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ENCUENTRO HUMBOLDT
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Asunto:[encuentrohumboldt] 214/11 - Espaço Guarani Mato-Grossense: Ocupação e Confinamento
Fecha:Martes, 13 de Diciembre, 2011  10:07:15 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

Espaço Guarani Mato-Grossense: Ocupação e Confinamento

 

Salvadora Cáceres Alcântara de Lima

Doutoranda pela Universidade Federal de Goiás/UFG/IESA

 

RESUMO - O artigo trata a respeito do povo Guarani que vive no município de Dourados Mato Grosso do Sul, região de fronteira do Brasil com o Paraguai. A população indígena que vive nesse município é bastante significativa, são cerca de treze mil pessoas das etnias Guarani/Ñandeva, Guarani/Kaiowá e Terena, que compartilham o mesmo espaço geográfico divididos entre duas aldeias a Jaguapiru e a Bororó. Analisamos o processo histórico que levou a expulsão de grupos Guarani de seus territórios tradicionais e a história de seu confinamento em conseqüência da expansão das frentes de colonização agrícola, principalmente, a partir da década de 1930. Quando o governo brasileiro passou a apresentar o espaço Mato-Grossense como uma nova possibilidade para a expansão da fronteira agrícola e de pecuária, com abundância de mata nativa, madeira e terras férteis, fator que levou muitos migrantes a se deslocarem para essa região, impactando diretamente a organização sociocultural e territorial do povo Guarani.

Palavras-chave: povo Guarani, confinamento, espaço Mato-Grossense

 

 

Space Guarani Mato-Grossense: Occupation and Confinement

ABSTRACT - The article treats regarding the people Guarani that lives in the district of Dourados Mato Grosso do Sul, area of border of Brazil with Paraguay. The indigenous population that lives in that district is many significant, they are about thirteen thousand people of the etnias Guarani/Ñandeva, Guarani/Kaiowá and Terena, that share the same geographical space divided among two aldeias Jaguapiru and Bororó. We analyzed the historical process that took the expulsion of groups Guarani of their traditional territories and the history of her confinement on consequence of the expansion of the fronts of agricola colonization, mainly, starting from the decade of 1930. When the Brazilian government started to present the space Mato-Grossense as a new possibility for the expansion of the agricultural border and of livestock, with abundance of native forest, wood and fertile lands, factor that it took many migrants the if they move for that area, impactando directly the sociocultural and territorial organization of the people Guarani.

Key Words: people Guarani, confinement, space Mato-Grossense.

 

 

Espacio Guaraní Mato-Grossense: Ocupación y Confinamento

RESUMEN - El articolo trata la respeito del pueblo Guaraní que vivir en el  município de Dourados Mato Grosso Sul, region del frontera del Brasil con Paraguay. La población indígena que vivir em eso município el bastante significativa, cerca de treze mil persona de las etnias Guarani/Ñandeva, Guarani/Kaiowá e Terena, que compartilham del los mismo espacio geográfico divididos entre dos aldeas y Jaguapiru y la Bororó. Analisamos el proceso histórico que levou la expulsión del grupos Guaraní del su territórios tradicionais y la historia de su confinamento em conseqüência de la expansão por la frentes del colonización agricola, principalmente, después de la década de 1930.  cuando el gobierno brasileño passou apresentar el espacio Mato-Grossense como una nueva possibilid para la expansão de la frontera agrícola e del pecuária, com abundancia del mata nativa, madeira el tierras férteis, fator que levou muchos migrantes a se deslocarem para esa región, impactando directamente la organización socioculturales y territorial del pueblo Guaraní.

Palabras-Clave: Pueblo Guaraní, confiamento, espacio Mato-Grossense

 

Os Guarani/Kaiowá

De acordo com SCHADEN (1974) os povos Guarani do Brasil meridional são filiados ao tronco lingüístico Tupi-guarani e se subdividem em Kaiowá, Ñandeva e Mbyá, a exceção dos Mbyá, os demais vivem em diferentes aldeias situadas no interior de Terras Indígenas Mato-Grossense.

Os Kaiowá se autodenominam como “autênticos Guarani” e os Ñandeva, são conhecidos apenas por Guarani, distinguindo-se dos Kaiowá. Para SCHADEN (1974, p. 02), “a divisão se justifica por diferenças, sobretudo lingüísticas, mas também por peculiaridades na cultura material e não material”.

