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Asunto:[encuentrohumboldt] 248/08 - Florianópolis e as imagens da cidade: a exp ansão dos equipamentos turísticos
Fecha:Lunes, 15 de Diciembre, 2008  08:39:04 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..................ar>

Florianópolis e as imagens da cidade:

a expansão dos equipamentos turísticos [1].

 

Maria Helena Lenzi[2]

Tiago Cargnin Gonçalves[3]

 

Abstract

This article aims to show how the tourism in Florianópolis, capital of Santa Catarina/Brasil, has fomented an intense growth and how it is characterized for being one of the main constituent elements of the city images. We will introduce the population growth's recent situation, a brief discussion around the image concept and an analysis data referring to the tourism and its equipments as parts of the current city. Florianopolis is known as a place which has a tourism vocation, being it seasonal, business or events. It is based in several elements, such as the touristic equipments amplification and its internationalization, and the city growth. In the initiative of promotion of Florianópolis, we recognized a different territory usage, mainly in its central area, which gains value in business and events; and its north area, specialized in season tourism. Both the growth and the way how the touristic activities have been developed, confirms the idea that its territory rationalization is a process that is being enhanced, becoming evident in the city's landscape itself.

 

 

Resumo

 

Este artigo objetiva mostrar como o turismo em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina/Brasil, tem fomentado intenso crescimento e como ele se caracteriza por ser um dos principais elementos constitutivos das imagens da cidade. Apresentaremos a recente situação de crescimento populacional, uma breve discussão em torno do conceito de imagem e uma análise de dados referentes ao turismo e seus equipamentos, enquanto elementos da atual imagem da cidade. Florianópolis é divulgada como um lugar que possui vocação para o turismo, seja ele de temporada, negócios ou eventos. Isso se fundamenta em vários elementos, como a ampliação dos equipamentos turísticos e sua internacionalização, e o crescimento da cidade. Na iniciativa de promoção de Florianópolis, reconhecemos um uso diferenciado de seu território, sobretudo sua área central, que se revaloriza no turismo de negócios e eventos; e sua parte norte, especializada em turismo de
temporada. Tanto o crescimento quanto a forma como a atividade turística vem se desenvolvendo confirmam a idéia de que a racionalizaçao do território é um processo que vem se acentuando, tornando-se evidente na própria paisagem da cidade.

 

 

Introdução

 

Florianópolis não é mais a mesma! – exclamam os que aqui vivem ou os que à cidade retornam passado algum tempo. Nos últimos anos, a cidade tem sofrido um acelerado crescimento populacional, contando em 2007 com 396.723 habitantes e apresentando a maior taxa de crescimento populacional dentre as maiores cidades catarinenses – 46,20% entre 1996 e 2007.

Este artigo objetiva mostrar como o turismo em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, tem fomentado esse intenso crescimento concentrado em algumas partes da ilha de Santa Catarina[4] e como ele caracteriza-se por ser um dos principais elementos constitutivos das imagens da cidade (figura 1).

Inicialmente apresentamos a recente situação de crescimento populacional em Florianópolis e uma breve discussão em torno do conceito de imagem, seguida da análise de dados referentes ao turismo e seus equipamentos enquanto elementos da atual imagem da cidade.

Entendemos por equipamentos turísticos as atividades relacionadas a lazer, hospedagem, eventos e comércio, além dos órgãos responsáveis por sua difusão e divulgação.

 

 

FIGURA 1: Florianópolis: localização.

 

Florianópolis publicizada

 

Entre 1996 e 2007, o maior crescimento populacional observado ocorreu no litoral do estado (quadro 1), principalmente nas cidades de Balneário Camboriú, Palhoça e Florianópolis. A uni-las, os investimentos em turismo, principalmente no turismo de verão. Balneário Camboriú já é um pólo turístico consolidado e bem estruturado para receber seus visitantes, enquanto Palhoça tem se direcionado cada vez mais para o turismo, tanto de verão quanto de aventura, devido à diversidade de terrenos encontrados no seu território que abriga serras e cachoeiras, adotando o slogan “Palhoça, Bela por Natureza”[5]. Além de ser a capital do estado, Florianópolis é uma ilha e agrega altos índices de qualidade de vida, atraindo cada vez mais turistas e também moradores.

