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Asunto:[encuentrohumboldt] 26/08 - A RENDA MONOPOLISTA E AS SIMULAÇÕES: O CASO DA S CHURRACARIAS
Fecha:Viernes, 20 de Junio, 2008  19:38:57 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentro @..................ar>

A RENDA MONOPOLISTA E AS SIMULAÇÕES: O CASO DAS CHURRACARIAS[1]

Neudy Alexandro Demichei[2]

Vanda Ueda[3]

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Programa de Pós Graduação em Geografia.

Eixo temático: Geografia e Turismo

 

Resumo

O presente trabalho objetiva entender o processo de apropriação e transformação de elementos culturais através do viés econômico. Para viabilizar a pesquisa, será tomado como estudo de caso as churrascarias, onde a partir destas se tentará identificar e entender as relações constituídas de determinado grupo envolvido com a rede gastronômica/social.

A proposta surge perante a atual discussão realizada acerca da direção de um mundo supostamente sem territórios, de um transbordamento dos territórios. É importante deixar claro que a abordagem de território que se procurará discutir se remete ao viés cultural e econômico, não entrando na discussão de território enquanto compreensão política.

Palavras chave: renda monopolista, território, churrascarias, gastronomia, globalização.

 

Introdução

Atualmente, os segredos da culinária correm rapidamente de uma região para outra, não respeitando as fronteiras. Técnicas modernas de conservação colocam diferentes alimentos ao alcance do consumidor mais distante. Animais, frutas e vegetais são adaptados fora de suas regiões de origem, criados ou cultivados nas mais diversas partes do mundo. A existência de técnicas que possibilitem aos indivíduos terem acesso a diferentes alimentos é segundo Santos (2006) a revolução dos meios tecnológicos que avançam de forma espantosa, facilitando a articulação da sociedade numa escala global, intensificando as relações através do mercado. Isto é, os territórios estão atualmente equipados para facilitar a circulação, a comunicação, tornando-se fluídos, “no qual as fronteiras se tornam porosas para o dinheiro e para a informação”.

Esse processo não é atual, mas sim algo histórico. Porém, com o adicionante da tecnologia, o processo de superação tornou-se mais veloz. Ainda em Santos (2006), podemos dizer que os espaços são requalificados para atender aos interesses hegemônicos da economia, da cultura e da própria política.

Hoje é possível comer tudo em quase todos os lugares. Pelo fato da gastronomia ser um dos componentes do território, a sua tendência também é a globalização. Porém, não é a macdonalização da alimentação, mas sim a diversidade de técnicas e preparos, interesse pelas diferentes culinárias de povos e grupos. Essa idéia indica que não vivemos um período de americanização/macdonalização, mas sim uma mundialização da modernidade, seguindo a idéia de Renato Ortiz (1994). Acabamos chamando de americanização o atual processo pois é nos Estados Unidos que a modernidade está mais avançada, possuindo o padrão de consumo, mas a propagação pelo mundo acontece a partir de vários lugares, não tendo direção única e nem saída única.

Assim, as churrascarias se inserindo num contexto global é um exemplo do transbordamento da cultura referendada ao gaúcho; ou mesmo a quantidade significativa de restaurantes orientais inseridos em países considerados ocidentais. Outro caso referente à interconexão econômica e cultural dos lugares está no fato das pessoas não produzirem mais muito do que consomem, e produzirem muito do que não consomem.

Parece óbvio, mas o cuidado é imprescindível quando analisamos a difusão alimentar, pois esta não foi repentina, sendo a difusão de certos alimentos muito mais antiga do que o chamado processo de globalização.[4]. A cozinha acompanha a sociedade através dos tempos, misturando costumes, aspectos geográficos, políticos e sociais. A sua origem sempre foi local ou regional, embora não ficasse restrita a esses limites.

Porém, o que se pode ver é que hoje é possível comer praticamente tudo em quase todos os lugares, o que vem provocando uma verdadeira revolução na gastronomia.

