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ENCUENTRO HUMBOLDT
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Asunto:[encuentrohumboldt] 194/11 - ENCONTROS, CONFLITOS E MARCAS DO DESENVOLVIME NTO NA CONSTRUÇÃO TERRITORIAL DO NORTE ARAGUAIA MATO GROSSENSE: O PAPEL DE D’ PEDRO CASALDÁLIGA
Fecha:Sabado, 19 de Noviembre, 2011  11:39:10 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

ENCONTROS, CONFLITOS E MARCAS DO DESENVOLVIMENTO

NA CONSTRUÇÃO TERRITORIAL DO NORTE ARAGUAIA MATOGROSSENSE:

O PAPEL DE D’ PEDRO CASALDÁLIGA.

 

 

Romilda Laurindo Oliveira Gawenda[1]

Cornélio Silvano Vilarinho Neto [2]

RESUMO

O presente artigo busca analisar a formação geográfica regional, a história da formação territorial da Região Norte Araguaia, nordeste do Estado de Mato Grosso - Brasil. Região beneficiada por projetos de desenvolvimento do governo brasileiro entre eles o Plano de Integração Nacional colocado em pratica na ditadura militar nos anos de 1970. O PIN beneficiou entre outros projetos a criação da SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, que veio consolidar as políticas publica para “desenvolver” a região considerada pelo governo “espaço vazio”. O PIN objetivava a consolidação das grandes empresas agropecuárias, com incentivos fiscais para desenvolver a região. Assim como a abertura de estradas que ligaram o sul ao norte, a fixação de pequenos povoados ao longo desses trajetos, a introdução de pecuária e da agricultura capitalistas. Todos esses pressupostos serviram para que se reconfigurasse um novo território no Araguaia, pois antes uma região habitada apenas pelos povos indígenas (nativos), passou a ser integrada ao sistema capitalista de produção levando muitos a perderem suas terras e/ou fossem reduzidos a uma mera reserva indígena. Nesse cenário a figura do Bispo D’ Pedro Casaldáliga se insere em favor dos menos favorecidos como índios, posseiros e peões que sofriam maltratos por parte dessas fazendas.

Palavras-chave: Formação territorial, Políticas públicas, Conflitos Sociais, Territorialidade.

 

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo la formación geográfica regional, la historia de territoriales formación Araguaia Región Norte, al noreste de Mato Grosso - Brasil. Región se beneficiaron de los proyectos de desarrollo gobierno brasileño en particular el Plan Nacional de Integración puesto em la práctica durante la dictadura militar en 1970. El PIN se ha beneficiado de otros proyectos la creación de SUDAM - Superintendencia para el Desarrollo Amazon, que há consolidado las políticas públicas para "desarrollar" la región considerada por el gobierno "espacio vacío". El PIN tiene por objeto consolidación de las grandes empresas agroalimentarias, con incentivos fiscales para desarrollar el área. Dado que la apertura de caminos que conectan sur a norte, el establecimiento de pequeños pueblos a lo largo de estos caminos, la introducción de ganado y los capitalistas agrarios. Todos estos supuestos eran útiles para volver a configurar una nueva área em Araguaia, porque justo antes de una región habitada por pueblos indígenas (Nativo), está ahora integrado en el sistema capitalista de producción llevando a muchos a perder sus tierras y / o se han reducido a un mero
reserva indígena. En este escenario la figura de Pedro el D Obispo Casaldáliga si insertos en favor de los menos afortunados como indios, los colonos y los peatones maltrato sufrido por estos predios.

Palabras clave: Formación Territorial, Políticas públicas, Conflictos sociales,
Territorialidad

ABSTRACT 
This paper analyzes the regional geographical formation, the history of territorial formation of the North Araguaia, NE Mato Grosso - Brazil. Region benefits from projects 
development of the Brazilian government including the Integration Plan National put into practice during the military dictatorship in 1970. The PIN benefited from the creation of other projects SUDAM - Superintendency Development of the Amazon, which has consolidated public policies to "develop" the region considered by the government "empty space". The 
PIN aimed at consolidation of large agribusiness companies, with tax incentives to develop the region. As the opening of roads connecting south to north, the setting of small villages to 
along these paths, the introduction of livestock and agriculture capitalists. All these assumptions were useful to reconfigure a new territory in the Araguaia region because before a inhabited only by indigenous people (natives), is now integrated 
the capitalist system of production causing many to lose their land and / or were reduced to a mere Indian reservation. In this scenario the figure Bishop D 'Pedro Casaldaliga falls in favor of the less fortunate as Indians, settlers and pedestrians who suffered mistreatment by those 
farms. 

Keywords: territorial Training, Public Policy, Conflict Social Territoriality. 

 

1. Introdução

Esse artigo nasce como resultado de um trabalho de campo realizado na Região Norte Araguaia de Mato Grosso que compreende em seu território quatorze municípios, entre eles: Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Cana Brava do Norte, Confresa, Luciara, Nova Serra Dourada, Novo Santo Antonio, Porto Alegro do Norte, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, São Félix do Araguaia, Serra Nova Dourada e Vila Rica, tendo em vista ainda o município de Ribeirão Cascalheira por fazer parte da Prelazia de São Félix do Araguaia, embora o mesmo não faça parte da região em questão.

Quando se busca a História de formação da Região Nordeste de Mato Grosso percebe-se que ela possuiu vários denotações, Baixo Araguaia, Médio Araguaia e Norte Araguaia, portanto decidiu-se utilizar no presente a denominação de Norte Araguaia denominação essa adotada pela SEPLAN[3]/MT. 

Pretende-se com o artigo realizar uma discussão sobre o papel desempenhado pelo Bispo D’ Pedro Casaldáliga frente à construção das novas territorialidades que se efetivaram na Região Norte Araguaia, papel esse contestado por muitos, principalmente os grandes fazendeiros (latifúndios) da região.