A classificação em subgrupos ou parcialidades foi tratada pelos cronistas a partir do século XVI e, posteriormente pelos historiadores, sob o ponto de vista da ocupação territorial. Apenas no século XX, passou a interessar aos etnógrafos para análises lingüísticas, de parentescos e de rituais.

No tempo da conquista colonial, a ocupação dos espaços para o uso das unidades familiares Guarani, eram designadas pelo nome dos rios que as circundava ou de seu líder principal:

En los siglos XVI y XVII, los españoles, a medida que avanzaban en sus viajes de exploración y en sus expediciones de conquista – y los misioneiros em su ‘conquista espiritual’ – encontraron a los Guarani formando conjuntos territoriales más o menos extensos, que llamaron ‘provincias’, reconocidas por su nombres propios: Cario, Tobatin, Guarambaré, Itatin, Mbaracayú, gente del Guairá, del Paraná, del  ruguai, los del Tape....Estas províncias abarcaban un vasto território que iba de la costa atlântica al sur de São Vicente, em el Brasil, hasta la margen derecha del rio Paraguay, y desde el sur del rio Paranapanema y del Gran Pantanal, o lago de los Jarayes, hasta las isla del Delta junto a Buenos Aires (MELIÁ, 1991, p. 15)

Os conjuntos territoriais chamados de províncias, eram designados, pelos Guarani, por Guára – que significa “procedente ou morador de”. A procedência de uma pessoa ou de seu grupo estaria relacionada à morfologia da paisagem local. Assim, aquele que morava perto da serra era chamados de yvyty riguára, e os que viviam próximos à cabeceira de um rio seriam os yry kuapeguára (CHAMORRO, 2008).

Segundo CLAVAL (2007), a nomeação dos lugares faz parte do processo de apropriação e uso do espaço geográfico e que não é feito somente para ajudar as pessoas a orientar-se nos lugares, trata-se de uma tomada de posse simbólica do espaço ocupado.

A relação dos povos Guarani com o espaço vem passando por transformações desde o período colonial. Naquela época, se formaram dezenas de reduções jesuíticas nas províncias paraguaias do Guairá (parte do Paraguai, São Paulo e Paraná atuais); do Itatin (parte do atual Mato Grosso do Sul e Paraguai oriental); do Paraná (parte do Paraná e de Santa Catarina); e Tapes (Parte de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraguai e norte da Argentina),

Acredita-se que os atuais Guarani Kaiowá ou pai-taviterã seriam ascendentes dos antigos povos Guarani da província do Itatin e os Guarani Ñandeva seriam oriundos dos povos das províncias do Paraná e do Guairá (MELIÁ, 1976)

Com a demarcação da fronteira entre Brasil e o Paraguai (Tratado de Madri, 1750) os Guarani que não se submeteram ao sistema de reduções vão aparecer nos diários das expedições demarcatórias e nos relatos de viajantes de forma genérica, como monteces ou caagua-monteses (em espanhol quer dizer monte, florestas ou selva) como pessoas que viviam preferencialmente, em áreas de matas e que falavam uma língua que os colonizadores interpretaram como sendo a língua mais usada na costa brasileira:

Esses monteces ou caagua, são aqueles índios que politicamente não foram ‘reduzidos’, categoria pertinente a uma situação histórica específica e que serve para designar um modo de vida como contraposto ao modo de vida que a colônia tinha vindo instaurar (MELIÁ, 1976, p. 169).

Somente no século XIX e XX, os estudos etnográficos realizados por NIMUENDAJÚ (1914); METRAUX (1927); SCHADEN (1974) entre outros, ampliaram o conhecimento sobre os povos Guarani, que passaram a ser identificados em função de suas especificidades lingüísticas, costumes, rituais e outras particularidades na organização da vida social.

A divisão dos subgrupos passou a ser observada, também, considerando a disposição dos lugares e regiões que habitam atualmente. Esses lugares corresponderiam o mesmo amplo espaço geográfico descrito pelos cronistas durante o período da conquista.

Atualmente, a maior concentração de Guarani/Kaiowá encontra-se no Estado de Mato Grosso do Sul. Suas áreas de domínio e ocupação compreendem pequenas áreas situadas em uma faixa de terras de cerca de 150 km de cada lado da região de fronteira do Brasil com o Paraguai. Onde são conhecidos por Pai-Tavyterã, denominação utilizada no Paraguai e Kaiowá como é chamado no Brasil, particularmente nas aldeias de Dourados/MS.

