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Asunto:[encuentrohumboldt] 12/09 - RECORDAÇÕES DO PAMPA
Fecha:Viernes, 13 de Febrero, 2009  00:17:23 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..................ar>

RECORDAÇÕES DO PAMPA

 

Luiz Fernando Mazzini Fontoura

UFRGS – Instituto de Geociências

Departamento de Geografia

 

Resumo: O presente trabalho visa demonstrar as recentes transformações no pampa brasileiro, especificamente a região da Campanha gaúcha, em função da mudança da base técnica e matriz produtiva na atividade agrícola – lavoura e pecuária, resultando em uma nova inserção da Região da Campanha no Rio Grande do Sul, no contexto estadual, nacional e internacional. A partir da liberação dos últimos dados do Censo Agropecuário de 2006 realizado pelo IBGE, vem-se desenvolvendo uma pesquisa comparativa ao comportamento das transformações na atividade pecuária bovina de corte no Uruguai e Argentina através dos dados disponíveis dos órgãos estatísticos destes países. Este quadro de transformação na atividade pecuária na região pampiana abre espaço para outras atividades de alto impacto modificador da paisagem, substituindo os elementos formadores da identidade regional, do bioma e do modo de vida interiorano, por outros típicos de paisagens de cultivo intensivo.

 

Resumen:El presente trabajo visa demonstrar las recientes transformaciones en el pampa brasileño, más especificamente en la región de la “Campanha gaúcha”, por los cambios técnicos e matriz productiva en la agricultura – labra y ganadería, o que resulta en una nueva inserción de la región de la Campanha en la província del Rio Grande do Sul, en país y internacionalmente. Con la publicación de los datos del Censo Agropecuário do IBGE 2006, se desarrolla una investigación comparativa a los comportamientos de las transformaciones en ganadería uruguaya e argentina através de los datos disponibles. Estas transformaciones en la región pampeana cede lugar para otras explotaciones con alto impacto transformador de la paisajem, sustituindo los elementos criadores de la identidad regional, la ecologia de la llanura pampeana, la vida de los pueblos del interior, que se cambió por otros de agricultura intensiva.

 

 Abstract: The present work aims to demonstrate the recent transformations in Brazilian pampa, specifically the campanha gaúcha region, as function of the productive matrix and agricultural activity – agriculture and livestock, as a result of a new insertion of Rio Grande do Sul´s Campanha region in the local, national and international context. Since 2006 last farming census data liberation by IBGE, a research has been carried out in order to make a comparison to the bovine livestock transformation in Uruguay and Argentina through the available data from the statistical institutions of those countries. This transformation depiction in livestock activity in pampa region opens space to other activities which have high impact modification capacity over the landscape, changing the forming elements of regional identity, of biome, and the country way of living, by other landscapes of intensive culture.

 

 

Pampa, palavra de origem quíchua, é o nome dado as planícies de vegetação rasteira que ocorrem no Rio Grande do Sul e nos países do Prata, associado a ocorrência de pastagem que também se denominam savanas, estepes ou simplesmente campo (este o termo mais adequado). É usado como adjetivo para distinguir o animal de cara branca e o restante da pelagem de outra coloração: gado pampa, cavalo pampa, cachorro pampa. É utilizado tanto no masculino como no feminino. Já a Campanha, que vem do termo campo, distingue a porção das terras baixas no estado do Rio Grande do Sul, baixas em comparação ao Planalto, dividindo assim o estado sulista em duas metades, sul e norte respectivamente. A Campanha vem a ser a porção do pampa brasileiro. Sua característica principal é a extensa área de pastagem onde se desenvolveu a atividade pastoril de ovinos, vacum e cavalar.

O casamento entre o domínio das pastagens e a pecuária desenvolvida por espanhóis e portugueses nestas terras deu origem ao modo de vida do gaúcho, que ultrapassa as fronteiras do Brasil, Uruguai e Argentina.

A base física onde se localiza o pampa é o ambiente natural que delimita uma extensão territorial aonde vai se adaptar um tipo de atividade humana que gera um modo de vida. Do ponto de vista do meio, o pampa é um domínio climato-botânico onde temos o predomínio de uma vegetação de gramíneas semelhante às encontradas nas estepes e nas savanas. Portanto, o seu limite será a extensão deste domínio.

Do ponto de vista da ocupação humana temos dois fatores que concorrem para isto: a introdução do gado bovino a partir do Peru pela Coroa Espanhola, através de D. Pedro de Mendoza, e pelo lado português o gado vindo da Capitania de São Vicente. Porém, ambos servem como forma de ocupação territorial para definir as fronteiras, espanhola e portuguesa respectivamente, originando um modo de vida com base na atividade pastoril, que, sobre o meio e adaptado, cria uma identidade territorial que transcende as fronteiras. A figura do gaúcho nos três países onde a paisagem predomina funde a atividade e o meio.