A formação territorial da região Norte Araguaia está inserida no que se pode denominar de ocupação de terras no Brasil, que se desenrolou de forma conflitante desde o período colonial, regulamentando-se no decorrer do tempo, “a apropriação desordenada de terras” OLIVEIRA, (1987). No Estado de Mato Grosso, mais precisamente na região do Araguaia, isso não se deu de forma diferente, seguindo constitutivamente nossa formação social.

Pensar nos municípios que compõem a Região Norte Araguaia, numa maior abrangência nos leva a buscar a história de consolidação da Região Araguaia que se insere num contexto maior, a Amazônia Legal brasileira. História essa recheada de conflitos, perseguições, mortes entre a população nativa, os ribeirinhos, índios, posseiros e fazendeiros que compuseram a Região, consolidando a luta pela terra, desde o inicio do século XX.

A Região hoje conhecida como Norte Araguaia, deliberada pela Secretaria de Planejamento do governo estadual, inicialmente habitada pelos indígenas, como todo o território brasileiro e quiçá americano, visto que esse fato nos leva a pensar numa ameríndia[4].

Todos esses povos que hoje compõem a região do Norte Araguaia têm sua territorialidade inserida nos acontecimentos e na história de formação do Brasil e do Estado de Mato Grosso como um todo.

 

1.1  Marcas da História na Construção de novas Territorialidades do Araguaia.

 

A formação política do Território brasileiro tem em sua base um contexto de lutas entre vários povos que possuíam cultura diferenciada, mas muito influenciada pelo sistema capitalista que rege as leis desse país.

Fatos e acontecimentos impulsionaram no estado de Mato Grosso a criação de várias políticas públicas que viriam a consolidar a formação regional, entre todas as mais importantes a “Marcha para o Oeste[5]”, a criação do “BNDS[6]” e a Expedição “Roncador Xingu[7]”. Todas essas políticas estão ligadas ao desbravamento regional e a inserção capitalista dos meios de produção.

Assim se deram a abertura de estradas que passaram a ligar o sul ao norte, a fixação de pequenos povoados ao longo desses trajetos e a introdução de pecuária e da agricultura seguindo bases capitalistas, já não se produzia mais para o consumo, mas sim para a venda e o lucro.

Todos esses pressupostos serviram para que uma região habitada apenas pelos povos indígenas (nativos) fosse integrada ao sistema capitalista de produção levando muitos dos povos a perderem suas terras e fossem reduzidos a uma mera reserva indígena.

Nogueira (2007) relata que “desde o período colonial a questão da terra no Brasil privilegiou classes dominantes e aqueles que tinham o poder político, econômico e jurídico”. Nesse sentido quem não se enquadrava nessa prerrogativa ficava aquém do que se considerava apto a acompanhar o progresso e o desenvolvimento local, no caso quem detinha o capital.

O que ocorreu tendo como suporte as políticas governamentais com a meta de expandir o crescimento através da pecuária e da agricultura altamente mecanizada que trouxeram uma nova configuração ambiental ao espaço, pois muitos foram os desmatamentos, as queimadas, a expulsão e exclusão dos povos nativos do que se queria chamar de Território desenvolvido, o que contraria a idéia de muitos pensadores como, por exemplo, Carlos Walter Porto Gonçalves e Milton Santos que nos lembra que “o desenvolvimento indica envolvimento” e isso se constroem por meio das relações que existem entre quem habita e o espaço habitado. Percebe-se, portanto, que dessa forma pode-se construir o território e as territorialidades num determinado espaço, mesmo sabendo que não se podem confundir os conceitos de território, lugar e espaço, pois de acordo a Andrade (1995:19):

 

O conceito de território não deve ser confundido com o de espaço ou de lugar, estando muito ligado a idéia de domínio ou de gestão de uma determinada área. Desse modo, o território está associado à idéia de poder das grandes empresas que estendem os seus tentáculos por grandes áreas territoriais, ignorando as fronteiras políticas.

 

Fatos esses levaram ao povoamento dos ditos “espaços vazios” e a formação de vários núcleos urbanos, que também receberam incentivos por meio dos projetos de colonização privada que transformaram completamente o espaço indígena em espaço construído do branco, desde que esse branco fosse fazendeiro ou detentor do capital financeiro.

Nogueira (2007) ainda relata:

 

Muito antes da ocupação portuguesa aqui já se encontravam povos indígenas com organizações sociais, culturais e formas próprias de viver e relacionarem-se com a natureza. Este avanço das relações capitalistas provocou o quase extermínio do povo indígena. Os nativos que ocupavam extensas áreas do Estado eram vistos como empecilhos frente ao progresso em face a sua resistência, estes foram obrigados a enfrentarem a violência do “branco”, não índio.

A fala da autora nos remete a uma avaliação do que foi escrito pela OPAN[8]- CIMI[9]/MT, 1987:103 que informa que entre os períodos 1930 de 1950, tais operações para limpar a área “ganharam proporções alarmantes, resultando no extermínio de quase todas as aldeias...” gerando severas denuncias sobre a prática de genocídios de índios no Brasil.

Nesse mesmo período se intensificou a política de colonização, direcionando os nordestinos e sulistas que fugiam da seca e da falta de terras para cultivar e sustentar a família, rumo a Amazônia. Esses migrantes, já haviam desbravado outras regiões do Brasil, agora recebiam incentivos para ocupar, colonizar a Amazônia, que os militares consideravam vazias, pois os povos que a habitavam não eram considerados.

O que se pode avaliar desse método utilizado pelo governo é que a estratégia deu certo, pois os povos nativos sofreram grandes perdas tanto do lado territorial, quanto cultural, ficando expostos ao contato de novas culturas, doenças que os levaram ao extermínio e suas terras acabaram servindo para o objetivo do governo em inseri-las aos projetos de colonização e a agregação das grandes fazendas.

Com as terras livres, surge uma nova política, a política de colonização, que possibilitou a migração brasileira e a imigração internacional, para a ocupação dessas terras consideradas vazias demograficamente.

Inicialmente esses migrantes atenderiam a demanda aos seringais e as áreas de colonização, dando suporte para a fixação dos projetos de colonização privada.

