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Asunto:[encuentrohumboldt] 205/11 - A produção da Agricultura orgânica no T erritório Rural Sustentável da Grande Dourados
Fecha:Domingo, 4 de Diciembre, 2011  03:38:40 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

A produção da Agricultura orgânica no Território Rural Sustentável da Grande Dourados

 

Silvana Ap. Lucato Moretti[1]

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação

                                                           de Geografia do IESA/UFG

                                                                              Docente da Universidade Estadual do

                                                 Mato Grosso do Sul.

 

 

Resumo

 

Este trabalho faz parte de um projeto de tese cujo objetivo é discutir a produção territorial relacionado a produção agrícola orgânica no Território Rural no Mato Grosso do Sul. Procura analisar as formas de organização (produtiva e de comercialização) dos pequenos produtores agrícolas orgânicos e relações entre as novas políticas públicas voltadas ao meio rural e a relevância da cultura no processo de efetivação da política.

Palavras-chaves: Agricultura familiar, Produção orgânica, Territorialidade, Práticas culturais e saberes.

 

Résumé

 

Ce travail s'inscrit dans le cadre d'un projet de thèse dont l'objectif est de discuter de la production territoriaux liés à l'agriculture biologique dans les terres rurales dans le Mato Grosso do Sul Il examine les formes d'organisation (production et commercialisation) des petits agriculteurs et de la relation organique entre de nouvelles politiques publiques visant à les zones rurales et la pertinence de la culture dans le processus d'effectuer de la politique.

Mots-clés: l'agriculture familiale, la production biologique, la territorialité, les pratiques culturelles et des connaissances.

 

 

 Introdução

Este trabalho faz parte do projeto de tese apresentado ao Programa de Pós-graduação em Geografia do IESA/UFG, tem como problematização central o processo de territorialização e suas contradições relacionadas às práticas culturais e ambientais, ligadas ao meio rural, identificadas aqui como sendo “alternativas” ao modelo de desenvolvimento econômico e social no campo brasileiro.

Neste trabalho são identificados como “alternativo” a produção agrícola orgânica no Território Rural da Grande Dourados[2] no Mato Grosso do Sul, que se apresenta como um contra ponto à agricultura baseada no uso intensivo de agroquímicos para produção em larga escala destinada a agroindústria exportadora historicamente construída. Ao considerar a produção orgânica como uma “alternativa”, ao modelo agroindustrial, constituindo-se como possível “resistência” ao modelo de produção de commodities dominante na produção do campo.

Os fatores que justificam esta pesquisa estão relacionados ao momento atual vivenciado no estado de Mato Grosso do Sul, a superação de sua estrutura produtiva restrita ao binômio soja/gado, com base no agronegócio e as ações do Governo Federal com políticas públicas destinadas a valorização do pequeno produtor rural ate então inexistentes.

As bases de sustentação econômica e política baseada na produção de commodities agricolas tiveram e têm importância na geração da riqueza do Mato Grosso do Sul e, principalmente, da chamada Região da Grande Dourados[3], mas representa problemas relativos aos aspectos sociais, culturais e ambientais, além de uma significativa concentração da riqueza. Suertegaray (2004), baseada em estudos relativos às conseqüências ambientais do modelo agrícola dominante no Brasil, conclui que:

Considerado pela política econômica oficial o principal motor do desenvolvimento brasileiro, o agronegócio – a produção agropecuária apoiada em novas tecnologias e voltada para a exportação – vem provocando, segundo diversos estudos, danos ao meio natural e transformações sociais importantes. Os problemas já constatados em diferentes regiões do país apontam para a necessidade de se realizar mais estudos sobre esse tema, para que processos de degradação sejam mais bem entendidos. (SUERTEGARAY, 2004, pg. 50).

 

A constatação da autora sobre a necessidade de estudos sobre as conseqüências da produção agrícola no Brasil instiga a pensar sobre os resultados e as perspectivas possíveis e reais de superação deste modelo.

O modelo produtivo dominante no Mato Grosso do Sul é comum ao Centro-Oeste brasileiro e acarretou o empobrecimento da biodiversidade local, a perda da qualidade do solo, a diminuição da quantidade e da qualidade hídrica e, conjuntamente, a transformação cultural, constituindo-se práticas culturais inseridas neste contexto de modernização com o uso intensivo de máquinas e produtos químicos, a biotecnologia acelerando o tempo e produzindo um território diverso e desigual.

