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Asunto:[encuentrohumboldt] 300/10 - A DIFERENCIAÇÃO DA REGIÃO DO PLANALTO SUL -RIO-GRANDENSE E A CONSTRUÇÃO DO PARADIGMA DA MODE RNIZAÇÃO DA AGRICULTURA
Fecha:Lunes, 6 de Diciembre, 2010  15:08:14 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..............org>

A DIFERENCIAÇÃO DA REGIÃO DO PLANALTO SUL-RIO-GRANDENSE

 E A CONSTRUÇÃO DO PARADIGMA DA MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA

 

Luiz Fernando Mazzini Fontoura[1]

 

 

 

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar as condições em se realizaram a penetração das relações capitalistas na região do Planalto gaúcho e a construção do paradigma da mecanização, ou modernização da agricultura. O seu principal agente é o granjeiro da soja, mas esta figura de origem urbana tem uma construção sócio-espacial que passa pela mercantilização das terras de mata, com o estabelecimento das colônias de imigrantes europeus no sul do Brasil, mas também do aproveitamento das terras destinadas à atividade pecuária bovina. A diversificação do campesinato, aliado ao capital gerado na atividade comercial, permitiu o arrendamento destas terras dos estancieiros para as lavouras mecanizadas de trigo, que se associaram as de soja a partir do Estatuto da Terra.

Resumen: Este trabajo tiene como objetivo analizar las condiciones como fueron la penetración de las relaciones capitalistas en la región de do Planalto gaúcho y la construcción de paradigma de la mecanización, o la modernización de la agricultura. Su agente principal es el granjero de soja, pero este personaje de origen urbano tiene un edificio socio-espacial pasando a través de la comercialización de tierras forestales, con el establecimiento de colonias de inmigrantes europeos en el sur de Brasil, pero también explotar la tierra destinado a la actividad de la ganadería bovina. Diversificación de los campesinos, aliado de capital generado en la actividad comercial, habilitado el contrato de arrendamiento de la tierra de estancieiros para arar trigo mecanizada, que se unió a la soja desde el “Estatuto da Terra”.

Abstratct: Summary: this work aims to analyze the conditions were the penetration of capitalist relations in the region do Planalto gaúcho and construction of paradigm of mechanization, or modernisation of agriculture. Its main agent is the granjeiro of soya, but this figure of urban origin has a building socio-spatial passing through the commercialisation of forest land, with the establishment of colonies of European immigrants in southern Brazil, but also exploiting land intended for bovine livestock activity. Diversification of peasant, allied to capital generated in commercial activity, enabled the lease of the land of estancieiros for ploughing mechanised wheat, which joined the soya from the “Estatuto da Terra”.

 

 

Este trabalho tem por objetivo estudar as condições em que ocorreram a introdução e o desenvolvimento das relações capitalistas na região do Planalto do estado do Rio Grande do Sul, Brasil, onde se estabeleceu o paradigma da modernização da agricultura a partir dos anos 1960, desenvolvendo o importante cultivo de soja.

A ocupação desta região começa através do estabelecimento das reduções jesuíticas padres da Companhia de Jesus, a fixação dos índios em aldeias, e o começo da atividade pecuária bovina e extrativa da erva-mate. Mais tarde com a expulsão dos jesuítas, se estabeleceram as estâncias nas áreas de campo do Planalto, que se dedicaram, principalmente, à criação de mulas, por não acompanharem a produtividade do gado criado na região da Campanha, porção do bioma Pampa brasileiro. Para as áreas de mato, ou bioma Mata Atlântica, se refugiaram negros escravos, índios e mestiços, depois da ocupação das áreas de campo pelas estâncias comerciais. Nas áreas de mata começou o processo de colonização de imigrantes europeus, que se estabeleceram através de uma agricultura do tipo camponesa.

A diferenciação deste campesinato levou a formação de alguns comerciantes, que aproveitaram para diversificar seus capitais na agricultura mecanizada do trigo, cultivo este há muito estimulado à mecanização, realizado em forma de arrendamento dos campos da pecuária bovina. Com o Estatuto da Terra de 1964, a soja é associada ao trigo, tornando-se o produto mais importante pela possibilidade da exportação. Com a mecanização das lavouras, constrói-se o paradigma da modernização e o surgimento dos granjeiros.

 

 

1. O espaço jesuíta

 

               A história da criação do gado bovino no Rio Grande do Sul e o extrativismo de erva-mate não podem ser explicados sem a fundação das missões jesuíticas do Alto Uruguai. GARCIA (2010, p.49-50) explica que, independente das circunstâncias históricas, com a união das Coroas Ibéricas, quiseram organizar as populações indígenas do Planalto Meridional em aldeias e reduções. A decisão de criar as tais reduções foi mal recebida em Assunção, pois vinha de encontro aos interesses das encomiendas, instauradas a partir de 1555, cujo sistema permitia que colonizadores se beneficiassem da mão de obra indígena em regime de escravidão. Os padres da Bahia, entre eles Nóbrega, se mostravam contrários a tal prática. A partir de 1610 os jesuítas iniciaram a fundação de reduções no Guairá, hoje estado do Paraná, com as aldeias de Loreto e Santo Inácio Mini. Em 1611 a fundação de Santo Inácio Guaçu, entre os rios Paraná e Paraguai. Desde 1609, o Rei Felipe III, “cercado de boas influências e persuadido das vantagens políticas e militares que poderiam resultar da solução preconizada pelos jesuítas”, deu ordem proibindo os colonos de recrutarem escravos na província do Guairá (LUGON, 2010, p.26). O padre Antonio Ruiz de Montoya, o grande realizador dos projetos dos jesuítas, chegou em 1612 para socorrer outros padres que já não davam conta do número elevado de índios guaranis.  

