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Asunto:[encuentrohumboldt] 15/08 - AGROECOLOGIA: UM NOVO PARADIGMA DE PRODUÇÃO E UM ESTUDO DE CASO
Fecha:Jueves, 1 de Mayo, 2008  10:43:35 (-0300)
Autor:centro Humboldt <centrohumboldt @..................ar>

Girasol

 

AGROECOLOGIA:

UM NOVO PARADIGMA DE PRODUÇÃO E UM ESTUDO DE CASO*

 

Fabrício Manuel Alves Correa

 UFMG

fabriciogeouni@yahoo.com.br

 

Resumo: Este artigo trata do modelo de produção agroecológico utilizado pelo Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA-NM, partindo das conseqüências promovidas pela Revolução Verde de meados do século XX. Nesse sentido, o trabalho teve como objetivos abordar o processo de modernização da agricultura brasileira frente aos impactos ambientais, sociais e econômicos sobre a região Norte de Minas e analisar o processo de produtividade agroecológico do CAA-NM, através de pesquisa empírica. A metodologia da pesquisa consiste em revisão literária sobre o tema tratado, pesquisa de campo e entrevista com o coordenador da Área de Experimentação e Formação em Agroecologia – AEFA, onde são feitos os experimentos agroecológicos do CAA-NM. Conclui-se que a agricultura alternativa agroecológica se encontra pautada em um novo ideal de produção, diferenciando-se do modelo convencional. Pois, além de produzir alimentos mais sadios, direcionam a produção em uma lógica de respeito ao meio ambiente, contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico dos agricultores familiares da região.

 

Palavras-chave: CAA-NM; Agroecologia; Revolução Verde; Agricultura Alternativa.

 

 

 

Introdução

 

A modernização da agricultura brasileira ocorreu através da Revolução Verde de meados do século XX, que implantou um novo modelo agrícola baseado na introdução de máquinas e insumos químicos para aumentar a produtividade de alimentos. Com esse aumento da produtividade agrícola desencadearam-se problemas de natureza econômica, social e ambiental, que acabaram contribuindo para a desintegração da agricultura familiar. Quanto ao aspecto econômico ficou difícil para o pequeno agricultor manter a produção em suas propriedades, pois os produtos químicos, como fertilizantes, agrotóxicos e o maquinário que facilitaria o aumento da produção, eram pouco acessíveis ao seu poder econômico. Portanto, esse processo de modernização agrícola favoreceu aos grandes latifundiários, que expandiram suas propriedades em detrimento do agricultor familiar.

A falta de capital para o investimento na propriedade aliada à dificuldade de acesso às tecnologias modernas gerou a exclusão social, contribuindo para levar o homem do campo a abandonar suas propriedades e fez com que ele fosse viver em aglomerações urbanas, na maioria das vezes, tendo que se sujeitar ao subemprego, ao desemprego, a moradias e alimentações precárias. Essa agricultura de características capitalistas dedicou-se a produzir alimentos em quantidade e aparência, visando o mercado externo, não se preocupando com a qualidade dos mesmos ou com o consumo local.

Além dos problemas econômicos e sociais, vem a questão ambiental, com a perda de solos e da biodiversidade, além da contaminação dos recursos hídricos.

Foi a partir dos problemas gerados pela modernização agrícola que surgiu a agroecologia, como uma alternativa agrícola que se preocupa, não somente com as questões ambientais, mas também com o social. Essa agroecologia, difundida pelas idéias de Miguel Altieri, foi bem aceita na América Latina, possibilitando o conhecimento, não somente dos problemas ambientais, mas também da questão social precária em que vive essa região. Constituiu-se, ainda, como um novo paradigma de sustentação agroecológica, que repercutiu de forma marcante, através de organizações não-governamentais, junto ao agricultor familiar.

Neste contexto, justifica-se a realização deste trabalho enfocando a agricultura alternativa através do estudo de caso do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA-NM, o qual foi criado a partir da preocupação com os impactos sobre o meio ambiente e o agricultor familiar, provocados, especialmente, pela agricultura convencional e pelo processo de modernização introduzidos na região na segunda metade do século XX.

Em linhas gerais, o trabalho trata, num primeiro momento, de uma síntese do processo de modernização da agricultura e apresenta uma breve análise da agroecologia como forma de sustentabilidade agrícola. Continua com o contexto histórico da criação do CAA-NM e do processo de produção agroecológico na Área de Experimentação e Formação em Agroecologia (AEFA).