Segundo Silva (2007): “O Brasil esteve durante vinte anos sob o domínio do governo militar” e nesse período é que se intensifica a política de colonização na Amazônia desenvolvida por meio da ação conjunta de órgãos públicos e empresas privadas.

Essa colonização se consolida a partir de 1970 com a criação do INCRA[10], responsável pela colonização, pela implementação e pela autorização dos projetos privados de colonização da Amazônia.

Outro fator importante para essa consolidação foi à criação da SUDAM[11], que desenvolveu políticas voltadas aos incentivos fiscais e econômicos aos empresários que apresentavam recursos e vontade em instalar empresas de desenvolvimento na Amazônia, entre esses projetos pode-se citar os agropecuários, os madeireiros, os mineradores e as indústrias agrícolas.

Soares (2004) diz que:

 

A opção de investimentos a fim de promover o desenvolvimento da Amazônia, abrangendo o vale do Araguaia, parte nordeste do estado de Mato Grosso, foi pela instalação de grandes projetos agropecuários para produção de proteínas de carne bovina para exportação. Os primeiros projetos aprovados pela SUDAM, implantados no Araguaia datam de 1966 destacando a Agropecuária Suiá Missú S/A com uma área de 695.843 hectares, que corresponde a aproximadamente 300.000 alqueires, localizada na época no município de São Félix do Araguaia.

 

O autor supracitado ainda afirma que a partir desta data, muitos outros projetos foram sendo instaladas, em 1970, 66 empresas já haviam obtido a aprovação do governo federal e estavam na região, ocupando uma área superior a dois milhões de hectares (SUDAM, 2003).

Estas empresas nacionais e internacionais instituíram novas práticas de domínio do espaço, desencadeando uma série de conflitos nestes antigos povoados. As ações para expulsar os posseiros e índios de seus territórios foram as mais diversas. De acordo com Oliveira (1997):

 

Estes grupos econômicos passaram a contratar jagunços e pistoleiros para expulsá-los, no caso dos posseiros, e contra os índios os genocídios passaram a ser registrados. Como a caso internacionalmente conhecido do “massacre do paralelo 11”, quando um grupo de pistoleiros fortemente armados chacinaram toda uma aldeia dos Cinta-Larga. Ou quando, através de fornecimento de açúcar envenenado, mataram índios “Beiço-de-Pau”, do rio Arinos, e Rikbaktsa, do rio do Sangue.

 

O modelo de desenvolvimento implementado pelo Governo Militar na década de 1970 ignorou a existência das sociedades indígenas e também dos antigos moradores desta região que não tinham títulos de propriedades de suas terras, mas mantinham suas territorialidades, através de outras relações que estabelecem com a natureza, que não a de propriedade (escritura registrada em cartório).

Para Oliveira (1997:343):

 

O território não pode ser entendido como equivalente, como igual ao espaço, como propõem muitos geógrafos. Nesse caminho, torna-se fundamental compreender que o espaço é uma propriedade que o território possui e desenvolve. Por isso, é anterior ao território. O território por sua vez, é um espaço transformado pelo trabalho, é, portanto, uma produção humana, logo espaço de luta, de luta de classes ou frações de classes. Por causa de todas as relações que envolvem, inscreve-se no campo do poder, sendo, pois, o lugar da luta cotidiana da sociedade pelo seu devir histórico.

 

Esses novos migrantes ocuparam de forma espontânea terras devolutas e indígenas em todo território brasileiro, chegando ao Estado de Mato Grosso, a partir de 1970, marcando na história de ocupação da Amazônia, uma nova fase.

 

O processo de ocupação do Estado de Mato Grosso segue necessidades de integração da região do Centro Oeste, a outras áreas do Brasil, por isso este território é o resultado de um combinado espaço geográfico moldado e que fazem parte do processo de formação econômico-social do país, porém é preciso destacar que a ocupação efetiva desta área já vinha acontecendo desde o século de XVIII (MORENO, 2005).

 

Essa ocupação e formação se deram a partir do tão almejado sonho de divisão administrativa do Estado de Mato Grosso, dando origem ao Estado de Mato Grosso do Sul, em 1977, se consolidando em 1979, com a implantação das respectivas capitais e limites territoriais. A história propriamente dita e conhecida inicia-se então em 1977, com a concretização da cisão do Estado de Mato Grosso, fruto de contendas de quase um século. Sendo que os que mais lutavam pela divisão concentravam-se no sul do Estado. Com a lei complementar nº. 31, de 11 de outubro de l.977, dividiram-se em duas faixas territoriais o antigo Mato Grosso. Criando Mato Grosso do Sul e conservando o norte do antigo território com a denominação histórica de Mato Grosso.

Esse feito provoca grandes alterações no contexto geográfico do estado, quando no final da década de 1970 e 1980, desencadeou o processo migratório para região nordeste de Mato Grosso, a mídia teve papel fundamental na divulgação de facilidade ao acesso a terras na região, principalmente as de Confresa, Vila Rica e circunvizinhos, através de panfletos, rádio, jornal, despertando o interesse de moradores do Rio Grande do Sul, que tinha o sonho de conquistar um pedaço de terra.

Anterior a isso na década de 1910, já existia vestígios dos primeiros moradores da região do Araguaia, que correspondia desde o Município de Barra do Garças a divisa com o Estado do Pará, diferentemente dos colonizadores que chegaram apenas na década de 1970. Sulistas, nordestinos, goianos, mineiros e outros ocupavam a região, por meio de compra da terra das colonizadoras que apresentavam documentos que adoçados pelo governo e legalizados pelos projetos de colonização e assentamentos, davam ao migrantes a posse da terra.

O local não contava com infra-estrutura necessária para receber os migrantes, o Estado não estava preparado para atendê-los de imediato. Muitos voltaram para as origens, outros fundaram cidades e lutaram pela conquista do sonho, dentre estes surgem vários núcleos urbanos, que mais tarde seriam os municípios que hoje compõem a região Norte Araguaia de Mato Grosso.