 

QUADRO 1 – Cidades catarinenses: crescimento populacional, 1996-2007.

Municípios[6]

População Urbana

Crescimento (%)

1996

2007

1996-2007

Joinville

397 951

487 003

22,38

Florianópolis

271 281

396 723

46,20

Blumenau

231 401

292 972

26,60

São José

151 024

196 887

30,40

Criciúma

159 101

185 506

16,60

Chapecó

131 014

164 803

25,80

Itajaí

134 942

163 218

20,96

Lages

148 860

161 583

8,55

Jaraguá do Sul

93 076

129 973

39,64

10º

Palhoça

81 176

122 471

50,87

11º

Brusque

66 558

94 962

42,68

12º

Balneário Camboriú

58 188

94 344

62,14

Santa Catarina

4 875 244

5 866 252

20,33

Fonte: IBGE. Contagem da População (1996); IBGE. Contagem da População (2007).

 

Essa constatação, que pode ser interpretada de diversas formas, também é nossa, tanto no papel de geógrafos como no de habitantes da cidade. De acordo com a perspectiva dialética, expressada por Bakhtin (2003), entendemo-nos em diálogo com o mundo, pois o pensamento sobre o mundo – aquele que procura abarcá-lo – é também pensamento no mundo – aquele que se sente parte dele. Partimos de observações nossas e de dados referentes à distribuição de equipamentos voltados ao turismo na Ilha de Santa Catarina.

Entre fontes publicitárias[7] consultadas encontramo-nos em e com diversas representações da cidade (diversas ilhas mais propriamente, pois a parte continental muitas vezes não é citada): Ilha da Magia, Ilha de Sonhos, Ilha da Beleza, Ilha Prometida, Ilha da Natureza, Ilha do Turismo, Ilha de Investimentos. A seguinte citação é parte de uma publicação oficial do Governo do Estado especial para cidades com vocação turística (Almanaque Roteiros Turísticos Regionais - Grande Florianópolis) e descreve Florianópolis da seguinte maneira:

 

A maior parte da capital catarinense está situada na Ilha de Santa Catarina, conhecida por suas belezas naturais protegidas por extensas áreas de preservação permanente. [...] A arquitetura açoriana completa harmoniosamente a paisagem e ainda sobrevive no centro da cidade e em muitas freguesias, num resgate permanente da história romântica da Ilha [...]. Atualmente, Florianópolis detém o quarto mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre todas as cidades brasileiras. É a capital com melhor qualidade de vida do país, pelos seus atributos naturais complementados pelas elevadas taxas de escolaridade e renda da população – cerca de 370 mil habitantes – boa infra-estrutura urbana e de serviços. Há ótimos hotéis, pousadas, restaurantes, shoppings, centro de evento, aeroporto internacional e vida noturna agitada. Atrativos que dão suporte ao turismo, principal atividade econômica do município, que é também um dos mais destacados pólos de tecnologia e informática do país e o maior produtor de ostras em cativeiro do Brasil (GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARIANA, s/ data, p.6,7).

 

A publicização da cidade, porém, não é um fenômeno recente. Algo que vimos observando é que artigos de periódicos da década de 1950 já expressavam isso. É também esta a época em que o contexto urbano de modernização passa a se manifestar na cidade de Florianópolis, alterando mais rapidamente seu ritmo e paisagem, e nos parece que é neste momento que as imagens atuais começam a ser geradas.

Flores (1997), Pereira (1984) e Castro (2006) mostram, através de relatos e documentos das décadas passadas, uma preocupação em atrair o “moderno”, que estava sendo difundido e implantado em outras áreas do país, para a cidade; em promovê-la e transformá-la em um tipo de paraíso, sobretudo para o turismo internacional. Porém, isso não se desenvolve na cidade inteira, mas em algumas partes. O processo de difusão e implantação das técnicas sobre o espaço é seletivo (SANTOS, 2002), e na Ilha, isso se nota na orientação, desde a década de 1970, dos investimentos públicos (infra-estrutura em geral) e privados (hotéis, restaurantes, clínicas, postos de combustível, empreendimentos imobiliários de alto padrão etc.) voltados principalmente para desenvolver e equipar a parte norte. Portanto, a publicização da cidade – que vem ocorrendo há alguns anos – implica a escolha de algumas de suas partes para tal, o que associa a construção de imagens da cidade aos interesses de certos atores.

