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Asunto:[encuentrohumboldt] 4/08 - A questão climato-ambiental em cidades médias brasileiras: um estudo de caso em Viçosa/MG
Fecha:Domingo, 17 de Febrero, 2008  19:40:46 (-0300)
Autor:encuentrohumboldt <encuentrohumboldt @..................ar>

a questão climato-ambiental em cidades médias brasileiras:

um estudo de caso em viçosa/mg

 

Vinícius Machado Rocha

(e-mail: viniciusmachadorocha@gmail.com)

 Bacharel e Licenciado em Geografia – UFV

 

Edson Soares Fialho

(e-mail: fialho@ufv.br)

Doutorando em Geografia Física da USP e Professor Assistente I do Curso de Geografia da UFV

 

Introdução

O processo de urbanização, responsável pela transformação da paisagem em função do aumento da concentração populacional em várias regiões do globo terrestre, iniciou-se por volta da primeira revolução industrial, na cidade de Londres, em 1789. A conseqüência foi o êxodo rural, muito em função da incorporação de novas técnicas pelo campo, que promoveu a expulsão da mão de obra excluída, a qual encontrou na cidade o seu refúgio.

Hoje o campo depende da cidade, mas somente em meados do século XX a cidade veio realmente a ganhar significância na medida em que a população das grandes cidades dobrou entre os anos de 1959 e 1975. Na década de 1980, já havia dez megacidades, cujo total populacional excedia os 10 milhões de indivíduos, enquanto na década de 1960 havia somente Nova York, Londres e Tóquio com esse contingente. Nos dias de hoje, segundo os dados das Organizações das Nações Unidas (ONU), existem cerca de 20 megacidades (tabela 1).

 

Tabela 1. As maiores Aglomerações Urbanas do Mundo (milhões de habitantes)

 

       1900

 

1950

 

2000

 

Londres (Reino Unido)

6.5

Nova York

12.3

Tóquio

23

Nova York (EUA)

4.2

Londres

10.3

Cidade do México

22

Paris (França)

3.3

Tóquio

6.8

São Paulo

19

Berlim (Alemanha)

2.4

Xangai (China)

5.8

Nova York

16

Chicago (EUA)

1.7

Paris

5.4

Bombaim,

15.5

Viena (Áustria)

1.6

Chicago

5.0

Xangai

15

Tóquio (Japão)

1.5

Moscou

4.9

Calcutá

15

São Petersburgo (Rússia)

1.4

Buenos Aires (Arg)

4.5

Los Angeles

14

Filadélfia  (EUA)

1.3

Calcutá

4.4

Buenos Aires

13

Manchester (Reino Unido)

1.2

Los Angeles (EUA)

4.0

Seul (Coréia do Sul)

13

Birmingham (Reino Unido)

1.2

Osaka (Japão)

4.0

Pequim

13

Moscou (Rússia)

1.1

Milão (Itália)

3.6

Lagos (Nigéria)

12.8

Pequim (China)

1.0

Cidade do México

3.0

Nova Délhi (Índia)

12.5

Calcutá (Índia)

1.0

Filadélfia

2.9

Rio de Janeiro

12.5

Boston (EUA)

1.0

Rio de Janeiro

2.9

Karachi (Paquistão)

12.5

Fonte: ONU, 1999 (citado por Vesentini, 2000, p. 224).

 

Durante o século XX, verificou-se intensa urbanização e forte crescimento das cidades, no entanto, o ritmo foi diferenciado. Até 1950, os países do primeiro mundo apresentaram um grande crescimento de suas cidades, fato esse não mais observado atualmente, quando o ritmo de crescimento é mais acelerado nos países subdesenvolvidos que, diferentemente dos países desenvolvidos, não acompanham o ritmo de industrialização e geração de empregos.

Segundo os dados do Relatório do Desenvolvimento Humano, publicado pela ONU, a população que residia nas cidades não alcançava os 2%; em 1960 este número chegou aos 34% e 44% em 1992. Atualmente este número é de 50%, podendo chegar, segundo projeções realizadas pela própria ONU, a 61% em 2025.

No caso do Brasil, especificamente, o processo de concentração urbana iniciou-se na década de 1940 quando começou a ocorrer uma inversão quanto ao local de residência dos brasileiros, saindo da zona rural em direção às cidades. Tanto assim, que em menos de duzentos anos a população brasileira tornou-se predominantemente urbana: em 1872 representava apenas 5,9% do total, e em 2001, 85,2% (SANTOS, 1998).