No Rio Grande do Sul, entre 1624 e 1631, foram estabelecidas as principais reduções em torno de São Nicolau, na margem oriental do rio Uruguai. A partir daí as reduções foram ocupando a porção central do estado sulino e parte do atual Uruguai, na região chamada de Tape, fugindo da ação dos paulistas que queriam escravizar os índios.

               Os jesuítas conseguiram ocupar com os índios o território vazio que ficava a leste do Governador do Rio da Prata, com sede em Buenos Aires e do Governador do Paraguai, com sede em Assunção. Neste espaço introduziram o gado vacum, que para cada pueblo, ou aldeias cristianizadas, organizaram vários criatórios naturais chamados de estâncias. Estas reses serviram ao sustento dos que viviam na aldeia. Guilhermino CESAR (2005, p.23-4) relata sobre estes criatórios naturais: que os índios catequizados levavam o rebanho manso para lugares de campos livres, e ali faziam um arranchamento onde podiam realizar o rodeio. Estes postos também serviam de vigilância para o pueblo, antecipando quaisquer investidas de portugueses ou espanhóis. Para o autor:

 

“Os missionários jesuítas, lançando a semente de suas reduções à margem do rio Uruguai, moveram-se para o interior, em demanda do mar, mas não chegaram às praias do Atlântico. Seus núcleos pioneiros, os pueblos da tradição colonial espanhola, conseguiram, entretanto, projetar-se economicamente por meio das vacarias. Muitos aborígenes, reprimido o seu nomadismo, nas Missões Orientais, pela tentativa que se fez para grudá-los ao solo, ao labor agrícola, desforraram-se da constrição dispersando-se em leque – uma parte foi para os campos da margem direita da Lagoa dos Patos, na bacia oriental, e a outra saiu em demanda do Planalto Médio e dos Pinhais de Cima da Serra”.

 

               Neste corredor autárquico, como nos fala o autor, a Companhia de Jesus garantiu a autosuficiência do índio através do trabalho regular, com uma agricultura de subsistência, o extrativismo da erva-mate e a pecuária. Era o começo da estância, esta era de todos que nela viviam. Fora da estância, o gado criado solto, não tratado, retornava ao estado selvagem onde era caçado, principalmente quando o couro passou a ser valorizado. O rebanho livre e com abundância de pastagem foi ocupando as terras em direção ao atual Uruguai e em direção ao mar, daí a denominação de Vacaria do Mar, caminho rumo à Lagoa Mirim (GARCIA, 2010, CESAR, 2005,). Abrindo em leque a partir da margem esquerda do rio Uruguai (Tape), o rebanho alcançou a margem direita da Laguna dos Patos; em outra parte do rebanho, partiu em direção aos Campos de Cima da Serra, sendo chamada de Vacaria dos Pinhais, ou campos de vacaria, onde hoje se localiza a cidade de mesmo nome, até o limite físico dos taimbés (ou itaimés), ao norte os campos de Lages, em Santa Catarina. Não por acaso, este foi também o caminho das tropas de gado rumo às feiras de Sorocaba, e as primeiras estâncias em São Francisco de Paula (RS).

               Da Vacaria do Mar, maior em extensão, se deu a origem da prea (captura) do gado, da cultura do manejo com estes animais, se desenvolveu a habilidade do índio (depois mestiço) cavaleiro, predominantemente dos charruas, a formação do gaúcho, como destaca CESAR (2005, p. 35):

 

“Mas através de Maldonado, do Cebollatí e notadamente do magma pecuário em que se constituíram as Vacarias do Mar, o Rio Grande em formação absorveu incontáveis manadas de vacuns, muares cavalares, criados entre o futuro departamento uruguaio de Minas e a fronteira atual, no município de Santa Vitória do Palmar. E ali rebentou o sol da História, tendo a pecuária como atividade exclusiva, que o modelou, um tipo bem individuado dentro do complexo econômico sul-americano: el gaucho, o precursor do nosso gaúcho.”

    

               Em 1630 os bandeirantes atacaram e apoderaram-se dos índios do Guairá. Os remanescentes das reduções de Loreto e Santo Inácio Mini abandonaram a região com os jesuítas e se estabeleceram entre os rios Paraná e Uruguai. Em 1636 o ataque foi dirigido às reduções do Tape, na redução de Jesus Maria. A cada ataque os bandeirantes faziam mais cativos, até que em 1638, a margem oriental do rio Uruguai estava totalmente ocupada. Em 1640-41, os bandeirantes investiram contra as reduções da margem esquerda, mas foram repelidos pelos guaranis, desta vez armados e mais preparados para a guerra, na batalha de M’Bororé. Com o vazio demográfico e a grande oferta de gado vacum, em 1640 começa o expansionismo luso-brasileiro (GARCIA, 2010, p. 55).