A composição étnica da Região nos leva a entender o processo migratório efetivado, contando com diversos povos, entre eles os indígenas, paulistas, os sulistas, os mato-grossenses, goianos, mineiros e outros que compuseram o povo da Região Norte Araguaia.

Com isso se percebe que a ocupação da Amazônia Brasileira tem sido e continua sendo, desde o período da colonização um processo delicado, resultando numa relação de força que esmagam os mais fracos, principalmente os indígenas.

 

No século XX, o processo de povoamento da Amazônia reproduz, evidentemente sob escalas diferenciadas, a violação dos direitos e da cultura de seus habitantes, fazendo da história da ocupação da Amazônia brasileira uma série de acontecidos contra a vida e a cultura dos menos favorecidos (CASALDÁLIGA, 1971).

 

Durante o governo militar regulamentou – se normas jurídicas que favorecia para apropriação de terra por elites dominantes, originando os latifúndios. Na década de 80 ainda com fortes vestígios de nossa formação política ditatorial, com objetivo de integração nacional e economia sob tutela militar acelera a ocupação na Amazônia.

Com este histórico, também é importante lembrar e refletir o processo de formação territorial do Araguaia inserido neste contexto. Devido a tais fatos, a região presenciou um intenso processo de expulsão de trabalhadores do campo, sendo que alguns permaneceram nas áreas rurais, envolvidos em intensos conflitos pela terra onde se encontravam ou migrando para outras terras, terras, cidades ou Estados.

A migração para o Norte Araguaia se deu não apenas por sem terra, mas, por diferentes sujeitos sociais, como latifundiários, empresários, pequenos proprietários, oriundos em sua maioria do sul do Brasil, que venderam suas terras em seus lugares de origem, a fim de adquirir propriedades extensas e mais baratas na região. Alguns foram ludibriados pensando em adquirir riquezas e melhorias e outros vieram por ser oferecida pelo governo incentivo fiscais para instalação de indústrias.

O estado então proporciona toda estrutura necessária ao “desenvolvimento” dessa região, mas nega aos marginalizados o direito á terra.

 

1.2 Encontros e conflitos no Araguaia: a luta de Pedro Casaldáliga na construção de novas territorialidades.

 

Em 1968, depois de ser ordenado Sacerdote católico da congregação Claretiana, mudou-se para a Amazônia D’ Pedro Maria Casaldáliga y Plá. Nomeado administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia em 27 de abril de 1970, sendo sagrado Bispo prelado de São Félix do Araguaia pelo Papa João Paulo VI. (Figura 01)

Figura 01 – Consagração de Bispo, 27 de abril de 1970.

Fonte: Registros da Prelazia de São Félix do Araguaia.

Organização: Gawenda/2010.

 

Adepto da Teologia da Libertação adotou como lema para sua atividade pastoral “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo nada matar”. Poeta, autor de várias obras, já foi alvo de inúmeras ameaças de morte, a mais grave em 1976, onde teve seu amigo e confidente o Jesuíta João Bosco Penido Burnier, morto, após discussão com policiais militares em defesa de mulheres que haviam sido presas e torturadas pelos mesmos na delegacia local de Ribeirão Bonito, hoje município de Ribeirão Cascalheira, Estado de Mato Grosso.

Dessa forma é importante frisar que a criação da Prelazia de São Félix do Araguaia em 1970, e a chegada do Bispo à Região impulsionaram a criação de um novo território no Estado de Mato Grosso, pois o que o mesmo encontrou na região foi uma população desassistida[12], pelos poderes públicos, faltando aos mesmos serviços de saúde, educação, transporte, energia, saneamento e outras mais que contribuísse para uma vida mais saudável.

O avanço da fronteira agrícola trouxe certa prosperidade à parte da região, com a implantação de projetos agropecuários, que por sua vez provocaram a expropriação absoluta das populações pobres que habitavam o local, reforçando ainda mais o trabalho da Prelazia e do Bispo que tinham como objetivo manter a população local, no mínimo com um pedaço de terra onde pudessem produzir bens de subsistência familiar e por isso muitos tiveram um entendimento diferenciado da mesma, classificando-os como não desenvolvimentista.

Segundo Alves (2009) et all:

 

O religioso deparou-se com as péssimas condições de vida das pessoas que ali habitavam. Diante de todas essas dificuldades, Dom Pedro procurou auxiliar na resolução dos problemas do Araguaia. Segundo seu próprio depoimento, negou-se a fechar os olhos para as violências e desmandos, contrariando interesses importantes, especialmente dos latifundiários e representantes do governo militar, o que fez com que ganhasse a confiança dos moradores pobres da localidade.

Essa fala nos remete a fala do próprio quando em entrevista, diz que “o maior pecado do mundo é o capitalismo neoliberal, forma de organização e estruturação”, pois esse sistema não reconhece as pessoas pobres. “A negação do amor” é outro ponto injusto cometido por essa sociedade. Quando questionado sobre o Latifúndio, Dom Pedro reage dizendo: “Uma inequidade, o abuso da terra de todos, o egoísmo estrutural do campo”.

Nessa terra de sofridos, o Bispo escolheu viver. Sua casa é pequena, simples e têm as portas abertas, o que difere e muito dos palacetes episcopais da igreja católica distribuídas no mundo inteiro.

Escribano (2000) nos diz que:

 

Essa casa poderia ser comparada a de qualquer trabalhador rural ou de família trabalhadora da cidade, é pequena, térrea, e não há nela luxo nem sinal de distinção. Na casa do Biso, a porta está sempre aberta. Misturam-se nas paredes imagens religiosas, pôsteres revolucionários e objetos artesanatos indígenas. Na parte de trás, há um alpendre que serve de cozinha e um quintal verdíssimo, onde as galinhas, os gatos e as verduras da horta partilham o espaço com uma acolhedora capela que tem um altar simples de madeira, com uns troncos por suporte.

