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Asunto:[encuentrohumboldt] 231/08 - O Pantanal é o Mundo: A Poesia de Manoel de Bar ros e a Alfabetização Geográfica
Fecha:Viernes, 28 de Noviembre, 2008  08:02:52 (-0300)
Autor:encuentro <encuentro @..................ar>

231/08 - O Pantanal é o Mundo: A Poesia de Manoel de Barros e a Alfabetização Geográfica

O Pantanal é o Mundo: A Poesia de Manoel de Barros e a Alfabetização Geográfica

Cláudio Benito Oliveira Ferraz

Resumo: Abordar a obra do poeta Manoel de Barros, notadamente em sua abordagem do universo pantaneiro, requer para um estudo a partir do olhar geográfico a conveniência de não projetar na sua escrita uma noção prévia deste saber. Manoel de Barros, pelo domínio da verve local, pela subversão da lógica gramatical, pela instauração de imagens outras, redimensiona o sentido paisagístico desta região, indo ao encontro de uma Geografia instauradora do mundo no instante em que o lemos, em que produzimos as imagens com que visamos dar sentido figurativo ou apenas lógico-formal do mesmo através do burburinho das frases do poeta. Nesse momento, percebemos que o Pantanal não o é em si, não se encontra sozinho e à parte do mundo, do mundo humano do qual fazemos parte. A universalidade desta singularidade é que faz da Geografia do Pantanal em Manoel de Barros um jogo de escalas espaciais que capacita nosso entendimento do mundo por meio do local em que o mesmo se materializa, instaurando formas a determinadas relações humanas paisagisticamente territorializadas.

Abstract: Approaching the works of the poet Manoel de Barros, which is notorious for its approach to the pantaneiro universe, requires a study based on a geographical point of view in order fully understand the convenience for not projecting a previous knowledge notion in his writings. Manoel de Barros provides a new dimension of the landscape sense in this region, aiming at a worldwide restoring Geography as soon as we read him, as soon as we visualize the images that we use so as to produce a figurative sense or at least a logical-formal sense acquired from his poetic lines. At present, we notice that Pantanal is nothing on its own, it is not alone atall nor away from the world and the world we live in. The universality of this particularity is what makes the Pantanal Geography by Manoel de Barros a game of spatial levels which enables our understanding of the world thanks to a place where everything comes to reality, giving place to certain human relationships which are territorialized thanks to landscape.




Apresentação

Este artigo é fruto das pesquisas desenvolvidas no interior do Grupo de Pesquisa Linguagens Geográficas, vinculado ao Departamento de Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Presidente Prudente, localizada no oeste do estado de São Paulo, Brasil. O referido grupo, o qual coordeno, desenvolve estudos sobre as diversas linguagens geográficas presentes em outras formas de expressões do conhecimento humano, como na filosofia, no cotidiano e nas diversas artes.

O texto aqui visa focar a possibilidade desse diálogo entre o discurso científico da geografia institucionalizada com a geografia expressa na poesia do poenta sul-mato-grossensse Manoel de Barros, o qual apresenta um olhar diferenciado e enriquecedor sobre o chamado Pantanal, uma região rica em biodiversidade, com uma ampla expressão cultural e ecológica de difícil abordagem pelos estudos tradicionais da geografia, notadamente a trabalhada em sala de aula.

O diálogo aqui proposta entre discurso científico e o poético a partir da interação entre os estudos pantaneiros e a poesia de Manoel de Barros visa exatamente ampliar a linguagem geográfica passível de ser trabalhada em sala de aula, de maneira a contribuir para os estudos e ensino de geografia de forma que esta se aproxime mais das condições concretas em que a vida humana se dá. Diante disso, não vamos aqui apresentar uma proposta didática de como trabalhar a poesia manoelina em sala de aula, mas vamos apontar possibilidades de diálogo entre as especificidades discursivas da abordagem científica e a poética por meio do exemplo do pantanal em Manoel de Barros.

É no domínio da linguagem geográfica que se dará a possibilidade dos professores enriquecerem suas práticas em sala de aula e não através da redução dessas linguagens a exemplos didáticos do como se trabalhar tal questão no interior das referidas aulas de geografia.


Geografia e Poesia – unidade na diversidade da experiência espacial humana

Geografia e poesia. Expressões do saber humano que se colocam aparentemente tão distantes quanto as condições de uma vida cotidiana no perímetro urbano da cidade de São Paulo e a rotina do trabalhador no interior quase esquecido de algum rincão pantaneiro. Contudo, apesar das especificidades biológicas, culturais, ideológicas, ambientais e sócio-econômicas que caracterizam as diferenças pessoais e sociais entre o trabalhador classe média de uma grande metrópole e o peão de alguma fazenda do Pantanal, ambos possuem elementos comuns, os quais permitem o diálogo e a identificação enquanto seres humanos a construírem suas existências individuais numa mesma sócio-espacialidade demarcada por fronteiras político-administrativamente definidas a partir de um arranjo territorial diverso, mas unificado enquanto Estado-Nação.

Crer que as singularidades vivenciais advindas de ambientes tão diferentes e distantes espacialmente não podem viabiliazar diálogos e interpretações comuns aos seus habitantes é o mesmo de achar que experiências narradas em textos escritos a milhares de anos na região do Mar Morto ou na Grécia antiga não são passíveis de serem interpretados e servirem de referenciais, por exemplo, para a conduta e o pensamento para algum indivíduo que reside numa cidade média no interior do Brasil contemporâneo.

O sentido de construção de humanidade no homem transcende as especificidades e diferenças no tempo e no espaço, pelo contrário, são justamente essas singularidades e diversidades que viabilizam a unidade de sentidos do que é ser humano. Tal possibilidade ocorre a partir da identificação de elementos comuns que não necessariamente são os mesmos, daí sempre cobrar uma hermenêutica interpretativa desses elementos que se manifestam em tempos e espaços diferenciados e distantes, mas presentificam o fenômeno humano em cada lugar em que o mesmo se materializa.