Atualmente difunde-se a idéia de que a Ilha possui algumas vocações, de que é um paraíso não só para turismo, mas também para investimentos e para viver, devido, entre outras características, à qualidade de vida, segurança e proximidade à natureza, elementos citados em boa parte das fontes consultadas.

Mas o que significa possuir uma vocação? Etimologicamente, vocação, do Latim vocatìo, ónis 'ação de chamar; intimação, convite', significa ter aptidão, disposição, pendor.[8] Porém, notamos que não é toda a cidade que possui essa aptidão, mas pontos escolhidos para serem difundidos em seu nome, para que a representem bem.

Segundo Machado,

 

A partir dos anos oitenta, o turismo em Florianópolis assume decisivas orientações por parte da iniciativa privada que, pelo dinamismo vislumbrado em décadas anteriores e pelas perspectivas de crescimento deste setor, passaram a exercer papel considerável de influências sobre políticas para o desenvolvimento urbano e regional. Nesse particular, as atividades ligadas às indústrias de construção civil e empreendimentos hoteleiros despontam entre aquelas que buscam, dentro de seus estilos, abocanhar o máximo da fatia desse novo tipo de geração de rendas. Começa também a existir uma diversificação de atividades por parte dos grupos econômicos interessados pelo setor, em geral voltados para os meios de hospedagem (casas para aluguel, pousadas, etc.), particularmente nos locais de balneário (2000, p.176).

 

É o espaço instrumentalizado, tomado em suas partes funcionais, que facilita a ação de determinados atores, pois “a ação é tanto mais eficaz quanto os objetos são mais adequados. Então, à intencionalidade da ação se conjuga a intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da respectiva carga de ciência e de técnica presente no território” (SANTOS, 2002, p.94). A adequação (eficácia) desses objetos está diretamente relacionada ao “quociente” de racionalidade do território, à forma de implantação dos sistemas técnicos e também a sua densidade (presença de redes técnicas que operacionalizam o território, que o tornam mais funcional, ordenado e disponível). Essa racionalidade não se apresenta somente nas formas, mas sobretudo nas ações, o que inclui a concepção de cidade que se tem.

O turismo é uma atividade econômica que se apropria dos espaços da cidade como espaços de consumo, ou melhor, de consumismo. E certamente a atividade turística é grande responsável pelas imagens atuais de Florianópolis.

 Para Augé (1998), a diversidade do mundo pouco tem a ver com o caleidoscópio ilusório do turismo, e segue dizendo que

 

esas agencias que cuadriculan la tierra, que la dividem en recorridos, estadías, em clubes cuidadosamente preservados de toda proximidad social abusiva, que han hecho de la naturaleza un “producto”, así como otros quisieran hacer un producto de la literatura y del arte, son las primeras responsables de la ficcionalización aparente; en realidad, son las responsables de convertir a unos en espectadores y a otros en espectáculo (AUGÉ, 1998, p.16).

 

As imagens (produzidas pela indústria do turismo, mas também pelos órgãos públicos e pelos agentes do mercado imobiliário) não são entendidas aqui como meras reprodutoras de paisagens[9], mas criadoras de cidade, pois instauram um sentido.

Isso não significa, no entanto, que descartemos a paisagem enquanto notável recurso turístico, mas que as entendemos como construções sociais. Em nosso caso é evidente o que fala Rodrigues: “as tomadas de praias paradisíacas atraem os turistas, ávidos de exotismo, de aventura, de mistério. Por isso, o marketing turístico explora tanto as fotos nos folders promocionais” (1997, p.74).

Entendemos que as imagens que visam representar esses espaços não falam por si, mas são historicamente construídas e, assim como as palavras, são signos ideológicos remetendo-nos às relações políticas constituintes da cidade. Essas imagens têm a capacidade de intervir na cidade, pois a re-significam, realizam uma concepção de cidade espacializando-se. Entendemos as transformações recentes da cidade como acontecimentos próprios do mundo técnico-científico-informacional, ou seja, só possibilitados com a modernidade, que, racionalizando o espaço, fragmenta-o e torna possível não só sua transformação em produto (sua alienação herdada da dissociação entre o homem e a terra), mas também em imagem.