               Em 1680 os portugueses fundaram Colônia do Sacramento, enclave luso em frente à Buenos Aires, que serviu de entreposto para exportação da courama do gado da Vacaria do Mar, como também do contrabando do ouro e prata espanhóis. Em 1682, os jesuítas e os índios retomam a margem oriental do Uruguai, fundam os Sete Povos das Missões, e reorganizam as estâncias. A convivência com Colônia não chegou a ser um problema, visto que os portugueses faziam o caminho pelo litoral. O Tratado de Madri, em 1750, permutou Colônia pelo território das missões, e exigiu a expulsão dos povos guaranis. Segundo ORNELLAS (1956, p.83), “em Minas os homens de São Paulo iam e ficavam. Ao sul, na primeira metade do século XVII, nem ficavam nem deixavam ficar os jesuítas...”, prejudicando o povoamento pacífico, levando a guerras desnecessárias anos mais tarde.

 

 

2. A concessão da terra ao estancieiro e o surgimento do intruso.

 

               Colônia do Santíssimo Sacramento foi o porto natural mais adentrado no rio da Prata. Destruída várias vezes, também se reergueu por outras tantas. Tanto na fundação, quanto em 1704, houve participação dos guaranis, cedendo seus cavalos e alimentação, como forma de prestação de serviços à Coroa Espanhola (LUGON, 2010, p. 80). Esse entreposto serviu para desvio de riquezas de Buenos Aires, mas também como moeda de troca territorial entre Portugal e Espanha.

Visando a ocupação da margem esquerda do Prata, os portugueses começaram a distribuir glebas de terras em regime de concessão, as chamada sesmarias. Esta foi uma política aplicada em Portugal no fim do período feudal, que tinha por objetivo o melhor aproveitamento das terras e o aumento da produção de alimentos, intensificando a agricultura. No Brasil, dada a vastidão de terras com baixa densidade populacional, principalmente no sul, esta distribuição assumiu muito mais o caráter de apropriação territorial. As primeiras concessões de sesmaria começaram pelo litoral do Rio Grande do Sul, próximo de onde hoje se localizam as cidades de Tramandaí e Cidreira, no ano de 1732. A partir deste momento se multiplicaram as sesmarias em direção às barrancas de São José do Norte. Com a fundação da cidade do Rio Grande, em 1737, no início uma praça de armas, abriu-se um caminho seguro entre Colônia e Laguna, esta fundada por paulistas à época da fundação de Colônia. Portugal já previa que não conseguiria se manter por muito tempo em frente à Buenos Aires com um negócio tão lucrativo como o contrabando de prata. Por isto tratou de ampliar o território ocupado para o sul, garantindo a exploração do enorme rebanho bovino da Vacaria do Mar (GARCIA, 2010, p. 112-3), ligando Rio Grande ao caminho de Chuí e Castilhos. No caminho se encontravam várias estâncias, como escreve CESAR (2005, p. 64):

 

“De fato, a Comandância Militar, criada em consequência da expedição de Silva Pais, formou nas proximidades de Rio Grande de São Pedro, onde se instalou duas estâncias reais – a de Bujuru e a de Tororotama (ou Torotama). Ali se acolheram inúmeras cabeças de gado vacum e cavalar, para atender a necessidade da tropa e da população civil.”

 

Tomada a foz da Laguna dos Patos, a marcha lusa seguiu para o oeste em direção a Campanha. Pelo lado do litoral para o centro, as sesmarias e a fundação das vilas foram se consolidando com a chegada dos imigrantes açorianos em Viamão, Porto Alegre. Em direção ao centro, pela margem esquerda do rio Jacuí, o povoado de Santo Amaro, que defendia a entrada de Porto Alegre. Estrategicamente os domínios portugueses seguiram em direção ao Planalto Sul-Rio-Grandense, a exemplo das cidades de Piratini e Caçapava do Sul.

O Tratado de Madri estabelece a troca do território de Colônia do Sacramento pelo território das Missões. Os portugueses exigem a retirada dos índios das reduções deste território, que revoltados, iniciam a Guerra Guaranítica. A derrota para os portugueses resulta na expulsão dos jesuítas e a destruição de todo o trabalho deles e dos índios. Inicia-se uma imediata distribuição das terras para novos sesmeiros, que seguem o modelo de criação de gado bovino, só que agora em forma de produção privada. Os sesmeiros eram lusos que tinham prestado serviços para a Coroa Portuguesa, militares ou não, e tropeiros que conheciam bem a região e já desenvolviam algum tipo de curral ou rincão, ou seja, lugares onde já aprisionavam o gado selvagem para comercializá-lo em outro momento.