Esses elementos comuns, esses pontos de contato, no caso aqui de nossa relação entre o pantaneiro e o metropolitanto, não se reduzem ao aspecto de ambos falarem português, apesar das expressões e termos específicos a cada lugar, nem ao fato de ambos terem de comer, apesar dos gostos e tipos de alimentos serem circunscritos a cada região, e tão pouco ao fato de assistirem a mesma novela ou telejornal, apesar do fuso horário ser diferente e os interesses diversos. O que permite estabelecer identificações entre distâncias físicas e históricas, pessoais e coletivas tão diferentes advém exatamente dos elementos geográficos que os singularizam.

Dois seres humanos, o pantaneiro e o metropolitano, a partir das características e condições em que elaboram suas existências individuais, fundamentam, por exemplo, referenciais comuns de localização e orientação espacial, de maneira a sedimentarem suas sobrevivências a partir das condições físicas, políticas e econômicas do meio. Ambos qualificam, com aquilo que é de mais profundo em suas existências, as imagens com que delimitam os caminhos, as recordações, as experiências e os desejos, transformando essas imagens em paisagens que parametrizam o viver cotidiano, a relação com o outro, com os objetos de vida e com o desconhecido.

Tanto o pantaneiro quanto o homem da metrópole desenvolvem referenciais sócio-espaciais que os permitem entender a lógica escalar de um indivíduo que habita determinado lugar na interação deste com a ordem macro espacial, ou seja, os símbolos e elementos que caracterizam o lugar de cada um é fruto de uma relação identificatória que toma sua unidade a partir do complexo jogo do local com o universal, do lugar em que se sedimenta as experiências a partir da lógica e da ordenação político-territorial do Estado-Nação.

A macro-territorialidade que é o Brasil, por exemplo, só toma seus contornos identificatórios quando consegue ser aceito como tal a partir dessa relação com os locais em que se manifesta materialmente por meio das ações, idéias e valores amarrados socialmente a partir dos indivíduos que ali constroem suas existências e formas de sobrevivência.

É a partir desse jogo de escalas espaciais e de relações entre imagens e paisagens que cada vivência individual parametriza a unidade de leitura e compreensão que transcende o ser humano em particular e o faz perceber como participante de experiências muito próximas a um sentido comum de humanidade, independente e ao mesmo tempo em conseqüência dos locais, hábitos, nível sócio-econômico e opções políticas de cada um.

O indivíduo só se entende enquanto ser humano porque sócio-espacialmente construiu o sentido de humanidade, estabelecendo uma geografia que, apesar e em decorrência das especificidades de cada local, permite ler a lógica espacial que integra essa diversidade regional num determinado jogo de múltiplas escalas territoriais que transcendem os limites fronteiriços próximos. A questão é: como fazer essa leitura geográfica? Aí a resposta caminha para o resgate da poesia.

O discurso poético apresenta certas características que tecem questionamentos frente a onipotência da veracidade presente no discurso científico.

Fazendo uso aqui do discurso científico da geografia como foco de nossas análises, percebemos que esta linguagem científica priorizou a estrutura lógica da gramática pautada no encadeamento preciso, objetivo e não contraditório das palavras como forma de expressar o entendimento do mundo. Nesse aspecto, todo o universo de experiências imagéticas tendeu a ser traduzido para os limites rigorosos da estrutura vernacular, fazendo que muito dos parâmetros geográficos apreendidos e exercitados no dia-a-dia dos indivíduos fosse desconsiderado.

Tal concepção de produção de conhecimento geográfico não consegue estabelecer relações espaciais pautadas na interação entre experiências existenciais oriundas de lugares distantes por indivíduos diferentes, o que impede a este perceber o sentido mais concreto e profundo do humano, reduzindo esse entendimento a meros conceitos genéricos, fazendo com que o poder imagético, que propiciaria esse contato, praticamente sumisse.

Um estudo científico assim estruturado, transforma o sentido mais amplo de ser humano em conceitos como mão-de-obra, força de trabalho, classe trabalhadora, mercado consumidor, população ativa, crescimento vegetativo, cidadão etc, ou seja, o homem em sua concretude histórica e social é metamorfoseado em abstrações conceituais adequadas à estrutura lógica do discurso científico. Enquanto abstração em si, o ser humano passa a ser desumanizado e  transformado em meras palavras, permitindo assim certa padronização de significados pelo discurso científico hegemônico e o conseqüente controle/manuseio que este estabelece sobre as representações conceituais da realidade.

Quando aqui falamos de discurso poético é por ser este pautado em palavras, mas ele resgata o aspecto imagético de cada termo, abrindo as palavras para outras significações possíveis, recriando e até corrompendo a estas. O discurso científico, pelo menos aquele que se tornou hegemônico, optou por outro viés de se relacionar com as palavras, circunscrevendo estas numa formalidade lógica que, em nome de um suposto rigor e precisão das analises, acaba por enrijecer e padronizar os significados de cada termo, de maneira a facilitar a organização do discurso científico.

O discurso poético subverte o sentido da palavra, mergulhando esta nos múltiplos entendimentos das imagens com que percebemos e representamos ao mundo percebido. O discurso poético elabora imagens a partir da resignificação das palavras, sendo este aspecto que o capacita a uma visão de geografia mais voltada para a vida.

Aqui muitos podem questionar, e com razão, que o discurso científico não pode ser o mesmo do poético. Isso é correto, contudo, como os dois processos comunicativos de entendimento se pautam numa melhor compreensão do ser humano no mundo, devem compreender que, perante a diversidade deste ser, os limites das palavras darem conta da totalidade do mesmo fica notório.