Quanto ao modo de vida, segundo Max Derruau (1982) em sua geografia humana, refere-se sempre a uma coletividade, sendo definido como um conjunto de hábitos pelo qual o grupo que os pratica assegura sua existência. O modo de vida surge como um conjunto de técnicas e elementos jurídicos que vão se estabelecendo e se diferenciando de outros modos de vida.

Como o autor próprio define, não há modos de vida perenes, mesmo quando não se percebe, de forma mais lenta ou mais rápida, existem modificações. A continuidade nas relações sociais vai garantir a existência maior ou não do modo de vida. Em todo pampa podemos dividir em etapas as modificações no modo de vida: a formação da estância, da delimitação da fronteira (grupos armados), o ciclo do charque, a pecuária comercial e a mudança do estancieiro para a cidade, especialização do rebanho europeu e a frigorificação da carne, a decadência da pecuária tradicional e as mudanças atuais na atividade. Isto vai ocorrer em diferentes momentos e mesmo com diferente intensidade no lado brasileiro, no Uruguai e na Argentina. As relações capitalistas na atividade pastoril têm início nos países vizinhos já na indústria do charque e na frigorificação

A idéia de adaptação ao meio surge com a contribuição de Karl Ritter no final do século XIX de onde a geografia francesa vai beber da idéia de criar uma identificação da população com seu território e com isso consolidar a unidade nacional (método este já testado e aprovado pela geografia alemã!). A noção de região tem por base isto: identificar uma porção da superfície terrestre dotada de uma identidade cultural sobre uma base natural. Esta porção é apropriada pelo Estado com a legitimidade do cidadão, que se reconhece e é reconhecido por ele como pertencente ao território, que é a porção do espaço apropriada por um grupo ou grupos. Por isto cada estancieiro defendia suas terras em nome de cada Estado que os reconhecia como donos, castelhanos e brasileiros respectivamente.

Na medida em que as técnicas vão superando os obstáculos colocados pelo meio físico, este deixa de ser o grande fator explicativo, como ressalta Derrurau: cada vez mais, o modo de vida é a resposta de um grupo à organização econômica e social que lhe é imposta ou ele impõe a si próprio. Portanto a idealização de um país chamado Pampa seria um país onde as pessoas se reconhecessem tendo como modo de vida o estilo campeiro, hoje existente muito mais no ideário urbano que propriamente no campo. Nesta medida, a sua existência nas tradições já é uma mostra da sua inexistência na vida real, pois se de fato existisse estaria em plena transformação, não necessitaria ter como base a invenção de uma tradição, aos moldes de Hobsbawn (1982).

A forma como se deu a territorialização da atividade pecuária no desde o tempo da ocupação do território, e a sua evolução para uma atividade comercial com a sedentarização do gaúcho e a consolidação da estância, dá a atividade pecuária no sul do território brasileiro um papel diferente da atividade nos países vizinhos do Prata, revelando-se um fator limitador frente à formação econômico social brasileira. Dirigida para a alimentação da força de trabalho, portanto visando o consumo interno, originou-se um sistema de produção que não estimulou o investimento, e sim a manutenção de baixos custos de produção.

Ao contrário dos países do Prata, o custo do produto final da carne não podia exceder o poder de compra, nem comprometer a acumulação de outros setores da agricultura exportadora (“plantation”) e da mineração. Este limite ao preço do produto final ainda é observado atualmente para a pecuária moderna ou empresarial.

Frente a isto, o papel da atividade pecuária gaúcha na divisão do trabalho passou a ser o de fornecer carne de maior qualidade para mercados mais exigentes e genéticas para o restante do rebanho nacional. De qualquer forma, estes dois mercados têm um tamanho limitado, e isto significa dizer de que haverá uma seleção dos produtores que se mostrarem mais eficientes.

A gênese desta atividade começa com a preia do gado chimarrão, ou o gado criado à solta. Gado este que foi introduzido ainda no tempo das capitanias hereditárias, e que, provavelmente, os jesuítas por volta de 1634 introduziram nos pagos gaúchos. Com alimentação abundante, estes rebanhos se desenvolveram por toda margem esquerda do rio Uruguai. Atrás do couro em um primeiro momento, e do comércio de animais nas feiras de Sorocaba a seguir, paulistas percorreram a porção castelhana da América ao mesmo tempo em que iam estabelecendo currais aqui e ali.