 

 

Equipamentos turísticos como elementos constituintes da imagem

 

Alguns equipamentos implantados recentemente em Florianópolis como dois shopping centers[10], hotéis de cadeia nacional e internacional, grande número de agências de viagens[11], projeto de ampliação do Aeroporto Internacional Hercílio Luz, construção do Sapiens Park[12], centro de convenções, entre outros, que visam acolher e proporcionar infra-estrutura aos turistas que visitam a cidade, passam a compor algumas de suas imagens, sobretudo as voltadas para a promoção do mercado turístico.

Abordamos aqui alguns destes equipamentos a fim de entendermos a maneira como se distribuem e se articulam em busca de um desenvolvimento da cidade calcado nas atividades turísticas.

No setor hoteleiro, Florianópolis conta hoje com 464 estabelecimentos de hospedagem, sendo 174 hotéis, 6 motéis, 225 pousadas, 13 campings e 46 albergues/dormitórios[13]. Juntos totalizam 28.500 leitos, representando 73% do total encontrado nos nove municípios que compõem a Grande Florianópolis: Águas Mornas, Biguaçu, Garopaba, Governador Celso Ramos, Palhoça, Paulo Lopes, Santo Amaro da Imperatriz, São José e a capital.

Nessa contagem, consideramos de suma importância o papel dos hotéis ligados às redes nacionais e internacionais situados em Florianópolis, que representam 8,14 % dos leitos identificados pelo censo realizado. De fato, Florianópolis tem se tornado um ponto de instalação de alguns empreendimentos que se organizam em rede. A cidade vem se configurando com um dos “nós” dessas redes, ampliando suas conexões com lugares próximos e distantes. O quadro 2 mostra como a maioria dessas redes hoteleiras tiveram suas atividades iniciadas há poucos anos. Praticamente 80% dos hotéis se instalaram em Florianópolis depois do ano 2000.

 

QUADRO 2 – Florianópolis: hotéis de cadeias nacionais e internacionais, 2008.

Hotel

Início das Atividades

Localização

Número

de Leitos

Rede Hoteleira

País de Origem

Número de Hotéis no Mundo

Mercure Apartments Lindacap

1996

Centro

132

Accor Hotels

França

688

Bristol Multy Castelmar Hotel & Convention Center

1999

Centro

280

Bristol Hotéis & Resorts

Brasil

20

Blue Tree Towers

2000

Centro

180

Blue Tree Hotels

Brasil

24

InterCity Premium Florianópolis

2002

Centro

246

InterCity Hotéis

Brasil

15

Ibis Florianópolis

2003

Centro

396

Accor Hotels

França

803

Mercure Apartments Itacorubi

2005

Itacorubi

338

Accor Hotels

França

688

Baía Norte Othon Classic

2006

Centro

223

Othon Hotéis

Brasil

35

Deville Express Florianópolis

2006

Centro

190

Hotéis Deville

Brasil

10

Sofitel Florianópolis

2006

Centro

170

Accor Hotels

França

185

Bristol Dobly Oceania Park Hotel

2007

Ingleses

164

Bristol Hotéis & Resorts

Brasil

20

Fonte: Organizado por Tiago Cargnin Gonçalves com base nos sítios dos hotéis e entrevistas – 2008.

 

A partir desse quadro, podemos ainda inferir outras características e conclusões sobre a dinâmica de implantação de hotéis de redes nacionais e internacionais em Florianópolis. Dentre as redes que se instalaram em Florianópolis, somente a Accor Hotels[14] é de origem estrangeira. Mesmo sendo a única, detém 40% dos hotéis apontados, fato que acontece também no restante do país, visto que a rede é a de maior atuação no território brasileiro. Os demais hotéis pertencem às redes nacionais e se dividem entre os que são encontrados somente no Brasil (40%) e os que atuam em outros países (20%). Dentre as redes hoteleiras nacionais presentes em Florianópolis que se internacionalizaram estão a Blue Tree Hotels que atua na Argentina e a Othon Hotéis, presente nos Estados Unidos, França, Portugal e Peru.                            