As fortes mudanças na paisagem produziram novas configurações territoriais e fluxos capazes de aumentar a área de influência do fenômeno urbano, assim como a da abrangência de seus resíduos. Surgem os problemas hídricos e atmosféricos. Este último capaz de produzir modificações na composição do ar nas cidades que o diferem do campo.

Apesar dessas diferenciações serem percebidas, segundo Andrade (2005, p. 80), os fatores e elementos do clima como um todo, embora tenham influência no conforto térmico, raramente exercem um papel decisivo no planejamento urbano das cidades brasileiras que, como visto, apresentaram um crescimento intenso após a segunda metade do século XX, resultando no aumento da área impermeabilizada e edificada, e na redução das áreas verdes, logo, consumindo ainda mais calor.

 

PERTINÊNCIA DO TEMA

A intensificação das atividades humanas e o aumento da circulação de veículos automotores, agentes importantes para o adensamento de partículas em suspensão na atmosfera, principalmente sob condições sinóticas de inverno onde há certa estabilidade do tempo decorrente da ação da massa polar atlântica (MPA), podem contribuir para que os índices de doenças respiratórias sejam elevados (ARTAXO, 1991).

Logo, tais modificações na superfície da cidade foram mensuradas para efeito de quantificar as diferenças entre o campo e o urbano, quanto ao balanço hídrico e energético do clima nesse ambiente, como pode ser visto nas informações levantadas por Landsberg (1981, p. 258), contidas na tabela 2, a seguir. Entretanto, cabe salientar que estes dados são referentes às cidades dos países ricos, ou seja, com um outro ritmo de crescimento, profundamente divergente dos países em desenvolvimento. No caso do Brasil, por exemplo, a industrialização se deu tardiamente, com base na importação de tecnologia e maquinário dos países desenvolvidos e, ainda, em grande parte poupadora de mão-de-obra qualificada.

Tabela 2. Alterações Climáticas produzidas pelas Cidades

 

Elementos

Comparação com o

Meio Rural

Contaminantes

10 vezes mais

Partículas

10 vezes mais

Radiação Total

0-20% menos

Ultravioleta – inverno

30% menos

Ultravioleta – verão

5% menos

Nebulosidade

5-10% mais

Nevoeiro – inverno

100% mais

Nevoeiro – verão

30% mais

Precipitação

5-15% mais

Tormentas (temporal)

10-15% mais

Temperatura Média anual

0.5-10ºC mais

Temperatura Mínima de inverno

1-2ºC mais

Temperatura Máxima de verão

1-3ºC mais

Umidade Relativa  do ar (média anual)

6% menos

Umidade Relativa  do ar (inverno)

2% menos

Umidade Relativa  do ar (verão)

8% menos

Velocidade do vento (média anual)

20-30% menos

Velocidade do vento (vento máximo)

10-20% menos

Calmaria

5-20% mais

 

Fonte: Landsberg, (1981, p. 258).

 

Segundo Vesentini (2000, p. 117), no Brasil e em outros países de industrialização tardia, a tecnologia importada agravou problemas de desemprego e subemprego. Essa mão-de-obra, por sua vez, migrou para o setor terciário, onde atua com pouco capital.

Mediante ao incremento populacional nas cidades a questão ecológica é colocada na ordem do dia, exigindo posicionamentos, uma vez que a sociedade humana atingiu incríveis graus de complexidade e que aos velhos dilemas históricos se somaram novos dilemas resultantes da forma como vem se processando a relação entre natureza e sociedade (SEABRA, 1991, p. 15).

Os atributos e elementos climáticos (temperatura do ar, precipitação, nebulosidade, direção e intensidade do vento, pressão atmosférica, dentre outros) que antes eram regidos pelos controles climáticos ou fatores geográficos naturais, passaram a ser alterados pelas novas formas de uso e ocupação do solo e pelos materiais utilizados pelo homem no espaço (FIALHO; IMBROISI, 2005, p. 5170), principalmente nas cidades de grande porte.

Entretanto, essa situação cada vez mais se faz presente em cidades de médio porte, que segundo Mendonça (apud LAMBERTS et al., 2006, p. 3), “começaram a apresentar, a partir da década de 1980, um crescimento urbano muito intenso, superior inclusive ao das cidades de maior porte (taxas de crescimento urbano de 4,8% e 1,3% respectivamente)”.