O nome Kaiowá deriva do termo ka’a o gua, que significa procedente da floresta – indicado por gua que é uma forma abreviada de guará, da mata ka’a. Receberam essa denominação genérica, por se encontrarem em áreas de matas contíguas ao longo do rio Paraná e às cordilheiras do Amambaí e do Maracaju (CHAMORRO, 2008).

Os chamados Guarani Ñandeva são conhecidos também como Ava Chiripa, principalmente no Paraguai. O termo ñandeva – o que somos nós os que são dos nossos –, é autodenominação usada pelas comunidades que falam o dialeto registrado por CURT NIMUENDAJU com o nome de Apapokuva (SCHADEN, 1974).

Segundo esse autor, no primeiro quartel do século XIX, grupos Ñandeva se deslocaram do Oeste brasileiro em direção ao sul e à região sudeste do Brasil onde se estabeleceram no litoral e no interior paulista.

Dessa movimentação surgiram diversos assentamentos como é o caso da aldeia de Araribá/SP, onde NIMUENDAJU esteve por muito tempo. As aldeias de Jacareí ou de Porto Lindo, localizada no extremo sul de Mato Grosso do Sul corresponderiam às indicações de NIMUENDAJU, como sendo o local de onde teria partido as “migrações” Apapokuva por volta de 1870.

A história dos Guarani em território paulista é bastante conhecida graças ao trabalho de Nimuendaju e de outros pesquisadores. Sabe-se que entre eles não há remanescentes dos antigos Tupi da costa, desaparecidos já no período colonial. Ligam-se às correntes migratórias, provenientes do Oeste, que se vêm sucedendo desde o primeiro quartel do século passado (...) Nimuendaju indica, entre os grupos que chegaram ao litoral, a horda dos Tañiguá (1820), a dos Oguahuíva (1820), a dos Apapokuva (1870), e, ainda um grupo recente, vindo em 1912 (SCHADEN, 1974, p. 05).

Os Guarani/Kaiowá e os Guarani/Ñandeva são os dois subgrupos que estão presente nas aldeias de Dourados/MS e em boa parte do extremo sul do Estado. Muitos deles são descendentes de famílias que percorreram os Estados de São Paulo, Paraná e outros países como o Paraguai, antes de serem confinados em Dourados/MS.

Os Terena

A etnia Terena forma a segunda maior população indígena do Estado de Mato Grosso do Sul. São povos que descende dos Txané-Guaná e fala um dialeto da família lingüística Aruák (AZANHA, 2008).

Atualmente, vivem em diversas aldeias situadas em vários municípios da bacia do alto pantanal, cujo espaço de mobilidade compreende os municípios de Miranda/MS, Sidrolândia/MS, Aquidauana/MS, Anastácio/MS, Dois Irmãos do Buriti/MS, Bonito/MS, Rochedo/MS, passando por Campo Grande capital de Mato Grosso do Sul e Dourados/MS.

O termo Terena teria surgido ainda no contexto colonial, para designar a população de vários subgrupos pertencentes ao tronco lingüístico Aruák, que foram registrados em documentos históricos como Etelenoe, Layana e Quiniquinau. Assim, a denominação Terena funciona como uma categoria que abarca diversos subgrupos ou etnias aparentadas lingüística e culturalmente (PEREIRA, 2009).

A autodenominação Terena aplica-se hoje a todos que se reconhecem e que são reconhecidos como tal. Além da filiação consangüínea, o compartilhar da solidariedade étnica é outro quesito valorizado e que compõem o modo-de-ser Terena.

No passado, os ancestrais da atual comunidade Terena teriam ocupado um vasto território que compreendia a região do Chaco paraguaio de onde teriam “migrados”, ao longo do século XVIII, em direção aos locais onde hoje se encontram (AZANHA, 2001).

Algumas características socioculturais que ligam o povo Terena à tradição cultural dos povos Aruák, evidenciadas na historiografia AZANHA (2001); OLIVEIRA (1986); PEREIRA (2009) referem-se ao papel relevante desempenhado pela prática da agricultura na sua economia e, a outra é caracterizada pela grande abertura da comunidade para exterioridade.

A intensa sociabilidade teria favorecido os empréstimos culturais e lingüísticos, facilitando a adaptação do grupo a ambientes diversos. Tal tendência também teria facilitado o domínio do grupo sobre outros povos, considerados inferior, como ocorreu com os Guarani/Kaiowá de Mato Grosso do Sul.