A origem da estância e do estancieiro são estas. De homens sem posses, e que pouco a pouco foram empurrando a fronteira mais para frente. A concessão de Sesmarias, a partir de 1732, estimulou a criação do gado ao mesmo tempo em que o sesmeiro defendia a sua propriedade, defendendo assim, o território luso. A constante peleia com os castelhanos fez com que estancieiros e peões lutassem lado a lado em defesa da estância, muito embora quem sempre garantisse a sua continuidade nestes tempos de muitas mortes foram as mulheres. No retorno dos conflitos a hierarquia militar se reproduzia na fazenda, garantindo a estabilidade nas relações de um sistema de produção praticamente auto-suficiente.

A estabilização da fronteira após a Guerra Cisplatina e o fim da Guerra dos Farrapos dá início ao período da estância comercial. O cercamento das terras a partir de 1870 dispensa um grande contingente de pessoas que viviam nos limites das propriedades, como posteiros e outros agregados. A conseqüência imediata é a favelização nas cidades e o surgimento do “índio vago”, que rodava os caminhos sem ter onde se estabelecer. Neste período uma boa parte dos estancieiros muda para a cidade, terminando a relação mais próxima com o capataz e os demais empregados. É também nestes anos, que começa a introdução de raças européias, o que se tornaria um diferencial da pecuária gaúcha acompanhando a tendência dos vizinhos do Prata.

A virada do século vem acompanhada do fim da era das charqueadas e o começo da refrigeração da carne, implicando mudanças no tempo de abate de novilhos. Do ciclo do couro às charqueadas, o tempo de abate ideal girava em torno dos 7 aos 8 anos, quando o animal abatido tinha a melhor relação entre espessura do couro, carcaça e gordura. A frigorificação exige um rebanho mais apurado, e o tempo de abate cai para quatro anos e meio. A introdução dos banheiros carrapaticidas em 1914, junto com outras medidas na área de sanidade animal e manejo, conseguem diminuir o tempo de abate para 3 anos, encontrando aí o limite, com muitos produtores utilizando o método Voisin, que consistia em um sistema de produção que aproveitava o melhor manejo das pastagens garantindo oferta de pastagem regular para o gado bovino. A partir dos anos 1960, alguns produtores conseguiram diferenciar seu produto, obtendo melhores vendas para um mercado restrito. Nesse momento começa a atividade comercial das churrascarias “espeto corrido”, aproveitando-se da melhor qualidade da carne oriunda de raças européias. Esta atividade, e agregada a ela o tradicionalismo gaúcho, espalha-se por todo o mundo.

Todavia, desde o tempo das charqueadas, e mesmo com a chegada dos frigoríficos, os produtores não mais conseguiram superar suas crises sem a interferência do Estado.

Esta situação tende a se agravar uma vez que a capacidade de enfrentamento das crises pelo setor, sempre foi muito pequena, pelo gerenciamento antiquado e pela transferência de valor que sempre ocorreu da atividade pecuária para setores urbanos, a exemplo das charqueadas e dos frigoríficos. O parcelamento da terra com certeza, contribuiu para acelerar a falência dos produtores. Mantiveram-se, e por vezes ampliaram os negócios, aqueles produtores que diversificaram a atividade, como a produção de terneiros ou a terminação de novilhos. Outra forma encontrada foi à transferência de recursos da pecuária para compra de bens de fácil liquidez em períodos de inflação, como carros, telefone e mesmo imóveis, intercalados em períodos de alta e baixa do boi gordo.

Esta situação não se modifica na década de 80 e nos anos 90. Com a chegada do Plano Real e a relativa estabilidade da inflação, a diversificação dos produtores não funciona mais como estratégia, e a decadência da pecuária tradicional na Campanha pode ser percebida pelo número de imóveis para venda e a queda do preço da terra com esse destino em toda a região da Campanha gaúcha FONTOURA (2000).

A pecuária tradicional deve, mantidas as atuais condições, continuar em crise até que a oferta do produto se iguale ao mercado que se abastece dela, ou seja, açougues populares e abatedouros (em maioria de abate clandestino), que remuneram mal o produtor. Até o momento nenhum programa, oficial ou não, envolveu de forma efetiva este grupo de produtores, pois mesmo os programas mais recentes patrocinados pelos sindicatos não os alcançam, e não existe a possibilidade de assimilar a informação necessária por parte dos produtores tradicionais para produção da atividade pecuária em escala empresarial.