 

A relação cultura e capital

 

 

 

Muitos autores denominam que somos uma sociedade de consumo. Porém, para sermos uma sociedade de consumo, somos antes uma sociedade capitalista. E dentro do sistema capitalista e da sua necessidade de buscar a o lucro, os elementos do espaço se tornam mercadorias. Para tanto, basta observar o viés da discussão ambiental, que considera o ambiente como uma mercadoria, como algo que está para ser consumido. Mesmo as discussões atuais de preocupação e defesa do ambiente, são sobre uma ótica econômica. Exemplo claro são os créditos de carbono, onde você recebe para preservar o ambiente. Veja a reportagem

 “A recém-lançada organização não-governamental britânica Cool Earth está comemorando o Dia do Meio Ambiente com uma campanha que incentiva as pessoas a patrocinarem a preservação de terrenos na Floresta Amazônica para ajudar a combater o aquecimento global”.[5]

A instituição acima busca proteger a Floresta Amazônica a partir da venda de lotes da floresta, podendo uma pessoa com 35 a 50 libras comprar cerca de 2 mil metros quadrados de floresta no Brasil ou no Equador. Se apropriando da discussão envolvendo o aquecimento global, o coordenador da ONG argumenta que “esta é a oportunidade ideal para que cada um de nós tenha um papel importante em mudar o mundo”.

Mas não é somente o ambiente, ou a defesa deste, que é apropriado e transformado em mercadoria. A cultura, outro importante elemento do espaço tem sido cada vez mais trabalhada e moldada para fins econômicos. E é aqui que nos deteremos com maior profundidade, uma vez que a pesquisa se encaminha para uma discussão e problematização da apropriação cultural pelo viés econômico.

Na tentativa de aprofundar a discussão, Harvey (2005) faz uma reflexão muito pertinente sobre esse processo, a distinguir a mercadoria cultura das outras demais mercadorias. Coloca que “há a crença de que algo muito especial envolve os produtos e os eventos culturais [...] sendo preciso pô-los à parte das mercadorias normais, como camisas e sapatos”[6].

Mas por que esse fenômeno acontece?

Como resposta, trazemos os modos de vida para a discussão. Sabemos que pelos diferentes lugares que passarmos iremos perceber uma infinidade de peculiaridades, desde a relação entre os indivíduos, passando pelas paisagens geográficas. Essa riqueza presente em cada lugar, que até pouco tempo atrás pareceu não ser muito valorizada quando nos colocamos num campo central. Porém essa idéia parece estar sendo modificada, passando os modos de vida, ou como Harvey coloca, “os modos localizados de vida”, como que querendo dar mais valor a categoria espaço, e assim, os eventos culturais ali localizados a serem vistos como boas mercadorias. E nessa relação cultura e capital, o evento cultural transformado em mercadoria se diferencia de outras mercadorias que não possuem internalizadas os modos localizados de vida. A essa diferença, Harvey chama de renda monopolista[7], que surge/proporciona para os atores sociais possibilidade de maiores lucros. É a particularidade local que permite ao produto ser diferenciado, possuidor de qualidades únicas e especiais.

Dentro das singularidades dos locais e localidades e na tentativa de deter o domínio sobre elas, o poder monopolista serve para assegurar as “alegações de singularidade e autenticidade articuladas enquanto alegações culturais distintivas e irreplicáveis”[8].

Como exemplo da disputa de poder na busca da renda monopólica, podemos mencionar as disputas jurídicas e negociações ocorridas nas últimas décadas, iniciadas pela indústria do vinho europeu, liderados por países como França, contra a banalização de expressões como “champagne” em qualquer rótulo de espumante que você produzido, independente do local de origem, deixando dessa forma de existir a originalidade e autenticidade, e conseqüentemente a perda da renda monopólica.

Por estas questões, os produtos culturais não podem ser colocados numa mesma categoria que as mercadorias normais. Os primeiros possuem uma identidade, um registro de procedência, o que lhes agrega valor e os diferencia no mercado. Já, a mercadoria normal, não se é possível agregar valor a partir da identificação com o local, pois sapatos e camisas, calças jeans, a pizza Express e o Big Mac não estão ligados aos modos localizados de vida, ou totalmente desterritorializados que não se identificam com um local de origem.

 

O extravasamento do território

Partindo da premissa de que o sistema capitalista é expansível, onde o crescimento econômico é baseado em contradições, tais como a escala local perante a escala global, sendo o imperativo da acumulação também o imperativo da superação das barreiras espaciais. Fazendo uma leitura de Harvey[9] sobre a teoria da acumulação de capital de Marx, o capital depende da expansão constante da circulação, onde Marx apud Harvey coloca que “a condição prévia da produção com base no capital é, portanto, a produção de uma esfera constantemente maior de circulação”[10]. Sendo assim, o capital possui também em seu bojo, além de criar trabalho excedente, uma tendência de criar novos pontos de troca.

