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Asunto:[encuentrohumboldt] 6/08 - DESENVOLVIMENTO URBANO E GRANDES EVENTOS ESPORTIV OS: O LEGADO OLÍMPICO NAS CIDA
Fecha:Viernes, 22 de Febrero, 2008  11:04:06 (-0300)
Autor:encuentrohumboldt <encuentrohumboldt @..................ar>

DESENVOLVIMENTO URBANO E GRANDES EVENTOS ESPORTIVOS: O LEGADO OLÍMPICO NAS CIDADES

 

Gilmar Mascarenhas

Professor Adjunto – Departamento de Geografia

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Introdução

 

Em pouco mais de um século de existência, o olimpismo da era moderna evoluiu de maneira colossal. Incontestável seu poder na reestruturação urbana, levando cidades de todo o planeta a almejar o direito de sediar as olimpíadas, tomadas como alavanca para a dinamização da economia local e sobretudo para redefinir a imagem da cidade no competitivo cenário mundial.

Desfrutando de bilhões de espectadores, tais cidades se transformam, momentaneamente, no admirado centro das atenções em escala planetária. As competições olímpicas são megaeventos e, como tal, têm inquestionável poder de transformação sobre os espaços onde são realizadas. Resultam em clara oportunidade para o novo modelo de planejamento e gestão das cidades, calcado na lógica do mercado.

Entendemos por urbanismo olímpico o peculiar conjunto de pressupostos e intervenções sobre as cidades que acolhem os grandes eventos olímpicos (MUÑOZ, 1996). Trata-se, pela natureza intrínseca do fato esportivo, de dotar as cidades de instalações específicas, que atendam às distintas modalidades, dentro de padrões normativos internacionais. Mas trata-se também de criar condições de alojamento para os milhares de atletas, pessoal de apoio e membros dos comitês olímpicos, bem como para a imprensa. Além disso, quase sempre a cidade-sede requer expansão ou melhorias em sua infra-estrutura geral (transportes, telecomunicações, malha viária etc.). Trata-se, enfim, de um amplo conjunto de intervenções urbanísticas; um momento-chave na evolução e no planejamento das cidades.

Por isso resgatamos a experiência mundialmente acumulada de realização de grandes eventos olímpicos, no que tange especificamente à política urbana, entendida como o conjunto de atores, pressupostos e suas ações sobre a cidade. O trabalho consistiu em realizar levantamento histórico dos projetos de desenvolvimento urbano diretamente relacionados à realização de competições olímpicas. A partir das informações referentes a intervenções urbanísticas e seus atores, estabelecemos uma periodização.

Tentaremos demonstrar como o olimpismo, após um tímido início em 1896, foi adquirindo grande envergadura, poder e impacto local; e como foi incorporando paulatinamente o interesse coletivo em suas realizações, particularmente no pós-segunda guerra mundial. Todavia, mais tarde, com o advento de um novo contexto histórico, no qual as forças neoliberais se impõem com maior intensidade, o olimpismo se revestiu de um caráter altamente empresarial, distanciando-se do interesse social que o caracterizou no período anterior.

 

 

Do amadorismo inicial à era do legado social e urbanístico

 

As primeiras décadas (1896 a 1932) de Jogos Olímpicos (J.O.) deixaram poucos vestígios na paisagem urbana, devido ao amadorismo reinante. A falta de apoio oficial, a pouca difusão do movimento olímpico, o reduzido número de participantes[1], uma série de fatores enfim somaram para um grau ainda incipiente e amador de organização e porte dos J.O., caracterizados pelo improviso e precariedade das instalações físicas. Segundo Muñoz (1996), somente em 1932[2] pode-se iniciar a falar, embora timidamente, em “urbanismo olímpico”, quando a cidade de Los Angeles utilizou os jogos como oportunidade de reerguimento da economia local, muito abalada pela crise de 1929, e edificou a primeira vila olímpica da história dos jogos com características de habitação permanente[3]. Em 1936, Berlin seguiu o exemplo e consolidou a nova tradição de edificação de vilas olímpicas dotadas de alguns equipamentos específicos para os atletas.