Em relação ao desenvolvimento econômico o Mato Grosso do Sul sempre esteve centrado nas lógicas produtivas do sudeste brasileiro, que têm por base o processo de industrialização e o fornecimento de matéria-prima para a exportação.

A prática “alternativa” da produção orgânica em tese tem como ideário produzir para além das bases econômicas, tendo como fundamento construções históricas que ultrapassam as bases físicas locais (tipo de solo e de clima, por exemplo) e uma compreensão de totalidade.

A produção agrícola de alimentos orgânicos esta inserida no contexto do processo de revalorização da natureza, verificada a partir de meados do século XX. A valorização da biodiversidade passou a consistiu um vértice que dá sustentação à sociedade moderna e urbana.

Concordo com Almeida (2003) quando ela afirma que as concepções de natureza são diversas:

Várias foram às atividades dos homens em face da natureza, resultantes de suas concepções como selvagens, sublime, pura, divina, objeto de conhecimento, útil, recursos, sendo que estas ainda se manifestam, com variações, nas relações sociedades-coisas naturais. (ALMEIDA, 2003, pg. 72).

 

As concepções de natureza são extremantes diversas, no tempo e no espaço, mas apresentam um “fio condutor” central que é seu uso e sua transformação, a natureza entendida como separada da sociedade. Esta perspectiva de natureza serve perfeitamente aos interesses da mercantilização, cada fragmento é transformado em mercadoria para atender as necessidades de reprodução do capital.

A superação desta idéia de natureza externa, passa necessariamente pelo entendimento de que a natureza é um produto social, histórico e, portanto, cultural.  O resgate das práticas culturais é um caminho analítico para pensar a natureza como dinâmica, produzida socialmente, e, portanto, histórica. Nesta perspectiva analítica a analise da natureza vai além de sua transformação em mercadoria, considerando significados diversos para a relação natural – cultural.

A produção agrícola orgânica pode ser pensada a partir de aspectos para além da produção do capital, produzindo valores e práticas produtivas que tecnicamente se apropriam de práticas culturais que foram consideradas ultrapassadas pelo modelo agrícola dominante, e utilizando o conhecimento moderno sobre a natureza para criar técnicas produtivas diferenciadas, ou seja, a técnica culturalmente valorizada no processo de produção, visando à sustentabilidade.  

A concretização desta natureza e seu entendimento são realizados no território e, territorialidades são construídas pelos grupos sociais. Avançando no sentido de inserir a reflexão sobre território, Maria Geralda de Almeida, coloca:

 

Como organização do espaço, pode-se dizer que o território responde, em primeira instância, as necessidades econômicas, sociais e políticas de cada sociedade e, por isso, sua produção está sustentada pelas relações sociais que o atravessam. Porém, sua função não se reduz a esta dimensão instrumental: o território é também objetivo de operações simbólicas e é nele que os atores projetam suas concepções de mundo, de natureza, e esta ocorrem em decorrência de uma cultura ecológica. (ALMEIDA, 2003, pg. 75).

 

A produção agrícola orgânica tem por base os elementos fundantes no questionamento da produção com base no ritmo industrial e no consumo e produção do artificial, deve ser compreendida no contexto da construção do território.  E as práticas produtivas estão intimamente relacionadas ao lugar onde são praticadas e, portanto, no modo de vida relacionado ao mundo rural.

 

Nesse espaço rural as relações internas são específicas e diversas daquelas impostas por um modo de viver urbano, que pretende homogeneizador para o conjunto social das diversas e plurais ruralidades que são constituídas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

I.              Uma breve reflexão sobre a política pública do Território Rural no Mato Grosso do Sul

 

A produção agrícola orgânica produzida no interior do estado do Mato Grosso do Sul, é identificada neste trabalho como sendo hipoteticamente “alternativa” ao meio rural. A idéia de produção agrícola “alternativa” é compreendida, neste contexto, como sendo uma agricultura que possa superar o modelo convencional de produção baseado na agroindústria, que tem no Centro-Oeste brasileiro um dos pilares de sustentação econômica, de sucesso e de produção de riqueza.