O efeito denunciador da alteração climática em escala local, causada pelas estruturas urbanas, é o aumento da temperatura nos centros mais densos, configurando o fenômeno que se convencionou denominar ilha de calor.

Dessa forma, Santos (apud CORRÊA, 2005, p. 4) afirma que “o crescimento urbano propicia o surgimento de um meio geográfico artificial, que desenvolve um quadro de vida, onde as condições ambientais são ultrajadas, com agravo à saúde física e mental da população urbana”.

A partir do exposto por Santos (op. cit), criou-se um cenário ao nível mundial à discussão sobre a necessidade de se pensar formas de desenvolvimento capazes de promover uma melhora na qualidade de vida, que se materializa com a Rio-92.

Nesse sentido, segundo Fialho (2002, p. 4), ocorre uma reaproximação aos elementos naturais e, como conseqüência, percebe-se uma crescente importância que se concede ao clima nos estudos ambientais urbanos, considerando-o um dos componentes de sua qualidade ambiental nas cidades.

A constatação da perda da qualidade de vida urbana, das afinidades de problemas decorrentes da ação não planejada do ser humano sobre a paisagem e do crescimento acelerado das cidades, despertaram o interesse em diversos pesquisadores de estudar o clima das cidades através de um subsistema elaborado por Monteiro (1976) para que melhor se possa compreender a relação entre os agentes naturais e antrópicos no âmbito do campo termohigrométrico.

Com isso, os estudos de climatologia urbana, de modo especial em regiões tropicais, como no Brasil, tornaram-se essenciais na compreensão dos problemas ambientais resultantes da urbanização. Além disso, os resultados obtidos por tais estudos podem auxiliar no planejamento urbano ao englobar soluções que contemplem índices adequados de uso e ocupação do solo e a preservação ou reconstituição de áreas verdes e demais recursos naturais.

Desse modo, os estudos sobre clima urbano em cidades de médio porte merecem especial atenção, já que os dados obtidos poderiam auxiliar no planejamento ambiental e urbano, pois, o ritmo de crescimento nesses locais ainda é mais elevado nas últimas décadas, diferente das grandes cidades, que apresentam urbanização praticamente consolidada.

Nesse contexto, esta pesquisa teve o intuito de revelar se no município de Viçosa/MG existem indícios para a formação de ilhas de calor urbana através da relação entre os tipos de usos do solo e o microclima.

 

METODOLOGIA

Na tentativa de se aplicar à concepção teórica do Sistema Clima Urbano (SCU), desenvolvido por Monteiro (1976), e alcançar os objetivos propostos, a pesquisa percorreu alguma etapas. A primeira refere-se à análise temporal dos dados da estação climatológica de Viçosa, operada pelo Departamento de Engenharia Agrícola (DEA) da UFV, no período de 1970 a 2005, com intuito de retratar a evolução da temperatura média do ar e o comportamento termo-pluviométrico do município, enquadrando-o, climaticamente, no âmbito da Zona da Mata Mineira. Com esses dados foi elaborado um gráfico de tendência no software Excel v. 5, onde se construiu uma média móvel de quatro anos, com objetivo de suavizar as discrepâncias anuais e servir de subsídio para a verificação, ou não, do incremento da temperatura do ar na cidade.

Adotou-se a técnica dos transetos móveis[1][1] para mensurar a temperatura e a umidade relativa do ar, no intuito de correlacionar esses elementos climáticos de acordo com os diferentes tipos de usos do solo identificados ao longo do trajeto estabelecido, que se iniciou na Mata do Paraíso, passou pela UFV e a área central da cidade e terminou no bairro Novo Silvestre. O transeto determinado compreendeu dezenove pontos de amostragem e uma distância de 15 km (figura 1 e tabela 3).

 

 

Figura 1: Localização dos pontos móveis ao longo do transeto Mata do Paraíso – Novo Silvestre

Elaborado por Vinicius Machado Rocha, 2007.

Fonte: Departamento de Solos – UFV.

 

 

Tabela 3: Uso e Ocupação do Solo ao longo do transeto

 Mata do Paraíso – Novo Silvestre

 

Pontos de Mensuração

Distância (km)

Altimetria (m)

Uso do Solo

 

1. Represa da Mata do Paraíso

 

0,0

 

730

Área com atividade pecuária; casas unifamiliares;

2. Portão da Mata do Paraíso

0,3

711

apresentam os

 

3. Escola Municipal Almiro Paraíso

 

1,0

 

684

maiores resquícios de

fragmentos de mata.