A necessidade de buscar um diálogo com os elementos imagéticos como forma de melhor enriquecer esse contato interpretativo cobra dos estudos científicos um diálogo com a lógica comunicativa poética, mas dialogar com ela no sentido de dinamizar sua compreensão do ser e não como forma de se anular perante a mesma. Isso leva a uma nova postura do conhecimento científico frente as demais expressões do saber humano e ao próprio mundo, qual seja, de se entender como elaborador de referenciais para serem interpretados conforme a necessidade e possibilidade humana, e não como único detentor da verdade do mundo a partir do rigor e superior exatidão dos termos de seu discurso.

Quando iniciamos um estudo geográfico de determinado lugar, partimos de como a paisagem ali se organiza e se expressa. O discurso científico hegemônico atual acredita que, por meio de suas metodologias de estudos, consegue expressar rigorosamente a representação total da realidade observada. Ao classificar, descrever, mensurar e representar a todos os elementos de dada paisagem, torna-se viável o controle manuseio destes. Tal paisagem se transforma num quadro rígido, imóvel, sem vida, apenas conceitos, nomes e dados o que ela se torna.

Entretando, a organização/expressão de dada paisagem nunca é completa e absoluta, mas para estudá-la é necessário não nos atermos a uma abstração metafísica da mesma, pelo contrário, devemos ir ao encontro da concretude ontológica desta, de maneira a não ficarmos restritos a uma descrição mensurável e catalogável do percebido, mas buscarmos os sentidos do vivido pelos homens na instauração do exercício de suas existências. Nesse aspecto, o discurso científico da geografia pode se abrir para o sentido poético do viver, o qual é passível de ser expresso por jogos de imagens e palavras para além do formalismo lógico em si.

Contudo, antes de adentrar a este processo, torna-se aqui necessário focar mais um pouco a questão da relação entre imagem e paisagem enquanto construção de  referenciais de leitura, comunicação e compreensão do mundo. Após isso, tornar-se-á mais plausível a unidade de leitura geográfica do entendimento humano a partir de paisagens distintas, como no inicialmente aqui destacado: mundo metropolitano e mundo pantaneiro.

Rápidas palavras sobre imagem, paisagem e coisas afins

A geografia exercitada no cotidiano dos indivíduos não se reduz aos parâmetros que o discurso científico institucionalizado diz ser “geográfico”. A geografia do cotidiano está mergulhada na vida concreta dos seres humanos, portanto, não se restringe ao meramente gramatical em si, à lógica concatenada do encadeamento verbo-gramatical, mas se embrenha na riqueza de imagens captadas e armazenadas no imaginário e nas experiências humanas.

Árvores, brinquedos, casas, livros, pessoas, animais, lugares, sentimentos, fotografias etc., todo e qualquer fenômeno e objeto são transformados em imagens que os indivíduos elaboram a partir de suas experiências ao longo da vida, de maneira que estas sejam selecionadas e interacionadas a cada nova experiência que cada indivíduo exercita quando em contato com a diversidade manifesta e materializada do todo que é o mundo.

As imagens dessas experiências resgatadas do interior do imaginário humano balizam as leituras e ações do indivíduo a cada momento em que este se coloca perante o mundo em que vive, ao mesmo tempo em que a cada contato com o universo empírico ao redor, essas imagens são recriadas e redimensionadas subsidiando novos conhecimentos e ampliando o imaginário individual e coletivo do ser humano.

Quando qualquer indivíduo consegue estabelecer referenciais de compreensão dessas imagens em conformidade com dada situação e contexto, a relação entre as imagens que cada um traz em si com as imagens captadas pelos vários sentidos humanos, a partir desse momento estas imagens se qualificam como paisagens e estabelecem a possibilidade de leituras mais conceituais e lógicas, as quais explicam e viabilizam um processo de comunicação que as tornam passíveis de compreensão pelos demais seres humanos.

Qualificar e interpretar paisagisticamente as imagens em decorrência das experiências e vivências, contribuindo para que cada ser humano elabore seus referencias de localização e orientação no mundo a partir do lugar em que se encontra, é uma visão de geografia que se instaura no cotidiano da vida de cada indivíduo na sociedade atual.

Muitos podem apontar que esta função de conhecimento geográfico sempre esteve presente desde a estruturação moderna desse saber científico, contudo, conforme foi se consolidando os referenciais basilares da sociedade contemporânea, notadamente em seus aspectos técnicos, administrativos e econômicos, esse sentido de cotidiano como demarcador da existência humana foi eclipsado pelos aspectos repetitivos, mecanicistas, alienantes e embrutecedor das condições de sobrevivência em um meio competitivo, alienante e fetichista do mercado capitalista.

Diante desse contexto, o discurso científico, mais especificamente o geográfico, tendeu a se restringir a cânones e paradigmas oficializantes de se produzir ciência, subdividindo-se em especializações e enrijecendo os mecanismos de pesquisas e estudos, ficando dependente de uma burocracia e hierarquia institucional que tendeu a jogar o pensamento científico para longe da dinâmica da vida, enclausurando o mesmo no interior de muros acadêmicos e da acirrada disputa por verbas e projeção individual.

A conseqüência desse processo foi a consolidação de um conhecimento que se distanciou do ser e se circunscreveu ao ter – auxiliar forças econômicas e políticas a terem o controle do mundo. A ontologia do conhecimento ficou debilitada e reduzida a meros conceitos e palavras que estipulavam a essência da verdade encontrada na metafísica do discurso por meio do rigor de sua estrutura lógica.