Quanto à pecuária empresarial o futuro é mais promissor. Primeiro porque a estratégia inicial independe do Estado. Começou com a mudança de paradigma da produção pecuária, ou seja, da mudança do sistema de produção, em meados dos anos 1980, consolidando-se na década seguinte, trabalhando conjuntamente as variáveis: manejo, sanidade, genética e alimentação. Com isso foi possível reduzir significativamente o tempo de abate e outros índices importantes como mortalidade, desmame, recria e outros. Isto possibilitou a articulação com setores industriais e de distribuição de uma forma mais eficaz para o produtor.

A adoção de tecnologia exige do produtor uma nova forma de gerenciamento da empresa. Para começar, associando a pecuária à agricultura, como forma de aumentar a renda do estabelecimento e obter complementação alimentar animal com um custo menor. A redução do tempo de abate e o aumento dos índices de produtividade significa para o empresário da pecuária, menor tempo de investimento, maior rotação do capital empregado.

A integração (ou associação como é chamada) com setores industriais à montante, e com setores atacadistas à jusante, impõe ao produtor uma posição de administrador para além do seu estabelecimento, de conhecimento do mercado, e de associação com seus pares na defesa de seus interesses comuns. O subsídio na forma como ocorreu a partir do Estatuto da Terra de 1964-65, e que resultou no “boom” dos anos 70 não existe mais, onde a regra era ganhar para produzir. Hoje, distante das relações com o Estado, o subsídio chega à forma da isenção fiscal, ou produzir para ficar isento. Neste tipo de integração os produtores rurais também ficam com a parte mais lenta do processo produtivo, mas por serem grandes proprietários de terra e curso universitário têm maior domínio político e tecnológico comparado as outras formas de integração conhecidas, como a produção de frangos ou suínos.

No atual processo de globalização da economia, buscam mercados específicos para a colocação de seus produtos: a carne bovina diferenciada para um consumidor também diferenciado. Nada que surpreenda, pois esta é a tônica e o espírito da atual fase do capitalismo.

Quanto a sua posição na atual divisão do trabalho, à montante a pecuária empresarial vai estabelecer relações com a indústria genética, que vai propiciar animais capazes de diminuir o tempo de produção do gado bovino, ao mesmo tempo, em que o produtor deve encontrar como aplicar a tecnologia de acordo com as características do seu estabelecimento. Com a lavoura e a pecuária integradas, o produtor utiliza todos os recursos já conhecidos pela lavoura, como máquinas, sementes, implementos, entre outros, que somado aos recursos utilizados pela pecuária, representa um montante significativo para a indústria. Entretanto, é através das conexões que se estabelece o maior vínculo do produtor pecuário com a indústria à montante, o que proporciona o abate entre um e dois anos.

A pecuária empresarial impõe um gerenciamento da empresa visando o lucro, não apenas a criação de animais. Estes passam a ser mercadorias nas quais existe um investimento que deve, necessariamente, ser recuperado, ampliado no final do processo produtivo. Isto passa também, necessariamente, por novas relações de trabalho com os funcionários, com treinamento, respeito às leis trabalhistas e principalmente participação no crescimento da empresa, gerenciamento do tipo qualidade total.

À jusante, a pecuária empresarial vai estabelecer vínculos de parceria com frigoríficos e redes de supermercados, onde é responsável pelo fornecimento regular de carne, reduzindo os estoques, diminuindo o tempo entre a saída do estabelecimento, o matadouro e o balcão do mercado, a exemplo das grifes de carne, novilho jovem etc. Esta agilidade aumentou o poder de barganha dos produtores, facultando-lhes o direito de participar da divisão dos lucros na cadeia produtiva, algo inconcebível nos tempos da pecuária tradicional.

Esta integração da pecuária empresarial à montante e à jusante denominamos de   I-P-A (indústria-pecuária-atacado). Por estas mudanças na gestão dos negócios e no modo de vida dos pecuaristas, é que acreditamos que a passagem do produtor da pecuária tradicional (ciclo longo) para a empresarial, ou moderna (ciclo curto), não depende somente da vontade do produtor. Pois a formação de um e de outro, bem como as relações que mantém com o mundo externo e o estabelecimento, são completamente diferentes.

Sobre isso devemos salientar dois comportamentos que bem definem as diferenças entre o produtor tradicional e o empresarial. A proposta que norteia a associação ou o sindicato rural é outra.

Estas entidades passaram a ter o caráter aglutinador de produtores e dissipador de tecnologias, procurando soluções alternativas e respeitando as suas diferenças. As saídas visam uma reação do produtor frente as suas dificuldades. O tipo de liderança leva em conta as realizações do líder, não mais seus vínculos com as esferas de poder. Em muitas situações isto causa algum tipo de atrito entre os dois tipos de produtores, mas a inserção e o sucesso do empreendimento empresarial acabam por se impor frente às antigas estruturas agrárias mais conservadoras. A legitimidade da atual forma associativa se confirma a partir da participação de toda a gama de produtores nos cursos de extensão promovidos, bem como a aceitação e a satisfação dos entrevistados.