 A produção agrícola “alternativa” se relacionada a pratica da atividade orgânica de alimentos, ligada ao uso técnicas naturais e consideradas tradicionais, evitando a interferência na produção, como sua alteração no ritmo de produção, em oposição a elementos produzidos industrialmente.

Inserida em um espaço majoritariamente produzido com base na tecnificação industrial da agricultura, com o uso intensivo de insumos visando acelerar o ritmo da produção para atender as necessidades da produção em larga escala, a produção orgânica cria um território específico.

 As práticas sociais destes produtores são diferenciadas; sua trajetória social, sua constituição enquanto grupo social e sua forma de organização são territorializadas em um espaço definido como central na moderna agricultura mundial.

No processo de consolidação dessa produção e da territorialidade produzida por estes sujeitos sociais, no início do século XXI, ocorre a apropriação por parte destes produtores de políticas públicas voltadas para o campo brasileiro, com destaque para a proposta do Governo Federal de um novo modelo de ordenamento territorial, que era previsto na Constituição Federal de 1988. Sua implantação e efetivação ocorrem por meio dos Territórios Rurais.

Não é objeto desta reflexão a análise desse processo de disputa e inserção na constituição brasileira e na regulamentação e implantação de suas leis, do embate e tensão na valorização do pequeno produtor rural brasileiro, mas cabe registro que essa definição é fruto de lutas políticas entre a grande produção latifundiária e os pequenos produtores rurais.

Nesse contexto de disputa, são implantados pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário-MDA, por intermédio da Secretaria do Desenvolvimento do Território-SDT, os chamados Territórios Rurais, que se baseiam no modelo de Ordenamento Territorial da Comunidade Européia, aprovado na Conferência Européia de 1984. Cabe destacar neste documento a incorporação moderna do conceito de território; não sendo mais considerada apenas sua base física, inserem-se nas considerações dos territórios os valores culturais, sociais, ambientais e das identidades, até então nunca discutidos em outras políticas públicas de planejamento territorial.

No projeto do Território Rural brasileiro, ordenar o território é uma forma de garantir que cada uma das parcelas (local) seja valorizada conforme a identificação de sua respectiva “vocação”, uma clara alusão à proposta européia de ordenamento territorial, que apresenta, na Carta Européia do Ordenamento do Território de 1984, as seguintes premissas:

O ordenamento do território é, simultaneamente uma disciplina científica, uma técnica administrativa e uma política que se desenvolve numa perspectiva interdisciplinar e integrada tendente ao desenvolvimento equilibrado das regiões e a organização física do espaço geográfico segundo uma estratégia de conjunto. [...] O ordenamento territorial deve ter em consideração a existência de múltiplos poderes de decisão, individuais e institucionais que influenciam a organização do espaço, o caráter aleatório de todo o estudo perceptivo, os constrangimentos do mercado, as particularidades dos sistemas administrativos, a diversidade socioeconômicas e ambientais. (DGOT, 1988, pg. 9-10).

 

A proposta dos Territórios Rurais elaborada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário do Governo Federal Brasileiro apresenta avanços em relação a essa base teórica que fundamenta o documento europeu. Incorpora análises feitas por teóricos brasileiros que tratam da problemática da territorialidade e seu uso para a formulação de políticas públicas de desenvolvimento.

A centralidade da proposta brasileira está baseada no mapeamento de identidades no campo brasileiro, identificando fragmentos territoriais passíveis de apoio do governo federal. A perspectiva territorial possibilita repensar o processo de produção do espaço brasileiro, com a inserção de teorias territoriais que valorizam os sujeitos sociais locais, produtores de resistências.

Este entendimento político de ordenamento territorial possibilita a valorização e o fortalecimento das identidades locais, mapeadas em cada um dos territórios rurais constituídos, considerando a construção coletiva, definidas pelos grupos sociais. Neste processo, emerge a idéia de territórios alternativos, novas territorialidades possíveis no Mato Grosso do Sul.

 

II. O Território Rural da Grande Dourados como recorte da pesquisa

 

O Território Rural da Grande Dourados é composto por 12 municípios: Dourados, Rio Brilhante, Itaporã, Caarapó, Glória de Dourados, Jateí, Fátima do Sul, Deodápolis, Douradina, Vicentina, Nova Alvorada do Sul e Jutí. Estes municípios foram definidos pelas principais lideranças dos movimentos sociais e órgãos do Governo Estadual em 2002, como parte do Plano Estratégico de Desenvolvimento Estadual MS-2020[4], que se uniram por em uma unidade de território, por possuírem uma mesma identidade histórica, populacional, cultural e econômica.