Assim, a partir da tendência de criar novos pontos de troca, temos a tendência de criar um mercado mundial, em que deixem de existir, ou ao menos mais flexíveis, os limites para a expansão do mercado.

Contudo, quando afirmações como esta são colocadas, muitas são entendidas como sinônimo de fim do território, como chega a propor Badie[11] e outros que vêem de forma dicotômica território e rede. Partimos de uma reorganização numa perspectiva que busque uma maior articulação entre si, a conectividade, num binômio território, “historicamente relativizado, a rede atuando ora com efeitos territorializadores, ora desterritorializadores”[12]. Segundo o próprio Haesbaert, a passagem de um território-zona, “centrados em dinâmicas sociais ligadas ao controle de superfícies ou à difusão em termos de área (em geral contíguas)” para um território-rede onde “a lógica se refere mais ao controle espacial pelo controle de fluxos, [...] uma característica muito importante é que a lógica descontínua dos territórios-rede admite uma maior sobreposição territorial, na partilha concomitante de múltiplos territórios”[13]. Ou como Veltz, quando afirma que a noção de continuidade já não serve devido às transformações contemporâneas na comunicação. Transformações estas que não se dão de forma homogênea no espaço, devido à extrema heterogeneidade da velocidade das trocas, tais como pessoas, bens, informação entre outros.[14]

A passagem de território-zona para território-rede, a desconcentração industrial, só foi possível a transformações estruturais que existiram, sendo que o avanço tecnológico, científico e informacional propiciou a intensidade de tais mudanças espaciais. Intensificou e não criou porque as trocas acontecem desde os primórdios, quando a sociedade estava constituída do mínimo de artificialidade.

Atrelado as questões justapostas, o processo de globalização começa a tomar impulso, pois, em primeiro lugar, é uma lógica do capitalismo, e em segundo, o aparato técnico facilita esse processo natural dentro da lógica capitalista.

Podemos, assim partir da compreensão da globalização como uma ampliação dos intercâmbios econômicos, culturais, tecnológicos, e a criação de mecanismos supra-nacionais de representação política, para traçarmos uma origem histórica do fenômeno que nos permita identificar suas conseqüências territoriais.

Portanto, é difícil estabelecer um marco inicial para a globalização. Autores diferentes que buscaram uma periodização da globalização chegaram a datações significativamente díspares: alguns utilizam a Revolução Industrial como um marco inicial; outros vêem no imperialismo do final do século XIX e início do XX o início da nova era; outros, por fim, conseguem identificar os últimos 30 anos como aqueles que caracterizariam a globalização. O fato é que, se tomamos como traço indicativo da globalização a intensificação dos intercâmbios sociais pelo mundo, podemos chegar a conclusões um tanto diferentes daquelas em voga. Como exemplo, a disseminação da peste negra na Europa Medieval, no século XIV, por exemplo, não poderia ter sido desencadeada não fossem os permanentes intercâmbios comerciais do continente europeu com a Ásia.

Também podemos afirmar que um marco significativo na intensificação dos intercâmbios culturais e econômicos do mundo foi à conquista do continente americano pelos europeus, a partir do século XVI. Este período foi marcado pela reorganização (e dizimação da população, em alguns casos) das sociedades pré-colombianas de forma a atender os interesses comerciais e políticos dos Estados europeus. A partir deste período, houve um crescimento constante das trocas comerciais entre Europa, Américas, África e Ásia. Com a incorporação, entre os séculos XVIII e XIX, da Oceania a essas rotas comerciais, a maior parte do mundo já estava inserida em uma economia de trocas intercontinentais[15].

Porém, acreditamos que com o advento da revolução tecnológica cuja continuidade persiste até hoje, a integração da economia mundial voltou a caminhar a passos largos, talvez como nunca vistos antes. Nos últimos 50 anos, através da criação de diversas formas de integração de mercados, a economia voltou ao nível de integração anterior às guerras e, finalmente, o superou. Esta integração não se deu sem a adoção, por parte dos diversos países, de medidas de liberalização comercial, financeira e de investimentos produtivos. Isto se deu sobretudo a partir dos anos 80, período selecionado por muitos autores como aquele que marcaria o limiar da globalização.

