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Asunto:[encuentrohumboldt] 161/11 - A Redes sociais e relações internacionais: estudo de caso das Global Union Federations (GUFs)
Fecha:Sabado, 8 de Octubre, 2011  02:49:01 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

A Redes sociais e relações internacionais: estudo de caso das Global Union Federations (GUFs)

 

Espósito, Katiuscia Moreno Galhera

 

PPGRI-STD Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” (UNICAMP – UNESP - PUC-SP)

CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)

 

Resumo

As empresas tornaram-se crescentemente internacionalizadas a partir da década de 1970. Muito se disse, desde então, sobre o fim do sindicalismo tradicional, de base local/ nacional. Neste cenário tornaram-se mais sofisticadas as estratégias empresariais de boicote aos sindicatos e o enfraquecimento da organização coletiva, esta baseada preponderantemente em territórios nacionais.

Os sindicatos, por sua vez, tendo notado a sua crescente debilidade e assistido à queda constante das suas taxas de filiação pelo globo, têm procurado se organizar como as multinacionais, em âmbito transnacional, através de redes de informação e mobilização.

O artigo visa explorar tais respostas dadas pelo trabalho em rede na figura das Federações Internacionais de Sindicatos, conhecidas internacionalmente como Global Union Federations (GUFs).

Ao final esperamos demonstrar a ação das redes internacionais de sindicatos, consideradas inovadoras, e concluir se suas ações são efetivas quanto aos ganhos reais de condições de trabalho e salários frente às empresas multinacionais.

Palavras-chave: redes, globalização, sindicalismo e Global Union Federations.

 

Abstract

Companies have become increasingly internationalized since the 1970s. Much has been said about the end of traditional unionism locally and nationally based. Companies have done also more sophisticated strategies to boycott and to make weaker the collective organization of trade unions, these based primarily on national territories.

The unions, in turn, who watched the weakness of its strength and the decline of its membership fees in the world, have been looking for to organize as well as the companies, by transnational mobilization, through networks of information.

The article aims to explore this mobilization, analyzing the Global Union Federations (GUFs) a type of networking syndicalism.

We hope to demonstrate the action of international networks of unions, considered an innovative, and conclude if their actions are effective to improve work conditions and wages in relation to multinational companies.

Key-words: networks, globalization, syndicalism and Global Union Federations.

 

 

Introdução

Vivemos em redes. Acordamos e utlizamo-nos, no café da manhã, de produtos industrializados fabricados por empresas multinacionais que possuem unidades em todos os continentes. Ligamos a televisão e assistimos ao jornal, desenvolvido por um canal de televisão que possui parcerias com outros canais, de modo que a informação do mundo chegue até nossas casas. No trabalho, acessamos a internet, que na própria definição do dicionário Houaiss é uma “rede de computadores”. Ao refletir por um instante, damo-nos conta de quão internacionalizada, interconectada e global é a vida da maioria dos cidadãos comuns.

A vida em rede se reflete, pois, nas diversas facetas de nosso cotidiano. E assim o é no âmbito do trabalho. Não seria surpresa, portanto, que os trabalhadores organizados, os sindicalistas, também se coordenem em rede.

Muitos autores, como Boaventura de Sousa Santos e Peter Waterman, dizem que o sindicalismo em rede, seja em sua vertente internacional ou transnacional, é o futuro e a sobreviência do movimento operário. Outros, como Robert Cox, o apontam como uma resposta criativa e original às estratégias de achatamento do salário desenvolvidas pelas empresas multinacionais, como Robert Cox. Há ainda aqueles que destaquem a produção descentralizada e a eficiência da produção, distribuição e gestão da empresa em rede em detrimento da estagnação e localidade do trabalho, como Manuel Castells. Por fim, existem aqueles que apontam os aspectos positivos e negativos do sindicalismo em rede nos processos de globalização-regionalização, como Tullo Vigevani.

O presente artigo tem como objetivo apontar a bilbiografia que aborda o tema das redes e, mais especificamente, das redes de sindicatos, sejam elas desenvolvidas no plano regional, como é o caso do MERCOSUL (Mercado Comum do Cone Sul); no plano internacional, como é o caso da Sigtur (Southern Initiative on Globalisation and Trade Union Rights); e no plano transnacional, como na rede de trabalhadores da Saint-Gobain, apresentadas, respectivamente, por Vigevani, Santos e Cox.