A organização sociocultural e lingüística do povo Terena vem passando por transformações desde o advento da Guerra do Paraguai (1864-1870). Após o conflito, começa um período conhecido por “tempo da servidão” PEREIRA (2004) quando se inicia a dispersão da comunidade e a perda de suas bases territoriais tradicionais.

As primeiras reservas indígenas demarcadas no Estado de Mato Grosso do Sul, já no contexto de uma política indigenista conduzida pelo Serviço de Proteção ao Índio/SPI, foram definitivas para o reagrupamento de muitas famílias Terena que viviam dispersas após a guerra.

A literatura registra a chegada de grupos Terena na região de Dourados por volta de 1920, quando foram colocados em contatos com os Guarani/Kaiowá com o propósito de trocar experiências sobre técnicas agrícolas. Os objetivos do órgão indigenista, SPI e depois da FUNAI, era inseri-los na economia regional como reserva de mão-de-obra.

Na década de 30, um grupo de índios Terena (família Aruak), habitante de uma região mais ao norte do território guarani, foi levado para a área indígena de Dourados pelo antigo SPI, com objetivo de ‘civilizar’ os Guarani-Kaiowá ali localizados (MANGOLIN, 1993, p. 23)

Por serem considerados hábeis agricultores e afeito à sociabilidade, os Terena foram vistos pelo Serviço de Proteção ao Índio como provável “civilizador” dos Guarani – considerados “raça indolente”. Esta medida levou muitas famílias, Terena, a se deslocarem para a região e a viver em território Guarani, situação evidenciada hoje na Terra Indígena Francisco Horta Barbosa, em Dourados/MS.

Também, há um grupo expressivo de Terena vivendo na cidade de Campo Grande/MS, capital de Mato Grosso do Sul onde, nas últimas décadas, surgiram duas aldeias indígenas – Marçal de Souza e Água Bonita –, as quais compõem a chamada “aldeia urbana” (PEREIRA, 2009, p. 24)

A situação dos Terena urbanos é semelhante à de outros povos dentre eles a dos Guarani que vivem, individualmente ou em grupos, nas periferias da cidade de Dourados, onde tentam reproduzir e manter traços mínimos de sua identidade cultural e lingüísticas por meio das relações de parentescos.

Terra Indígena de Dourados: composição étnica

A Terra Indígena de Dourados Francisco Horta Barbosa foi criada pelo Decreto Estadual nº 401, de 3 de setembro de 1917 (BRAND, 1997), com uma área de 3.600 ha, localizada entre os municípios de Dourados e de Itaporã. Antes mesmo da demarcação ocorrida, em 1965, a área reservada perdeu 61 hectares de terras para proprietários circunvizinhos, restando 3.539 ha, sendo que a maior parte pertence ao município de Dourados.

Situada ao norte do município de Dourados/MS distante 5 km do perímetro urbano, a TI Francisco H. Barbosa é cortada pela rodovia/MS156 e margeada por chácaras e fazendas produtoras de soja, milho e outros produtos agrícolas.

Terra Indígena de Dourados: Francisco Horta Barbosa

A TI Francisco H. Barbosa é composta pelas aldeias Jaguapiru e a Bororó. Onde vivem aproximadamente 13 mil pessoas das etnias Guarani/Ñandeva, Guarani/Kaiowá e Terena além de alguns não-índios casados com indígenas (SEMED, 2011).

A expressiva concentração demográfica em um espaço físico reduzido levou alguns estudiosos CHAMORRO (2008); PEREIRA (2004); BRAND (1997) a caracterizar a Terra Indígena de Dourados bem como as outras áreas demarcadas na primeira metade do século XIX, como áreas de confinamento humano. Já que a exigüidade do território para uma população crescente não permite a sua reprodução física e cultural segundo seus costumes e tradições como prevê o Art. 231 da Constituição Federal.

Contexto do confinamento Guarani

A conquista e ocupação do espaço Mato-Grossense, pelas frentes colonizadoras, resultaram de movimentos expansionistas distintos. LIMA (2006); BRAND (1997); entre outros/as afirmam que a primeira fase de ocupação se deu após a Guerra da Tríplice Aliança, que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, no período de 1864 a 1870.