Após a Segunda Grande Guerra Mundial, o olimpismo adquiriu força inédita, atraindo maior interesse e apoio governamentais, bem como verificando crescente adesão de atletas de diversos países. Inicia-se aqui a famosa bipolarização esportiva entre URSS e EUA, reflexo da Guerra Fria, projetando ainda mais o evento, como um verdadeiro simulacro da guerra entre as principais potências (BONIFACE, 1996).

 Se em meio às dificuldades de reconstrução do pós-guerra, Londres (1948) recorreu a instalações militares e estabelecimentos escolares para alojamento dos atletas, em 1952, Helsinki inaugura a era dos grandes projetos habitacionais populares, geridos pelo poder público, a partir dos J.O.. Iniciava-se um novo período, no qual este grande evento se estruturava incorporando demandas sociais, de habitação, transporte e infra-estrutura em geral.

Nos jogos seguintes, Melbourne (1956) não apenas seguiu este modelo como incorporou o uso de vasta infra-estrutura esportiva universitária. Em Roma (1960), a novidade foi a criação de uma vila olímpica com modernas e bem equipadas instalações, dentro de um explícito projeto de expansão urbana, incluindo a implantação de infra-estrutura geral e de acesso. Devemos todavia considerar o novo contexto sócio-econômico, para entender a afirmação de um “urbanismo olímpico” multiplicador de equipamentos públicos de lazer e esporte: a consolidação do Estado de Bem-estar Social na Europa Ocidental não apenas garantiu maior capacidade de consumo como também oportunizou a difusão da prática esportiva, dentro da política social “esporte para todos”. Desde então, cada olimpíada vem deixando (ou propiciando) marcas indeléveis na paisagem das cidades, tornando-se uma efetiva possibilidade de executar o planejamento urbano.

Em 1964, Tóquio se valeu dos jogos para reconquistar às Forças Armadas dos EUA toda uma área que havia sido utilizada para alojamento militar desde o final da segunda guerra, ali instalando a vila olímpica. Outra estratégia local foi a dispersão das instalações esportivas, envolvendo no projeto dos jogos ampla reforma viária urbana. A seguir a cidade do México (1968), além de optar por alocar as duas vilas olímpicas na periferia, numa perspectiva de integração da mancha urbana, nelas erigiu 24 blocos de apartamentos, numa clara definição de uso residencial popular após o evento.

Nos anos 70, nota-se um aprimoramento desta conjugação entre J.O. e planejamento urbano. Entre urbanistas, crescia naquele momento a preocupação para com a indesejável obsolescência das áreas centrais, em favor de novos sub-centros e subúrbios de perfil econômico elevado, processo acionado sobretudo pela difusão do uso do automóvel. Nos J.O. de Munique (1972) e Montreal (1976) nota-se, segundo Muñoz (1996), uma clara política de instalação ou aproveitamento de equipamentos esportivos junto à área central, valorizando-a. Podemos afirmar que neste momento os J.O. propiciaram a oportunidade de concretização de novas idéias urbanísticas, que ainda hoje situam-se no centro do debate sobre a renovação das cidades.

Moscou (1980) retoma e demarca o ápice da política de construção de habitações populares a partir de uma vila olímpica: nada menos que dezoito blocos de apartamentos pré-fabricados com 16 andares cada um. O imenso investimento soviético se explica não apenas pela conformidade de tal iniciativa com o modelo funcional e homogêneo de urbanismo socialista, mas sobretudo por ser aquela ocasião para a já decadente URSS uma das últimas chances de exibir ao mundo seu poderio (atlético, financeiro e organizativo)[4].

A década de 1980, todavia, marcaria para sempre a trajetória do socialismo e dos estados de bem-estar social. A ascensão de governos de marcante corte neoliberal (com destaque para Ronald Reagan nos EUA e Margareth Tatcher no Reino Unido) sinalizavam um novo momento histórico, de recuo do interesse social em favor do mercado, no contexto de diversos autores definem como modo de acumulação pós-fordista. O esporte, como qualquer outra atividade econômica enquanto dimensão da vida social, não poderia deixar de participar deste processo geral de reestruturação.