O Bispo é um homem franzino de saúde frágil. (Figura 02) Tem pressão alta, audição auxiliada por aparelhos e sua Mão direita revela continuadamente o mal de Parkinson. As convicções, porém seguem tão firmes quanto nas primeiras vezes em que se manifestou em nome dos milhares de vítimas do latifúndio. Suas lutas continuam, mesmo que o tempo tenha trabalhado contra, mas uma coisa é certa, enquanto houver vida, ele continua lutando pra melhoria de vida daqueles que escolheu defender.

 

Passaram-se dez anos do novo século XXI e o mundo continua cruel e solitário, injusto e esperançado. Ainda há guerra e há império, e o império acaba de inventar a guerra preventiva. Ainda o mundo se divide pelo menos em três: primeiro, terceiro e quarto. A fome, a pobreza, a corrupção e a violência têm aumentado; mas aumentou também a consciência, o protesto, à organização, a vontade explícita de alternatividade.

                 Figura 02 – Dom Pedro Casaldáliga, num momento de leitura durante conversa.

                

                 Fonte: Gawenda/Julho de 2010 em São Félix do Araguaia – MT.

                 Figura 03- Capela de oração.

               

                Fonte: Gawenda. Julho de 2010 em São Félix do Araguaia – MT.

Em sua história de luta, Pedro e sua equipe se defrontaram inicialmente com a ditadura militar, após as ações governamentais que apoiavam o grande fazendeiro e logo depois as perseguições políticas frente ao seu posicionamento na defesa pelos direitos dos mais fracos.

Com o surgimento de uma nova igreja na região, os grandes da época, na sua maioria políticos e empresários financiados pela SUDAM, iniciaram então, uma corrida contra a figura de Dom Pedro, pedindo seu afastamento da Igreja e ou até mesmo encomendando sua morte a jagunços que viviam desse serviço e que era costumeiro na região. Ir contra o latifúndio, era ir contra o sistema, o regime, o que desencadeava a ira da policia, do exercito e da ditadura.

Considerava então as grandes fazendas: Suiá Missu, Codeara, Santa Terezinha, Bordon e outras suas inimigas, porque eram inimigas dos índios, dos posseiros e dos peões. Mostrou isso quando escreveu “Maldito seja o latifúndio e a Sudam, sua amancebada”, com esses versos demonstrava uma situação séria na região. “Malditas sejam todas as cercas; Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e de amar! Malditas sejam todas as leis, amanhadas por umas poucas mãos, para ampararem cerca e bois e fazerem da terra escrava e escravos os homens”.

Escreveu também as “Confissões do Latifúndio”:

 

Por onde passei plantei, Plantei a cerca farpada, Plantei a queimada, Por onde passei; Plantei a morte matada; Por onde passei, Matei a tribo calada, A roça suada, A terra esperada... Por onde passei, Tendo tudo em lei, Eu plantei o nada.

 

Dessa forma, foi erguendo sua bandeira e chamando a atenção do mundo a respeito dos povos da floresta, como ele mesmo gosta de chamar os vários povos que compõem a Amazônia, (figura 04) que traz também a aliança que foi escrita pelo UNI.

Figura 04 – Os povos da Floresta e sua aliança.

 

  

  Fonte: Mural da Prelazia de são Félix do Araguaia – MT.  Organização: Gawenda. Julho de 2010.

Hoje passados quarenta anos de luta na Região do Araguaia, ele confidencia:

Éramos maldosamente chamados de comunistas, terroristas, diziam que estávamos envolvidos com a guerrilha do Pará. Advertiam a quem chegava: cuidado com a prelazia, cuidado com o bispo. Tudo por que, na época, se não organizássemos nós, não organizaria ninguém. Isso fez com que o próprio povo tivesse que optar: com a prelazia ou contra a prelazia.

Reconhece que muita coisa mudou na região nesses quarenta anos, mas ressalta que o desenvolvimento não chegou para todos e que uma parcela muito pequena da população regional conseguiu garantir uma vida digna.

 

Em resumo: veio muito dinheiro, mas não o desenvolvimento. Muitas vezes porque os incentivos fiscais que se davam ao latifúndio não eram investidos aqui, mas nas próprias empresas que os ditos fazendeiros tinham no sul e sudeste. Várias dessas fazendas eram de bancos. A Codeara, por exemplo, era do banco nacional de Crédito (BCN).

Concorda-se plenamente com Casaldáliga quanto a esse “desenvolvimento” não ter alcançado toda a população, pois a falta de infra-estrutura continua. Muito se discutiu, mas jamais se realizou a tão sonhada Reforma Agrária, e o latifúndio continua. E segundo ele 80% do território da prelazia já foram desmatados e queimados, então que desenvolvimento é esse? É esse o desenvolvimento tão sonhado, onde a floresta está no chão. (CASALDÁLIGA, 2010).

Sua luta hoje se concentra na aceitação aos povos da floresta, principalmente aos indígenas que segundo ele teve um aumento razoável na sua população:

 

A problemática indígena continua sendo a demarcação e a garantia das terras. E também evitar a ameaça que supõe a hidrovia e certas hidrelétricas. É preciso possibilitar a educação bilíngüe e o atendimento à saúde, rever formalmente a situação da FUNAI, e possibilitar em nível federal o novo estatuto do índio, que depende do congresso. Estamos continuando atendendo o povo Tapirapé, o povo Carajá também. Tem pessoal nosso que trabalha em consorcio com a Funasa em saúde indígena.

Questionado sobre o aumento da população indígena, se houve melhorias nas aldeias, responde:

É claro que sim. Eram 200 mil em todo o país, agora são 500 mil índios. Vários têm conquistado a terra, outros tantos estão revalorizando a cultura. Mas continua a existir o encontro e o choque como nossa civilização, para o mal e para o bem. Porque também não se trata de deixar os índios num museu. O ideal seria que fosse não à integração do índio, mas a interintegração.

Analisando essa fala percebemos que o verdadeiro convívio pacífico entre os povos seria não haver distinção entre o índio e o não índio, principalmente no que se refere aos direitos garantidos em lei.