O processo de ocupação moderna da área onde se encontram os municípios que formam o território da Grande Dourados iniciou-se com os índios Guarani, no início do século XVII, oportunidade em que eles dominaram todo o território compreendido entre o atual município de Rio Brilhante até o Rio Amambaí e desde os campos de Maracaju até o Rio Ivinhema e o Rio Paraná, formando a nação Guarani.

No século XIX, em decorrência da Guerra do Paraguai (1864/1870), aconteceu alteração no perfil social da região, fruto da movimentação de milhares de soldados brasileiros e paraguaios disputando militarmente pontos estratégicos da região.

Com o fim da Guerra do Paraguai, soldados e ex-escravos ocuparam parte importante da área, iniciando, assim, um processo lento, mas contínuo de ocupação pelo homem branco, com agricultura de subsistência e criatório de gado, além de pequeno comércio de secos e molhados.

A Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND), criada pelo Decreto nº. 5.941 de 28 de outubro de 1943, a partir de uma iniciativa do Governo Federal que visava à colonização da fronteira com o Paraguai, foi exemplo importante de reforma agrária no Brasil. Transformou-se, em poucos anos, no centro dinâmico da região, recebendo migrantes de todas as partes do Brasil, com destaque para os nordestinos e mineiros, que ali se instalaram a partir da década de 40, dando importante contribuição para o crescimento de Dourados e de outras cidades do território surgidas com base no sucesso empresarial da colônia.

Nos anos cinqüenta e sessenta, do século XX, atraídos pelo baixo preço e a fertilidade das terras, agricultores do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e de São Paulo, com capital e bom nível de conhecimento técnico, estabeleceram-se na região, contribuindo para a modernização da agricultura e da pecuária.

Nos anos setenta e oitenta, a região da Grande Dourados apresentou crescimento econômico estimulado pelos programas federais de apoio à modernização no campo, destacando-se, entre eles, o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados – POLOCENTRO e o Programa de Desenvolvimento da Grande Dourados – PRODEGRAN, ambos voltados para modernizar a agricultura. (ABREU, 2001).

A ação governamental promoveu um processo de modernização intensiva, porém algumas dessas cidades, como Glória de Dourados, Juti, Jateí, Fátima do Sul, Vicentina e Deodápolis tiveram um ritmo desenvolvimentista mais lento e nelas se mantiveram as atividades agrícolas voltadas às práticas tradicionais, como a atividade do café. Em conseqüência, os produtores mantiveram os limites dos lotes do princípio da colonização, o que significa que são identificados no processo de modernização da agricultura no campo como pequenos produtores rurais e tradicionais.

Nesse contexto é que estão inseridos os pequenos produtores agrícolas considerados como os precursores da produção de produtos orgânicos no estado, e que posteriormente se organizam e instalam a Associação dos Produtores Orgânicos do Mato Grosso do Sul–APOMS, que tem participação efetiva na construção do Território Rural da Grande Dourados.

Especificamente no Mato Grosso do Sul, o Ministério do Desenvolvimento Agrário-MDA tem atuado junto aos produtores orgânicos por meio da Secretaria de Desenvolvimento Agrário-SDT. Esta atuação ocorre pelos chamados projetos de autogestão, apresentados pelos coletivos dos agricultores. Esses projetos estão em fase de consolidação, com a valorização da produção identificada nas propriedades que compõem esses grupos sociais.

Neste Estado foram implantados quatro territórios rurais: o da Grande Dourados, da Reforma, do Cone Sul e do Vale do Ivinhema. A divisão espacial dos territórios rurais ocorreu pela proximidade física dos municípios e pelas práticas culturais identificadas pelos técnicos da SDT como relevantes para essa classificação, estas características dos territórios estão parcialmente representadas pelos nomes escolhidos para os territórios.