Este trabalho é divido cinco partes. Na primeira, pretendemos tecer uma breve história do sindicalismo e das relações entre capital e trabalho no mundo, desde a Revolução Industrial até o sindicalismo em rede que propomos neste trabalho. A segunda parte trata de definições conceituais relativas à rede: as diversas concepções do tema, sua gênese e considerações a respeito do conceito aplicado ao objeto de estudo, as GUFs. A definição do que é uma Global Union é apresentada no terceiro item, assim como o seu escopo de atuação e considerações sobre o tema. Na quarta parte, pretendemos descrever o papel das redes sociais no contexto das GUFs e as diversas visões, pessimistas, otimistas e pendulares sobre a questão. Por fim, tecemos nossas considerações finais.

Este trabalho foi desenvolvido a partir da análise de bibliografia variada, que trata de temas como redes e redes sociais, sindicalismo (em rede, regional, internacional e transnacional) e Federações Internacionais de Sindicatos.

Assinalamos que este trabalho é um esboço de trechos da dissertação de mestrado da autora.

 

 

 

Breve histórico do sindicalismo e das relações capital-trabalho no mundo

A organização do trabalho em rede e o e-sindicalismo[1] refletem as relações entre capital e trabalho na Era da Informação (CASTELLS, 1999) de fins do século XX e início do século XXI. O sindicalismo transnacional não é, portanto, resultado puro da ideologia marxista, como o foi a organização da I Internacional Comunista.

O sindicalismo em rede é, por vezes, proativo e, por outras, reativo. Ação e reação à globalização, tema vago e impreciso, mas indispensável, para se tratar das relações humanas de nossos tempos.

Mas nem sempre o trabalho foi organizado em âmbito transnacional. Tratamos, neste artigo, das relações entre trabalhadores e empregados observadas na internacionalização das empresas e na descentralização da cadeia produtiva observadas principalmente nas empresas multinacionais a partir da década de 1970. A história, entretanto, mostra que houve épocas nas quais os trabalhadores sequer organizados eram. As transformações ocorridas primeiramente nas sociedades nacionais modificaram sua forma de agir.

A emergência do sindicalismo surge com o nascimento do capitalismo. Mais precisamente, com a I Revolução Industrial. O desenvolvimento da indústria e a confecção de máquinas demandavam produção em massa. A mão-de-obra gradativamente deixa de ser artesanal e familiar (Era Medieval) e passa a ser utilizada nas fábricas (SILVA, 2005: 57-63).

O primeiro movimento dos trabalhadores não era institucionalizado ou organizado: conhecido como Luddismo, graças ao operário Ned Ludd, quem deu início às revoltas, o Luddismo consistia em ataques diretos às máquinas, e não às condições de trabalho ou ao empregador.

Foi na Inglaterra, por lei promulgada em 1824 pelo Parlamento, onde foi permitido aos operários livre associação que surgiu o primeiro conjunto de trabalhadores organizados em sindicato, conhecidos como trade unions. A partir desse momento e ato, os sindicatos institucionalizados passam a se espalhar pelos países da atual Europa Ocidental. Mais tarde, surgirá nos Estados Unidos o sindicalismo de resultados, isto é, o movimento voltado predominantemente à melhora das condições de trabalho e salários dos trabalhadores, sem correntes ideológicas como o comunismo, o socialismo e o anarquismo.

A I Internacional Comunista (1864-1876) foi um evento que possuía o sindicalismo como centro dos debates. De um lado, Marx defendia o socialismo científico e; de outro, Bakunin advogava a favor o anarquismo. A II Internacional (1889-1914) também tinha a greve como centro do debate e quando do massacre dos trabalhadores de Chicago (1886). Foi na inauguração da Revolução Russa (1917), que se deu a III Internacional Comunista. A quarta e última Internacional ocorre em 1938 no México.

A despeito dos esforços para a consolidação dos movimentos dos trabalhadores, surge nos EUA, com Frederick Taylor (1856-1915), a “administração científica”. Como o próprio nome indica, Taylor buscava tornar menores os dispêndios de tempo, dinheiro e energia – meios – dos trabalhadores e da empresa, a fim de torná-los mais eficientes. O taylorismo dá o pontapé para o desenvolvimento do fordismo e para a sua própria consolidação.