A participação nas conexões é outra diferença significativa entre o pecuarista tradicional e o empresarial, que pressupõe o manejo do rebanho em conjunto com vários estabelecimentos, além do acompanhamento de serviços terceirizados de avaliação genética.

Observando-se a tabela abaixo, pode-se notar que o cruzamento industrial (leia-se pecuária empresarial) é maior no estado do Rio Grande do Sul, ou seja, o sistema de produção de ciclo curto que neste estado tem as características de cruzamentos com raças européias, que tem maior valor comercial e aceitação em países de maior poder aquisitivo.

 

 

Tabela 1. Rebanho Bovino, em número de cabeças, no Brasil em 1998.

 

 

corte

%

 

Esta-dos

total

Leite

cruzamento industrial

outros

leite (%)

Cruza-mento industrial %

Ou-tros (%)

 

MG

19.268.885

5.413.690

1.348.822

12.506.373

28,10

7,00

64,90

 

SP

12.039.417

2.141.644

2.046.701

7.851.072

17,79

17,00

65,21

 

MS

19.030.317

1.921.774

2.473.941

14.634.602

10,10

13,00

76,90

 

MT

14.925.397

941.814

1.343.286

12.640.297

6,31

9,00

84,69

 

GO

15.272.270

2.578.975

1.374.504

11.318.791

16,88

9,00

74,11

 

PR

9.269.552

1.933.579

1.575.824

5.760.149

20,86

17,00

62,14

 

RS

12.866.031

1.647.401

4.245.790

6.972.840

12,80

33,00

54,19

 

fonte: ANUALPEC/FNP 1999.

 

 

Em grande parte, o aprimoramento genético dos bovinos está sob domínio de grupos multinacionais. Este fato já causaria a fuga do produtor tradicional que desde o tempo da instalação dos frigoríficos temia a presença do capital estrangeiro. Ao contrário, o produtor empresarial fortalece as conexões, e a partir deste estágio, vislumbra novos mercados para o seu produto. Uma vez que o aumento de produtividade da pecuária empresarial advém dos resultados dos ganhos genéticos a partir do choque de sangue de raças diferentes, a heterose, e da seleção e avaliação das diferenças esperadas de progênie (DEP). A participação nas conexões tem que ser constante para obter os resultados desejados, o que mantêm os pecuaristas sempre mobilizados para estas e outras ações que envolvam os interesses do setor. Nos últimos anos tem crescido o número de vendas de matrizes genéticas do Rio Grande do Sul para estados da Região Centro – Oeste, principalmente em feiras agropecuárias, com o intuito de melhoramento genético.

A mudança de ritmo e racionalidade da produção e dos seus atores sociais transforma também a relação cidade-campo. As decisões tomadas no campo são geradas em centros urbanos maiores, e as cidades que são circundadas por zonas rurais tecnologicamente mais avançadas passam a prestar serviços especializados e respondem imediatamente às transformações que ocorrem no campo. Por outro lado, sedes urbanas circundadas por atividades primárias tradicionais tendem a refletir o ritmo e a racionalidade da produção predominante, diferenciando-se do modelo urbano-industrial. Às alterações de ritmo e racionalidade provocadas pela elevação do patamar tecnológico, onde as relações de produção são alteradas no meio rural, integradas às atividades urbano-industriais, chamamos de urbanização do rural, onde as relações capitalistas se desenvolvem integrada cidade-campo, diferenciada apenas no campo, onde a terra ainda é o meio de produção principal.

Já o mercado de carnes para a pecuária tradicional deve ficar restrita ao mercado periférico, de mercados populares, pequenos retalhistas e sedes urbanas de pequeno porte. A diferenciação na tributação, favorável para o abate de novilhos até dois anos, o acondicionamento de carnes em mercados diferenciados, separam cada vez mais o consumidor segundo o seu poder aquisitivo. A convivência com o abate clandestino demonstra certa passividade com um mercado que deve continuar a ser restrito e com poucas condições de valorizar o seu produto, mercado este preferencial para a pecuária tradicional. Deve encontrar um ponto de equilíbrio entre oferta e demanda, determinando o volume e número de estabelecimentos onde deverá permanecer a atividade pecuária nos moldes tradicionais.

A baixa remuneração desse setor, sem a possibilidade de se expandir, deve manter bolsões desta atividade, com uma tendência sempre a diminuir.