 

As forças do mercado: uma cidade para poucos

 

Saramanch assumiu a presidência do COI naquele mesmo ano de 1980, imprimindo à entidade toda uma nova filosofia, contendo uma estratégia de clara mercantilização do olimpismo. Não por acaso, os J.O. seguintes (Los Angeles 1984) foram um marco no processo histórico de transformação dos jogos, no sentido do crescente poder empresarial em sua organização[5]. O último evento no bloco capitalista (Montreal, 1976) vinha sendo criticado pela ausência de um gerenciamento eficaz, do ponto de vista econômico. E assim, pela primeira vez, o Comitê Olímpico Internacional não firmou contrato com o poder público local, e sim com um comitê organizador composto basicamente por empresários. Este grupo e o Comitê Olímpico dos EUA (United States Olympic Committee) assumiram toda a responsabilidade financeira sobre o evento, que ficou conhecido como os “Jogos Capitalistas” (ANDRANOVICH et al, 2001:119 e 121), aqui melhor entendido no sentido de um evento altamente lucrativo e conduzido com mínima interferência do poder público. O principal legado para a cidade foi o aprimoramento de infra-estrutura, particularmente viária e de telecomunicações.

Seul (1988) e Barcelona (1992) adotaram plenamente a parceria público-privado: no primeiro, o governo local arcou com metade dos gastos (US$3.5 bilhões), no segundo, com 65% dos mais de cinco bilhões de dólares investido no evento (MCKAY e PLUMB, 2001). Constituem claros exemplos de uso dos J.O. como poderosa alavanca para o desenvolvimento urbano. Ambas as cidades investiram vultosas quantias e implementaram projetos urbanísticos de elevada envergadura, redefinindo centralidades e constituindo verdadeiros marcos na evolução urbana. Ademais, conseguiram projetar mundialmente a imagem destas cidades, proporcionando efeitos multiplicadores a curto e médio prazo: grande aumento do afluxo de turistas, dos investimentos etc., a exemplo de Los Angeles (1984).

Há outras inovações nos J.O. em pauta. Seul e Barcelona promoveram não apenas uma eficiente política de renovação de sua área central. Suas vilas olímpicas também constituem uma novidade em termos de geração de novas moradias: trata-se de uso residencial para classes médias, e não mais destinadas ao uso popular, marca tradicional das vilas olímpicas até então. Mais uma vez, podemos observar a incidência de novas forças macro-estruturais, desta vez típicas do período neoliberal que se instaura, sobretudo com a derrocada do bloco soviético em 1990: o declínio das políticas sociais, em favor dos princípios do mercado. A Vila Olímpica de Barcelona, muito bem equipada e provida de amenidades naturais como a posição litorânea, representa esta mudança evidente na política urbana, de novo crescentemente envolvida com interesses privados. E a cidade procura afirmar ao mundo sua capacidade empresarial.

Conhecida como Jogos Coca Cola (cidade-sede da empresa que é uma das maiores patrocinadoras do COI), e experiência de Atlanta (1996) consolida o modelo de organização dos jogos baseada na parceria público-privado, concentrada no esforço de retomada de desenvolvimento e na estratégia de profunda revitalização urbana[6].  Neste sentido, na decadente área central foi criado um amplo e bem equipado parque (Centennial Olympic Park), fomentador de turismo e convenções. Trata-se de investimento promovido pelas finanças do evento, mas não diretamente relacionado a sua operacionalização, e sim destinado à cidade. Por outro lado, o estádio de beisebol, considerado inútil após os jogos, foi inteiramente demolido, ao mesmo tempo em que o estádio olímpico foi radicalmente reduzido. A vila olímpica, situada em pleno campus do Instituto de Tecnologia da Geórgia, foi erigida em estruturas para serem desmontadas imediatamente após os jogos: uma apologia à efemeridade. Outro expressivo impacto dos J.O. na cidade foi a instalação de 450 mil milhas de cabos de fibra ótica, tornando Atlanta a segunda mais conectada cidade norte-americana, e atraindo empresas de alta tecnologia (MCKAY e PLUMB, 2001).