O fordismo data de 1913, antes das duas Grandes Guerras. Essa nova forma de organização do trabalho e da fábrica torna viável a produção em larga escala. Assim, Henry Ford (1863-1947), tomando emprestado muitas das idéias de Taylor, racionaliza e parcela as tarefas, repetitivas, de modo a diminuir os gastos com tempo; introduz a esteira rolante que, antes controlada pelo operário, agora é programada; padroniza as peças, otimizando o tempo e a utilização do trabalho; automatiza progressivamente as fábricas, de modo a reduzir os gastos na produção (GOURNET apud MARCELINO, 2004: 48).

Tanto no taylorismo como no fordismo o movimento sindical, nesta fase já consolidado, se organiza nas empresas, dentro dos Estados nacionais, voltada aos resultados que trouxessem benesses aos trabalhadores filiados ao sindicato, e apenas a esses. Observa-se aqui, portanto, clara limitação do escopo deste tipo de sindicalismo. Esse modelo sindical, mais corporativista, será exportado para o mundo, ainda que sofra algumas alterações nos países onde é implantado, como no Brasil[2].

O welfare state, Estado de Bem-estar Social, foi uma consquista dos trabalhadores no seio dos governos das sociedades nacionais, notadamente da Europa social-democrata. O welfare garantia aos trabalhadores relativa segurança e estabilidade, na áreas da saúde, educação, mercado de trabalho e etc.

Entretanto, esses modelos se esgotaram. Tendo melhorado garantido melhoria real na qualidade de vida da classe trabalhadora nas sociedades industrializadas, o Estado de Bem-Estar Social sofria seu primeiro baque. (HOBSBAWN, 199: 397). A relação capital-trabalho mais uma vez se reiventou:

A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados, e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A economia flexível envolve rápidas mudanças dos padrões de desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas. (HARVEY, 1992: 140)

            O “toyotismo” ou “ohnismo” foi a forma encontrada, após a 2ª. Guerra Mundial, primeiro pelo Japão e depois pelo mundo de fazer sobreviverem as empresas. Os preceitos de Taiichi Ohno (1912-1990), porém, trouxeram consequências negativas para os trabalhadores: o funcionário polivalente e flexível encontra no sindicalismo corporativo ohnista dificuldade para exigir direitos e benesses efetivos.

            Além do toyotismo, novas formas do trabalho surgiram no final do século, como o aumento do número de trabalhadores informais, a terceirização (OLIVEIRA, 2006), os trabalhos de meio-período (CASTELLS, 1999 e FRIEDMAN, 2005), os trabalhadores temporários (POCHMAN & BORGES, 2002), mulheres no mercado (HARVEY, 1992 e FRIEDMAN, 2005) e oferta de mão de obra especializada com baixo custo, como serviços prestados na Índia (FRIEDMAN, 2005).

A empresa em rede e suas novas características transnacionaionais e internacionais, como a descreve Castells, são desafios amplos para a classe trabalhadora. É nessa mutação da relação capital-trabalho que surge o sindicalismo em rede.

Ilustramos com todos esses eventos que o sindicalismo, ou ao menos as idéias que de alguma forma se ligam aos movimentos sindicais, não são internacionais ou tendem ao transnacionalismo apenas na virada do século XX para o XXI. Propositivas ou reativas, o envolvimento dos trabalhadores, de forma institucionalizada, segue o curso do capital desde a Revolução Industrial.

Redes sociais: definições, gênese e considerações

            Os termos “redes” e “redes sociais”, apesar de altamente reconhecidos nos meios acadêmicos das Relações Internacionais (RI), não são definidos em dois importantes dicionários de RI[3].

            Com efeito, definir redes ou, tarefa ainda mais árdua, definir redes sociais, é um trabalho que não têm dedicação dos autores ou que são abordados au passant pelos especialistas. No senso comum, as redes sociais são diretamente ligadas ao que denominamos sites de entretenimento, como o LinkedIn, Facebook, MySpace, Orkut, Twitter e etc..