4. Acamari 52

3,0

677

atlântica de Viçosa

5. Laboratório de Papel e Celulose do DEF/UFV

4,0

665

Áreas esparsas, com; prédios de até

6. Dept. de Engenharia Agrícola - UFV

5,0

652

5,andares; fluxo

7. Centro de Ciências Exatas - UFV

6,0

652

moderado de veículos

8. Centro de Vivência – UFV

6,7

653

área de lazer nos finais

9. Quatro Pilastras – UFV

7,0

649

de semana.

10. Restaurante Charm

7,4

649

Área densamente povoada; intenso fluxo de veículos e pessoas;

11. Praça Silviano Brandão

8,0

648

ausência de áreas verdes,

12. Balaustre

8,3

648

exceto na praça

13. Posto Caçula

9,0

658

Silviano Brandão;

co-existência de uso

14. Acesso Alternativo à UFV

10,0

698

residencial e comercial.

 

15. Posto Millenium

 

11,0

 

688

Áreas adjacentes ao centro; apresentam forte indução de

 

16. Cabana Roda

 

11,6

 

692

expansão do núcleo urbano

17. Univiçosa

12,0

674

intercalado com

18. Apae Rural

14,0

664

áreas de atividades

19. Bairro Novo Silvestre

15,0

659

rurais

 

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

A escolha de tal percurso considerou os eixos de expansão da malha urbana, que se estende no sentido sudoeste-nordeste. Quanto à definição dos pontos de registros, os critérios se respaldaram nas características peculiares de cada local, principalmente, quanto ao uso e ocupação do solo e a dinâmica das atividades humanas ao longo do dia.

Com relação aos experimentos de campo, as mensurações realizaram-se nos dias 23/11/2006, 24/11/2006, 27/11/2006, 06/12/2006 e 19/12/2006, todos em situações sazonais de primavera, em três horários: 06:00h, 13:00h e 20:00h.

As medidas móveis efetuaram-se por meio de um sensor digital de leitura direta da temperatura e umidade relativa do ar (TEMPEC) montado no interior de um tubo de PVC revestido por papel alumínio, a fim de protegê-lo das incidências da radiação solar de ondas curtas e longas e permitir uma maior circulação em seu interior.

O aparelho encontrou-se acoplado ao lado direito de um veículo, no sentido transversal ao mesmo, a uma altura de aproximadamente 1,5m do chão, seguindo as recomendações adotadas pelas estações climatológicas. O percurso foi realizado em aproximadamente 45 minutos com velocidade média do veículo em torno de 50Km-h.

Com o objetivo de discriminar os locais de maior aquecimento diurno e perda radiativa noturna calcularam-se as taxas de aquecimento e resfriamento. A taxa de aquecimento foi obtida pela subtração da segunda medida pela primeira, dividido pelo intervalo de horas, no caso sete. Já para a taxa de resfriamento subtraiu-se o segundo pelo terceiro horário e dividiu-se novamente por sete o resultado.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os dados da estação climatológica de Viçosa, como são possíveis de se identificar pela figura 2, comprovam que o município, no período entre 1970 e 2005, apresentou um aumento significativo nos valores referentes à temperatura do ar.

 

Figura 2: Evolução da Temperatura Média do Ar na

Estação Climatológica de Viçosa-MG entre 1970 e 2005.

Fonte: Estação Climatológica de Viçosa, Departamento de Engenharia Agrícola – UFV.

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

Em termos gerais, a média das grandezas manteve-se entorno dos 19,9ºC. Na década de 1970 esse valor era de 19,4ºC. Também é importante mencionar sobre a população. Em 1970, segundo o IBGE (2005), 17.000 indivíduos fixavam-se na zona urbana e 8.784 na zona rural. Na década seguinte, o número de habitantes do perímetro urbano quase que dobrou, passando a 31.143, e na zona rural diminuiu para 7.512, num total de 38.655 habitantes em 1980 (IBGE, 2005). A média da temperatura, nesse intervalo, foi cerca de 0,3ºC superior à de 1970 e 0,2ºC inferior à dos 35 anos de mensurações.

A década de 1990 representa o momento em que a temperatura média do episódio é sobreposta, com registros entorno dos 20,0ºC. A população continuava a crescer, tanto que superou os 50.000 habitantes em 1990, dos quais 46.456 residiam na zona urbana e 5.202 na zona rural (IBGE, 2005).