 

Modernização agrícola X agroecologia

 

A modernização da agricultura brasileira se deu com a chamada Revolução Verde que nasceu pós Segunda Guerra Mundial em meio aos interesses dos Estados Unidos (capitalista) e da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – de interesse socialista. Não obstante, o mercado de insumos químicos buscava a ampliação de novos mercados para expandir sua produtividade. Soma-se a isso, o crescimento da indústria mecânica que ampliou sua produção de máquinas e equipamentos que favoreceriam o aumento da produção agrícola dos países, até então, com uma agricultura atrasada.

No Brasil, a Revolução Verde foi implantada favorecendo os grandes latifundiários, assim como nos demais países que veio a sofrer esse processo de modernização. Mais do que o aumento da produtividade, a agricultura moderna veio trazer também uma série de impactos ambientais, sociais e econômicos, já que esse modelo de produção baseou-se na expansão da fronteira agrícola e excluiu os agricultores descapitalizados.

Através da modernização agrícola intensifica-se a monocultura, com conseqüente perda de biodiversidade e desgaste dos solos. Além disso, acentuou o processo de exclusão econômica e social do agricultor familiar.

Para Rosa (1998), a modernização da agricultura ocorreu de forma excludente, privilegiando uma pequena parte da população, e ainda teve como conseqüência o intenso êxodo rural[1][1].

Em oposição ao modelo convencional agrícola surge na América Latina a agroecologia.

Altieri (2004, p. 18), conceitua a agroecologia:

 

Trata-se de uma nova abordagem que integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo. [...]. O objetivo é trabalhar com e alimentar sistemas agrícolas complexos onde as interações ecológicas e sinergismo entre os componentes biológicos criem, eles próprios, a fertilidade do solo, a produtividade e a proteção das culturas.

 

 

É importante salientar que os princípios agroecológicos baseiam-se em promover uma inter-relação entre as práticas agrícolas e o meio ambiente, em que a forma de produção consiste no trabalho com sistemas complexos e diversificados.

Para Hecht (1993) citado por Dayrell (2000, p. 204),

 

a melhor maneira de se descrever a agroecologia é no sentido de que ela, mais do que constituir uma disciplina específica, integra idéias e métodos de vários subcampos. [...] Suas raízes encontram-se nas ciências agrícolas, no movimento ambientalista, na ecologia (em particular na explosão de pesquisas sobre os ecossistemas tropicais), na análise de agroecossistemas indígenas e nos estudos sobre desenvolvimento rural. Cada uma dessas áreas de pesquisa [...] tem exercido influências legítimas e importantes sobre o pensamento agroecológico.

 

 

Portanto, as linhas de pesquisa na agroecologia podem se desdobrar em diversos campos, sendo que compreende estudos acerca tanto das práticas familiares de produção quanto de algumas culturas específicas, como populações tradicionais, quilombolas e indígenas.

Baseada na policultura, plantio em curva de nível, rotação de cultura e no sistema de agrofloresta, a agroecologia possibilita a interação de aspectos econômicos, social e ambiental, em que o pequeno agricultor se beneficia da renda gerada a partir da exploração da sua propriedade, reduzindo os custos com fertilizantes e agrotóxicos, e a natureza é preservada através de uma lógica de exploração sustentável.

 

O contexto histórico do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas

 

A região Norte de Minas Gerais sempre foi marcada por contrastes físicos, econômicos e sociais, que se intensificaram com a modernização agrícola. Além disso, é caracterizada como uma faixa de transição de florestas úmidas para a caatinga, e uma economia relativamente atrasada.

Segundo Dayrell e Rosa (2005), além dos agrotóxicos e dos fertilizantes, essa região sofreu com os grandes latifúndios, onde se observa, também, a atuação intensa praticada pelas empresas de reflorestamento. Isso contribuiu para expulsar os pequenos agricultores de suas terras, fazendo com que fossem para os centros urbanos em busca de sua sobrevivência e da própria família.

Foi assim que, em 1985, através de um seminário realizado na cidade de Montes Claros surge a proposta de criação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas. Essa proposta foi baseada nas adversidades pelas quais estava passando o pequeno produtor rural, tanto as de ordem natural (baixa pluviosidade, solos cansados e já quase improdutivos), como as dificuldades econômicas e sociais impostas pela Revolução Verde, além da falta de apoio governamental.