            Essa questão pode ser problematizada se tentarmos aprofundar e discutir as diversas definições realizadas por Costa (2005), o que faz crescer ainda mais o léxico e o debate relacionado à área:

Temas como “inteligência emergente” (Steven Johnson, 2001), “coletivos inteligentes” (Howard Rheingold, 2002), “cérebro global” (Heylighen et al., 1999), “sociedade da mente” (Marvin Minsk, 1997), “inteligência conectiva” (Derrick de Kerckhove, 1997), “redes inteligentes” (Albert Barabasi, 2002), “inteligência coletiva” (Pierre Lévy, 2002) são cada vez mais recorrentes entre teóricos reconhecidos. Todos eles apontam para uma mesma situação: estamos em rede, interconectados com um número cada vez maior de pontos e com uma freqüência que só faz crescer. (Costa, 2005, p. 236)

            Assim, para fins desse artigo, utilizaremos a definição de Croucher e Cotton (2009). Ambos os autores destacam, aliás, suas dificuldades para realizar tal tarefa:

Defining ‘networks’ is problematic as the term is used by GUFs in multiple and often confusing ways – sometimes to describe ad hoc groupings, sometimes committees and even to describe a GUF (Union Network International). By ‘network’ here we mean stable groups of union representatives from different units of a multinational company or sector who are in communication with each other (CROUCHER e COTTON, 2009, p. 69).

            Nosso objeto de estudo, as Federações Internacionais de Sindicatos, ou Global Union Federations fogem, portanto, das comunidades virtuais destinadas ora ao entretenimento, ora ao ativismo de um clique[4] e são formadas como redes de atores que utilizam ferramentas oferecidas principalmente pela internet – Skype, e-mails, websites e etc. - para a facilitação de sua comunicação e atividade. Como pode ser observado nessas redes, a mobilização é, em sua maioria, virtual. A ação, porém, é física; o piquete, por exemplo, continua sendo uma de suas práticas.

Abordaremos com mais detalhes o modus operandi dessas organizações nos próximos tópicos. Ressaltamo que o sindicalismo em rede se utiliza dos mesmos artifícios das multinacionais para maximizar seus ganhos, assim como as multi maximizam seus lucros: através das campanhas internacionais, comunicando-se, solidarizando-se, mobilizando-se também fisicamente. Essa conexão, também virtual, mas principalmente física, define as redes de sindicato que estamos tratando nesse trabalho.

A gênese da definição de redes, inclusive, refere-se a relações necessariamente físicas e sofre pequenas variações de acordo com a área de estudos das Ciências Humanas as quais nos referimos:

A noção de redes / redes sociais nasce na Antropologia Social. A primeira aproximação remonta à Claude Lévi-Strauss em sua análise etnográfica das estruturas elementares de parentesco (década de 40).

(...) A expressão rede social total cunhada por Radcliffe-Brown na década de 50, pretende caracterizar a estrutura social enquanto uma rede de relações institucionalmente controladas ou definidas.

(...) Em Ciências Sociais, rede seria o conjunto de relações sociais entre um conjunto de atores e também entre os próprios atores. Designa ainda os movimentos pouco institucionalizados, reunindo indivíduos ou grupos numa associação cujos limites são variáveis e sujeitos a reinterpretações (COLONOMOS, 1995).

(...) Para a Antropologia Social a noção de redes sociais busca apoiar "a análise e descrição daqueles processos sociais que envolvem conexões que transpassam os limites de grupos e categorias" (BARNES, 1987, p.163). (ACIOLI, 2007, p. 2-3).

Cabe assinalar que o elemento comum de todas as definições apontadas por Acioli é a informação, elemento fundamental também no caso das redes de sindicatos.

Federações Internacionais de Sindicatos/ Global Union Federations (GUFs): definição, escopo e considerações.

            As GUFs distanciam-se da definição tradicional de sindicatos conhecidas como os sindicatos horizontais, que atuam localmente para o atendimento das demandas dos trabalhadores de uma determinada fábrica ou empresa. Também possuem características distintas dos chamados sindicatos verticais, também conhecidos como centrais sindicais, tal como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que agregam diversos sindicatos horizontais.

            Apesar de se distanciarem dos sindicatos de base ou das centrais sindicais, as GUFs trabalham em conjunto com estes. Os sindicatos horizontais e verticais – nacionais – se articulam com as Federações Internacionais como forma de responder à economia cada vez mais globalizada e interconectada, tal como são as estratégias de empresas internacionalizadas desde a década de 1970.

Empresas internacionalizadas descentralizam seu processo produtivo. Sua marca mais evidente é, portanto, “a transição da produção em massa para a produção flexível, ou do ‘fordismo’ ao ‘pós-fordismo’” (PIORE e SABEL apud CASTELLS, 1999, p. 211). No pós-fordismo, a capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores é afetada negativamente. Suas respostas, assim, passam a ser dadas no mesmo âmbito, o internacional.