A erva-mate foi a primeira riqueza natural extraída do território Guarani, com a instalação da Cia Matte Laranjeira, no final do século XIX, iniciando o povoamento por não-índios das terras que hoje pertencem ao Estado de Mato Grosso do Sul.

Thomaz Laranjeira fazia parte da Comissão que atuava na demarcação dos limites fronteiriços do Brasil com o Paraguai, concluída em 1874. Por conhecer bem a região e o potencial da erva-mate nativa, Thomaz Laranjeira obteve do governo federal, em 1882, permissão para a exploração da erva-mate nesta vasta região, área que foi sendo sucessivamente ampliada, tendo ultrapassado os 5.000.000 ha, em 1895, tornando-se um dos maiores arrendatários do período republicano em todo o Brasil (ARRUDA, 1986).

Embora a atividade extrativista tivesse provocado impacto na organização sociocultural e territorial das comunidades Guarani – promovendo o deslocamento de inúmeras aldeias em virtude da função itinerante da exploração constante de novos ervais –, não havia, ainda, disputa pela posse da terra indígena já que a empresa, Matte Laranjeira, visava apenas o monopólio da exploração dos ervais.

O processo de extração da erva-mate se concentrava na poda, colheita dos galhos e folhas das árvores sem prejudicar as outras espécies da flora regional. A mão-de-obra ervateira, segundo ARRUDA (1986), teria sido predominantemente paraguaia. Porém, outros autores BRAND (1997); SEREJO (1986) afirmam que a participação Guarani na composição da mão-de-obra foi bem maior do que sugere as publicações sobre a Cia Matte Laranjeira.

Segundo o relatório de GENÉSIO PIMENTEL BARBOZA de 1927, servidor do SPI, citado por BRAND, (1997, p. 65): “A proporção de índios Caiuás empregados na elaboração da herva, sobre o operário (não-indígena), é em média, de 75%, na região de Iguatemi”. Informa ainda que nos demais estabelecimentos visitados “a quantidade de índios que nelles trabalham é sempre superior ao trabalhador paraguaio”.

Para o autor, a ausência de referenciais mais consistentes sobre a participação Guarani, como mão-de-obra, talvez possa ser explicada pelo provável ocultamento no meio dos paraguaios, falando a mesma língua e com costumes aparentemente próximos, estariam menos sujeitos a preconceitos.

A Companhia Matte Laranjeira começou a entrar em decadência por volta de 1912. Quando tratava da renovação do contrato de arrendamento. Mesmo assim, a empresa atingiu seu auge em 1920 (ARRUDA, 1986).

Com a criação do Território de Ponta Porã, em 1943, o governo brasileiro anulou, definitivamente os direitos da empresa dentro do território nacional, rompendo com o controle estrangeiro em uma região de fronteira política onde a população e a língua era predominantemente guarani.

Ainda nas primeiras décadas do século XX, já dentro dos princípios de uma integração do mercado nacional, o governo brasileiro vinha construindo as bases físicas e institucionais no sentido de favorecer a expansão da fronteira agrícola, sem alterar, no entanto, a estrutura agrária tradicional.

O processo de demarcação das Terras Indígenas foi o fato mais expressivo do projeto de colonização e civilização, posto em prática pelo indigenismo oficial. Cujo pensamento político e filosófico pouco se diferenciava daquela concepção que existia desde o início da colonização que era baseada no princípio da integração do indígena à sociedade nacional.

As primeiras reservas indígenas demarcadas no espaço Mato-Grossense ocorreram entre 1915 e 1928: Terra Indígena Benjamim Constant, no município de Amambaí/MS, criada em 1915, e que sofreu redução antes mesmo de ser medida e só foi restituída em 1928, com o nome de Reserva Limão Verde no mesmo município. Terra Indígena Francisco Horta Barbosa, no município de Dourados/MS, criada em 1917, mas obteve o titulo definitivo somente em 1965. Terra Indígena Tey-Cuê para os Kaiowá, no município de Caarapó/MS, criada em 1927. Em 1928, foram criadas mais quatro TIs: a do Porto Sassoró ou Ramada, hoje município de Tacuru/MS; Porto Lindo, no município de Japorã/MS, onde predomina os Guarani Nãndeva; Reserva de Pirajuy, no município de Paranhos/MS e Takuapery no município de Coronel Sapucaia/MS.