 De acordo com Dayrell e Rosa (2005), este, até então projeto, foi concretizado através de cooperação e acordos firmados junto a entidades e instituições. Dentre essas, estavam a Casa da Pastoral Comunitária da Diocese de Montes Claros, a Misereor[2][2], Assessoria e serviços a Projetos em Agricultura Alternativa – AS-PTA,  e ainda, buscou-se apoio financeiro junto ao Financiamento de Estudos e Pesquisas – FINEP, do Ministério de Ciências e Tecnologia. Além do apoio da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária (EMBRAPA), que ajudou na busca de sementes que melhor se adaptaram à região. E por último ressalta a ligação com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER, que contribuiu com a implantação do CAA-NM.

 O CAA-NM é composto pelo escritório, que se localiza na rua Anhanguera, 681, no bairro Cândida Câmara, em Montes Claros, e a área de experimentação. A área de experimentação é chamada de AEFA (Área de Experimentação e Formação em Agroecologia), localiza-se na rodovia BR-135, à 40 quilômetros da cidade de Montes Claros.

O CAA-NM constitui uma entidade não-governamental que atua no Norte de Minas em função da promoção de desenvolvimento social, econômico e ambiental.

 Esse projeto sofreu, em primeiro instante, a resistência dos agricultores familiares dessa região que não acreditavam que o processo de produção agroecológico proposto pelo CAA-NM fosse capaz de substituir os insumos químicos, oriundos da Revolução Verde. O CAA-NM não somente teve que trabalhar com as técnicas de produção, mas também com a reeducação dos agricultores, para que fosse possível a realização desse trabalho.

 

O Processo de Produção Agroecológico na Área de Experimentação e Formação em Agroecologia – AEFA

 

A AEFA ocupa uma área de 63 hectares, localizada no bioma cerrado em transição para caatinga, possui solos rasos e pedregosos, embora relativamente férteis, dada a sua biodiversidade. Verifica-se que 17% da área é utilizada como reserva ambiental e 83% é destinado às experimentações, cultivo agrícola, além da criação de animais.

Na AEFA são realizados diversos experimentos agrícolas, respeitando as limitações da natureza e ainda contribuindo para o desenvolvimento da agricultura familiar das comunidades vizinhas.

Pode ser observado na AEFA que o trabalho é praticado com pleno respeito à natureza, seguindo os meios agroecológicos de produção agrícola.

De acordo com o senhor Isaías Francisco Borges[3][3], na AEFA é praticado o sistema de agrofloresta (Figura 1), feito através do plantio de pastagens em consórcio com a vegetação nativa. É utilizado o sistema de curva de nível, de forma natural, observando o caminho traçado pelos próprios animais, ou seja, os animais ao encontrarem as árvores caminham de maneira descontínua, desviando-se das mesmas. Isso também contribui para a conservação dos solos e da vegetação nativa, o que é de suma importância, pois, além da biodiversidade dessa mata de transição do cerrado para a caatinga, tem-se uma riqueza de remédios naturais.

 

Agrofloresta

FIGURA 1: SISTEMA DE AGROFLORESTA, AEFA.

Foto: CORREA, F. M. A., 2005.

 

A sobrevivência desse sistema de agrofloresta é realizado através do processo de podas, ou seja, as árvores nativas são podadas em um período de cerca de dois anos. Isso é importante para que os raios solares penetrem e atinjam as áreas plantadas.

Há também nessa área de agrofloresta, um sistema de capitação de água das chuvas (enxurradas) que tem, ao mesmo tempo, o objetivo de reduzir a velocidade da água, evitando a lixiviação, conservar as estradas dentro do sítio, alimentar o lençol freático, aumentar a umidade do solo e beneficiar a flora.

De acordo com o senhor Isaías Francisco Borges, diversos são os cultivos na agrofloresta, tais como; o abacaxi (serve para corrigir a acidez do solo), goiaba, pastagens, flores (néctar para as abelhas) e plantas medicinais. Estes são, também, plantados no sistema de curva de nível, diminuindo a velocidade das águas pluviais.

Segundo Altieri (1989), esse processo de agrofloresta e/ ou agrossilvicultura trazem consigo a sustentabilidade e uma maior produtividade. Dentro dessa sustentabilidade aumentam-se os efeitos benéficos à natureza, através da interação entre espécies nativas, cultivos agrícolas e/ ou animais. A maior produtividade se dá devido a essa interação ser responsável por destruir pragas que danificam as culturas.  