O que pretendemos mostrar aqui é que a globalização não é um fenômeno novo, pelo menos não tão novo quanto alguns sugerem. O que se verifica é um movimento ascensional que parte, talvez, desde as grandes navegações até o período atual, com rupturas às vezes bruscas e acelerações no sentido da integração mundial, sempre direcionadas pelas necessidades históricas de acumulação de capital.

 

Globalização: o transbordamento da cultura

Para começarmos a discorrer sobre o fenômeno da globalização e cultura, nada mais adequada que a colocação de Sene quando comenta que “a dimensão cultural da globalização, embora muito importante, não tem sido muito destacada, provavelmente à hegemonia das análises economicistas”[16].

Por estarmos inseridos em um sistema capitalista, faz sentido a perspectiva econômica tomar proporções principais na análise e no desenvolvimento de programas de empresas, governos entre outros. No entanto, não podemos separar a cultura e a economia, uma vez que ambas são estruturas importantes para o desenvolvimento mútuo, como colocou Eustáquio de Sene, onde “o cultural se dissolve no econômico e o econômico, no cultural”[17]. Exemplo disso está em Harvey (2005) quando menciona sobre a inovação cultural local, “como na ressureição e invenção de tradições locais, se vincula ao desejo (do capital) de extrair e se apropriar de tais rendas”[18] [19].

O que temos visto é o discurso sobre a padronização da cultura, a massificação dos hábitos e costumes. Porém isso soa de forma estranha, uma vez que as civilizações são formadas por padrões culturais diferentes, envolvendo amplos agrupamentos culturais de pessoas e fatores de identificação, como a língua, religião, costumes, história entre outros. Isto porque, como que uma contradição, os empresários globais sabem que o desenvolvimento local lhes trará rendas monopolistas. Imaginem o caso do turismo. Para um local ser atrativo, precisa oferecer o mínimo de estrutura para abarcar os turistas que ali querem conhecer. Se esse lugar for tão fora da realidade, não possuindo a menor infra-estrutura, não terá valor no mercado, pois não haverá procura ou uma pequena procura por ele.

Temos que entender que o nível econômico da territorialidade, quanto à organização espacial da produção e dos mercados, acarreta efeitos territoriais diferenciados, até existindo uma homogeneização dos padrões culturais e econômicos, mas parcial. “A globalização [e mundialização] provoca um desenraizamento dos segmentos econômicos e culturais das sociedades nacionais, integrando-os a uma totalidade que os distancia dos grupos mais pobres, [que se encontram] marginais ao mercado de trabalho e de consumo”[20].

Nessa idéia, a globalização dos padrões culturais e a conseqüente massificação da indústria cultural se tornam equivocada, pois até existe uma padronização, mas não uniforme, absoluta; mas sim parcial, atingindo as classes sociais que estão inseridas no mercado de trabalho e de consumo. A massificação da indústria cultural é resultado da apropriação da cultura pelo capital, fato este aos grandes lucros proporcionados. Porém, não podemos colocar a existência de uma americanização, ou de uma ocidentalização do mundo. Acreditamos na existência de uma globalização da modernidade, pois a massificação parcial da indústria cultural não possui sentido único, e nem base única, não significando a globalização apenas a macdonalização do mundo. Isto porque o capitalismo sempre se baseou na especulação de novos espaços, novos processos de trabalho, com a intencionalidade de buscar a lucratividade.

Segundo Heidrich, “com o processo de transnacionalização e globalização cresce o poder da empresa e ela se distancia do controle pela política, à medida que os territórios são transfigurados em mercados”[21]. Como os territórios são transfigurados em mercados, alguns componentes do território, como costumes, hábitos, língua, religião também se tornam mercado. Como exemplo podemos colocar os padrões alimentares como significativo exemplo, algo não muito trabalhado na Geografia.

 

As territorialidades alimentares

 

Pelo fato da gastronomia ser um dos componentes do território, a sua tendência também é a globalização. Porém, não a macdonalização da alimentação, mas sim a diversidade de técnicas e preparos, interesse pelas diferentes culinárias de povos e grupos.