            Veja o exemplo da Gerdau. Apontada como a empresa mais internacionalizada do Brasil, a Gerdau tem no exterior o mesmo faturamento obtido no Brasil e busca driblar as barreiras protecionistas brasileiras (FOLHA, 2008). Podemos ainda acrescentar que outras manobras e iniciativas das empresas para aumentar e maximizar seus lucros em um mercado globalizado, tais como a exploração de novos mercados, a diversificação de suas áreas de atuação (FOLHA, 2008), a formação de joint ventures (CASTELLS, 1999), dentre outras como back to back[5], transfer pricing[6], offshores e outsourcing (GALHERA, 2010).

Assim ocorre com esse novo tipo de sindicalismo. As demandas locais/ nacionais passam a ser atendidas não apenas pelos sindicatos que atuam dentro do território nacional. Passam a ser atendidas a partir da articulação e mobilização destes com as Federações Internacionais. Passam do local para o global.

Cox aponta um exemplo dessas manobras sindicais a partir da observação do sindicalismo em rede na empresa Saint Gobain[7]. Em certa ocasião a International Chemical Federation (ICF), uma Global Union dos químicos, já em 1969 coordenou uma ação global contra a empresa para o aumento da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de trabalhadores nos Estados Unidos.

A empresa desejava não pagar o PLR aos trabalhadores estadunidenses, pois entendia que, uma vez que as operações da empresa no país resultavam em prejuízo, não haviam Lucros e Resultados suficientes para a participação dos trabalhadores do país em questão.

Os trabalhadores da Alemanha, França, Itália e Estados Unidos uniram-se, articularam-se, comunicaram-se e solidarizaram-se. Os trabalhadores europeus informaram aos estadunidenses que, a despeito do déficit nas operações da Saint Gobain em território norte-americano, os lucros e resultados existiam na Europa. Assim, tais trabalhadores pressionaram a empresa para que um novo cálculo de PLR fosse efetuado em benefício dos trabalhadores dos EUA, um PLR que levasse em conta as operações da empresa em conjunto, um PLR global.

Tal pressão obteve um resultado positivo do ponto de vista dos trabalhadores, que finalmente puderam usufruir dos ganhos reais da empresa.

Cabe lembrar que em 1969 a internet não era tão acessível e acessada quanto nos dias atuais. Assim, ressaltamos que as redes das quais tratamos neste trabalho, ainda que beneficiadas e tornadas mais eficientes com o advento da internet, se distanciam do mobilismo, do ativismo de um clique e das comunidades de entretenimento apontadas no início do artigo.

 

 

 

O papel das redes sociais nas GUFs

Existem duas vertentes, por nós pesquisadas, de análise do sindicalismo em rede: a otimista e a pessimista. A vertente otimista é abordada por Boaventura de Sousa Santos (2005) e Peter Waterman (1999). A vertente pessimista, por sua vez, é abordada por Manuel Castells (1999). Existem, ainda, estudos de caso pendulares realizados por Tullo Vigevani (1998).

Para Boaventura de Sousa Santos, o novo sindicalismo não é reflexo da crise dos sindicatos, mas a reinvenção dos trabalhadores e a mutação das relações entre capital e trabalho:

Na nossa perspectiva, há potencial para uma sinergia criativa entre o velho e o novo (...), através da criação de um novo internacionalismo operário centrado na emancipação. (Santos, 2005: 94-96)

            Tanto Boaventura quanto Waterman sugerem que a nova configuração mundial do poder seja propícia a transformar o sindicalismo tradicional em sindicalismo-movimento social (SANTOS, 2005; WATERMAN, 1999). Segundo Santos, tal sindicalismo “desafiaria a lógica da globalização”, requeriria “novas formas de ação de solidariedade internacionais”. Ademais, “o global e o local se fundem numa nova e mais poderosa dinâmica de resistência” (2005: 90-5).

            Para Peter Waterman, o sindicalismo radical-nacionalista (populista), como conhecemos, colapsou. Sua tese central é que o sindicalismo precisa se reciclar. Assim há, atualmente, ampliação do escopo dos sindicatos. Assim, o Novo Sindicalismo Social (New Social Unionism (NSU) (i) passa a dialogar e até mesmo a militar por novos temas sociais como Meio Ambiente, gênero, educação, cultura e comunicação; (ii) sua força reside em temas “novos”, como investimentos, tecnologia, realocação, subcontratação, treinamento, políticas de educação e etc; (iii) articula com outros movimentos, pluralistas e democáticos, não necessariamente sindicalizáveis como o Fórum Social Mundial (FSM); (iv) trabalha para a contínua transformação de todas as relações e estruturas; (v) articula com forças políticas e parceiros em potencial; (vi) se relaciona horizontalmente e está aberto ao networking; (vii) favorece a solidariedade (1999: 240-50).