 

 

                                              Cultivos agrícolas

 

 


                

              Espécies nativas                                     Animais     

 

 

FIGURA 2: INTERAÇÃO NO SISTEMA DE AGROFLORESTA, PROPOSTA POR ALTIERI, 1989.

Elaboração: SILVA, M. N. S. da; 2007.

  

Para Bezerra e Veiga (2000, p. 31), os sistemas de agrofloresta

 

[...] representam alternativa de produção para as propriedades familiares[...], principalmente no que se refere à conservação florestal, a diversificação de produtos e à geração de renda. São também indicados para a recuperação de áreas degradadas, por propiciar controle de erosão, melhorias do solo, contribuindo ainda para a manutenção de sua umidade.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Segundo Isaías Francisco Borges, o sistema de roça[4][4] do CAA-NM é feito em uma área de declive, em forma de curva de nível, onde se utilizam técnicas de preparação dos solos com o uso do rolo faca (Figura 3) e do cultivador, além de adubos e fertilizantes de origem natural.

Cópia de Fotos Fabrício 202

FIGURA 3: ROLO FACA.

Foto: CORREA, F. M. A., 2005.

 

O senhor Isaías Francisco Borges disse ainda que o rolo faca é passado sobre a terra, geralmente no mês de agosto, antes de se iniciar o período das chuvas[5][5]. Esse rolo não penetra profundamente no solo, ele apenas faz uma mistura na camada superficial, mais rica em matéria orgânica. Após as primeiras chuvas trabalha-se com o cultivador que é utilizado manualmente. Tanto o rolo faca, como o cultivador servem para misturar os nutrientes no solo, aumentando o seu poder de fertilidade. Em seguida, faz-se o plantio em curvas de nível, pois isso contribui para que as águas das chuvas desçam com menor velocidade, não ocasionando erosão e nem levando a matéria orgânica para as áreas mais baixas do terreno. Nesse sistema de roça, os agricultores do CAA-NM cavam sulcos, onde são plantados o milho, o feijão, o andu, a mandioca, o girassol, a cana-de-açúcar e o capim. Além dessa diversidade, utiliza-se da rotação de culturas, ou seja, não plantar um produto várias vezes no mesmo lugar. Vale ressaltar, então, a importância da diversidade e rotação de culturas, para ajudar no combate às pragas e contribuir para a conservação dos solos.

Como já exposto, a plantação agrícola tem todo um cuidado com a utilização dos solos. Para o uso desse solo, são feitas observações quanto à sua fertilidade através de uma experiência denominada de trincheira (Figura 4).

 

Cópia de Fotos Fabrício 008

FIGURA 4: TÉCNICA DA TRINCHEIRA.

Foto: CORREA, F. M. A., 2005.

 

É feita uma escavação no solo com cerca de dois metros de profundidade, um metro quadrado de diâmetro, onde serão observados os três horizontes do solo, com cores diferentes. A camada mais superficial (de cor escura) é onde se encontra a matéria orgânica, com maior teor de fertilidade; as duas partes inferiores, mais duras, são  inviáveis para a plantação agrícola de forma direta. Aí é que se observa a importância do rolo faca e do cultivador quanto ao preparo dos solos, pois, ambos atingem apenas a primeira camada, fazendo uma mistura de matéria orgânica. Se fossem feitos cortes profundos, haveria a substituição das camadas, penetrando a matéria orgânica no subsolo e deixando a superfície desprovida de fertilidade e, conseqüentemente, uma menor produtividade agrícola.

De acordo com o senhor Isaías Francisco Borges, na AEFA trabalha-se também com o cultivo de hortaliças de origem orgânica. Este sistema de horticultura é feito a base de sustentação ecológica, onde se utilizam sementes, além de adubos e biofertilizantes de procedência natural. A plantação é realizada através da policultura, ou seja, são plantados vários tipos de legumes em uma mesma área, ajudando no combate às pragas e, portanto, tem-se um melhor aproveitamento agrícola. Essa horta beneficia as comunidades vizinhas, que recebem as sementes excedentes para serem plantadas em suas roças.

Portanto, o CAA-NM trabalha em consórcio com a natureza, respeitando o meio ambiente e produzindo alimentos sadios. Para isso, o sistema de adubação é feito de forma natural utilizando os recursos que a natureza oferece, com o reaproveitamento de restos (cascas de frutas, capim, esterco de gado), os quais são preparados para que depois sejam aproveitados nas plantações.