Se nos remetermos ao período do absolutismo e centralismo na França, tentando buscar material sobre as cozinhas regionais desse período veremos que a maioria dos escritos se refere à cozinha oficial da Realeza. Segundo Julia Csergo, “a cozinha do povo das cidades e zonas rurais, diversa segundo os meios geográficos, repousando quase sempre, nas produções locais, só era ocasionalmente assinalada nos livros de cozinha, nos tratados de agronomia e nos relatos de viagem”[22]. A partir da citação, fica evidente as relações de poder colocadas no período do Antigo Regime, onde a idéia de uma única cozinha, pelo menos oficial da Realeza existia, tentava apreender os territórios anexados ao espaço do reino.

A cozinha acompanha a sociedade através dos tempos, misturando costumes, aspectos geográficos, políticos e sociais. A sua origem sempre foi local ou regional, embora não ficasse restrita a esses limites. Porém, o que se pode ver é que hoje comemos praticamente tudo em quase todos os lugares, o que vem provocando uma verdadeira revolução na gastronomia.

Seguindo a idéia de Santos[23], o que provoca essa revolução são os meios tecnológicos que avançam de forma espantosa, onde estes meios facilitam a articulação da sociedade numa escala global, intensificando as relações através do mercado. Isto é, os territórios estão atualmente equipados para facilitar a circulação, a comunicação, tornando-se fluídos, “no qual as fronteiras se tornam porosas para o dinheiro e para a informação”[24]. Sobre a revolução provocada em torno dos meios tecnológicos, na alimentação, pensadores projetaram como tenderia a ser a alimentação no início do século XXI, baseada na pílula alimentar, que substituiria as refeições[25]. No entanto, os pensadores e as próprias pessoas não perceberam a verdadeira mudança, que foi a corrida para comer fora de casa. E com certeza um dos motivos disso foi a entrada da mulher no mercado de trabalho. A estrutura mudou, mas os produtos continuam.

A pílula alimentar não se estabeleceu, mas a entrada de novas cozinhas sim. Atualmente se é possível comer pratos os mais variados possíveis, dos mais variados lugares. Tudo isso graças aos avanços tecnológicos e a globalização que tira vantagens deles. Assim, podemos afirmar que está existindo uma macdonalização quanto ao hábito de comer, pois devido às transformações sociais, os grandes centros urbanos apresentam uma população que realiza a maioria de suas refeições fora de casa. A alimentação torna-se um mercado de consumo em massa. Mas, uma contradição surge. A expansão e o conseqüente transbordamento das cozinhas não ocorre pelo paradigma da macdonalização, mas sim da mundialização, idéia defendida anteriormente, pois não são apenas os lanches rápidos que se globalizam, as cozinhas orientais, latinas, árabes e africanas entre outras também se inserem nesse processo de expansão global. Isto tudo possibilitado pelos meios de comunicação.

Sobre os meios de comunicação que interligam as diversas partes do planeta quase que de forma instantânea; estes são importantes mecanismos do mercado, pois, a especulação de novos espaços, novos processos de trabalho são importantes para o incremento do lucro. Contudo, é desde as viagens e migrações dos povos, que os hábitos culinários começam a transbordar os territórios, permitindo que aqueles sejam elaborados em outras regiões. Esse processo deu início ao intercâmbio de hábitos alimentares, que se potencializa no atual período dos meios informacionais.

O transbordamento dos hábitos alimentares pode levar a uma leitura de padronização da indústria cultural pelo interesse econômico, idéia que consideramos um tanto equívoca. Para nós, o que se pode ver é uma inovação na culinária, sendo muitos pratos recriados de acordo com as possibilidades locais. Segundo essa idéia, a tendência da gastronomia mundial é a de ser cosmopolita, sem nunca se esquecer, no entanto, das raízes que cada país tem em sua culinária regional. Então podemos afirmar que estamos a caminho de uma uniformização planetária? Acreditamos que não, pois como coloca Fischler “enquanto suprime as diferenças e particularidades locais, a indústria agroalimentar envia aos cinco continentes determinadas especialidades regionais e exóticas, adaptadas ou padronizadas”[26]. E essas especialidades regionais e exóticas, proporcionam aos capitalistas a renda monopólica, através de marketing do tipo, “venha provar a verdadeira cozinha árabe”[27] ou “o jeito gaúcho de fazer churrasco”[28].