A poesia foi descartada como elemento passível de contribuir à clareira da verdade do ser, fazendo da imagem um mero elemento que teria que ser metamorfoseada em um conceito preciso por si mesmo. A representação do mundo pelo discurso científico passou a ser a realidade do mundo, pois só podia ser realidade aquilo que não ferisse ou contradissesse o rigor lógico do pensamento. A paisagem aí virou um quadro imóvel, debilitado e empobrecido da dinâmica territorial.

O mundo enquanto acontecimento discursivo, de sentidos em aberto, não cabia em uma concepção restritiva da metafísica dos conceitos com que se organizou o discurso científico. A idéia de que, ao entrarmos em contato com o real, acabamos por realizá-lo enquanto fenômeno em nós, em nosso imaginário e limites intelectuais, não cabia em uma abordagem mensuradora e manipuladora da natureza. O sujeito observador se colocava distante do objeto observado, crendo assim poder expressar a pureza essencial do real apenas por relacionar com o mesmo pela lógica abstratizante do pensamento puro.

Proliferaram-se “istas” na caracterização de uma ciência esquizofrênica: mecanicista, utilitarista, generalista, simplista etc.. Eis no que hegemonicamente se tornou o discurso cientificista da geografia institucionalizada. Ao se distanciar do sentido cotidiano da vida, a poesia das imagens que permeiam cada existência humana deixou de ser focada, e a linguagem geográfica praticamente ficou analfabeta para o entendimento dos significados imagéticos que uma leitura do real propicia, portanto, o discurso geográfico não conseguia produzir referenciais para que as imagens que envolvem o cotidiano dos indivíduos sejam passíveis de entendimento paisagístico.

O curioso deste processo é que justamente quando a imagem passa a ter uma presença enorme nos meios representativos, comunicacionais e informativos da sociedade atual, a geografia acaba se distanciando da leitura e compreensão da mesma, restringindo seus estudos a mera aplicação de conceitos. Uma sociedade como a nossa, circunscrita a miríades de imagens, necessita de saberes que sejam capazes de analisar e elaborar referenciais parametrizadores de leitura dessas imagens.

Dentre estes saberes, sobressai a geografia, a qual pode e deve buscar estudar a linguagem das imagens como forma de estabelecer unidade de compreensão paisagística das mesmas. Para tal, o dialogar com a poesia, com o sentido poético que as imagens vivenciadas e elaboradas nas condições em que a vida humana se manifesta e realiza, passa a ser um caminho necessário e possível para o discurso científico deste saber.

Como em nome de um utilitarismo político e economicista em si o conhecimento geográfico tendeu a se distanciar do estudo poético das imagens, torna-se necessário pensar um pouco sobre essa poesia, já que, pela própria ausência dos estudos geográficos, foi pela linguagem dos poemas que muito da unidade espacial em  meio a diversidade dos sentidos paisagísticos tornou-se compreensível para o ser humano no contexto do mundo cotidiano atual.

Poesia e geografia, ao contrário do que inicialmente se aparentava, passam a ser saberes que podem dialogar para mutuamente se enriquecerem visando produzir referenciais mais ricos e balisadores  de compreensão da dinâmica espacial contemporânea.  A linguagem poética estabelece uma interação de significados imagéticos a partir do jogo de palavras que cobra dos estudos geográficos a elaboração de processos interpretativos capazes de dar sentido de leitura e de recriação ao percebido.

Através, portanto, de uma melhor elaboração e interpretação das imagens produzidas pela experiência humana numa região como o Pantanal, por exemplo, podemos mais bem compreender não só as caracterísitcas climáticas, geológicas, pedológicas, geomorfológicas, de sua flora e fauna, economia, ocupação humana e extensão física, mas aspectos que transcendem essa enumeração e catalogação nomenclatural rumo a um fundamento humano de viver e produzir certa espacialidade que, no interior de sua singularidade e particularidade, atinge universalmente todo e qualquer ser humano. Nessa direção, a poesia de Manuel de Barros é exemplar.

Manoel de Barros, sua poesia, o pantanal e o mundo

O que até agora foi se colocando como poesia aponta e delimita o entendimento aqui dessa linguagem. Muitos podem exigir uma definição mais precisa e outros cobrarem uma melhor contextualização quanto a compreensão da arte poética a partir da modernidade, contudo, não cabe na economia desse texto adentrar a essa questão mais teórico-linguística de escola, concepção e movimento estético.

Entende-se aqui que as inovações na métrica, na rima, nos temas e imagens que envolvem a poesia de Manuel de Barros encontram-se inaugurais na modernidade ocidental a partir de Baudelaire. É lógico que não só ele, por exemplo, Stéphane Mallarmé foi outro poeta francês inovador da arte poética moderna, assim como no Brasil temos um Joaquim de Sousa Andrade (Sousândrade), para ficarmos em apenas dois escritores, são nomes que abriram a poesia para novos olhares e experiências, passando a expressar e estabelecer sentidos para que as condições com que a vida do homem contemporâneo estava se estruturando, e se estruturou, pudessem ser mais bem compreendidas ou percebidas.

Através de seus poemas vai se tornando visível e compreensível esse homem urbano, cosmopolita, fraccionado, solitário e massificado, preso a dinâmica e velocidade das técnicas e tecnologias de comunicação, informação e circulação. O homem que a nova poesia tentar dar conta é um homem envolvido no consumismo de tudo, é um homem que tenta dar sentido a um mundo cada vez mais volátil e efêmero. É um homem coisificado que se encontra cindido em relação ao mundo, um ser que não se ilude só com a beleza e tem que conviver com o horror e a loucura humana.

Essa poesia tenta dar conta de toda a dinâmica e imagética do homem moderno por meio de sua substância por excelência: a palavra. Para conseguir expressar os sentidos da vida moderna, a poesia volta-se para sua fundamentação, sua matéria-prima, e tenta subverter seus parâmetros em busca de elaboração de novos significados e possibilidades, na recriação de imagens que até então os rigores formais da métrica e da rima não abordavam.