De acordo com o senhor Isaías Francisco Borges, o processo de preparação do adubo é um pouco demorado, levando cerca de dois meses, para depois ser utilizado. No caso do esterco de gado, por conter urina, danifica a lavoura. Devido a isso, deve-se colocar o esterco para curtir por trinta dias, junto com o capim e as cascas de frutas. Após um mês, misturam-se os três materiais no local onde ficaram curtindo, pelo mesmo espaço de tempo e, somente assim, poderão ser usados de forma eficaz, obtendo bons resultados.

Além da adubação orgânica é necessária a utilização de fertilizantes para que se tenha uma produção agrícola de boa qualidade. Sendo assim, os fertilizantes, aqui consumidos, são também feitos de forma natural, servindo como repelentes para as pragas e, ainda, ajudando na fortificação das lavouras.

O senhor Isaías Francisco Borges informou ainda que na AEFA são fabricados e utilizados diversos tipos de biofertilizantes, dentre eles estão: Urina de Vaca, Supermagro, Calda Bordalesa, Calda de Fumo com Sabão, Homeopatia e o Chorume. Esses biofertilizantes servem, sobretudo, como repelentes no combate às pragas e também na fortificação dos cultivos agrícolas.

Para Zamberlam e Froncheti (2001), a urina de vaca é colhida no momento em que é retirado o leite, após a coleta é então colocada para curtir por um período de 10 dias em que sofrerá o processo de fermentação, sendo depois misturada a uma certa quantidade de água que varia de acordo com a necessidade no combate às pragas, podendo ainda ser aplicada como repelente e micronutrientes, muito utilizados em verduras, frutas, feijão e outros.

A Calda Bordalesa feita com cal virgem e/ ou hidratado, sulfato de cobre e água limpa, serve como fungicida no controle e combate às doenças em hortaliças.  A utilização dessa fungicida se intensifica quando se tem uma área mais úmida, onde é mais propícia às doenças. Em locais menos úmidos é usada por um espaço de tempo maior.

Zamberlam e Froncheti (2001, p. 147), destacam dentre os biofertilizantes o Supermagro como um

 

produto desenvolvido [...] a partir da experiência de um técnico com sobrenome Magro. Daí o nome de Supermagro. É um adubo líquido proveniente de uma mistura de micronutrientes fermentado em seu meio orgânico. 

 

A homeopatia (extraída da própria planta) e a calda de fumo com sabão são também de origem natural e servem como repelentes contra as pragas.

Esses fertilizantes, de base natural, são utilizados na AEFA como meio de produção e experimentação, além de repassá-los ao pequeno agricultor familiar contribuindo com a preservação ambiental e, ainda, com produção agrícola de qualidade. As comunidades serão beneficiadas, uma vez que, utilizando recursos naturais, não precisarão comprar outros insumos químicos agrícolas, além de estarem conservando seus solos, rios e obtendo uma produção de base natural.

 Conforme destaca o senhor Isaías Francisco Borges, o viveiro é outro importante sistema que contribui para o desenvolvimento rural das comunidades associadas ao CAA-NM. Aqui é o local onde se produzem mudas de plantas (frutíferas) originadas do cerrado e outras, como o maracujá, a manga, o umbu, o coquinho azedo, acerola, goiaba etc. As mudas são produzidas com as sementes que são retiradas das frutas na fábrica de polpas. Essas mudas são produzidas e repassadas aos agricultores associados que as levam para suas propriedades. Quando essas frutíferas estiverem produzindo, os frutos serão levados para a fábrica, na própria AEFA, e serão transformados em polpas.

Hoje o CAA-NM conta com duas fábricas de polpas, uma na localidade de Riacho dos Campos (AEFA), situada no município de Montes Claros e outra em Porteirinha. Estas iniciaram suas atividades no ano de 1996 com a construção de um projeto de beneficiamento de frutas e, a partir de 1998, começaram a produzir. As duas fábricas têm o apoio da cooperativa Grande Sertão que trabalha junto com o pequeno produtor na produção de polpas. O transporte das frutas é feito pela cooperativa, que vai buscá-las nas comunidades agrícolas para serem transformadas em polpas. Uma vez que a polpa fica pronta, é, então, distribuída em  lanchonetes e supermercados da região. Além disso, o CAA-NM tem parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB, a qual compra a polpa e distribui nas escolas que a utilizam como merenda.  A produção média de polpas é de cerca de 120 toneladas por ano.