Em Sydney (2000), os gastos públicos voltaram a consistir no principal aporte financeiro à realização do evento, e sua vila olímpica expressa o maior grau de sofisticação já alcançado na história do olimpismo.  Pressionada pelos militantes do Greenpeace (a maior organização ambientalista do planeta), e seguindo os novos parâmetros delineados pelo COI, a organização do evento primou pela preocupação ecológica. Neste sentido, a vila olímpica constitui um sofisticado bairro litorâneo com energia solar e outras modernas tecnologias relacionadas ao meio ambiente, numa área antes abandonada, utilizada como pasto de animais e depósito de armamentos.  Um grande empreendimento imobiliário, com dois mil imóveis de elevado padrão, muita vendidas antes mesmo da realização do evento (MCKAY e PLUMB, 2001).

Dispersando as instalações esportivas, Atenas (2004) pôs ênfase no sistema viário e de transporte, enfrentando um grande problema local. Sua imensa vila olímpica, contendo 366 edifícios de dois, três e quatro andares (2.292 apartamentos no total), e unidades habitacionais de três a cinco quartos, não deixa dúvida quanto ao elevado perfil sócio-econômico de seus futuros usuários, e já atraindo novos centros comerciais (BURGEL, 2004:81). Ocupando 80 hectares, possui um parque ecológico e completa zona comercial (MCKAY e PLUMB, 2001).

Certamente, os Jogos Pan-americanos não mobilizam as atenções (e os recursos) nesta mesma escala[7]. Todavia, considerando as condições sócio-econômicas das cidades-sede, a maioria pertencente a países periféricos, o impacto de cada evento adquire relativamente maior envergadura. Num cenário urbano de escassez de infra-estrutura básica, um evento desta dimensão pode contribuir para sanar determinados problemas. Mas pode também comprometer as igualmente escassas finanças públicas, e inclusive acirrar o nível de desigualdade social, conforme a distribuição espacial dos investimentos realizados. 

No caso da última edição dos jogos, em Santo Domingo (2003), foram gastos 240 milhões de dólares, oito vezes mais do que o inicialmente previsto, gerando alto endividamento junto ao FMI. A vila olímpica, seguindo à risca o modelo em vigor nos últimos vinte anos, é composta de pequenos edifícios, amplos apartamentos, completa infra-estrutura, voltados para a classe média e alta local. Para melhorar a imagem do entorno, no miserável bairro de Las Flores, a poucos metros da vila, barracos de zinco foram substituídos por outros de madeira, mantendo problemas básicos como a falta de abastecimento de água (ALCÂNTARA et al, 2003).

O Pan-2007, no Rio de Janeiro, parece corresponder a este novo paradigma de planejamento urbano, por refletir basicamente interesses empresariais, envolvendo gastos públicos, e por eleger a intervenção em zonas restritas da cidade, beneficiando, sobretudo áreas nobres (no caso, a Barra da Tijuca). Recusa-se uma abordagem integradora, que busque enfrentar a problemática geral da cidade e que vislumbre a possibilidade do desenvolvimento sócio-espacial, como, por exemplo, ocorreu, ainda que parcialmente, nos Jogos Olímpicos de Barcelona (MASCARENHAS, 2006).

 

Considerações finais

 

A história dos jogos olímpicos da era moderna abriga certamente um capítulo especial da história mais geral do planejamento e das políticas urbanas no século XX. Muitas lições podemos colher desta larga experiência internacional. Sobretudo quando estamos diante da realização de um evento desta mesma natureza em nossa cidade.

Vimos que a experiência acumulada em um século apresenta diversas formas de se modificar uma cidade quando se pretende organizar um evento olímpico. Dependendo do projeto político dos governantes, dos interesses empresarias em jogo e das normas que os regulam, bem como do grau de conscientização e mobilização da sociedade local, o resultado pode ser bastante diferente.

Neste sentido, observamos que as primeiras décadas de jogos olímpicos (J.O.) deixaram poucos vestígios na paisagem urbana, devido ao amadorismo reinante e à incipiência do movimento. Todavia, após a Segunda Grande Guerra Mundial, o olimpismo adquiriu força inédita, atraindo maior interesse e apoio governamental. Iniciava-se um novo período, no qual este grande evento se estruturava incorporando demandas sociais, de habitação, transporte e infra-estrutura em geral.