Já o mercado para a pecuária empresarial apresenta-se de duas formas: genética e de carnes. O primeiro tem-se ampliado na medida em que se tornam mais vantajosos a melhoria e refinamento do rebanho zebuíno no centro do país. Com o maior rebanho comercial do mundo, as expectativas dependem do aumento de consumidores de carne diferenciada com maior poder aquisitivo. Esta perspectiva se abre para os produtores que trabalham com a produção de touros, sêmen e vacas, objetivando o aumento da precocidade e qualidade da carne. Como alertamos anteriormente, este tipo de pecuária exige níveis maiores de investimento e retorno mais lento.

O mercado de carnes fruto da cadeia produtiva que integra a indústria – pecuária – atacado (I-P-A) resulta nas grifes de carnes de qualidade que aumenta todo ano, com tendência a aumentar as cotas de exportação na medida em que avança as negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC). A visita dos agentes da União Européia e o credenciamento de fazendas com capacidade de abastecimento de carne é uma comprovação disto. Com isto, a remuneração e a produtividade devem aumentar, bem como o preço do produto ao consumidor final. O poder aquisitivo da população entra aqui como uma variável importante, pois deve ser correspondida pelo aumento ou diminuição da produção devido à flexibilidade da pecuária empresarial.

O Rio Grande do Sul, junto com o Uruguai, Argentina e parte da Austrália, formam um restrito grupo de produtores de carne com animais criados a campo, ou seja, sem a ingestão de produtos tóxicos, longe do perigo da “vaca louca”, portanto dentro das exigências da Comunidade Européia. O significado e a importância deste fato devem-se à possibilidade de aumento da produção e a imediata ampliação de toda a cadeia produtiva da carne. Em conseqüência disto, acreditamos que isto geraria um surto de desenvolvimento da Campanha gaúcha, pela diversidade de áreas com que se relaciona a pecuária empresarial e o aumento da divisão do trabalho, o que teria como conseqüência imediata o aumento do número de postos de trabalho.

Ao contrário do que o número total de cabeças no Rio Grande do Sul possa mostrar se não houve crescimento do rebanho gaúcho, houve diminuição da área destinada para esta atividade, o que nos faz pensar em um aumento da produtividade pela mudança do sistema de produção, como podemos observar abaixo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 2. Efetivo Pecuário Bovino no RGS

 

CENSOS

nº de cabeças (bovinos)

1960

8.810.312

1970

12.305.119

1975

12.692.127

1980

13.985.911

1985

13.509.324

1995-96

13.221.297

2006*

13.974.827

fonte: Censo Agropecuário IBGE

*efetivo bovino em 31.12.2006 Pesquisa pecuária municipal.

 

1995

14.100.000

fonte: FEE - RS

 

1998

12.866.031

fonte: ANUALPEC 1999.

 

Tabela 3. Pecuária Bovina no RGS

condição do produtor

1975

1985

1995-96

proprietário

10.269.250 ha

9.348.018 ha

7.711.898 ha

 

90,02%

88,50%

89,67%

arrendatário

846.389 ha

787.115 ha

648.658 ha

 

7,42%

7,45%

7,54%

parceiros

54.817 ha

139.536 ha

98.938 ha

 

0,48%

1,32%

1,15%

ocupante

237.850 ha

287.572 ha

44.574 ha

 

2,08%

2,72%

1,19%

área total (ha)

11.408.306

10.562.241

8.600.073

fonte: Censo Agropecuário IBGE.

 

Tabela 4. Percentual em Relação à Área Total

ano

área total RS (ha)

% ocupado com bovinos

%ocupado com arroz

1975

20.575.546

55,44%

8,84%

1985

20.352.202

51,90%

12,55%

1995

21.800.887

39,44%

11,41%

 

 

Tabela 5. Número de Bovinos em Relação à Área Destinada à Pecuária Bovina

 

Censo

IBGE

nº de cabeças

área total bovinos RS (ha)

índice de densidade

1975

12.692.127

11.408.306

1,11

1985

13.509.324

10.562.241

1,28

1995-96

13.221.297

8.600.073

1,54

 

 

 

 

 

 A tabela 1.3.23 Confronto dos resultados dos dados estruturais dos Censos Agropecuários Rio grande do Sul – 1970/2006 mostra o seguinte:

 

 

1970

1974

1980

1985

1995

2006

Área total (há)

23.807.180

23.663.793

24.057.611

23.821.694

21.800.887

19.707.572

Lavouras

4.978.173

5.929.490

6.682.613

6.592.085

5.635.392

7.238.843

Pastagens

14.634.986

13.772.888

13.302.315

12.963.460

11.680.328

8.955.229

Matas e florestas

1.971.601

1.948.864

2.080.235

2.235.460

2.511.631

2.676.805

 