A fábrica de polpas é de suma importância para os agricultores, pois, de acordo com a entrevista do senhor Isaías Francisco Borges

 

[...] geralmente tinha fruta do cerrado que perdia, o pessoal não sabia o que fazer. Então, através do “sonho” de agricultores e através de reuniões eles conseguiram o projeto de montar a fábrica para reaproveitar o que estava apodrecendo [...] o agricultor tinha, mas não estava sendo aproveitado [...]. Hoje é um meio de renda para eles [...].

 

     Essa fábrica de polpas reforça a proposta da agroecologia baseada nos defensores da corrente alternativa de produção agrícola. Pois, trata-se, aqui, da melhoria das condições sociais, da geração de emprego e renda para os agricultores familiares.

  Outro aspecto de destaque na AEFA se dá diante do criatório de animais (caprinos e suínos), que compõe o processo agropecuário do CAA-NM.  

  De acordo com o senhor Isaías Francisco Borges, o caprino da raça Angroviana é criado em um sistema semi-intensivo, ou seja, preso no curral e solto nas mangas. Ele é solto pela manhã às 9:00 horas e preso às 14:00 horas. Todo esse cuidado se dá por causa dos orvalhos, que podem atingir os animais no fim da tarde e pela manhã. É uma raça mista da qual se utiliza a carne e o leite, itens bem apreciados no mercado. Seu período de gestação é de 5 meses, podendo parir de dois até três filhotes por vez.

A suinocultura se constitui em uma outra criação feita dentro da AEFA, que se adaptou bem dentro do bioma cerrado.  Este, da raça Sorocaba, tem um período de gestação de 3 meses e 24 dias, podendo parir de 8 até 12 filhotes por cada vez. Além disso, com seis meses após o nascimento chegam a pesar 15 arrobas[6][6], estando bons para o corte.

O CAA-NM faz da suinocultura um importante meio de contribuir com as comunidades integrantes da organização, através do empréstimo de animais para o cruzamento. Os criadores levam esses animais para suas comunidades onde ficam por um determinado período e depois retornam para a AEFA.

A alimentação desses animais é feita à base de ração que é produzida com a mistura de milho, soja, farinha de trigo e sal mineral e, a quantidade na composição se dá de acordo com as necessidades de consumo.

Essa mistura de ingredientes para a fabricação dessa ração constitui-se em uma alimentação nutritiva e sadia, contribuindo para o crescimento dos animais.  Além disso, reduz os custos com o aproveitamento dos diversos recursos encontrados na propriedade.

Para Zamberlam e Froncheti (2001, p. 198):

 

A composição da ração deverá ser balanceada, de forma a suprir as necessidades nutricionais dos animais em termos de fósforo, cálcio, vitaminas e minerais, entre outros, além de atender as necessidades protéicas e energéticas dos animais segundo a fase do seu desenvolvimento [...].

 

 

A partir dos diversos projetos desenvolvidos pelo CAA-NM, pode ser observado na prática, o trabalho preocupado com a preservação da natureza e contribuindo para o desenvolvimento agrícola familiar.

Faz-se necessário esclarecer que o trabalho de assistência junto aos agricultores familiares pode lhes conceder práticas agrícolas que visam o desenvolvimento de suas próprias comunidades. Dentre elas, estão: Pau D’Óleo, Americana, Tapera e Xacriabás (comunidade indígena).

  Em se tratando da região Norte de Minas, o CAA-NM, através das suas ações pode auxiliar no desenvolvimento de forma sustentável, possibilitando a busca de soluções dos diversos problemas, ambientais, sociais e econômicos, além de suprir a falta de uma política pública eficaz, com intuito de melhorar a produção e o padrão de vida das comunidades rurais locais.

Esse projeto de agricultura alternativa baseado no paradigma agroecológico pode favorecer também o resgate cultural da região, pois a modernização agrícola alterou o (des)envolvimento que havia entre as comunidades locais e seu meio ambiente.

 

Considerações Finais

 

Sem dúvida, a Revolução Verde provocou profundas alterações na ordem social, econômica e ambiental do país. Ao mesmo tempo em que essa “nova ordem” trouxe benefícios para a agricultura brasileira, ela também desestruturou os núcleos agrícolas familiares e seu envolvimento, assim como causou (e ainda causa) diversas agressões ao meio ambiente e até à saúde humana, dado o intenso uso de insumos químicos e o desmatamento dos biomas nativos.