É pela reinvenção da palavra e das possibilidades imagéticas que esta carrega que a poesia moderna irá elaborar parâmetros e referenciais que permitiram aos homens melhor se entenderem perante a nova ordem espacial que de forma selvagem, alucinante, intensa e volátil se instaurou no cotidiano existencial dos indivíduos na sociedade moderna.

Manoel de Barros se encontra no interior desse processo, portanto, o Pantanal por ele poetisado, na forma com que o apresenta, não é algo alheio ao contexto histórico e geográfico das correntes estéticas e poéticas, assim como do mundo político e econômico em seu conjunto. A sua poesia não surgiu pronta e acabada, tal qual hoje a lemos, nem se produziu isolada do contato com outros pensadores, poetas e lugares, que se encontravam muito além do Pantanal.

Para melhor exemplificar esse processo de formação do poeta, concorda-se aqui com Camargo (2004) quando este aponta que no primeiro livro de Manoel de Barros, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, uma forte influência da estética parnesiana, então hegemônica na nossa arte poética, mas já sob influência do movimento modernista que, a partir de 1922, instaura a possibilidade de subverter os padrões institucionais e convencionais de se fazer poesia, resgatando termos, expressões e idéias presentes no cotidiano popular, buscando assim contribuir para a formação de uma cultura e identidade brasileira a partir dos elementos regionais.

Encontramos nas poesias deste livro referências aos termos clássicos do “correto poetar”, mas sendo antepostos aos jargões e valores mundanos, por exemplo, “harpa” é relacionada com “viola”, “Clitemnestra” a “Petrônia lavadeira”, “soneto” a “soneto de dor de corno”, etc.

O próprio evoluir do poeta Manoel de Barros se dará através desta busca que, semental em seu primeiro livro, irá se enraizando pela construção de uma linguagem própria de expressão a partir do contato com os valores cotidianos, simples e corriqueiros  do homem comum em meio ao mundo em que vive.

Essa sua linguagem, denominada pelo próprio poeta de “manoelês”, se tornará adulta apenas em 1956, no seu livro Poesias, quando atinge, pela resignificação das palavras, a capacidade de dar forma a imagens, muitas vezes inomináveis, que expressam e aprofundam a interação entre os dejetos, os marginais, os esquecidos, os pequenos objetos e detalhes sem importância com as condições de se produzir a beleza da vida em um mundo tecnológico, consumista e mercadológico.

A crítica à sociedade competitiva e consumista, que busca a espetacularização efêmera das idéias e bens materiais apenas como forma de obter lucro e prestígio, assim como capaz de destruir a tudo que não compartilhe de sua velocidade e dinamismo é o que está como base desse olhar do poeta sobre o Pantanal. Veja o que ele entende como Matéria de Poesia, de seu livro de 1970.

          Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma

          e que você não pode vender no mercado

          como, por exemplo, o coração verde

          dos pássaros,

          serve para poesia...

          Tudo aquilo que nossa

          Civilização rejeita, pisa e mija em cima,

          serve para poesia...

          O que é bom para o lixo é bom para a poesia...

          As coisas jogadas fora

          têm grande importância

          -como um homem jogado fora...

          As coisas sem importância são bens de poesia

          Pois é assim que um chevrolé gosmento chega

          ao poema, e as andorinhas de junho.

O poeta entende que o material com o qual faz sua poesia advêm dos aspectos desprezados e deslocados da ordem econômica dominante. É tudo aquilo que a civilização hegemonicamente instituída “rejeita, pisa e mija em cima”. É tudo que não é passível de ser valorizado como mercadoria para ser vendido no mercado. São as coisas “jogadas fora”, como boa parte da população que não conseguiu se inserir no mercado consumidor, não estudou  e não conseguiu se dar “bem na vida”.

A crítica profunda destas palavras se expressa em imagens que apontam para uma relação outra do ser humano com as coisas e objetos do seu meio. Visa questionar o aspecto meramente utilitarista e especulador desta relação, como a imagem do “chevrolé gosmento” apresenta, ou seja, a relação com o objeto não pode apenas se reduzir a utilidade deste e a capacidade de lucrar com sua venda, mas deve ser de construção de uma história de relação com seu meio e com seus objetos, com aquilo que se materializou em lembranças e experiências, por isso o chevrolé, quando velho e usado, tornar-se-á poesia pois ficou grávido de sentimentos e experiências a ele relacionadas, vira algo de belo e profundamente emaranhado ao contexto da vida, como as andorinhas que retornam aos ninhos e árvores do Pantanal em junho.

O sentido destas críticas e o resgate desses valores a partir do olhar do poeta sobre o Pantanal, portanto, não fica circunscrito a esta singularidade regional em si. Toca profundamente aspectos universais de qualquer ser humano hoje, pois todo indivíduo passa por estas experiências e emoções a partir do processo em que aceita ou se incomoda com os condicionantes sociais.

O Pantanal de Manoel de Barros, parafraseando o sertão de Guimarães Rosa, é o mundo. É universal pelo fato das imagens apresentadas através do jogo de palavras  resgatarem diferentes escalas espaciais que se integram na unidade da experiência singular a cada indivíduo em relação as condições que a sociedade atualmente se organiza e se reproduz. Ramires e Russef (2004, p. 129) assim explicam tal universalidade poética de Barros.

          “Em Manoel de Barros, também os poemas servem-se da natureza exuberante do Pantanal como pretexto para reafirmar certas constantes universais nas manifestações locais, como o próprio Barros atesta em uma entrevista: ‘o que eu gostaria de dizer é que o chão do Pantanal, o meu chão, fui encontrar também em Nova Iorque, em Paris, na Itália, etc...”