A integração seria a absorção de uma cultura pela outra, enquanto a interintegração seria a existência de dialogo, a complementação de idéias e união pela luta de direitos de trocas culturais onde houvesse o respeito mútuo. Essa é sem duvida o grande sonho de Dom Pedro Casaldáliga, que houvesse paz entre os povos de todas as nações.

2. Metodologia

Tiveram-se como objetivo inicial três cidades da Região: Confresa, Luciara e São Félix do Araguaia, aonde se buscaram conhecer a estrutura econômica, a organização política e a estruturação fundiária de cada local. A pesquisa de campo se deu entre os dias sete a doze de julho com visita in loco, conversa informal com a população e autoridades públicas locais.

Inicialmente realizou-se um trabalho de reconhecimento da cidade de Confresa-MT, suas principais vias de acesso, logo em seguida partiu-se para as instituições publicas como a Prefeitura Municipal, o Frigorífico e a Usina de álcool.

Após nos dirigimos para a cidade de Luciara – MT onde se buscou conhecer do poder municipal os projetos de desenvolvimento e uso e ocupação da terra, além do funcionamento da economia local. Ainda em Luciara visitou-se o Lago dos Veados, hoje principal atração turística do local.

A terceira cidade a ser visitada, São Félix do Araguaia, onde através de consulta popular ouviu-se parte dos moradores a respeito de política, saneamento, educação e finanças. Após a primeira visita in loco e o reconhecimento da área urbana, decidiu-se focar o estudo na vida de D’ Pedro Casaldáliga, o Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia

Buscou-se referencias bibliográficas para uma fundamentação coesa e coerente a respeito do conhecimento regional, além da biografia do Bispo D’ Pedro que muito auxiliou na efetivação desse artigo.

Nesse sentido, o arquivo pessoal da Prelazia, que é aberto a quem interessar contribui grandemente para a pesquisa bibliográfica, além das fotos de D’ Pedro que também são disponibilizadas e autorizadas para uso.

3. Área de estudo

A Região Norte Araguaia é uma das regiões do Estado de Mato Grosso. Sua população foi estimada em 2006 pelo IBGE em 110.683 habitantes e está dividida em treze municípios. Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Canabrava do Norte, Confresa, Luciara, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Santa Cruz do Xingu, Santa Terezinha, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Serra Nova Dourada e Vila Rica, (Figura 01).

Enquanto Igreja a Região é gerida pela Prelazia de São Félix do Araguaia, hoje no comendo de D’ Leonardo, Bispo substituto de D’ Pedro Casaldaliga, que se encontra aposentado, mas presença efetiva na cidade e na região que o abraça como o Bispo do Araguaia.

        Figura 05. Estado de Mato Grosso com enfoque para a Região Norte Araguaia.

        

        Fonte: Wikipédia. WWW.google.com.br. Acesso em 30/08/2010.

          Organização: Gawenda/2010.

A Região Norte Araguaia está localizada a Latitude Sul de 9°50', Longitude sul de 13°30', Longitude Oeste de 53°20' e Latitude Oeste 53° 30', situado na região do Centro Oeste brasileiro. Tem seus limites, a Leste, o Rio Araguaia e o Rio das Mortes, a Norte, o Estado do Pará, a sul, os municípios de Querência, Canarana e Cocalinho e a Oeste, o Rio Xingu. A região encontra-se na planície do Araguaia e sua altitude oscila entre 0 a 200 metros. E está dentro da Amazônia Legal brasileira, tendo como espinha dorsal, de Sul a Norte, a Serra do Roncador. A região abrange parte das bacias dos rios Araguaia e Xingu e tem uma paisagem com características bem específicas. É uma região de transição de cerrados, de matas e de varjões para a floresta Amazônica.

Possui em sua superfície clima quente e úmido, com duas estações bem definidas o inverno considerado os meses de chuva e o verão, os meses de seca, caracteriza–se por apresentar uma predominância de temperatura elevada cuja máxima chega a ultrapassar 40ºC. A mínima já registrada foi em torno de 15ºC. A época mais intensa de chuvas é de outubro a março, sendo que os outros meses são de seca total.

A Região possui uma Bacia Hidrográfica, com rios perenes, sendo os principais rios: Araguaia, Xingu, Tapirapé, Das Mortes, Rio Preto, Comandante Fontoura, Xavantinho, Sabino, entre outros.

Além disso, possui um tipo de solo, o latossolo vermelho-amarelo que possibilita o desenvolvimento da pecuária e da agricultura que infelizmente ocupam áreas de cerrado, por se apresentar em planícies longas.

A região norte Araguaia situa-se a 1.100 km de Cuiabá capital do Estado nos primeiros municípios, como a aproximadamente 1.300 km de Santa Terezinha e Vila Rica os municípios que fazem divisa com o Estado do Pará, e a 1.200 km de Goiânia, capital do Estado de Goiás. Foi e é uma região praticamente esquecida pelo poder público estadual. Cuiabá é centro para as questões políticas e administrativas. Para todas as demais questões, como comércio, tratamento de saúde, busca de melhores condições de ensino, etc. a relação da região se dá prioritariamente com Goiânia. Inclusive o horário não acompanha o fuso horário da capital do Estado, mas da Capital Federal. Essa relação se dá também no que se refere à exportação e importação de produtos, como por exemplo, a saída do gado e produtos que abastecem a região.

A população regional é de aproximadamente 110.683 mil habitantes, (IBGE, 2006) sendo distribuída entre o urbano e o rural. Esta população é proveniente de praticamente todos os estados do Brasil. Há um destaque maior para as populações do sul em Vila Rica, Santa Cruz do Xingu, parte de Confresa que são áreas de colonização particular.

 

4. Resultados e discussões.

 

A região é habitada por populações indígenas e não indígenas. As populações indígenas estão distribuídas no parque Nacional do Xingu (40 km à margem direita do rio Xingu), na Reserva Indígena Tapirapé e Karajá, nas proximidades do Araguaia, Reserva Indígena Urubu Branco, próxima à Confresa. Há ainda uma área reservada ao retorno dos povos Xavante, na assim denominada área Nova Suiá no entroncamento das  BRs  158 e BR 242.