Ambos os autores defendem a reinvenção do sindicalismo como um processo natural de mutação nas relações entre capital e trabalho não questionam a solidariedade de classe. Suas concepções do que é o novo sindicalismo está resumida na tabela a seguira.

 

 

 

 

 

 

 

Tabela I – Comparação entre o “velho” (tradicional) e o “novo” (em rede) sindicalismo operário

Para Castells, os sindicatos da “Sociedade em Rede” terão êxito apenas se conseguirem se adaptar às novas formas de produção, distribuição e gestão das empresas e à configuração do Sistema Internacional (SI):

A economia em rede (conhecida até esta altura como a «nova economia») é uma nova e eficiente forma de organização da produção, distribuição e gestão, que está na base do aumento substancial da taxa de crescimento da produtividade nos EUA, e em outras economias que adoptaram estas novas formas de organização.

(...) Estas redes são quem contrata e despede trabalhadores a uma escala global. Seguem a instabilidade global do mercado de trabalho em todo o lado, a necessidade de flexibilidade do emprego, mobilidade do trabalho e constante requalificação da respectiva força.

(...) [os] trabalhadores tendem a endurecer o seu poder de negociação através da negociação colectiva e da sindicalização. Mas sendo a força de trabalho mais vulnerável, cada vez mais enfrentam a batalha da deslocalização da mão-de-obra industrial e do trabalho rotinizado.

(...) Os sindicatos não desaparecem na sociedade em rede. Mas, dependendo das suas estratégias, podem tornar-se focos de resistência à mudança tecnológica e económica, ou então poderosos actores de inovação no novo significado do trabalho e criação de rendimentos, num sistema de produção baseado na flexibilidade, na autonomia e na criatividade. Organizar o trabalho, numa rede de redes, tem exigências muito diferentes de organizar o trabalho num processo socializado de trabalho, numa grande empresa. Enquanto as mudanças na força de trabalho e no mercado de trabalho são estruturais, ligadas à evolução da sociedade em rede, as mudanças no papel dos actores sociais depende das suas práticas, e da sua possibilidade de posicionar os interesses que defendem em novas formas de produção e de gestão. (Castells, sem data, 20-23, grifo nosso).

Os estudos de caso realizados por Tullo Vigevani (1998)[8], são pendulares na medida em que demonstram que os ganhos obtidos pela articulação dos sindicatos no processo de integração regional podem não atingir a magnitude desejada no plano nacional e –  acrescentamos – na vida do trabalhador. O pesquisador demonstra que há casos nos quais não é possível concluir se houve solidariedade de classe ou se os sindicatos buscaram proteger seus interesses restritos, assim como existem casos nos quais os interesses imediatos dos sindicatos foram observados em detrimento da solidariedade.

O que desejamos demonstrar com as correntes de opinião e os casos ilustrados é que não existe consenso em torno do tema do sindicalismo nos tempos de globalização, seja ele no âmbito regional, internacional ou transnacional.

O que podemos concluir, e que parece consenso entre os estudiosos do sindicalismo em rede, é o transnacionalismo do capital em detrimento da localidade e estagnação do trabalho. Por esse motivo podemos afirmar que o capital tem maior mobilidade, e consequentemente mais força, para a barganha. (WATERMAN apud SANTOS, 2005: 93; CASTELLS, 1999: 476; VIGEVANI, 1998: 334).

Considerações Finais

            O atual artigo buscou realizar um balanço sobre o debate bibliográfico das redes sociais no contexto do sindicalismo transnacional. Mais especificamente, o debate se centrou sobre as Global Unions, Federações Internacionais de Sindicatos. Também tomamos três estudos de caso para ilustrar os triunfos e perdas que o sindicalismo passa a ter em sua atuação no plano internacional através das GUFs.