O “chão do Pantanal” que o poeta encontra em outras grandes cidades e países do mundo não é necessariamente o solo argiloso e arenoso esculpido pelos ciclos das águas na bacia hidrográfica do rio Paraguai,  essa singularidade física é única e específica daquela região, mas o “chão do Pantanal” tão comum aos demais lugares do mundo é de ordem mais geográfica. Não essa geografia hegemonicamente produzida nos centros de pesquisas e repassada em propostas pedagógicas e livros didáticos, mas uma geografia praticada pelo cotidiano do ser humano, enraizada nas condições existenciais de cada indivíduo que busca o sentido mais profundo de se localizar e se orientar no mundo de hoje.

Essa geografia da vida é a que o poeta percebe e elabora quando mergulha nos aspectos universais das condições de sobrevivência de cada indivíduo, identificando no lugar específico em que determinado ser humano a construção de referenciais para se localizar e se orientar frente as forças e barreiras a ele impostas para viver.

Sem dúvida que o pantaneiro possui um ritmo e tipo de atividade profissional bem diferente de um trabalhador que mora na periferia de uma grande metrópole. O ciclo das águas, o relevo e vegetação propiciaram a consolidação na região pantaneira da produção da pecuária extensiva. Tal referencial econômico cobrou uma mão-de-obra específica para o manuseio do gado, assim como de uma indumentária compatível com a atividade profissional e o meio de transporte – geralmente o cavalo. Para não falar da alimentação, do tipo de lazer e dos termos e valores sociais ali produzidos e reforçados a cada instante. Tudo isso é único naquela região e bem diferente do que se vive e se percebe numa grande cidade. Não há como descartar tal fato.

Contudo, o “chão comum” é que, independente desses aspectos específicos a cada lugar, os processos gestadores dessas singularidades são comuns e se materializam em fenômenos universais de respostas. Para melhor exemplificar a isso, façamos uso de outro poema de Manoel de Barros. Seu poema “A Máqina:”, encontrado no livro de 1966 Gramática Expositiva do Chão, elabora essa imagem arquetípica denominada de “máquina” para representar os vários sentidos em que o mundo industrial destrói os aspectos mais simples e fundamentais da vida.

          “A Máquina mói carne

          excogita

          atrai braços para a lavoura

          não faz atrás de casa...

          cria pessoas à sua imagem e semelhança

          A Máquina

          Funciona como fole de vai-e-vem

          Incrementa a produção do vômito espacial

          e da farinha de mandioca

          influi na bolsa...

          A Máquina

          Trabalha com secos e molhados

          é ninfômana

          agarra seus homens

          vai a chás de caridade

          ajuda os mais fracos a passarem fome

          e dá às crianças o direito inalienável ao

          sofrimento na forma e de acordo com

           a lei e as possibilidades de cada um...”

Essa “Máquina” do poeta é uma palavra que vai metaforicamente se metamorfoseando em várias imagens de máquinas, estabelecendo nesse processo a configuração de uma paisagem comum a todo e qualquer ser humano.

A máquina que mói carne, arquetipicamente representando outras máquinas de baixa tecnologia como às máquinas de fazer pão, de preparar a farinha, de tear etc., presentes em diversas culturas e grupos sociais, se transforma, na sociedade de alta tecnologia e utilitarista como a nossa, numa trituradora de homens. Escraviza os homens ao seu ritmo e necessidades, criando-os “à sua imagem e semelhança”, seduzindo-os para os seus padrões lógicos e competitivos, como uma “ninfômana” que só objetiva prazer pelo poder.

É a “máquina” do mundo atual, com seu eterno ciclo repetitivo de exploração/produção/consumo, como um “fole de vai-e-vem”, potencializando em larga escala a acumulação de capital e de poder político, gerando um lixo mercadológico e especulando com lucros e dinheiro à custa da destruição do belo e jogando o sangue da morte sobre vida – os “pardais”.

Esse maquinário envolve a todos em suas engrenagens, inclusive seus proprietários, daí trabalhar com “secos e molhados”, atraindo “braços para a lavoura” e fazendo com que aqueles que exploram e lucram com a exploração do trabalho camuflem esse poder aniquilador hipocritamente com ações de caridade para com os pobres e perdedores sociais, escamoteando assim que é devido a lógica do funcionamento desse maquinário social em nível global que materializa em cada local diversas formas de injustiças sociais.

É essa força ocultada de exploração e concentração que vem à tona em diferentes lugares pelas paisagens de desolação e pobreza, materializando em pessoas e condições de trabalho e moradia o padrão lógico dessa sociedade que força os “mais fracos a passarem fome” e constrói um futuro de “sofrimento” para a maioria das crianças do planeta; mas tudo travestido de legalidade e responsabilidade social.

Perante esse chão comum ao conjunto dos lugares do mundo, o sentido humano de elaboração de referenciais que possibilitem a cada indivíduo e seu grupo social sobreviver um dia após o outro é o aspecto geográfico universal. Eis aí uma geografia, a partir do “chão do Pantanal”, que Manoel de Barros identificou nos diversos lugares do mundo. Percebeu que em cada esquina e cidade existe esse ser humano que resiste e sofre as conseqüências da lógica econômica dominante ao mesmo tempo que demarca com a simplicidade e sentimentos a relação intima que humaniza a relação do indivíduo com as coisas e objetos de seu meio..

Se ele relata e apresenta essas características de sobrevivência do homem e do seu meio a partir do Pantanal, é por que o poeta viveu e mora nesse lugar, sendo a partir da singularidade do mesmo que os aspectos gerais do mundo aí se materializam, apresentando determinada territorialidade e expressão paisagística.