Nos cinco primeiros anos da atual década, a média das temperaturas já alcança os 20,8ºC, superior em 1,4ºC à dos anos 70 e 0,9ºC à do período de coletas. Quanto à população, sua estimativa em 2000 era de 64.854 habitantes, sendo que 59.792 estabeleciam-se na cidade e 5.062 no campo (IBGE, 2000). Nota-se que o aumento da temperatura coincide, notadamente, com o crescimento populacional da cidade, como ocorrera com o município de Juiz de Fora, conforme verificado por Martins e Fialho (2002), quando da análise da série histórica compreendida entre 1915 e 2000.

Porém, diferentemente de Juiz de Fora, a estação climatológica de Viçosa, ao contrário de muitas outras estações brasileiras, localiza-se fora do centro urbano, mais precisamente no campus da UFV, que impediu o avanço da malha urbana em direção a estação. No entanto, mesmo assim, se constata na figura 2, um crescimento contínuo da temperatura do ar. Então se pergunta. Qual seria a razão?

É importante ressaltar que com essa base de dados, mesmo sendo de um período correspondente a 35 anos, não há como afirmar com segurança que a causa do aumento da temperatura na cidade seja conseqüência direta e exclusiva do processo de urbanização, embora o presente estudo se proponha a investigar indícios de um clima urbano comprometido.

A resposta poderia estar associada aos ciclos globais, ou seja, aos ritmos naturais de aquecimento (interglaciação) e resfriamento (glaciação) ao longo das eras geológicas, conforme afirma Ayoade (2006, p. 215). Ou seja, o acréscimo da temperatura do ar em Viçosa pode estar associado aos ciclos naturais da Terra, que atualmente é o interglacial, período a qual o aquecimento natural do planeta vigora. Tal fato por sua vez, pode agravar o desconforto térmico nas escalas inferiores, ao nível da cidade, podendo ampliar as diferenças térmicas entre o campo e a cidade.

 

Análise dos experimentos de campo em situação sazonal de primavera

Após a constatação de tendência de aquecimento para a estação de Viçosa, procurou-se investigar as diferenças térmicas e hígricas para a área urbana e rural do município.

Nesse sentido, podem-se verificar de maneira geral, que a estação da primavera não propiciou muitas condições de tempo ideal para a mensuração de campo, uma vez que as mudanças de tempo foram freqüentes, tanto assim que alguns experimentos de campo foram cancelados após o primeiro ou segundo horário por conta da chuva, que mesmo sendo convectiva muitas vezes era concentrada em algum setor da cidade, não afetando todo o percurso pré-estabelecido para mensuração. Tal situação poderia criar uma condição superestimada entre os pontos de medida localizados nas distintas áreas (rural e urbana). Por conta disso, decidiu-se não utilizá-las, ficando apenas com cinco experimentos para análise, que embora aproveitados, cabe destacar, durante todos os episódios de campo apresentaram grande variabilidade de tempo ao longo do dia, registrado pela nebulosidade, que oscilou entre 3/8 até 8/8.

Quanto à condição sinótica dos dias de experimento, estas foram muito semelhantes, com predomínio da Massa Polar Atlântica, porém com forte variação da nebulosidade. Isso se deve ao fato da grande ocorrência das Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que propiciaram um mês de novembro e dezembro de 2006 (ano de El Niño) com muitas chuvas para o Estado de Minas Gerais, que registrou mais de 120 casos de cidades em estado de emergência.

Em relação às diferenças termais, pode-se constatar que o local de menor temperatura ao longo de todos os horários dos 5 experimentos de campo foi a Mata do Paraíso. O Centro da cidade, entre os pontos 10 e 14 demonstraram as maiores temperaturas durante à tarde e à noite, assim como as maiores taxas de aquecimento e as menores taxas de resfriamento em quase todos os dias de realização dos experimentos de campo (tabela 4), caracterizando-se, desse modo, a região mais quente da cidade, tanto à tarde quanto à noite.

 

Tabela 4: Taxas de Aquecimento e Resfriamento ao longo dos Dias do Estudo.