Terras Indígenas reservadas até 1928

Municípios

Ano

Terras reservadas

Extensão (ha)

Amambaí

1915

Benjamim Constant

2.438

Dourados

1917

Francisco Horta Barbosa

3.600

Caarapó

1927

Tey Cuê

3.595

Amambaí

1928

Limão Verde

2.438

Tacuru

1928

Porto Sassoro

1.923

Japorã

1928

Porto Lindo

1.650

Paranhos

1928

Pirajuy

2.118

Coronel Sapucaí

1928

Takuapery

2.475

Org, LIMA, 2011

 

Colônia Agrícola Nacional de Dourados

O processo de criação das reservas indígenas se acha diretamente relacionado com as políticas públicas direcionadas à ocupação do Oeste brasileiro a partir da ideologia de unificação nacional iniciada com o Estado-Novo (1937-1945) a chamada “Marcha para Oeste”, que culminou com a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados/CAND e de outros projetos de colonização particulares, intensificando os conflitos e forçando a uma reconfiguração fundiária em toda a região Sul Mato-Grossense, particularmente do território Guarani.

O Programa de colonização “Marcha para o Oeste” implantado promoveu a criação da Fundação Brasil Central, em 1943. Esse órgão visava planejar e coordenar o processo de desenvolvimento e ocupação de áreas desabitadas pelo homem branco nas regiões oeste e central do Brasil. Sob a influência da visão geopolítica militar, objetivava garantir a segurança da fronteira oeste do país.

A Fundação Brasil Central foi mais um instrumento político do Estado Novo no sentido de viabilizar a ocupação do território brasileiro e estimular o avanço das frentes de expansão sobre os territórios indígenas e a ocupação de suas terras (BORGES, 2000, p. 79)

Para ocupar os chamados “espaços vazios”, o Estado brasileiro implantou a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, em Ceres/GO, no ano de 1941, e a Colônia Agrícola Nacional de Dourados/MS – CAND, em 1943 que, segundo LENHARO (1986, p. 56), ocorreria somente em junho de 1948, quando o governo federal demarcou a área e os limites para a sua implantação.

A criação da CAND e de outras colônias agrícolas transformou a porção meridional do Estado de Mato Grosso do Sul numa das principais áreas de atração populacional, principalmente de famílias pobres oriundas do nordeste brasileiro que receberam, gratuitamente, lotes delimitado em áreas de 20 a 30 hectares LIMA, (2006). Simultaneamente ocorreu a destruição de inúmeras aldeias Guarani provocando a dispersão de seus moradores.

Ao tratar do “impacto da perda da terra sobre a tradição Guarani/Kaiowá”, (BRAND, 1997), caracteriza o período de 1950 a 1970, de esparramo – sarambipa –, quando famílias extensas teriam sido desarticuladas devido o loteamento de suas aldeias. Esse processo atingiu seu auge na década de 1980.

Os Guarani/Kaiowá foram, compulsoriamente confinados dentro das Reservas, extinguindo qualquer alternativa de oguata (caminhar), ou de buscar outros refúgios. Esse processo atingiu seu auge durante a década de 1980 (BRAND, 1997, p. 90).

O processo de colonização e os estímulos migratórios provocaram mudanças significativas na configuração do espaço Mato-Grossense com a predominância de pequenas e médias propriedades, nas áreas de colonização em convívio com a grande propriedade rural, em grande parte vinculada à pecuária e que seria, em parte, incorporada a produção comercial da soja, nos anos setenta do século XX.

O discurso social presente nesses projetos colonizadores refletia, claramente, uma preocupação geopolítica articulada a outros objetivos: a) garantir a ocupação territorial nas áreas de fronteiras com os países vizinhos; b) desafogar áreas de possíveis conflitos sociais e;c) confirmar a parte austral mato-grossense como extensão do sudeste (ABREU, 2001, p. 59): a)

Além da criação da CAND, várias outras colônias particulares surgiram nessa época como: Companhia Viação São Paulo Mato-Grosso; Companhia Moura Andrade e Sociedade de Melhoramentos e Colonização SOMECO S.A. Como mostra (PEBAYLE & KOECHILIN, 1981):

Assim nasceram, durante os anos 50, os centros de colonização da Companhia Viação São Paulo Mato Grosso, que comprou do theco Jan Bata cerca de 6000 km² de terra hoje repartida entre os municípios de Bataiporã, Anaurilândia e Bataguaçu. (...) A Companhia Moura Andrade, depois de haver colonizado a região de São Paulo, a qual deu seu nome (Andradina) encontrou nas altas bacias dos rios Samambaia, São Bento e Inhanduí-guaçu uma outra razão de negócio e de culto da personalidade (Nova Andradina é a sede desta colonização). A Companhia Melhoramentos e Colonização S.A ou SOMECO devia, por sua vez, lotear as terras florestais do vale médio e inferior do rio Ivinhema, entre os domínios de Bata e a Colônia Agrícola de Dourados. Todas essas companhias e os pequenos centros de colonização mais modestos que os circundavam (em Naviraí, Caarapó, Rio Brilhante) conheceram uma evolução mais ou menos similar (PEBAYLE & KOECHILIN, 1981, p. 12). 