Como toda pessoa ocupa um espaço, os remanescentes dos índios guaranis das missões que sobreviveram ao massacre, somado aos mestiços e a população negra descendente de escravos, tinham que ocupar algum lugar. Poucas alternativas existiam para tocarem suas vidas fora da região de mato, da condição de andarilho errante, ou permanecerem como agregados ou empregados na estância. Como o rebanho deixado das reduções e as estâncias tinham dono a partir de então, restava os ervais como o outro produto de valor comercial deixado de herança dos tempos das reduções. Estes grupos de pessoas não proprietárias de terra se somaram outros foragidos da lei da época e se dirigiram para o mato em busca do extrativismo da erva-mate, uma vez que as terras onde se localizava o erval não interessavam ao sesmeiro. Este grupo foi identificado como os intrusos. Segundo ZARTH (2002, p. 87):

 

“O extrativismo de erva-mate foi, durante muito tempo, uma forma de sobrevivência para milhares de homens livres pobres. Encurralados pelos latifúndios pastoris, esses homens embrenhavam-se nas florestas em busca do mate, ao mesmo tempo, dedicavam-se à agricultura de subsistência, como típicos camponeses. Os ervais, em grande parte, localizavam-se em terras públicas, devolutas, sobre as quais os lavradores nacionais pobres avançavam lentamente, disputando-as com os indígenas, as principais vítimas do processo de expropriação. O avanço de lavradores pobres na floresta era anônimo e espontâneo. Em 1835, os vereadores de Cruz Alta informavam que as terras que um brigadeiro, enviado pelo governo, pretendia explorar não eram desconhecidas e que nelas ‘se fabricão imensa herva-matte’”.

 

As áreas de mato foram se tornando local de refugiados, e ao mesmo tempo uma economia importante, pois além da erva-mate, o excedente gerado a partir da agricultura de subsistência realizada pelos intrusos, era comercializado nas cidades próximas, garantindo o abastecimento de gêneros alimentícios, visto que o latifúndio do gado bovino não produzia alimentos.

Com a Lei de Terras de 1850 a terra passou a ser uma mercadoria, podendo ser comercializada, acabando com o vazio deixado pelo fim sistema de concessão de sesmaria, ocorrido com a independência do Brasil em 1822. A essa altura as áreas de campo nativo estavam ocupadas pela atividade pecuária bovina, restando somente as áreas de mato. A possibilidade de sua comercialização movimentou o mercado imobiliário e de colonização, pois esses projetos contavam com subsídios oficiais, aumentando a expectativa de ganhos. Inclusive despertou o interesse dos grandes proprietários de terra, que passaram a ver as reservas de mato no interior de seus estabelecimentos como possibilidade de valorização. Para ZARTH (2002, p. 93):

 

“A colonização do Sul com imigrantes europeus não foi exclusividade do Estado. Ao contrário, foi um negócio altamente rentável para empresários que detinham terras de forma fraudulenta ou mesmo legais e as vendiam aos imigrantes na forma de pequenos lotes coloniais. Mas estes empreendimentos, de modo geral, estavam amparados pela colonização oficial subsidiada pelo Estado, e desenvolviam-se nas proximidades das Colônias, usando em maior ou menor grau a infraestrutura do oficial.”

 

Os novos colonos camponeses oriundos de vários países da Europa, mas principalmente alemães e italianos deveriam pagar pelo lote, enquanto na colonização privada, o Estado subsidiava ao colonizador por pessoa assentada, na maioria das vezes cobrindo na totalidade o investimento realizado. Nos anos 1850, o processo de colonização paralelo à manutenção da escravidão era bem visto, ao mesmo tempo em que atendia a outras demandas da época. A população escrava era bastante numerosa, e frente aos reclames abolicionistas, havia uma preocupação constante de revolta pelos escravos. Segundo SILVA (1996, p. 128):

 

“Em relação à imigração, a visão Saquarema retomava as ideias de povoamento do amplo território nacional existente desde os tempos de D. João VI e dava ênfase particularmente à necessidade do branqueamento da população por meio da introdução de imigrantes europeus (inicialmente alemães e suíços), e na difusão da pequena propriedade por intermédio da venda de lotes de terras recortados nas terras devolutas da Coroa.”

 

Todos os imigrantes deste tipo eram chamados de colonos, e havendo a colonização oficial, realizada pelo Estado, e a particular, onde os colonizadores financiavam a viagem dos imigrantes.

 

 

3. A mercantilização da área de mato e a colonização

 

               No Rio Grande do Sul, pela forma da ocupação e construção da linha de fronteira, a atividade pecuária bovina e a formação da estância foram fundamentais. Assim, as áreas de campo foram tomadas em sua totalidade. As áreas de mato, embora representassem uma fonte de economia, como no caso da erva-mate, foram apropriadas com a finalidade da colonização. Com a independência do Brasil no ano de 1822, a população dos lavradores nacionais teve que se retirar para dar lugar ao processo de colonização. Como descreve BERNARDES (1963, p. 33):

 

“Os colonos imigrantes ou seus descendentes, dirigem-se sempre para a mata. O povoamento se expande, então, sobre os troncos abatidos; ‘colonizar e desmatar são sinônimos’, sintetizou, muito bem, Pierre Denis. Isto aconteceu, não tanto porque os colonos chegaram quando já os campos estavam divididos pelas fazendas de gado, ou porque os proprietários das mesmas não se desfizessem de parcela alguma que viesse a prejudicar seu sistema extensivo de criação. Imprimindo os rumos iniciais da colonização, o governo deu ao colono a tarefa de fazer recuar a mata virgem, e isto era uma razão importante. Mas acima de tudo, o que sucedeu com os imigrantes europeus é que eles se fizeram herdeiros da tradição luso-brasileira de que a agricultura só seria proveitosa na mata, onde o solo humoso compensava o trabalho e a semeadura”.