            Como pudemos verificar, existem, no nosso ponto de vista, duas vertentes de interpretação do sindicalismo transnacional: a pessimista e a otimista. A pessimista pôde ser verificada na leitura de Manuel Castells sobre a economia em rede: as exigências da organização do trabalho em rede são distintas da organização do trabalho tradicional, realizado de forma local nas empresas (filiais) nacionais. A interpretação otimista, feita por Boaventura de Sousa Santos e Peter Waterman, ressalta o papel transformador do sindicalismo em rede: associar-se a outros temas e passar a reinvindicar direitos seria a forma encontrada pelo sindicalismo internacional no século XXI.

            A despeito das interpretações específicas sobre o sindicalismo em rede na virada do milênio ressaltamos que cada caso de atuação das Global Unions deve ser estudado individualmente, e não tomado como conclusivo.

Não existe cômputo das atuações que alçaram os objetivos desejados pelas GUFs ou que siginificaram perdas para as mesmas. Ademais, seria impreciso o cálculo que tentasse atingir esse objetivo, tendo em vista que ganhos relativos nas atuações sindicais atuais podem garantir ganhos relativos e/ou absolutos no futuro. Por esse motivo evocamos os estudos de caso de Tullo Vigevani que também não concluem se as ações dos sindicatos no Mercosul têm um corte de classe ou nacional.

Podemos concluir, entretanto, que as GUFs são um fenômeno observável em praticamente todos os Estados do globo, tal qual e em resposta às estratégias das empresas multi ou transnacionais. Como mencionado pelos estudiosos no presente trabalho, a mão-de-obra é local e as empresas têm mobilidade internacional. Em épocas onde a implantação de plantas fabris onde a mão-de-obra é mais barata e dócil, o diálogo entre sindicalistas alemães e chineses petende tanto manter os empregos de altos salários na Alemanha quanto melhorar as condições de trabalho e os salários na China.

É nesse sentido que atua o trabalho em rede: através de diálogo, comunicação, e-sindicalismo e mobilização, dentre outras formas de ação, de forma reativa ou proativa, visando participar da famigerada globalização.

 

 

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[1] Por e-sindicalismo entendemos a mobilização sindical que se utiliza, em um primeiro momento, de tecnologias virtuais, como a e-mails e Skype.

[2] No Brasil, o modelo sindical é visto como único, mesmo com as premissas do modelo taylorista-fordista. A partir do Decreto Lei 1.402 (1939) o Estado é quem controla as relações entre trabalhadores e empregados. Os sindicatos devem possuir estatuto único eleições controladas pelo Estado e contribuição compulsória dos trabalhadores. O Brasil não é signatário da Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) por esse motivo. A tentativa de ratificá-la fracassou e não teve apoio geral de empresas ou sindicatos (CARDOSO, 2002, p. 30; TAVARES DE ALMEIDA, 1988, p. 360).

[3] GRIFFITHS, M.; O’CALLAGHAN, T.; ROACH, S.C. International Relations: The Key Concepts. Nova Iorque: Routledge Key Guides, 2008.

EVAN, G.; NEWNHAM, J. Dictionary of International Relations. Nova Iorque: Penguin Reference, 1998.

[4] Em “The Net Delusion”, Evgeny Morozov critica o ativismo “passivo” dos tempos de internet, onde um clique nos dá a ilusão de ativismo de fato.

[5] Operação logístico-financeira onde o resultado financeiro da produção fica dentro de uma fronteira específica.

[6] Manipulação de preços de importações e exportações.

[7] Multinacional que possui atividades como a fabricação de abrasivos, canalizações, cêramicas, plásticos, embalagens, vidros, argamassa, isolação, gesso e materiais para construção.

[8] O autor demonstra os impactos do Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) para os trabalhadores e sindicatos. Conclui que (i) a militância ativa dos sindicatos e os parcos resultados por ela encontrados não são contraditórios, uma vez que o sindicalismo conseguiu credibilidade em sua atuação; (ii) a distribuição dos custos sociais fornece meios para prever a natureza dos conflitos e as referências para o adensamento do apoio ou resistência aos processos de integração; (iii) a ação dos sindicatos os fortalece no âmbito nacional e no processo de integração; (iv) não é possível concluir se houve um corte de classe ou nacional – cada caso é um caso; (v) o fator trabalho não tem mobilidade, como o capital e, por isso, sua perspectiva nacional ou local é sempre alimentada; (vi) o sindicalismo forte no plano nacional torna-se defensivo em processo de regionalização; (vii) debilidades organizacionais debilitam a ação sindical.






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