Tal situação não é diferente no Norte de Minas Gerais, uma região marcada por intensos conflitos de resistência camponesa e disparidades socioeconômicas.

Se por um lado há uma elite composta por ruralistas e empresários, pelo outro há a atuação do Centro de Agricultura Alternativa – CAA-NM, que busca resgatar o pequeno agricultor de uma marginalização oriunda da modernização agrícola e inseri-lo no contexto socioeconômico local, orientando-o que é possível conciliar produção econômica com preservação ambiental.

Verifica-se que o papel do CAA-NM no contexto agrícola do Norte de Minas Gerais é fornecer suporte técnico e incentivar os pequenos agricultores para a utilização de práticas agrícolas sustentáveis. Os processos de produção aqui apresentados consistem em experimentos agroecológicos que podem ser aplicados nos diversos sistemas agrícolas. O sistema de agrofloresta é um consórcio entre vegetação nativa, produção agrícola e animais. As técnicas de preparo do solo e contenção da drenagem superficial das águas de chuva são fundamentais para a conservação e o manejo adequado. Os biofertizantes, os adubos e repelentes naturais auxiliam na melhoria da produção e no combate às pragas.

É diante desses modelos de produção agrícola sustentável que foi sugerido neste trabalho fazer uma análise da atuação do CAA-NM, pautada nos fundamentos da Agroecologia como um novo paradigma de produção, capaz de fazer uma crítica ao modelo convencional de agricultura modernizada e propor novas alternativas de produção agrícola.

Com os dados deste trabalho pode-se concluir que o CAA-NM pode contribuir para a expansão da agroecologia entre os pequenos produtores rurais. Essa contribuição, dentre os diversos aspectos, vem fixar o homem no campo, fazendo com que ele não se sujeitasse a ir para os centros urbanos, onde acabam na maioria das vezes tendo que viver em condições precárias.

 

Referências

 

ALTIERI, Miguel A. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989.

 

______. Agroecologia: A dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.

 

BEZERRA, M. do C. L.; VEIGA, J. E. da. (Org.). Agricultura Sustentável. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis; Consorcio Museu Emílio Goeldi, 2000.

 

DAYRELL, Carlos; LUZ, Cláudia (Org.). Cerrado e Desenvolvimento: Tradição e Atualidade. Montes Claros: Max Gráfica e Editora Ltda, 2000.

 

DAYRELL, Carlos & ROSA, Helen Santa. Narrando o enredamento das populações do Sertão Norte-Mineiro e do CAA: uma trajetória de 20 anos. Revista Verde Grande, Montes Claros, v. 1, n. 3, p. 52-75. 2005.

 

EHLERS, Eduardo. Agricultura Sustentável: origens e perspectivas de um novo paradigma. Guaíba: Editora Agropecuária, 1999.

 

KHATOUNIAN, Carlos Armênio. A reconstrução ecológica da agricultura. Botucatu: Agroecológica, 2001.

 

ROSA, Antônio Vitor. Agricultura e meio ambiente. São Paulo: Atual, 1998.

 

ZAMBERLAM, Jurandir & FRONCHETI, Alceu. Agricultura Ecológica: preservação do pequeno agricultor e do meio ambiente. Petrópolis: Vozes, 2001.



 


* Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Agricultura Alternativa: Um Novo Paradigma de Produção; O Estudo de Caso do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas CAA-NM” apresentado ao Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Montes Claros no ano de 2006.

[1][1] Êxodo Rural é a saída do homem do campo para os centros urbanos à procura de trabalho e melhores condições de vida.

[2][2] Misereor se configura na agência de desenvolvimento da igreja católica alemã, que tem como objetivo combater a fome e miséria principalmente na América Latina, Ásia e África e possibilitar as pessoas uma vida digna e ainda promover justiça, liberdade e paz no mundo.

[3][3] Coordenador da Área de Experimentação e Formação em Agroecologia - AEFA

[4][4] Plantio feito por pequenos agricultores onde se utiliza técnica rudimentar de produção. O espaço de terras é geralmente cultivado pela própria família.

[5][5] O período chuvoso na região se inicia no mês de Outubro.

[6][6] Uma arroba corresponde à 15 quilos.


Ponencia presentada en el IX Encuentro Internacional Humboldt. Juiz de Fora, Minas Gerais - Brasil. 17 al 21 de setiembre de 2007.