O Território Rural da Grande Dourados e o Território Rural da Reforma são considerados, pelo MDA-SDT, os mais consolidados no Mato Grosso do Sul e foram inseridos no Território da Cidadania, uma outra política pública do Governo Federal, que aglutina ações ministeriais de dezenove ministérios, desenvolvendo políticas voltadas para a soberania alimentar, conservação ambiental, infra-estrutura, orçamentária, gastadora de programa, e entre outras ações coordenadoras.

As políticas do Território Rural e Território da Cidadania reconhecem a existência da produção agrícola orgânica no Mato Grosso do Sul. Com isso, possibilitam à Associação dos Produtores Orgânicos do Mato Grosso do Sul participação efetiva na definição das ações a serem desenvolvidas no Território Rural da Grande Dourados, localizado na porção sudoeste do estado, onde estão localizadas a sede da associação e a maioria dos pequenos produtores filiados a esta entidade.

Em função desses aspectos, políticas públicas e relevância da atividade na produção territorial, a área de abrangência da Associação dos Produtores Orgânicos do Mato Grosso do Sul- APOMS é estruturada em nove núcleos distribuídos no estado.

A valorização da sustentabilidade no processo de produção agrícola, relacionada à idéia de valorização da pequena produção como sustentáculo dessa valorização, é central na discussão da política pública de ordenamento territorial proposta pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

A mudança social estaria vinculada diretamente à intensificação de canais de relação campo/cidade, com base na perspectiva de fixar o pequeno produtor rural no campo, garantindo as possibilidades do mundo moderno em seu lugar de trabalho e de vida.  

Criam-se novos paradigmas nas relações entre estado e sociedade, estabelecendo-se políticas mais abrangentes e de autogestão, partindo do princípio da capacidade de mobilização, organização, diagnósticos, planejamento e autogestão das populações locais. Dilemas são ressaltados nesse processo: a produção territorial exige a disputa social, e os sujeitos sociais valorizados pela política pública Territórios Rurais muitas vezes não estão organizados na estrutura pensada para os Territórios Rurais.

O entendimento da territorialidade complementa as análises do estudo da identidade e da cultura, temas constantemente discutidos recentemente na geografia brasileira, e traz divergências quanto a idéias e conceitos, considerando ao mesmo tempo o poder local de dominação de determinados grupos e a valorização dos sujeitos e dos recursos dos lugares, em uma estruturação sociedade/espaço/tempo.

No caso da territorialidade, Haesbaert (2002) faz reflexões que permitem pensar em multiterritorialidades; nesse sentido, explicando a existência de territórios, aqui considerados como “alternativos”, em uma região dominada pela monocultura exportadora mecanizada, nas entrelinhas, encontramos particularidades que podem estar fora do processo de construção local, em decorrência de uma homogeneização das culturas e identidades que as desvalorizaram em relação à modernidade, provocando o empobrecimento das relações sociais, coletivas e culturais dos locais.  

Avançando no entendimento da produção alternativa, é importante considerar a concepção de “sociedade sustentável” que considera a questão ambiental e a cultura como integrantes de um mesmo processo; notadamente, é necessário levar em conta o fato de que a cultura possibilita a sustentação de práticas consideradas conservacionistas, e, no tempo presente, elas são entendidas como alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante.

A fundamentação teórica dessa pesquisa e sua problematização têm como centralidade a crítica à produção do espaço centrado na agricultura moderna/convencional e a identificação de práticas culturais alternativas visíveis na concretude territorial que está sendo construída.

 Ao criticarmos o modelo agrícola dominante e tradicional produzimos questionamentos, não apenas no setor econômico, mas também nos aspectos ambientais, sociais e culturais, relativos à “agricultura moderna/convencional”.

A organização dos produtores rurais a partir da produção agrícola orgânica apresenta uma alternativa ao modelo agrícola dominante e indica caminhos possíveis para a superação da pilhagem ambiental e da miséria social.

Cabe à ciência, e especificamente à geografia, a reflexão sobre esta prática alternativa, em um processo dialético de elaboração do conhecimento, com a análise das práticas associadas à teoria construída e em construção, com a produção de territórios diferenciados e pertencentes a quem os produz.

Neste início de século XXI, como resultado da valorização crescente da idéia da conservação ambiental, a produção orgânica tem ocupado terras e prateleiras de supermercados.