Segundo Silva (2002),

 

A abertura das BRs 080 e 158 e de outras estradas na região trouxe consigo uma nova temporalidade, outro ritmo para a vida das pessoas, uma nova velocidade das coisas e acontecimentos e modificação no espaço. Um novo padrão de organização começa a se impor. O que antes se dava nas proximidades dos rios agora se dá nas margens das estradas. Isso significou para uns desorganização, destruição, desambientação e para outros organização, desenvolvimento e progresso. Essas estradas trouxeram uma nova configuração territorial. Às suas margens, povoados foram surgindo e que mais tarde se transformaram nas atuais cidades. Aumentou também a ocupação das terras e não foram só as terras do estado que foram ocupadas, foram também as terras de algumas fazendas.

 

A estrada federal BR 080 construída a partir de 1971, solicitada pelos empresários ao então Ministro do Interior, Coronel Costa Cavalcanti ligando Xavantina a serra do Cachimbo, cortou o parque Nacional do Xingu, afetando mais diretamente os Txukahamãe, povo de língua gê que habitava a parte mais ao Norte do Parque. “Na época dessa verdadeira invasão, um dos fazendeiros declarou à imprensa, referindo-se às pastagens potencialmente ricas da área, que o Parque Nacional do Xingu era o “filé mignon” do Brasil. (DAVIS, 1978:147 apud Silva, 2002)”.

A construção da BR-080 chocou muita gente principalmente os irmãos Villas Boas e produziu uma onda de protesto em todo o Brasil. Vários brasileiros de projeção nacional discordaram da abertura da estrada e alegaram que a BR-080 poderia ser planejada para contornar o parque Nacional do Xingu.

Ás margens da BR 158 nasceu Ribeirão Cascalheira na segunda metade da década de 60. Esta rodovia chegava só até a Fazenda Suiá-Missu onde hoje está o entroncamento com a BR 242, e onde se localiza o povoado Nova Suiá e o Posto da Mata. Foi aberta por pressão e com a participação da mesma fazenda. Só em 1975 é que se dá continuidade à abertura do restante da BR 158, chegando até a divisa do Estado do Pará. Com esta abertura novos espaços foram sendo ocupados. Porto Alegre do Norte e Canabrava se expandiram e começaram a se instalar as colonizadoras Confresa e Vila Rica.

A criação de tantos e novos municípios se deu pelo processo acelerado de ocupação da terra. Em alguns lugares este processo foi conduzido pela ação das colonizadoras, mas a maior parte se deu pela ocupação espontânea. Assim nasceram os municípios de Porto Alegre do Norte, Canabrava do Norte, São José do Xingu, Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Serra Nova Dourada, Santo Antonio do Rio das Mortes. Mesmo Confresa e Santa Cruz do Xingu em que houve a ação das colonizadoras, a emancipação só foi possível devido à ocupação da terra por grupos de sem terra que aumentaram consideravelmente a população e a produção e assim propiciaram condições para a emancipação. Somente Vila Rica, pode-se dizer se constituiu município pela ação da colonização.

Segue abaixo uma breve caracterização dos municípios que fizeram parte da aula de campo nos dias 08, 11 e 12 de Julho de 2010.

·         Confresa → Possui aproximadamente 30 mil habitantes, o maior número de assentamentos do país, cerca de seis mil famílias assentadas. Possui vários projetos voltados ao agricultor familiar como, por exemplo, o Balde Cheio que atende o laticínio Piracamjuba no município de Alto Boa Vista. Tem sua economia definida estritamente definida pela pecuária. Nasceu de um projeto de colonização, mas na década de 1990 passou por um processo de invasão, portanto, não possui regularização fundiária. Possui 3.500 km de estradas vicinais. Não possui rede de esgotos, apenas o projeto para sua instalação. As pequenas propriedades denominadas parcelas pelo INCRA são de 20 alqueires, ou seja, 100 hectares. Ainda se produz arroz em pequena escala. O município hoje é visto como pólo comercial regional em saúde e educação contando com o Instituto Federal de Mato Grosso, apto a atender toda a população regional com cursos técnico e superior. A reestruturação fundiária é sem duvida a grande alavanca para o crescimento de Confresa. A ligação comercial do município é maior com Goiânia no Estado de Goiás do que com Cuiabá, capital de Estado de Mato Grosso.

·         Luciara → com uma população de 2.497 habitantes tem sua economia baseada na pecuária e no funcionalismo publico, médias e pequenas propriedades, embora cada média propriedade possui em torno de seis mil cabeças de gado. Não possui nenhuma rede de saneamento básico e sua depredação ambiental ocorre devido ao mau uso do turismo que surge em caravanas e não trazem nenhum beneficio ao município. O município de Luciara possui propriedades bastante irregulares devido a emissão de documentos irregulares emitidos pelos cartórios de Mato Grosso. A ligação comercial do município é maior com Goiânia no Estado de Goiás do que com Cuiabá, capital de Estado de Mato Grosso.

·         São Félix do Araguaia → aproximadamente nove mil habitantes e economia baseada na pecuária. Tem no turismo uma grande perspectiva, embora o turismo ocorra somente na época do festival de praia, pois o turismo esta amarrado à questão política e esse fato acaba não trazendo nenhum beneficio a população local. A saúde é precária, pois há falta de profissionais de saúde. O município possui água tratada desde 1996, estendendo a toda população. É dependente do município de Confresa para assuntos urgentes como quebraduras, cirurgias e partos. O centro da cidade é regularizado, mas a periferia é posse. A ligação comercial do município é maior com Goiânia no Estado de Goiás do que com Cuiabá, capital de Estado de Mato Grosso.

Esses aspectos levantados na aula de campo e na pesquisa com a população local nos deu a entender como se consolidaram as políticas pensadas e idealizadas para o Região Norte Araguaia, pois é clarividente que esse “desenvolvimento” está longe de ser realizado.