 

Como podemos observar há um decréscimo na área destinada à atividade pecuária bovina, o que significa que a estabilidade percebida no número total de cabeças, aponta para um processo de várias mudanças nos sistemas de produção existentes e dos agentes que promovem tal evento. Se a manutenção do número de cabeças representasse estagnação, tal número teria diminuído acompanhando a área destinada à produção. A relação número de cabeças e área produzida reflete uma dinâmica de substituição da pecuária tradicional pela empresarial, que associada a outras formas de inserção em mercados globalizados e deverá resultar em um outro perfil para a Campanha gaúcha. Fato este que se confirma nos dados preliminares do Censo de 2006, pois o total do rebanho se mantém e a área destinada à pastagem diminui, enquanto a lavoura e a área de matas e florestas aumentam. Importante salientar, também, que a área total destinada à agricultura, lavoura e pecuária, diminui.

A região da Campanha no estado do Rio Grande do Sul vem se diferenciando pela criação de raças predominantemente européias e que, mesmo com os cruzamentos e desenvolvimento de raças sintéticas, continuará sendo um estado exportador de raças e carnes, redimensionado sua participação frente à divisão do trabalho, integrando-se à mundialização do capital.

A idéia é desenvolver na próxima etapa desta pesquisa um quadro comparativo do comportamento da atividade pecuária bovina de corte, a que se enquadra em uma região agrícola do pampa, nos três países, pois se acredita que as transformações que ocorrem no pampa brasileiro, ocorrem também no Uruguai e em um estágio mais desenvolvido na pampa argentina.

De uma forma geral, a atividade pecuária bovina vem crescendo no território brasileiro, passou de 153.058.275 para 205.886.244 cabeças, ou seja, um crescimento de 33%. Sabe-se que parte deste aumento do plantel está relacionada ao crescimento da área de pastagem em área de floresta na região amazônica. Como já vimos anteriormente, no estado do Rio Grande do Sul o plantel bovino se mantém em torno dos 13 milhões de cabeças há pelo menos três décadas. O que aumenta é área de lavoura mecanizada e a silvicultura. Nos países vizinhos do sul o comportamento é semelhante.

O caso argentino aponta na mesma direção. O pampa argentino também vem sendo substituído pela lavoura mecanizada e a pecuária empresarial. Nesta região é possível verificar que, no verão, o sistema de produção obedece a seguinte disposição: cultivos de milho, soja, girassol e sorgo, ¾ da área, e ¼ disponibilizado para a pecuária de corte. No inverno substituem-se as lavouras por trigo e pastagens de inverno para a alimentação bovina na mesma proporção. Na entressafra o rebanho se alimenta da resteva (pastagem após a colheita). BARSKY e GELMAN (2005, 367) descrevem que o processo de modernização na agricultura, que inclui um processo social também, se apropriou de 5 milhões de hectares que eram destinados a produção vacum, processo que tem seu início nos anos 1960, mas que acelera-se na década seguinte. Este processo é conhecido como “agriculturización de la región pampeana”. Pouco se observa na paisagem do pampa os campos sem fim! Em 1988 a Argentina contava com um plantel de 47.075.156 cabeças de bovinos, enquanto que em 2002 este número se manteve em um mesmo patamar, com 48.539.411 (INDEC 1988 e 2002).

O caso uruguaio acompanha a transformação regional. O pampa dá lugar à pecuária leiteira, que associa forte produção de forrageiras para a alimentação de um rebanho altamente especializado, que se distribui no caminho de Colônia do Sacramento até o sul Maldonado – Punta del Leste, pelo litoral, e a atividade viticultora e principalmente, a silvicultura. Sobre a maior parte da porção do escudo cristalino, semelhante à porção gaúcha e brasileira, vamos encontrar estas duas atividades. Na porção noroeste do território uruguaio vamos encontrar o melhor da pecuária de corte. Criados soltos no pasto vão encontrar espécies européias, principalmente o gado Hereford, pastando uma gramínea homogênea que se perde em um horizonte sem cercas. Mas é pastagem melhorada, daí a homogeneidade na paisagem. Neste lugar é produzido o “boi verde”, a “carne ecológica”, que é a especialização do Uruguai no mercado internacional de carnes.