O consumo de produtos orgânicos aparece para o mercado como solução para aspectos relevantes da chamada crise da modernidade. E a mudança das práticas individuais dos consumidores seria a alternativa para a superação da chamada “crise ambiental”, contraditoriamente à idéia expressa como hipótese por este trabalho de pesquisa, ou seja, que a produção agrícola orgânica pode ser uma alternativa e uma resistência ao modelo de desenvolvimento se considerada para além do econômico.

A problemática apresentada para esta pesquisa esta centrada na complexidade da construção territorial, relacionando idéia de natureza, alternativa produtiva e práticas culturais, na tentativa de compreensão das resistências silenciosas e a produção do espaço. Neste processo estão imbricadas historias de vida, políticas públicas e mundo global.

 

III Consideração final

 

Ao realizar a reflexão entre os produtores orgânicos e a política dos territórios rurais por meio de um olhar geográfico, foi possível realizar algumas inferências sobre a produção do território a partir da “alternativa” da produção agrícola orgânica, praticada por um grupo social inserido em uma região do país caracterizada pela produção agrícola convencional moderna.

Estes agricultores, coletivamente, no seu cotidiano procuram dar respostas às necessidades da sociedade moderna nas suas práticas culturais relacionadas à sua relação com o ambiente. Eles desenvolvem a idéia de pertencimento territorial, uma idéia alternativa de mundo, de produção para a vida ou baseada em uma racionalidade que supera as imposições do modelo de desenvolvimento. Considera as práticas culturais como centrais na constituição da identidade territorial. 

Neste sentido, o conhecimento geográfico pode contribuir com o entendimento deste movimento da sociedade, refletindo sobre as práticas dos agricultores de produtos orgânicos e seus caminhos para a superação dos problemas construídos pela racionalidade moderna.

A institucionalização da organização destes agricultores em uma associação – APOMS – sinaliza para a possibilidade de consolidação de suas idéias produtivas, com a inserção no mercado, e com a globalização, no mercado internacional. Tal institucionalização também promove transformações profundas no fazer e no pensar deste grupo, e novas exigências são colocadas, como por exemplo, a organização da comercialização e certificação dos produtos.

A organização da comercialização pode ser pensada através do cooperativismo e/ou através do comércio justo e solidário. A inserção no projeto de comércio justo e solidário exige capacitação dos membros do grupo e formas de comercio próprias e específicas, rompendo com as formas tradicionais do comércio internacional por commodities.

Este grupo analisado tem atuado na perspectiva do comércio justo e solidário, através da participação em feiras, eventos e seminários para entendimento e consolidação da proposta, que tem com centralidade o comércio de produtos orgânicos com regras específicas e, principalmente, que participe de uma rede de solidariedade comercial, com o preço sendo definido pelo custo de produção.

A normatização exigida para os produtos orgânicos, como a certificação para a comercialização, promove a inserção dos produtores na racionalidade do mundo moderno. Seus produtos são aceitos no mercado globalizado, mas, promove alterações na organização social do grupo,especialmente com a individualização da certificação.

Alternativa concreta para a reversão desse processo é a implantação do Território da Cidadania e do Território Rural, políticas do estado nacional que apresentam propostas de práticas que superem o domínio do mercado global, como por exemplo, a proposta vinda das organizações dos produtores orgânicos para criação de um processo de certificação participativa e pública.

A implantação do Território Rural possibilitou também novas perspectivas de organização dos pequenos produtores rurais ao trabalhar a espacialidade do movimento, ou seja, agricultores com idéias e objetivos congruentes atuam de forma conjunta, com o auxílio do estado, que passa a ter efetivamente o papel de mediador do desenvolvimento dos pequenos produtores rurais, propondo ao final do processo a autogestão dos agricultores.

Este exemplo de participação e organização dos produtores orgânicos, e sua inserção nas políticas públicas do Estado, apontam para um processo de reconhecimento da possibilidade de alteração das formas produtivas agrícolas dominantes, baseadas na pilhagem ambiental e na super exploração do trabalho. 

A análise da produção do território pelo grupo de produtores rurais orgânicos permite refletir sobre a importância da valorização do conhecimento e das práticas construídas historicamente pelos homens e mulheres no processo de constituição das técnicas produtivas.

A história das técnicas utilizadas pelos grupos sociais dominantes, colonizadores e, portanto, vencedores na produção de alimentos têm resultado em tragédias ambientais e sociais. Esta história não é a única a ser contada, não é a hegemônica, pois temos a história de vida e de produção do território dos vencidos, dos subjugados, que resistem, existem e movimentam o futuro.