 

               Existia, segundo o autor, com base em outros estudos, a crença de que os solos de campo eram fracos para a agricultura, como de fato em algumas áreas o são. Estas terras de mato, principalmente as do Planalto Meridional, são mais propícias para a lavoura. Sendo assim, as áreas de colonização se deram, preferencialmente, em áreas de maior densidade de florestas, conforme o mapa, à esquerda,  elaborado por BERNARDES (1963, p.17).

 

 

Figura 1. Povoamento do estado do Rio Grande do Sul sobre área de mata.

 

 

 

Fonte: BERNARDES, Nilo. A colonização e povoamento do estado do Rio Grande do Sul. IBGE. 1963.

           Atlas Sócio-Econômico do estado do Rio Grande do Sul, disponível em:

 http://www.scp.rs.gov.br/atlas/atlas.asp?menu=591. Acesso em 27 de maio de 2010.

 

               O mapa mostra nas áreas escuras a predominância de florestas (Bioma Mata Atlântica), e nas hachuradas as áreas colonizadas. Segundo Bernardes, a colonização açoriana não chegou a constituir os núcleos de densidade demográfica que diminuíssem os efeitos de uma população rarefeita, resultado da atividade pastoril. O Brasil procurava um novo tipo de colono que fosse proprietário livre para cultivar nas áreas de mato, e que não estivesse interessado no trabalho escravo e nem na criação de gado, atividade que se desenvolveu no Bioma Pampa.

               Para WEIBEL (1958, p. 210-11), o início da colonização nas terras florestais do Brasil meridional se deu após o ano da independência, e tinha como objetivo principal povoar as terras de mato para evitar o ataque dos índios, e aumentar a densidade demográfica, diminuindo os riscos dos ataques argentinos. “O novo tipo de colono deveria ser tanto um soldado quanto um agricultor, para poder defender sua terra quanto cultivá-la”. Weibel pergunta onde estaria este colono, respondendo que na Europa central, onde os soldados desengajados do exército de Napoleão e camponeses pobres e famintos estavam prontos para migrar para qualquer parte do mundo (1958, p.212). Em 1824, distante 24 km de Porto Alegre, em direção ao norte, no vale do rio dos Sinos, fundou-se a primeira colônia de alemães, e recebeu o nome de São Leopoldo. A colônia cresceu rapidamente na direção das encostas florestais da serra. Além de camponeses, se estabeleceram, também, uma grande quantidade de artesãos, desenvolvendo rapidamente as atividades industrial e a agrícola.

               Seguiram-se outras colônias nos estados do Paraná e Santa Catarina, com o mesmo objetivo, de povoar e guardar os caminhos das tropas de gado do Rio Grande para São Paulo. Na direção oeste de São Leopoldo, em 1849, foi fundada uma das mais importantes colônias, a de Santa Cruz. Contornando a borda da mata nos contrafortes da escarpa do Planalto Meridional, esta colônia se caracterizou pela produção de fumo como principal lavoura comercial. Entre as duas colônias, segundo Weibel, havia uma enorme selva, onde apenas alguns intrusos luso-brasileiros tinham penetrado. Por volta de 1870, os colonos alemães tinham ocupado quase a totalidade da borda do planalto.

               Na década de 1860 até 1870 diminuiu a imigração alemã. Isso aconteceu porque a Prússia promulgou, em 1859, o chamado rescrito de Heydt, que proibiu a propaganda brasileira em favor da emigração para o Brasil, devido ao mau tratamento sofrido pelos alemães no estado de São Paulo. Em vista disso, o governo transferiu sua propaganda para a Itália, principalmente na região de Vêneto, para dar continuidade ao projeto colonizador. Seguiu-se, assim, a fundação das colônias de Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves. Em 1890, um ano após a Proclamação da República, fundou-se a colônia de Ijuí, a colônia nova, que tinha a característica de ser uma colônia mista do ponto de vista étnico, onde muitos colonos eram originários da colônia de São Leopoldo, chamada de colônia velha. Próximo à colônia de Ijuí, por iniciativa privada, fundou-se a Katholicher Bauernverein Von Rio Grande do Sul, ou a Associação dos Agricultores Católicos do Rio Grande do Sul, em 1902, ao sul de Ijuí. Desta colônia se originou a de Neu-Württemberg, hoje Panambi (WEIBEL, 1958, P.216-7). Essas colônias formaram o epicentro da modernização da agricultura do trigo e da soja.