A atual configuração da rede hoteleira em Florianópolis resulta de dois processos concomitantes: o primeiro consiste na transformação de alguns hotéis tradicionais da região central de Florianópolis em unidades de redes hoteleiras nacionais e internacionais – 40% dos estabelecimentos assumiram bandeiras já vistas em outras cidades dentro e fora do país e que favorecem a comercialização de um serviço já conhecido (figura 1). O segundo processo implica no aparecimento de novos objetos no espaço urbano, ou seja, as próprias redes constroem os edifícios nos quais irão se instalar. No caso dos hotéis Mercure, ainda ocorreu uma reorganização no interior da própria rede. Entre o final do ano de 2006 e o início de 2007, todos os hotéis Parthenon assumiram a bandeira Mercure, aumentando significativamente a atuação da mesma em todo o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 1 – Florianópolis: cronologia da instalação das redes hoteleiras.

Fonte: Organizado por Tiago Cargnin Gonçalves com base nos sítios dos hotéis e entrevistas – 2008.

 

Em relação à localização desses hotéis na cidade, vemos uma massiva concentração dos empreendimentos na área central de Florianópolis, principalmente em ruas que apresentam atividades econômicas ligadas ao setor terciário, como comércio de varejo e prestação de serviços; e a Avenida Beira Mar Norte, que contorna uma das áreas mais caras e valorizadas da cidade, reunindo importante parcela da população de alta renda de Florianópolis, e conectando o centro à região norte da ilha, situada a apenas 30 minutos de distância, e que apresenta águas quentes e cristalinas, favorecendo o turismo de temporada e a especulação imobiliária crescente.

Acreditamos que essa concentração se justifique em função do alto crescimento do turismo de negócios em Florianópolis[15]. A proximidade com o continente, com as sedes dos governos municipal e estadual e com as principais empresas e instituições florianopolitanas ou sediadas na região, são fatores que explicam a localização desses hotéis, que atendem, especialmente fora da alta temporada, o turismo direcionado aos empresários e executivos. Vale ressaltar que esse fato não ocorre somente com os hotéis ligados às grandes redes, como podemos notar na atuação do hotel de luxo Mejestic Palace. Fundado em 2004 na Avenida Beira Mar Norte, o hotel oferece auditórios, salas de apoio e estrutura completa para a realização de reuniões, eventos e congressos.

É possível reconhecer também em Florianópolis um outro padrão locacional, como o dos resorts, principalmente os de praia, que seguem uma tendência presente em todo o litoral brasileiro, desde a costa nordestina até a recente entrada nas praias da capital catarinense. Apresentamos o caso do Costão do Santinho Resort & Spa, que se localiza na praia de mesmo nome e assume uma postura ecológica, afirmando ter sido o “primeiro Resort no Sul do país criado para harmonizar o turismo auto-sustentável com a integração à natureza e com a população local”[16]. O contraponto dessa imagem divulgada pelo resort é o envolvimento de seus empreendedores nos escândalos relacionados à venda de licenças ambientais, juntamente com funcionários dos poderes legislativo e executivo da capital, deflagrando na tão noticiada “Operação Moeda Verde”, empreendida pela polícia federal no dia três de maio de 2007[17]. Mais recentemente, observa-se a intensa divulgação do Costão Golf, condomínio residencial de alto padrão, gerido pelo mesmo grupo e que se instalou no bairro Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina. Trata-se de uma área não tão valorizada como a praia do Santinho, mas que acreditamos esteja entrando em forte processo de segregação espacial e residencial.

Outro critério relevante para compreender a inserção de Florianópolis no importante mercado turístico é sua abertura para o turismo de eventos. Em 2006, a cidade apareceu pela primeira vez no ranking das cidades brasileiras que mais sediaram encontros internacionais, ocupando a sexta posição com a realização de oito eventos[18]. À frente, portanto, de cidades como Curitiba e Campinas, tradicionais destinos para esse tipo de evento. Isso pode ter ajudado na boa colocação do Brasil como o sétimo maior destino de encontros internacionais.

Como a cidade atingiu essa posição no ranking? Sabemos que dois importantes equipamentos urbanos foram instalados nos últimos dez anos m Florianópolis. Em primeiro lugar, tivemos a inauguração do Centro Sul, um amplo e relevante centro de convenções situado no centro da cidade, e considerado o maior centro de convenções da região sul do Brasil. Desde sua construção em 1998, tem sediado congressos, feiras, shows e outros tipos de eventos nacionais e internacionais. Foi condecorado quatro vezes como o melhor centro de convenções do Brasil, pela Confederação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux, e recebeu três vezes o segundo lugar.