 

5. Considerações finais

 

Esse trabalho de pesquisa teve como objetivo de realizar uma discussão sobre o papel desempenhado pelo Bispo D’ Pedro Casaldáliga frente à construção das novas territorialidades que se efetivaram na Região Norte Araguaia, papel esse contestado por muitos, principalmente os grandes fazendeiros (latifúndios) da região.

Devido à formação história da Região Norte Araguaia, percebemos a real importância que a figura do Bispo D’ Pedro Casaldaliga teve na construção territorial do Araguaia, pois ele com seu trabalho acabou desenhando uma nova configuração territorial a um pedaço do Estado de Mato Grosso, como uma região que ainda apresenta traços marcas do que foi um dia a ocupação por grandes fazendas e tem na sua história a memória de um povo sofrido que até os dias atuais traz em sua bagagem a luta pela terra, pela posse e permanência na terra.

Muitas mudanças aconteceram desde então, mas essas mudanças aconteceram gradativamente, embora ainda tenha atingido toda a população regional. Mas as mudanças que ocorreram em grande parte se devem as lutas da Prelazia de são Félix do Araguaia e da figura de D’ Pedro que pensou inicialmente em capacitar o poço para que se organizassem e lutassem por seus direitos. Os municípios visitados no trabalho de campo, Confresa, Luciara e São Félix do Araguaia não deram a certeza de que muito ainda se tem a realizar na Região, para que o povo tenha qualidade de vida e de direitos.

Outro aspecto bastante visível é que a Região do Araguaia possui uma territorialidade bem diferenciada dos que escrevem muitos autores que se valeram de pesquisas in loco e colocam a Região do Araguaia como um todo, pois há uma grande discrepância entre municípios considerados por muitos como desenvolvidos e os municípios do Norte Araguaia que está aquém desse desenvolvimento.

 

 

Referencias Bibliográficas

 

ALVES, Leonice Aparecida de Fátima; GOMES, Maria Henriqueta dos Santos. Murais do Araguaia: Uma primeira aproximação. In História, Terra e Trabalho em Mato Grosso: ensaios teóricos e resultados de pesquisas/ org. Marluza Marques Harres; Vitale Jaononi Neto. – São Leopoldo: Oikos; Unisinos; Cuiabá: UFMT, 2009.

ANDRADE, Manuel Correia. A questão do território no Brasil. São Paulo: Hucitec; Recife; IPESPE, 1995.

BERNARDES, Júlia Adão; ARRUZZO, Roberta Carvalho (org.).  A Geografia da Soja III. Novas Fronteiras da técnica no vale do Araguaia. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 2009.

CASALDÁLIGA, Pedro. Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a Marginalização Social. Mimeografado. São Félix do Araguaia, 1971.

GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Amazônia, Amazônia. São Paulo. Editora Contexto, 2001.

MORENO, Gislaine; HIGA, Tereza Cristina Souza (org.) - Geografia de Mato Grosso: Território, Sociedade e Ambiente. - Cuiabá. Editora Estrelinhas, 2005.

NOGUEIRA, Margarete. Uma luz para o povo Tapirapé. A história de vida das irmãzinhas de Jesus que vivem com o povo Tapirapé desde 1952. Monografia de graduação apresentada ao curso de História da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus Confresa, 2007.

OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Amazônia: Monopólio, Expropriação e Conflito. Campinas – SP. Editora Papirus, 1987.

SILVA, Aureci Barros da. A Formação da cidade de Confresa a partir da memória. Década de 1970-1980. Monografia de graduação apresentada ao curso de História da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus Confresa, 2007.

SILVA, Dailir Rodrigues da. O Discurso do Progresso e Desenvolvimento no Processo de ocupação da Microrregião Norte Araguaia. Monografia apresentada a UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, como conclusão do curso de Geografia no Projeto Parceladas, Luciara-MT, 2002

SOARES, Luiz Antonio Barbosa. Trilhas e Caminhos: Povoamento não indígena no vale do Araguaia – parte nordeste do Estado de Mato Grosso, na primeira metade do séc. XX. Dissertação de Mestrado, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, 2004.

 

Entrevistas:

VARGAS, Rodrigo. Entrevistando D’ Pedro. Disponível em www.prelaziadesaofelixdoaraguaia.com.br

VIANA, Nilton. Onde não há Utopia, não há futuro.  Redator da Revista Brasil de Fato. Disponível em www.prelaziadesaofelixdoaraguaia.com.br

 



[1] Mestranda em Geografia no programa de Pós-graduação Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Bolsista da Capes para iniciação cientifica.

[2] Professor Doutor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso UFMT e titular da Disciplina Metropolização e Regionalização do curso de pós-graduação da UFMT e orientador do presente artigo.

[3] Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso.

[4] Conceito utilizado por D’ Pedro Casaldáliga, primeiro bispo e bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, ao se referir que a América é toda terra indígena. Ameríndia é sinônimo de América Índia.

[5] Incentivada pelo governo militar de Getúlio Vargas, buscando progresso e desenvolvimento através de ocupação de áreas vazias.

[6] Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social, criado pela Lei nº 1.628 de 20 de junho de 1952.

[7] Iniciada em 1940 pelos irmãos Villas Boas e que culminou a criação da maior reserva indígena do mundo a Reserva do Parque Nacional do Xingu.

[8] Operação Amazônia Nativa.

[9]Conselho Indigenista Missionário.

[10] Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

[11] Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, criada em 27 de outubro de 1966, pala Lei nº 5.173.

[12] Conforme informações contidas no site da Prelazia pode-se referenciar em termos bíblicos os pobres como o curvado, o oprimido, o escravo, o perseguido, o cativo, os sem esperanças, não se tratando apenas do individuo, completando uma coletividade mais ampla, como as sociedades indígenas, os afro-americanos, os posseiros, os peões, os camponeses sem terra, os operários, os desempregados e subempregados, os marginalizados e aglomerados urbanos sem nenhuma estrutura, entre outros.


Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.