               Entretanto, ainda segundo WEIBEL (1958, p. 226-241), nem todos os colonos tiveram a mesma oportunidade de produzir suas terras em condições adequadas. Na busca pela sobrevivência, os colonos desenvolveram três estágios de sistemas de uso da terra:

a) o sistema de rotação de terras primitivas: sistema herdado do caboclo (lavrador nacional), que consistia na derrubada da mata e o cultivo de milho, feijão e mandioca, usando uma cavadeira e enxada primitivas;

b) sistema de rotação de terras melhoradas: depois que a mata é devastada e que a densidade da população aumentou com o auxílio das estradas, foi possível se introduzir outros tipos de cultivos como a batata inglesa, o trigo e o centeio no inverno, o arroz no verão. Nos cruzamentos das estradas começaram a se estabelecer os moinhos de famílias de antigos comerciantes. O desenvolvimento da pecuária de suínos e aves deu uma aceleração nas atividades da região colonial, que trocou os seus produtos com as cidades maiores, de origem lusa, e que sofriam com o desabastecimento;

c) sistema de rotação de culturas combinada com a criação de gado: com as terras aradas com tração animal alguns colonos conseguiram reunir à lavoura a criação de gado, o que ajudava na adubação da terra, permitindo a alternância de cultivos de cereais com cultivos de raízes e leguminosas com frequência, para enriquecer o solo com nitrogênio. E esta lavoura com a atividade pecuária.

               A questão é que o tamanho médio dos lotes em área de mata tinham entre 25 e 30 hectares, não permitindo a passagem de um sistema para o outro. Nas áreas montanhosas, o lote era demasiado pequeno para desenvolver o primeiro sistema e passar para o segundo. Longe das estradas e da atividade do comércio bem como do colégio para os filhos, alguns lavradores ficaram reféns dos comerciantes, seu único contato com o mundo distante, e que enriqueceram a suas custas. O projeto de colonização, segundo Weibel, não observou o que chamou de minimale Ackernahrung, ou seja, uma quantidade mínima de terra para garantir um bom padrão de vida para o agricultor. Consequentemente, aqueles colonos que não conseguiram sair do primeiro estágio, migraram para a fronteira agrícola, abandonando ou vendendo seus lotes. Weibel entendia que os lotes deveriam ter entre 55 e 65 ha em terra considerada de boa qualidade, e 85 e 105 ha em terra ruim.

               Diante dessa situação, muitos filhos de colonos europeus pobres, considerados caboclos a partir de então, partiram para a cidade ou em busca de novas terras na direção do oeste catarinense e da região Centro-Oeste. Ao contrário, àqueles que conseguiram diversificar na lavoura e no comércio, acumularam riquezas e também diversificaram atividades comerciais nas cidades coloniais que cresciam economicamente. Este sujeito com capital disponível e com tradição agrícola estava pronto para a produção e reprodução das relações sociais capitalistas.

 

 

4. O espaço capitalista dos granjeiros.

 

               Os primeiros estímulos à mecanização do campo nas lavouras de arroz e trigo datam de 1920. A herança do pensamento positivista, com base na ideia de progresso e industrialização, fez com que Getúlio Vargas apresentasse projetos de intensificação na produção e elevação da produtividade de alimentos, em razão do abastecimento da população urbana, que haveria de crescer estimulada pelo aumento da produção industrial.

A influência de Getúlio Vargas como ministro da agricultura para a organização dos criadores de gado bovino, acrescida da pressão exercida pelos frigoríficos, ajudaram no refinamento das raças diferenciando o rebanho gaúcho, principalmente na região da Campanha, principal região criadora de animais do estado. Pelo lado da lavoura, a produção de trigo, já conhecida nas terras gaúchas desde os açorianos, teve motivação maior através de linhas de créditos o que proporcionou as bases da mecanização desta lavoura. Quando Presidente da Província, ainda que por dois anos (1928-1930), Vargas estimulou a produção de trigo e arroz, sendo estes os primórdios da lavoura mecanizada sob orientação do Estado, ampliados quando chegou à Presidência da República. Estimulou, também, a associação de produtores, a começar pela Federação das Associações Rurais e o ressurgimento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL), como forma de organizar os produtores para o recebimento do crédito rural.

Ao chegar ao Governo Provisório em 1930, Getúlio Vargas já havia deixado no Estado do Rio Grande do Sul as bases para o acesso ao crédito junto à comunidade rural. Vargas no governo do estado aproximou grupos políticos opostos propondo a união dos produtores pelo cooperativismo e a sindicalização destes, promovendo meios para o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos transportes e o crédito rural. Ainda em 1928 é criado o Banco do Rio Grande do Sul, cuja iniciativa tem apoio da jovem FARSUL. Vargas lançou as bases para a produção tecnicamente avançada do trigo, estimulou a pesquisa que deu origem às variedades melhores e de adaptação mais fácil ao meio. A limitação à importação de trigo estimulou os produtores locais.

O trigo se desenvolveu na chamada colônia nova onde se localizam as cidades de Ijuí e Panambi. Sem a possibilidade da produção pecuária bovina, pela concorrência com as estâncias do sul do estado, os produtores imigrantes optaram pelo milho, o feijão preto, a mandioca, a soja e a criação de suínos, além do trigo, como cultivos e pecuária comerciais.