A função do poeta foi exatamente, por meio de suas palavras, dar um sentido de leitura paisagística ao rol de imagens com que a região pantaneira se apresenta. Quando essas imagens se tornam passíveis de leitura, enquanto paisagem, a lógica espacial com que o mundo se organiza torna-se aí legível, permitindo aos homens, tanto os que aí habitam quanto os de fora, entender, localizar e se orientar melhor no interior do mundo. A paisagem pantaneira é a forma específica como a lógica do espaço mundial na sociedade atual aí se manifesta. O Pantanal é o mundo.

A poesia da geografia manoelina

Voltamos aqui à questão da relação entre palavra e imagem no diálogo entre geografia e poesia a partir da obra de Manoel de Barros. Teóricos como Marcelo Marinho (2004), indicam que o rompimento com a linearidade espacial e temporal na poesia de Manoel de Barros inicia com sua recusa “à gramática normativa socialmente aceita e raramente infringida”, e continua:

          “Assim é que a poesia de Manoel de Barros constrói-se com esteio na linguagem popular e nas manifestações idioletais pantaneiras, com o apoio na desconstrução da gramática normativa”

Esse processo de desconstrução e recriação das palavras contribui para:

          “a elaboração de uma cosmovisão marcada pelo olhar arguto de um sujeito ciente de construir seu universo, seu próprio universo”(p. 82-83).

Por meio, portanto, da redefinição e uso das palavras, o poeta elabora imagens que apresentam novos olhares e críticas ao mundo como a nós se apresenta, de maneira a dar vazão aos questionamentos e desejos inerentes ao universo próprio do poeta. Esse mergulhar no seu universo de experiências de vida e concepções, permite que todos aqueles que entrem em contato com sua obra, estabeleçam diálogos a partir dos conflitos e inovações apresentadas pelo escritor frente ao que o leitor trás de sua própria existência.

Nesse ponto, fatos, idéias, fenômenos e experiências em geral levam à configuração de novas interpretações ou burilamento de aspectos já presentes no leitor, que elabora assim sentidos paisagísticos mais enriquecidos das imagens poéticas que percebeu, estabelecendo condições mais ricas de orientação e localização do ser no espaço em que vive.

As várias passagens de poemas citados no capítulo anterior são exemplares nesse processo de elaboração de uma leitura geográfica voltada para o sentido de busca da humanização do espaço existencial do ser a partir da crítica e novos olhares aos elementos determinantes das relações espaciais hegemonicamente colocadas atualmente a todos os indivíduos.

Nesse aspecto, o uso das palavras devem ser cruciais para estabelecer outras possibilidades de leitura do mundo, ao invés de contentar em reproduzir a dinâmica imagética do real a um único conceito. Vejamos um outro exemplo retirado do poema XIX encontrado no já citado O Livro das Ignorãnças.

          O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a

          imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás

          de casa.

          Passou um homem depois e disse: Essa volta que o

          rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

          Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que

          fazia uma volta atrás de casa.

          Era uma enseada.

          Acho que o nome empobreceu a imagem”

Logicamente que o conceito “enseada” é necessário para melhor objetivar o entendimento genérico do fenômeno a ser estudado, contudo, para um olhar poético da leitura geográfica, a forma como são interpretados e recriados os fenômenos e suas denominações a partir das práticas que as pessoas estabelecem com os mesmos, dando outros significados e carregando-os de valores sentimentais e íntimos, são cruciais para não reduzirmos as possibilidades interpretativas do real apenas para contentarmos o rigor lógico do recurso metodológico e gramatical empregado.

O conceito, enquanto nome a expressar um fenômeno, deve ser suficientemente aberto para possibilitar o seu enriquecimento de significados, de forma a viabilizar sentidos interpretativos mais dinâmicos e próximos da realidade social. Por isso, em direção a crítica apresentada no poema, a palavra, enquanto conceito, deve se aproximar do sentido mais amplo que a imagem que as pessoas elaboram como forma de representar ou se relacionar com os fenômenos e objetos do seu meio existencial.

Entender que o aspecto imagético advém desse sentindo íntimo que as coisas tomam a partir da relação estabelecida com os homens – aí se encontra o aspecto desejado por Manoel de Barros de “humanizar a natureza” através do verbo - é a grande contribuição da poesia para os estudos geográficos. É esse aspecto singular a cada ser humano que torna o sentido específico de cada relação estabelecida um processo passível de ser entendido universalmente. Aí, no dizer de Heidegger, instaura-se a clareira que permite o ser ler a poesia da verdade.

O Pantanal, portanto, de Manoel de Barros, não é um espaço em si, isolado do mundo. Tem suas especificidades é lógico, contudo, através da palavra do poeta, os fragmentos e fenômenos que envolvem a vida dos seres e objetos desse meio tornam-se humanizados e universalizam-se a partir dos questionamentos pessoais do poeta frente ao mundo dos homens. Marinho (2004, p. 83) assim sistematiza esse espaço pantaneiro de Manoel de Barros em relação aos demais lugares da espacialidade brasileira.

          “...espaços que distam de centenas ou milhares de quilômetros terminam por se justapor, fundir ou confundir: abolem-se aqui, as fronteiras espaciais...o Pantanal deve ser entrevisto como uma representação além do tempo e do espaço. Nessa desordem caótica do cosmos, o espectador identificará seu próprio universo...E espectado/leitor aí encontra sua própria imagem especular, ou arquétipos que sustentam a árdua tarefa humana de existir”.