Um dos mais tradicionais eventos realizados no Centro Sul é a Fenaostra – Festa Nacional da Ostra e da Cultura Açoriana. A primeira edição aconteceu em 1999 e desde então costuma ocorrer sempre no mês de outubro, ampliando o calendário de festas que acontecem nesta época do ano no estado de Santa Catarina. Propõe-se a valorizar a cultura “identitária” e açoriana do habitante da ilha através da apresentação de “artistas mostrando o melhor da música, teatro, dança e folclore regionais”[19]. No trecho abaixo podemos perceber a ênfase dada ao pioneirismo de Florianópolis no cultivo e na utilização da ostra, e a diversidade de atividades agregadas a este produto para promovê-lo, e também para a promoção da cidade.

 

A Fenaostra mistura ingredientes irresistíveis para quem aprecia os deliciosos pratos à base de frutos do mar e quer iniciar-se nos prazeres da degustação dos mais variados pratos, tendo a ostra como ingrediente principal. A Fenaostra é a única promoção do gênero no país a reunir num mesmo espaço atividades nas áreas gastronômica, técnico-científica, econômica, artística e cultural, tendo como mote a maricultura. [20]

 

Outro importante empreendimento apto para abrigar grandes eventos e encontros é o Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina. Situado no centro do campus, o prédio possui restaurantes, livraria, salas para reuniões e um auditório para 1371 pessoas[21]. Sua construção terminou em 2003 e foi realizada em parceria pelo governo federal e o Banco Santander, que investiu capital de 1,5 milhões de reais em troca da utilização por quinze anos de uma área de 150m² onde instalou uma de suas agências bancárias[22].

No que concerne ao papel das universidades para a promoção da imagem de uma cidade turística, apontamos a iniciativa tomada pela UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina – juntamente com o governo do estado, que pretendia trazer para Florianópolis um festival nos moldes do que acontece em Ravello, na Itália. A versão italiana é uma feira que reúne cultura, inovação e gestão empresarial e que dura oitenta dias, sendo um dos maiores festivais do país. Inicialmente planejada para maio de 2007, a idéia de promover um evento deste porte visava “direcionar o desenvolvimento da economia com características pós-industriais e, com isto, agregar mais valor ao turismo, assegurando a qualidade necessária para atrair visitantes com níveis de exigência maior e, portanto, com maior poder aquisitivo”[23].

 

 

Considerações finais

 

É possível reconhecer em Florianópolis o que poderíamos denominar de a rede das redes, atuando no processo de publicização e implantação dos equipamentos turísticos na cidade. Falamos da Florianópolis Convention & Visitors Bureau, entidade que assumiu o comando da PROTUR – Fundação Pró-Turismo[24] em 1999. Trata-se de um organismo “facilitador de informações, procedimentos e encaminhamentos de dados, que propicie fatores vantajosos nas exigentes negociações para sediar eventos”[25]. Essa organização é reconhecida internacionalmente e fomenta o desenvolvimento do turismo de lazer e de eventos nas cidades onde atua, mantendo-se através da contribuição dos seus associados. Em Florianópolis, muitos empreendimentos ligados ao turismo são membros desta entidade. Dentre eles estão todos os hotéis de rede nacional e internacional listados anteriormente, assim como outros empreendimentos já apresentados: Hotel Majestic, Costão do Santinho, Centro Sul, entre tantos outros.

A valorização da imagem da cidade de Florianópolis como um lugar com vocação para o turismo, seja ele de temporada ou de negócios e eventos, fundamenta-se nos vários elementos citados ao longo do texto, como a ampliação dos equipamentos turísticos e sua internacionalização, e o crescimento da cidade. Tanto a propaganda, quanto o aumento da infra-estrutura direcionada ao turismo partem de iniciativas públicas e privadas, muitas vezes associadas.