Na porção do pampa gaúcho e brasileiro não é diferente. A silvicultura encontrando terras com baixo preço deixadas pela pecuária extensiva desenvolve-se em ritmo acelerado. A ARACRUZ, VOTORANTIM e STORA ENZO, pretendem passar os 600 mil hectares plantados para a produção de celulose. Um número pequeno para o Brasil Central, mas muito grande para a realidade deste estado. O Uruguai tem um total de 684 mil há, segundo o DIEA/MGAP, o anuário estatístico agropecuário de 2007. As lavouras para a produção de grãos como girassol e mamona para a produção do biodiesel deve estimular estas monoculturas.

Somado a este processo, outras atividades como o turismo rural vem se desenvolvendo junto às estâncias e principalmente em áreas de declínio econômico. São várias as experiências encontradas em campo em setores de agricultura especializada, como produção de sementes e produção de hortigranjeiros sem a utilização de agrotóxicos, os produtos orgânicos e ecológicos.

Em vários assentamentos da Reforma Agrárias organizadas em forma de cooperativas encontram a produção vegetal orgânica e leiteira ecológica.

Isto significa uma reestruturação da economia agrícola na região da Campanha gaúcha que vem substituindo a antiga forma tradicional da atividade pecuária extensiva que apresenta sinais de declínio econômico demonstrado pelos indicadores que exemplificam a “metade sul”. Estas novas formas de atividade econômica e de uma nova estrutura social, formada a partir de novas relações sociais e formas de inserção na sociedade globalizada, devem ser a base de um novo perfil da região da Campanha nas próximas décadas.

Estas transformações sobre a atividade pecuária extensiva vêm transformando a paisagem, uma vez que substitui a vegetação original em simbiose com atividade pastoril. Tanto que o debate atual traz a questão da manutenção do “bioma pampa”. Ora, a definição de bioma diz que são ecossistemas que atingem um grau máximo de adaptação às condições ambientais de uma área. O equilíbrio atingido e que reconhece a preservação de animais e plantas foi desenvolvido em trezentos anos de ocupação da pecuária extensiva, com a presença do pastoreio, das queimadas, com rebanhos ovino, bovino e cavalar. O que garantiu este equilíbrio foi o baixo nível de intervenção técnica, a forma do manejo da exploração do campo. Entretanto, ficou defasado em relação ao movimento total da sociedade se tornando área de declínio econômico e êxodo rural. Qualquer outra atividade que venha a substituir esta irá modificar a paisagem, pois foi a atividade pecuária extensiva que moldou o pampa. Frente a tal transformação em área de campo deve haver uma especial preocupação da pesquisa no sentido de entender o processo para avaliar o impacto e apresentar alternativas.

O que acompanhamos no atual momento é a transformação do pampa em atividades inseridas em um capitalismo global, com novas formas de inserção no mercado e modificação de hábitos e costumes. O que sobrar do pampa será na forma de áreas de proteção ambiental, ou como mercadoria especial através da paisagem e sua exploração turística, ou no imaginário urbano através da tradição e do folclore. Ou em nossas recordações.  

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

   

ALMEIDA, Jalcione. A construção social de uma nova agricultura. Porto Alegre, editora da UFRGS. 1999.

 

BARSKY, Osvaldo. GELMAN, Jorge. História del agro argentino. 2ªed. Buenos Aires. Mondadori. 2005.

 

DERRUAU, Max.Lisboa, editora Presente.1982. 2 vol.

 

EMPRESA AGROPECUÁRIA GUATAMBU.  Sistemas de Produção. Dom Pedrito s/d.

 

HARVEY, David. A arte de lucrar: globalização, monopólio e exploração da cultura. IN: MORAES, Denis (org). Por uma outra globalização. Rio de Janeiro. Record. 2003.

 

HOBSBAWN, E. & RANGER,T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra.        1984.

 

FAUCHER, Daniel. Geografía agraría. 2ª ed. Barcelona, ediciones Omega s.a.. 1975.

 

FONTOURA, Luiz F. M. Macanudo Taurino: uma espécie em extinção?. São Paulo, USP, Tese de Doutorado. 2000.

 

FONTOURA, Luiz F. M. A produção social do espaço agrário. In: VERDUM, R. BASSO, L. SUERTEGARAY, D. Rio Grande do Sul:paisagens em transformação.Porto Alegre. Editora da UFRGS. 2004.

 

Revista ANUALPEC. Publicação da FNP, consultoria e comércio. 1999.

 

 

Consulta na internet:

 

http://www.ibge.gov.br

 

http://www.ine.gub.uy/

 

http://www.indec.mecon.ar/

 

 


Ponencia presentada en el Décimo Encuentro Internacional Humboldt. Rosario, provincia de Santa Fe, Argentina. 13 al 17 de octubre de 2008.  




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