Além dos estímulos criados anterioriormente ao ano de 1930, o trigo recebeu grande incentivo em 1944 através de uma política de apoio do Governo Federal onde foi criado o Serviço de Expansão do Trigo (SET), coordenado pelo Ministério da Agricultura com uma política específica para o setor, distribuindo gratuitamente sementes para as cooperativas; fiscalizou a comercialização e a industrialização. Também determinou quotas que seriam compradas para a moagem pela indústria. A partir deste ano se estabeleceu uma política de preços mínimos para diversos produtos agrícolas, incluindo o trigo nesta política. Essa garantiu uma rentabilidade mínima ao capital investido na lavoura.

No sentido de garantir o abastecimento de pão para as grandes cidades, esta política de preços despertou o interesse de um leque de interessados que viram nessa a estabilidade para seus investimentos. No ano seguinte, em 1955, o armazenamento foi tratado com mais vigor. Em 1957 foi criada a Comissão de Organização da Triticultura Nacional (COTRIN) cuja consequência imediata foi o zoneamento das regiões produtoras e suas cooperativas, por onde se realizaram a distribuição de crédito, armazenamento e o comércio. Em 1959 foi criada a Comissão de Organização da Triticultura Nacional e Armazenamento Geral (COTRINAG), que passou a incluir outros produtos. Ambas, COTRIN e COTRINAG tiveram importante papel para a organização das cooperativas tritícolas no Rio Grande do Sul.

As condições ambientais favoráveis do Planalto gaúcho fizeram com que a partir de 1946 começassem as primeiras lavouras mecanizadas em Passo Fundo e Carazinho, Ijuí e Santo Ângelo, e a seguir, nos demais municípios do Planalto. Os primeiros a se tecnificarem foram os produtores que já dominavam a linguagem dos negócios bancários e comerciais na cidade, como comerciantes, profissionais liberais, que tendo um passado próximo com a agricultura viram nesta atividade uma oportunidade de diversificação de capitais. Esta classe de produtores ficou conhecida como os granjeiros do Planalto.

Neste momento não participaram da mecanização da lavoura os produtores familiares ou colonos, como são conhecidos, pois não conhecendo a linguagem dos negócios capitalistas que se instalavam, viram com desconfiança o novo sistema de produção, pois além dos trâmites bancários, a entrada no novo sistema implicava na hipoteca da terra. Isto significava a possibilidade da perda da mesma, como de fato muitas vezes veio a acontecer com este grupo de produtores.

O ingresso dos pequenos produtores se dá a partir dos anos 1960, mas forçados pela sua inclusão no mercado e em condições desvantajosas, uma vez que as condições impostas pelas cooperativas priorizavam os seus próprios interesses.

Em consórcio com a lavoura de milho, a soja foi introduzida no Rio Grande do Sul a partir da década de 1940 e ganhou algum espaço nos pequenos estabelecimentos. Leguminosa de clima temperado, seu plantio na estação do verão possibilitou utilizar as terras destinadas ao trigo, aproveitando-se do beneficiamento do preparo da terra.

Para se entender a expansão da lavoura de soja no Rio Grande do Sul e no Brasil, é necessário esclarecer as mudanças de hábitos alimentares nos Estados Unidos e na Europa Pós-Guerra, através da substituição da utilização da gordura animal pelo óleo vegetal. Além deste fator, a escassez de terras destinadas à pecuária nos países europeus, fez com que houvesse uma intensificação no confinamento nos rebanhos leiteiro e suíno, cuja alimentação passou a ter o farelo de soja como principal ingrediente. Seguido pelos demais países, o consumo mundial aumentou significativamente, aumentando a demanda e a área plantada nos países produtores.

No caso do Planalto gaúcho, o manejo da agricultura mecanizada e das operações bancárias e de crédito já era bem conhecido pelos granjeiros produtores de trigo, e a adaptação era direta, pois já havia o consórcio do plantio desses com a soja. Na década dos anos 1970 se deu a forte expansão da lavoura de soja por toda a extensão do Planalto, bem como sua expansão pelo Centro-Oeste brasileiro pelo processo de migração dos colonos gaúchos, que trocavam suas terras no sul por maiores lotes na fronteira agrícola brasileira. Rapidamente a soja se tornou um dos principais produtos de exportação e a União respondeu com a infra-estrutura para o armazenamento, circulação e comercialização do produto.

A soja e os gaúchos cumprem com isto um importante papel nos objetivos do Estatuto da Terra. Esse delegava à agricultura os papéis de alavancar o desenvolvimento econômico através de uma nova relação campo-cidade no país e essa interdependência traduziu-se nos seguintes aspectos fundamentais do processo de crescimento e integração nacionais, dando à Política de Desenvolvimento Rural um grande número de atribuições (FONTOURA, 2004). O Estatuto da Terra é um conjunto de leis que estimulam a criação da Empresa Rural, unidade produtiva capitalista que adotou o sistema de produção com base na mecanização, fertilização e uso de produtos químicos na lavoura, com o objetivo de aumentar a produtividade dos setores agrícolas e urbanos.