 

A territorialização das churrascarias: O caso do churrasco

 

Com o objetivo de trazer essa discussão para um caso mais específico, a questão da formação de churrascarias distribuídas por todo o território brasileiro, e após os anos 90 se expandindo para uma escala internacional, abarcando países como Estados Unidos, Itália, França, China, Japão, Chile e muitos outros, nos desperta demasiada curiosidade.

As churrascarias, estabelecimentos comerciais voltados ao serviço de alimentação e lazer segundo critérios do IBGE[29], possuem como cardápio principal um prato típico dos gaúchos, o churrasco. Prato típico do Rio Grande do Sul, não sendo um prato do cotidiano, mas sim servido ocasionalmente, como em finais de semana ou em ocasiões especiais. Assim, o hábito de comer churrasco no Rio Grande do Sul, se refere à idéia de comer por prazer e não comer para viver.

Sobre o churrasco, o mesmo é um prato muito simples de se fazer. Tradicionalmente é feito com cortes de carnes bovinas, sendo adicionado a esta a carne suína e carne de frango. Quanto ao preparo, se utilizam espetos onde a carne é fixada e posteriormente colocada sobre brasas, para ser assada. O principal tempero usado é o sal, podendo se adicionar outros temperos, principalmente nas carnes de frango e suíno. Na carne bovina predomina apenas o tempero com sal.

Porém, não vamos nos deter aqui a aspectos históricos de construção do churrasco e nem nos aprofundar de forma demasiada sobre o preparo deste. A breve descrição de como se realiza o churrasco neste momento já é suficiente, pois queremos aqui mostrar como um prato típico de uma região do Brasil acabou se expandindo e extravasando o território, alcançando uma escala global e suas conseqüentes implicações. Para tanto, basta ver o episódio Simpsons vem ao Brasil, onde mostra em determinado momento a família Simpsons numa churrascaria na cidade do Rio de Janeiro.

Pois bem, partimos do episódio supracitado para chegar no ponto pretendido; a forma que este prato típico se expandiu e se transformou conhecido mundialmente. As churrascarias, estabelecimentos comerciais que tem como prato principal o churrasco, podem ser encontradas em escalas diferentes. Existem churrascarias de grande porte, com capacidade para 300 ou mais pessoas, onde existe uma qualificação profissional e um padrão de qualidade exigido, até churrascarias de pequeno porte, estabelecimentos comerciais estruturados num trabalho de base familiar. Mas, em ambos, a forma do churrasco ser servido é a mesma, através do espeto corrido, onde um garçom passa pelas mesas com o espeto oferecendo a carne aos clientes. Os que aceitam, recebem uma lasca[30] da carne e o garçom continua passando pelas mesas. Associado ao churrasco, existe tradicionalmente um buffet de saladas e pratos quentes, que servem como acompanhamento para comer o churrasco.

O que difere entre as churrascarias de grande porte e de pequeno porte não é a forma que se serve o churrasco, mas sim as opções/variedades de carne oferecidas aos clientes e os acompanhamentos. Nas primeiras, se tende a ter uma maior oferta de variedades de cortes de carnes, bem como de acompanhamentos. Outra questão é quanto à forma que os garçons se encontram vestidos. Nas grandes churrascarias, e aqui se inserem as que hoje extravasaram o território nacional, os funcionários se encontram pilchados, isto é, vestidos de acordo com as roupas clássicas do gaúcho, como bombacha (tipo de calça larga), camisa branca, lenço (vermelho ou branco) e botas ou alpargatas, podendo diferir em alguns aspectos a vestimenta de um estabelecimento para outro. Bem, apontamos este ponto, pois ser compararmos os preços entre os estabelecimentos, veremos um hiato entre estes. No primeiro, o preço tende a ser ao menos 4 a 5 vezes maior que no segundo.

No nosso entendimento, não apenas a presença de maior variedade resulta na diferença de preços, ou a qualificação dos profissionais, ou mesmo a qualidade dos produtos.