Percebemos uma dinâmica acentuada de organização dos atores atuantes na cidade. Eles não se destinam somente a se firmarem e venderem seus serviços, mas articulam-se com diferentes setores do mercado turístico em função do crescimento da cidade e, conseqüentemente, do seu próprio crescimento.

Neste projeto de promoção de Florianópolis, reconhecemos um uso diferenciado do território da cidade, sobretudo sua área central, que se revaloriza no turismo de negócios e eventos; e sua parte norte, especializada em turismo de temporada. O crescimento e o tipo de atividade turística confirmam a idéia de que a racionalização do território é um processo que vem se acentuando na cidade, tornando-se evidente na própria paisagem de Florianópolis.

 

 

Bibliografia

 

AUGÉ, M. El Viaje Imposible. Barcelona: Gedisa Editorial, 1998.

 

BAKHTIN, M. Metodologia das Ciências Humanas. In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Panorama Descritivo das Maiores Cadeias Hoteleiras Internacionais. In: Área de Operações Industriais 2 – Gerência Setorial de Turismo, nº, 19, agosto/2000.

 

CASTRO, E. R. M. Edifício das Diretorias: a arquitetura da modernidade. In: FLORES, M. B. E.; LEHMKUHL, L., COLLAÇO, V. (org.) A casa do baile: estética e modernidade em Santa Catarina. Florianópolis, Fundação Boitex, 2006, pp.39-56

 

FLORES, M. B. R. A Farra do Boi. Palavras, Sentidos, Ficções. Florianópolis, UFSC, 1997.

 

GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Roteiros Turísticos Regionais Grande Florianópolis.  Florianópolis: Letras Brasileiras, s/data.

 

HOUAISS, A. & VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

 

MACHADO, E. V. Florianópolis: Um Lugar em tempo de Globalização. 2000. 272 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.

 

PEREIRA, N. V. Desenvolvimento e Modernização; um estudo de modernização em Florianópolis. Florianópolis, Lunardelli, 1984.

 

RODRIGUES, A. B. Natureza e método de análise do espaço do turismo. In: Turismo e Espaço rumo a um conhecimento transdisciplinar. São Paulo, Ed. Hucitec, 1997. pp.61-77.

 

SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Edusp, 2002.

 

SANTUR. Santa Catarina Turismo S/A. Demanda Turística 2000. Disponível em: <www.santur.sc.gov.br>. Acesso em: 6 mar. 2008.

 

SANTUR. Santa Catarina Turismo S/A. Demanda Turística 2007. Disponível em: <www.santur.sc.gov.br>. Acesso em: 6 mar. 2008.

 

SOUZA, P. A foto como modo de intervenção. In: LENZI, L., DA ROS, S., SOUZA, A., GONÇALVES, M. (org.). Imagem: intervenção e pesquisa. Florianópolis: NUP/CED/UFSC, 2006.

 

 


[1] Este trabalho inscreve-se em um projeto desenvolvido no âmbito da linha de pesquisa “Redes e Organização Territorial” do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenado pela Professora Leila Christina Dias.

[2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina – Bolsista CNPq.

[3] Aluno do Curso de Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina - Bolsista de Iniciação Científica CNPq.

[4] Parte insular do município de Florianópolis que recebe o mesmo nome do estado e que concentra a maior parte dos empreendimentos turísticos da cidade.

[5] Prefeitura Municipal de Palhoça (Disponível em: <www.palhoca.sc.gov.br>. Acesso em: 16 jun. 2008).

[6] O último dado referente ao crescimento da população urbana dos municípios catarinenses data de 2000. No quadro apresentado utilizamos os números de população total, pois todos os municípios abrigam mais de 90% da sua população na cidade.

[7] Em 2000, os veículos de propaganda que influenciaram na vinda de turistas para Florianópolis apresentavam-se da seguinte maneira: Amigos/Parentes (63,07%); Folders (16,16%); Revistas (8,69%); Televisão (6,88%); e Jornais (3,68%). Já em 2007: Amigos/Parentes (49,17%); Internet (16,97%); Revistas (9,72%); Folders (8,61%); Televisão (7,81%); Jornais (6,37%). Percebemos o papel de destaque que a internet assume como veículo de propaganda em 2007, visto que em 2002 – primeiro dado disponível, a internet correspondia a apenas 3,31% do total (SANTUR, 2000; 2007).

[8] Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001).