 Uma questão fundamental em nossa investigação é a verificação da confluência de interesses entre dois campos emergentes no cenário neoliberal contemporâneo: a nova economia do esporte e o novo paradigma de planejamento e gestão das cidades. Tal confluência resulta, por um lado, em profunda mudança na organização das competições olímpicas, tornadas megaeventos de ampla projeção midiática, crucial envolvimento do setor privado e, portanto com capacidade crescente de impacto urbanístico; por outro lado, resulta na incorporação do esporte (enquanto campo portador de sentidos e significados) na veiculação de uma imagem positiva da cidade que organiza tais eventos: imagem de cidade competitiva, disciplinada, saudável, vigorosa e empreendedora, pronta para competir com êxito no atual contexto de “guerra dos lugares”, pela atração de investimentos privados.

Sem dúvida, o planejamento urbano tradicional, modernista, sistêmico-funcional e integrador do ponto de vista físico-territorial (o master plan), vem sendo mundialmente substituído por um novo paradigma de planejamento e gestão das cidades, no contexto internacional de afirmação do neoliberalismo.

 Este novo paradigma, também conhecido por planejamento estratégico, sugere a intervenção urbanística pontual, limitada no tempo e no espaço (os GPDUs - Grandes Projetos de Desenvolvimento Urbano), e se estrutura em aberta parceria com o capital privado, pela via do “empresariamento urbano” (HARVEY, 1992).

A história dos jogos olímpicos da era moderna abriga certamente um capítulo especial da história mais geral do planejamento e das políticas urbanas no século XX. Muitas lições podemos colher desta larga experiência internacional. Sobretudo quando estamos diante da realização de um evento desta mesma natureza em nossa cidade.

 

 



[1] Na primeira olimpíada da era moderna, em Atenas (1896), compareceram apenas 285 atletas, de treze países. Atualmente os jogos atraem mais de dez mil atletas. Nas duas edições seguintes (Paris 1900 e St Louis, 1904), utilizou-se uma estratégia para garantir público expectador mínimo: realizar os jogos no mesmo lugar e momento de eventos bem mais importantes, es exposições universais. Ainda assim, em 1904, na cidade norte-americana de Saint Louis, apenas nove países compareceram aos jogos.

[2] Os jogos anteriores, realizados em Amsterdã, foram os primeiros a contar com expressiva cobertura midiática internacional: emissoras de rádio e jornais. O evento perdera seu conteúdo romântico e amador.

[3] Em 1924, Jogos de Paris, alguns atletas se alojaram em área de barracas, próxima ao estádio olímpico, organizada e servida (correios e atendimento médico, por exemplo) pelo comitê organizador do evento. Até então normalmente os participantes das olimpíadas se alojavam por conta própria, seja na rede hoteleira, seja informalmente em quartos alugados ou cedidos por particulares. Paris não apresentava limitação quantitativa de leitos, de forma que a montagem de barracas respondia não propriamente a uma necessidade logística, mas a uma idealização do Barão de Coubertin, como fundamento ecumênico do olimpismo, acentuado no contexto pós-primeira guerra mundial: reunir pacificamente pessoas de diversas nacionalidades.

[4] Foram investidos três bilhões de dólares, envolvendo construção de novo aeroporto internacional, ampliação do metrô, e formidável conjunto de instalações esportivas.

[5] Com a venda do direito de transmissão televisiva do evento levantou-se quantia inédita.  A rede americana de televisão A.B.C. pagou 325 milhões de dólares pelo direito da transmissão dos jogos com exclusividade.

[6] Segundo Andranovich et al (2001:122), a ausência de instalações esportivas em quantidade e qualidade compatíveis com o evento, além de outros aspectos de infra-estrutura, inviabilizaram a aplicação do modelo integralmente privatista utilizado em Los Angeles, recorrendo-se pois a recursos públicos. 

[7] Para se ter uma noção da diferença de aportes financeiros, enquanto os direitos das Olimpíadas de 2012 foram vendidos à rede americana NBC por 1 bilhão de dólares, os da transmissão do Pan 2003 custaram apenas 4 milhões de dólares à Organização da Televisão Ibero-Americana, que congrega as emissoras latino-americanas.

 

 Referências bibliográficas

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Ponencia presentada en el IX Encuentro Internacional Humboldt. Juiz de Fora, Minas Gerais - Brasil. 17 al 21 de setiembre de 2007.