tudo e serão destituídas de tudo com a destruição de seus territórios? Como impedir a formação de grupos fascistas por todo o globo e do fortalecimento de partidos ultraconservadores em todas as nações que refugiarão essas pessoas? Esse é o ponto de vista de quem irá acolher. Mas também vale pensar no ponto de vista de quem será acolhido. Quem indenizará essas nações e esses povos pela total perda de sua história, de seu território, de sua identidade, de sua soberania, de seu orgulho? Quem indenizará essas milhões e milhões de pessoas pelo duríssimo castigo de terem se tornado verdadeiros renegados mundiais? A indenização não poderá ser apenas estrutural e financeira. Terão de ser indenizados emocionalmente, ou seja, terão de ser tratados dignamente, igualitariamente, humanizadamente, e não como um estorvo social. Afinal, são seres humanos que não pediram por essa situação.

 

Os avanços na esfera do discurso ambiental e na questão do aquecimento global, ao longo das últimas quatro décadas, foram evidentes, principalmente em esforços voltados à conscientização, entretanto, com relação a concretas ações em escala mundial, os resultados ainda são pífios e o pouco que foi conseguido foi obtido mediante muito sacrifício. Mello (2006) ressalta bem a dificuldade de países em fazer avançar questões como a da conservação e preservação de áreas florestais, citando como exemplo o pesado procedimento negociativo do Programa para Proteção das Florestas Tropicais (o PPG7), ao longo da década de 1990. Os embates, tanto metodológicos como diplomáticos, entre os países do Brasil, Alemanha e Reino Unido foram árduos e os melhores resultados se confirmaram no desempenho de ação de Organizações Não Governamentais, através de subprogramas, como o denominado Subprograma de Projetos Demonstrativos, mais eficientes e menos burocráticos. A própria concepção do nome “demonstrativo”, que lembra algo como “alternativo”, deixa clara a percepção de que os Estados, mesmo reconhecendo a indisfarçável urgência da questão, não chegam a um consenso, já que por regra não podem conceber qualquer perda ou prejuízo imediato em uma negociação, seja ela financeira, geopolítica ou mesmo moral. Países dificilmente cedem, chanceleres praticamente não recuam e o desenvolvimento da questão não avança. Não é preciso relembrar que o tempo também não pára e os impactos ambientais continuam até o ponto em que uma intolerância dos Estados será pequena, se comparada a onda de miséria, retrocesso e morte que assolará o globo, e pior, de maneira irreversível.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BOFF, L. A opção Terra: a solução para a Terra não cai do céu. Rio de Janeiro : Record, 2009. 222 p.

CAPRA, F. A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo : Cultrix, 1996. 256 p.

DIAMOND, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso e o sucesso. São Paulo : Record, 2004. 686 p.

LOVELOCK, J. La Venganza de la Tierra: la teoría de gaia y el futuro de la humanidad. (Tradução de Mar García Puig). Barcelona : Planeta, 2006. 249 p.

LYNAS, M. Seis graus. (Tradução de Roberto Franco Valente, revisão técnica Mariana Viveiros). Rio de Janeiro : Zahar, 2008. 303 p.

MELLO, N. A. Políticas territoriais na Amazônia.  São Paulo : Annablume, 2006. 410 p.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Climate change 2007: syntehsis report. Nova Iorque : Intergovernmental Panel on Climatic Change, 2007. 103 p.

PERSPECTIVAS DO MEIO AMBIENTE MUNDIAL – GEO 3. Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Universidade Livre da Mata Atlântica, 2004.  481 p.



[1]              Professor adjunto da Universidade Federal da Grande Dourados – Dourados-MS. Curso de Geografia.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.




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