Claro que consideramos estes elementos responsáveis por um maior valor no produto ofertado, mas o fato de existir simulações, como o de você poder comer um churrasco realizado por gaúchos (ao menos pessoas vestidas de gaúchos) possui um valor simbólico, que possibilita ao capital agregar maior valor ao produto oferecido, principalmente se trabalharmos as churrascarias fora do estado do Rio Grande do Sul, ou seja, numa escala nacional e ainda mais numa escala internacional. A partir de tais fatos se gera uma renda monopólica que proporciona que o D’ da fórmula DMD’ seja mais intenso.

 

 

 

Bibliografia

 

BADIE, Bertrand. O fim dos territórios. Instituto Piaget. Lisboa. 1997.

 

CSERGO, Julia. A emergência das cozinhas regionais.  In FLANDRIN, Jean-Louis. MONTANARI, Massimo. História da Alimentação. Guarulhos. Estação Liberdade. 2004.

 

FISCHLER, Claude. A “mcdonalização” dos costumes. In FLANDRIN, Jean-Louis. MONTANARI, Massimo. História da Alimentação. Guarulhos. Estação Liberdade. 2004.

 

HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2004.

 

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo. Annablume. 2005.

 

HEIDRICH, Álvaro Luiz. “Território, Integração socioespacial, região, fragmentação e exclusão social”. In: Ribas, Alexandre Domingues; Sposito, Eliseu Savério; Saquet, Marcos Aurélio (Orgs). Território e Desenvolvimento: diferentes abordagens. Francisco Beltrão. Unioeste. 2004, p. 37-66.

 

MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão. In Revista Brasileira de Ciências Sociais, Volume 16, número 47, outubro de 2001.

 

ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo. Editora brasiliense. 1994

 

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo. Edusp. 2006.

 

SENE, Eustáquio de. Globalização e espaço geográfico. São Paulo: Contexto. 2003.

 

VELTZ, Pierre. Mundializaion, ciudades y territórios. Ariel. 1999

 

WALLERSTEIN, Immanuel. O sistema mundial moderno. Porto. Afrontamento, 1990.

 

 



[1] Parte integrante da dissertação de mestrado que está sendo desenvolvida junto ao Programa de Pós Graduação em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

[2] Mestrando do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

[3] Profª. Drª. do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e orientadora do trabalho.

[4] MINTZ, 2001.

[5] Reportagem extraída do site bbcbrasil.com.br em 12/06/07.

[6] Op. cit., p. 221.

[7] O termo também pode ser encontrado com a denominação rendimento monopólico.

[8] HARVEY, 2005, p. 227.

[9] Op. cit., p. 70.

[10] Op. cit., p. 70.

[11] Bertrand Badie, 1996, no livro o Fim dos Territórios propõe um questionamento global do território.

[12] HAESBAERT, 2004, p. 298.

[13] Op. cit., p. 307.

[14] VELTZ, 1996, no livro Mundializaion, ciudades y territorios.

[15] Cf. Wallerstein, 1990.

[16] Op. cit., p. 89.

[17] Op. cit., p. 89.

[18] Op. cit., p. 229.

[19] Isso faz lembrar aquela velha fórmula de Marx em O Capital: DMD’, na qual o dinheiro é transformado em capital, que gera dinheiro suplementar, no ciclo expansivo de acumulação.

[20] Ortiz, p. 189, 1994. Achamos coerente adicionar o termo mundialização, uma vez que Renato Ortiz utiliza o termo globalização para fatores econômicos e o termo mundialização para fatores culturais.

[21] Heidrich 2004, p. 32.

[22] CSERGO, 1998, p. 806. A emergência das cozinhas regionais. In História da Alimentação de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari.

[23] Op. cit.

[24] Op. cit., p. 66.

[25] FISCHLER, 1998, p. 841. A Macdonalização dos costumes. In História da Alimentação de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari

[26] Op cit., p. 859.

[27] Propaganda de um restaurante de comida árabe na cidade de Porto Alegre.

[28] Propaganda de uma rede de churrascarias de São Paulo, cujos donos são do Rio Grande do Sul.

[29] Para saber mais, pesquisar no site IBGE, em Classificação Nacional de Atividades  Econômicas – CNAE.

[30] Lasca significa um pedaço de carne.


Ponencia presentada en el IX Encuentro Internacional Humboldt. Juiz de Fora, Minas Gerais - Brasil. 17 al 21 de setiembre de 2007.