O processo que deu origem às cidades sede desses municípios corresponde a uma época de intensa colonização pública e privada, que deixou suas marcas impressas no espaço e na memória de seus habitantes.

A junção de duas línguas reflete a forte influência étnica e histórica na formação desses municípios, evidenciada na nomeação dos lugares: uma própria do lugar - o guarani e outra que veio de fora.

Os nomes próprios desses lugares são herança cultural e lingüística que tem sido perpetuado pelos nomes que essas cidades receberam em homenagem às pessoas que se apropriaram do território. É o caso de Batai-porã e Bata-guaçu que significa bonito, belo e grande, poderoso, respectivamente. Seria uma forma de cultuar e conservar uma memória positiva do conquistador.

Em nome do bom, belo, poderoso em fim da “civilização”, tenta-se silenciar, ocultar os conflitos sociais e as disputas territoriais geradas com a chegada dos colonizadores. Talvez estivesse ai a primeira fronteira entre civilizações no sentido apontado por MIGNOLO (2003) quando a diferença étnica se traduziu em desigualdade, opressão e extermínio.

No caso de Dourados, aspectos importantes de sua história estão impressas na toponímia da cidade, representadas por nomes de pessoas que ajudaram na construção da cidade e na implantação da Terra Indígena Francisco Horta Barbosa. Um exemplo disso é a nomeação de algumas ruas da cidade como: Dr Nelson de Araujo, Albert Maxwell, Esthon Marques como uma homenagem a professores e médicos missionários que atuaram na cidade de Dourados, na área de educação, assistência à saúde e à evangelização de grupos Guarani/Kaiowá e Terena.

Um exame mais detalhado dos nomes das cidades citadas por (PEBAYLE & KOECHILIN, 1981) e de outros municípios do Estado pode revelar os valores ideológicos que sustentavam o poder político e econômico das elites da época, que transposto culturalmente, é uma forma de fazer a manutenção desse poder.

Para a conclusão desse artigo, cabe ressaltar que o processo de conquista e ocupação do Oeste brasileiro ocorreu em consonância com as transformações estruturais da economia do Sudeste. A criação de áreas reservadas para a população indígena foi uma estratégia utilizada pelo Estado para a liberação das terras para a colonização.

Nesse contexto, a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, na década de 1940, foi o resultado de políticas públicas de planejamento dirigido, fundamentado no ideário desenvolvimentista de integração econômica do espaço brasileiro. O discurso geográfico relacionado ao desenvolvimento para o país visava incorporar as novas terras ditas vazias e desocupadas para aumentar a produção de produtos primários necessários ao processo de industrialização vivido naquele momento pelo país.

Nesse contexto, o modo como foi sendo recortadas as Terras Indígenas no espaço Mato-Grossense e a trajetória sócio-espacial dos diferentes grupos étnicos que compõem a Terra indígena de Dourados resultaram de um projeto claro de colonização e civilização que desconsiderou as especificidades étnica, cultural e lingüística ao negar-lhes o direito às terras que tradicionalmente ocuparam.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ABREU, Silvana de. Planejamento Governamental: a SUDECO no espaço mato-grossense. Contexto, propósitos e contradições. São Paulo, USP, 2001 (Tese Doutorado)

ARRUDA, Gilmar. Heródoto. In. Ciclo da erva-mate em Mato Grosso do Sul 1883-1947. Campo Grande: Inst. Euvaldo Lodi, 1986 (série Historia. Coletânea)

AZANHA, Gilberto. As terras indígenas Terena no Mato Grosso do Sul. Disponível em: http://www.trabalhoindigenista.org.br/papers. Acessado em 05/2008

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Ponencia presentada en el XIII Encuentro Internacional Humboldt. Dourados, MS, Brasil - 26 al 30 de setiembre de 2011.  






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