A visibilidade da produção territorial do grupo social dos pequenos produtores escancara os limites impostos pelas análises científicas e políticas centradas exclusivamente na valorização econômica. A construção e as leituras do mundo são múltiplas e a compreensão do movimento desta parcela da sociedade tornada invisível é essencial para compreender a produção do espaço em sua totalidade. 

 

 

IV REFÊRENCIAS

 

ABREU, S. de. Planejamento governamental: a SUDECO no "Espaço Mato-Grossense": Contexto, propósitos e contradições. Tese (Doutorado em Geografia)– Universidade de São Paulo, USP/FFCH, São Paulo, 2001.

ALBANEZ, J. L. Sobre o processo de ocupação e as relações de trabalho na agropecuária: o extremo sul de Mato Grosso (1940-1970). Dissertação (Mestrado em História)– UFMS, Campus de Dourados, Dourados, MS, 2003.

ALMEIDA, M. G. de; CHAVEIRO, E. F.; BRAGA, H. da C. (Orgs.). Geografia e Cultura: os lugares da vida e a vida dos lugares. Goiânia, GO: Editora Vieira, 2008.

ALMEIDA, M. G. Identidade e sustentabilidade em territórios de fronteiras no Estado de Goiás-Brasil. In: DEL RIO, J. M. V.; CARDIA, L. M. Territorialização, meio ambiente e desenvolvimento no Brasil e na Espanha. Rio Branco: EDUFASC, 2006. p. 185-207.

_____. Cultura ecológica e biodiversidade. Mercator – Revista de Geografia da UFC, a. 2, n. 3, p. 70-82, 2003. Disponível em: <http://www.mercator.ufc.br htm>. Acesso em: 20 jan. 2009.

ALTVATER, E. O preço da riqueza. São Paulo: UNESP. 1995.

CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A., Extensão Rural e Agroecologia. Cadernos MDA/SAF/DATER-IICA, 2007.

CLAVAL, P. “A volta do cultural” na Geografia. Mercator – Revista de Geografia da UFC, a. 1, n. 1, p.19-28, 2002. Disponível em: <http://www.mercator.ufc.br htm>. Acesso em: 20 jan. 2009.

DGOT – Direcção Geral do Ordenamento do Território. Carta Européia de Ordenamento do Território. Lisboa: SEALOT-MPAT, 1988.

GONÇALVES, C. W. P. Geografando: Nos varadouros do mundo. Brasília, DF: IBAMA, 2003.

HAESBAERT, R. Territórios Alternativos. São Paulo: Contexto/ UdUFF, 2002.

HAESBAERT, R. Identidade Territoriais. In: ROSENDAHL, Z; LOBATO, C. R. Manifestações da cultura no espaço. Niterói, RJ: EDURJ, 1999. p. 169-191.

ROEL, A. R.; ARRUDA, E. J. Agroecologia e os recursos naturais de fragmentos de vegetação nativa. In: COSTA, R. B. da (Org.). Fragmentação florestal e alternativas de desenvolvimento rural na Região Centro-Oeste. Campo Grande: UFMS, 2003.

SANTOS, B. de S. (Org.) Produzir para viver: Os caminhos da produção não capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

SANTOS, M. A natureza do espaço: Técnica e tempo: Razão e emoção. SP: HUCITEC, 1996.

SUERTEGARAY, D. M. A. Agronegócio e desertificação no Brasil. Ciência Hoje, SBPC, São Paulo, v. 36, n. 211, dez. 2004.



[1] Bolsista do Programa de Pós-Graduação de Geografia IESA/ UFG/ CAPES.

Orientadora Professora Doutora Maria Geralda de Almeida

[2] O Território Rural da Grande Dourados foi implantado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA/SDT, constituído por 12 municípios, a sede do território localiza-se na cidade de Dourados,2002.

[3] Região localizada no sul do Mato Grosso do Sul, fazendo fronteira com o Paraná estado brasileiro e o país Paraguai, constituída por 15 municípios polarizados pela cidade de Dourados.

[4] Projeto do Governo Estadual. Plano de Desenvolvimento Regional - MS-2020.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.




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