Outras lavouras se mecanizaram e formaram suas empresas e empresários, como por exemplo, o arroz. Mas a soja se destacou e tornou-se o principal produto nos mercados interno e externo. Saiu do Rio Grande do Sul e se destaca como uma lavoura predominante na Região do Cerrado brasileiro. Sob o comando de granjeiros gaúchos, as lavouras de soja adentram a Amazônia e o sertão baiano (HAESBAERT, 2004).

 

 

Considerações finais.

 

               O estado do Rio Grande do Sul é considerado o celeiro do Brasil, tanto pela lavoura, quanto pela atividade pecuária: suína, aves, cavalar e bovina de corte. Foi precursor da lavoura mecanizada, mas foi palco, também, dos movimentos em defesa do ambiente nos anos 1970. Entre os estados nacionais, destaca-se como o terceiro maior produtor de soja, abaixo do Mato Grosso e quase empatado com o Paraná. Procuramos mostrar que não foi apenas a condição de imigrante a base para o desenvolvimento da soja, mas, houve uma construção social na ocupação e definição da linha de fronteira no Brasil meridional que definiu a lógica da localização das pessoas e de seu trabalho. Se a Geografia se preocupa em descrever e localizar, pensamos em contribuir neste sentido, o porquê da diferenciação regional em sul e norte do ponto de vista do desenvolvimento das relações capitalistas.

               O sul teve seu apogeu econômico em dois momentos. O primeiro no período da indústria do charque. Logo após, influenciado pela frigorificação da carne na região do Prata, aumentou o melhoramento genético no plantel bovino nos campos do pampa brasileiro. Mas a herança do sistema extensivo não permitiu a evolução de uma racionalidade empresarial na atividade pecuária bovina de corte (FONTOURA, 2000). A integração da lavoura com a pecuária só veio acontecer na década de 1990, com programas de melhoramento genético e diversificação na cadeia produtiva da carne. Uma vez mais, seguiu o estado do Rio Grande do Sul os avanços tecnológicos introduzidos nos países vizinhos do Prata, para novamente se diferenciar no cenário da pecuária bovina brasileira.

               A região do Planalto Meridional foi o berço da mecanização da lavoura nos parâmetros da mecanização e quimificação do processo produtivo. Tiveram na região do Planalto atores sociais capazes de produzir e reproduzir as relações capitalistas. Para este fim, o Estatuto da Terra de 1964-65 teve o papel de organizar os subsídios para que o pacote tecnológico se territorializasse, estreitando as formas de produção no campo e na cidade (fordismo na agricultura) (FONTOURA, 2004). Com o avanço da mecanização na agricultura, vários pequenos proprietários de estabelecimentos agrícolas migraram para os centros urbanos, inclusive a região industrial metropolitana de Porto Alegre. Entretanto, com uma economia bastante capitalizada, a região recebeu importantes investimentos e criação de postos de trabalho, elevando índices econômicos e investimentos públicos. Mesmo com uma considerável alteração da paisagem, resultado das lavouras mecanizadas, a região do Planalto apresenta os mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), com maior renda per capita e melhor distribuição que o sul.

A modernização da agricultura do Planalto Meridional do Rio Grande do Sul teve suas origens nos acontecimentos que começam nas missões, passando pelas estâncias e os ervateiros, onde os mestiços do cruzamento do negro, índios e espanhóis, não tiveram acesso à terra. O processo de transformação da terra em mercadoria se dá simultaneamente aos projetos de colonização de imigrantes europeus, e isto vai diferenciar, não apenas a racionalidade, mas também a forma de inserção social, o que difere o peão (bugre, mestiço) do colono (branco). Não se trata apenas de uma questão cultural, mas essencialmente do resultado de organização territorial, de ordem espacial.

               A diferenciação entre as regiões norte e sul do estado, não é apenas o resultado da análise da paisagem instantânea e seus contrastes étnicos em seu povoamento ou em seus sistemas de produção, mas o resultado de um processo diferenciador que tem suas origens desde o processo de formação do território no Brasil meridional.

 

 

Bibliografia

 

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HAESBAERT, Rogério. Territorialidades “gaúchas”. In: VERDUM, R. BASSO, L. SUERTEGARAY, D. Rio Grande do Sul: paisagens em transformação. Porto Alegre. Editora da UFRGS. 2004.

 

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ORNELLAS, Manoelito. Gaúchos e Beduínos. A formação étnica e a formação social do Rio Grande do Sul. 2ªed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio editora, 1956.

 

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WEIBEL, Leo. Capítulos de geografia tropical e do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1958.

 

ZARTH, Paulo. A. Do arcaico ao moderno, o Rio Grande do Sul agrário do século XIX. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 2002.

 

 

Ponencia presentada en el XII Encuentro Internacional Humboldt "El Capitalismo como Geografía", La Rioja, Argentina - 20 al 24 de setiembre de 2010.



[1] Professor Adjunto da UFRGS, Mestre em Sociologia pela UFRGS, e Doutor em Geografia pela USP.

 






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