[9] “A imagem não apenas representa, ela cria ao mesmo tempo em que mostra o objeto nela figurado.” (SOUZA, 2006, p.270).

[10] O Shopping Iguatemi Florianópolis pertence a um dos maiores grupos empresariais do Brasil – Grupo Jereissati. Oriundo do Ceará, o grupo detém a La Fonte Participações S. A., controladora de 95% das ações da Iguatemi Empresa de Shopping Centers S.A. (Disponível em: <www.iguatemi.com.br>. Acesso em: 13 jun. 2008). O Floripa Shopping é administrado pela Aliansce, “uma das empresas líderes no setor de Shopping Center no Brasil, atuando como investidores e participando ativamente de todas as fases do negócio, desde o planejamento e desenvolvimento do empreendimento até sua comercialização e administração”. (Disponível em: <www.floripashopping.com.br>. Acesso em: 13 ago. 2007).

[11] De acordo com a Junta Comercial do Estado de Santa Catarina – JUCESC (2008), as agências de viagens somam 533 estabelecimentos ao todo. Destes, 27 estão associados à ABAV – Associação Brasileira de Agências de Viagens (2008).

[12] O Sapiens é um grande investimento em fase de construção que se denomina Parque de Inovação e possui projetos voltados para promover e fortalecer as já consolidadas “vocações” econômicas de Florianópolis, como turismo, serviços e tecnologia (Disponível em: <www.sapiensparque.com.br> Acesso em: 17 jun. 2008).

[13] Dados do 1º Censo realizado para identificar o número de estabelecimentos de hospedagem e gastronomia realizado entre julho e novembro de 2007 pelo Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Grande Florianópolis (Disponível em: <www.sindicatohrbs-fpolis.org.br>. Acesso em: 26 fev. 2008).

[14] Fundada na França, a rede iniciou suas funções no Brasil em 1976, estando presente em mais de 131 países. Em 2000 foi apontada como a principal cadeia hoteleira internacional atuante no Brasil e o maior grupo do setor hoteleiro no mundo (BNDES, 2000).

[15] Em 2000, 5,76% dos turistas vieram à ilha motivados pelos negócios. Em 2007, esta taxa subiu para 10,52% do total. Considerando-se que recebemos 506 241 visitantes em 2000 e 780 583 em 2007, o número absoluto passa de aproximadamente 29 mil pessoas em 2000 para praticamente 82 mil pessoas em 2007 (SANTUR, 2000; 2007).

[16] Disponível em: <www.costao.com.br>. Acesso em: 12 jun. 2008.

[17] Disponível em: <g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL30556-5598,00.html>. Acesso em: 17 jun. 2008.

[18] O Brasil foi o 7º colocado no Ranking da ICCA (International Congress and Convention Association) – 2006, que classificou os principais destinos para eventos internacionais no mundo neste ano. Dentre as cidades brasileiras que mais receberam encontros em 2006 estão em ordem decrescente: São Paulo (54), Rio de Janeiro (48), Salvador (17), Fortaleza e Brasília (11), Florianópolis (8) e Curitiba e Campinas (6) (Disponível em: <www.abav.com.br>. Acesso em: 16 abr. 2008).

[19] Disponível em: <www.pmf.sc.gov.br/fenaostra>. Acesso em: 9 nov. 2007.

[20] Propaganda divulgada pela Secretaria do Estado de Cultura, Turismo e Esporte (Disponível em: <www.sol.sc.gov.br/santur/festas/fenaostra>. Acesso em: 9 nov. 2007).

[21] Disponível em: <www.eventos.ufsc.br>. Acesso em 17 jun. 2007.

[22] Disponível em: <www.agecom.ufsc.br/index.php?secao=arq&id=1136>. Acesso em: 17 jun. 2008.

[23] Disponível em: <www.belasantacatarina.com.br>. Acesso em: 9 nov. 2007.

[24] Fundação organizada pelos empresários de turismo de Florianópolis e que visava o crescimento do setor.

[25] Disponível em: <www.florianopoliscvb.com.br>. Acesso em: 6 mar. 2008.


Ponencia presentada en el Décimo Encuentro Internacional Humboldt. Rosario, provincia de Santa Fe, Argentina. 13 al 17 de octubre de 2008.






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