Podemos aqui caracterizar a arte poética de Manoel de Barros na direção da concepção de linguagem desterritorializada de Gilles Deleuze (1988), na qual as palavras não se reduzem a conceitos, mas visam intensionar sentimentos que permitem ao ser acontecer imanente em todos os entes. Para tal, a questão da identidade não se coloca na relação da língua com o lugar, com a extensionalidade de significados representando as coisas de um determinado território, mas visa a diferença que se coloca entre o conceito das coisas e a percepção sensível das mesmas.É justamente por se mergulhar na diferença que as palavras encontram outras possibilidades de acontecimento do ser, não se reduzem a apenas designar as coisas do mundo, mas apresentar o impronunciável, a intensidade sensível do ser imanente a todos os aspectos da vida.

Podemos exemplificar tal afirmativa resgatando um pequeno trecho encontrado no livro Para encontrar o azul eu uso pássaros, de 1999, em que as palavras com que elabora as curtas estrofes visam acompanhar de significados as imagens fotográficas do Pantanal. Ao lado da fotografia de um grupo de sete pantaneiros a conversarem sob a sombra de uma varanda, o poeta escreveu o seguinte poema.

          “No uso de cantos e recontos

          O pantaneiro encontra o seu ser

          Aqui ele alcança a altura das manhãs

          E os cinzentos do entardecer”

Caso fossemos descrever o aspecto figurativo da imagem, visando complementá-la por meio de palavras e conceitos que dessem significados ao contexto da cena, poderíamos descrever o indumentário, a disposição dos homens, ou adentraríamos aos aspectos sociais de sua condição de trabalhadores, das características do seu linguajar, hábitos alimentares e culturais, etc. Isso, com certeza poderia ajudar a melhor entender o sentido representativo da cena, mas a palavra de Manoel de Barros “agramatiza” essa possibilidade.

Ao invés dele buscar o reforço dos aspectos considerados tradicionais de identidade entre o real e a representação imagética, ele usa da palavra para a diferença, na direção mais profunda do ser que está imanentemente em todos os entes ali figurados, tanto homens como objetos, natureza e animais. Ele fala da nascer e do morrer, das fortunas e desgraças que envolve o cotidiano da vida desses homens (“ele alcança a altura das manhãs e os cinzentos do entardecer”). Aponta como estes instauram a possibilidade de sobreviver a cada dia através da ocupação dos espaços marginais, de fundar o sentido da existência nos relatos e conversas, no tomar consciência de seu ser enquanto mera finitude.

Ao desterritorializar, pelas palavras, o infinito do ser, Manoel de Barros, portanto, apresenta os valores mais intensos e profundos do existir, o qual, de forma universal e imanente, são passíveis de serem sentidos por cada existência individual humana. Tanto que, após a leitura do poema, aquela imagem dos homens pantaneiros transcendem o empírico do lugar específico e toca a todos os homens em seus pensamentos e sentimentos mais profundos. Por isso, concordamos com as palavras de Silva (2006, p. 42) quando analisa essa mesma cena na relação com o poema.

          “Borrando, alargando os espaços fronteiriços, o ser poético dos versos de Manoel de Barros obriga a revisão de antigas questões de identidade e representação culturais...Para a configuração desse éthos do pantanal  - pantaneiro – batizar um poeta como Manoel de Barros de pantaneiro é zelo e vaidade provincianos, mas saber perceber que sua poesia fala do universal porque também fala do local (no caso de toda a região do pantanal) torna-se condição sine qua non para uma compreensão mais ampla e adequada dos contexto culturais que matizam a rede de significação da arte manoelina”.

Palavras finais: sintetizando e reforçando

Podemos, desta forma, caminhar para o final deste artigo e reafirmar a pertinência que a poesia de Manoel de Barros, a partir das imagens e experiências pantaneiras, pode propiciar um rico diálogo com o estudo científico da geografia no processo de ampliação de significados aos conceitos centrais desse discurso, como paisagem, região, fronteira, território, localização, orientação etc.

É lógico que, nunca custa insistir em tal entendimento, que a linguagem geográfica não é a poética, mas como no exemplo das possíveis identidades serem estabelecidas entre o homem do Pantanal e o homem da Metrópole a partir do contexto sócio-espacial que os singulariza e os tornam seres humanos em sentido universal, o mesmo é possível em relação ao diálogo entre estas esferas do conhecimento. As imagens apresentadas pela palavra poética, abre de significados humanos as condições comuns de existência a partir da relação dos indivíduos com os detalhes do seu meio, seja este qual for, de forma a criticar os valores hegemônicos da rede de relações econômicas da sociedade atual, assim como apontar a possibilidade de se estabelecer outras formas de relações sociais.

Essa possibilidade apresentada em aberto pode ser aprofundada pelos enfoques mais objetivos e verticalizados das abordagens científicas, como a geográfica; o importante, nesse contato, é valorizar as experiências e imagens que a poesia trás, não tendo a esta apenas como ilustração ao discurso dito científico, ou como um saber inferior. Para o ser humano que vive nessa sociedade, a poesia é necessária para estimular outras formas de percepção e crítica, mas um estudo geográfico, que respeite este saber e dialogue com ele, é também necessário por permitir aprofundamentos conceituais mais balizadores e objetivos para se pensar e ler o mundo em sua dinâmica escalar.

Através desse processo, a poesia de uma leitura geográfica se torna possível ao focar a singularidade do pantanal e viabilizar ali, por meio do jogo de palavras e imagens, o sentido universal das condições sociais, ideológicas e econômicas que permeiam a espacialidade da sociedade pautada na lógica da mercadoria. Frente a isso, o leitor tem condições de melhor precisar as condições em que seu existir se realiza, e da possibilidade de buscar melhor entendê-lo para saber como nesse mundo, a partir do local em que estabelece sua sobrevivência, poderá mais bem agir, localizar e se orientar.

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Ponencia presentada en el Décimo Encuentro Internacional Humboldt. Rosario, província de Santa Fe – Argentina. 13 al 17 de octubre de 2008.