Taxas de Aquecimento (Txa) e Resfriamento (Txr) – (ºC)

PONTOS

23/11/2006

24/11/2006

27/11/2006

06/12/2006

19/12/2006

Txa

Txr

Txa

Txr

Txa

Txr

Txa

Txr

Txa

Txr

1

1,1

0,9

1,2

0,6

0,7

0,5

1,3

0,4

1,1

0,8

2

1,2

1

1,3

0,7

0,8

0,3

1,5

0,7

1

0,6

3

1,5

1,1

1

0,6

0,8

0,4

1,6

0,6

1,2

0,6

4

1,6

1,2

1,4

0,9

0,7

0,4

1,7

0,7

1,2

0,5

5

1,6

1,2

1,5

0,9

1

0,6

1,6

0,8

1,1

0,5

6

1,6

1,2

1,5

1

1

0,6

1,8

0,9

1,1

0,6

7

1,6

1,2

1,6

1

1

0,6

1,8

0,9

1

0,5

8

1,6

1,2

1,6

0,9

0,9

0,5

1,6

0,7

1

0,4

9

1,5

1,3

1,4

0,8

0,8

0,4

1,5

0,7

1

0,4

10

1,5

1

1,8

1,1

0,9

0,3

1,7

0,7

1,2

0,5

11

1,5

1

1,5

0,7

1

0,4

1,7

0,8

1,1

0,4

12

1,1

1

1,9

0,9

0,8

0,3

1,7

0,7

1

0,4

13

1,6

1,2

1,9

1,2

0,9

0,4

1,6

0,6

1

0,4

14

1,2

0,9

1,7

1

0,7

0,3

1,3

0,4

1,2

0,7

15

1,5

1,2

1,6

1

0,9

0,4

1,7

0,8

1,2

0,6

16

1,4

1,1

1,4

0,8

0,8

0,3

1,6

0,7

1,2

0,6

17

1,5

1,2

1,6

1,1

0,7

0,3

1,6

0,7

1,2

0,6

18

1,2

1

1,3

0,9

0,7

0,5

1,5

0,8

1,1

0,7

19

1,2

1

1,3

1

0,9

0,7

1,4

0,8

1

0,8

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

Embora o percurso do transeto abarque duas bacias hidrográficas com orientações distintas em relação ao sol, cabe destacar que até o ponto 14 todos os pontos de medida encontram-se dentro do vale do rio São Bartolomeu. Nesse sentido, pode-se dizer que a energia acumulada ao longo do vale, onde se localizam a área central de Viçosa (área densamente urbanizada) e o campus da UFV (com prédios mais espaçados e predomínio de gramíneas e pastos degradados), com tipos se usos do solo distinto, revelou ritmos diferenciados de aquecimento e resfriamento. Pode-se verificar que a UFV dissipa mais rapidamente a energia acumulada ao longo do dia do que o Centro da cidade, na mesma altitude, com uma diferença média ao longo dos experimentos de 0,3ºC-h.

Tal valor permitiu que a discrepância entre os pontos de medida localizados na UFV em relação ao Centro fosse de 2ºC, no dia 27/11/2006, às 20 horas.

Pela manhã (figura 3), os menores registros aconteceram na Mata do Paraíso e na UFV. Com temperaturas mais elevadas destacaram-se o Centro e, principalmente, os pontos localizados na Av. Castelo Branco e na BR-120, trecho final do trajeto.

 

Figura 3: Transeto da Temperatura do Ar entre a

Mata do Paraíso e Novo Silvestre às 6 horas

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

No segundo horário das mensurações (figura 4), assim como no período noturno, a região central da cidade apresentou os núcleos de calor mais intensos. A Mata do Paraíso e o campus da UFV revelaram as menores temperaturas. Por outro lado, o fragmento final do transeto demonstrou ser a região mais propicia à dispersão de energia, sobretudo ao decorrer da noite. O núcleo de calor se deslocou para a porção central da cidade, mais precisamente para o ponto 11 (Praça Silviano Brandão), com 6ºC de intensidade, persistindo nessa região também durante a noite (20 horas), com 3,3ºC.

 

Figura 4: Transeto da Temperatura do Ar entre a

Mata do paraíso e Novo Silvestre às 13 horas

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

Durante o terceiro horário, verifica-se uma variação térmica que denuncia a menor perda de energia acumulada durante o dia pela parte central da cidade, como pode ser visto na figura 5, onde se identifica entre os pontos 9 e 14, localizados na área central, as maiores intensidades de ilhas de calor, com valores superiores a 3ºC, chegando a 3;6º na praça Silviano Brandão.

A pesquisa também diagnosticou que em noites de céu claro e ventos calmos o núcleo de calor sobre o centro da cidade foi maior em relação às noites nubladas.

Durante os dias 23 e 24/11/2006, por exemplo, quando se conseguiu fazer os registros dos elementos do clima ao longo de 24 horas, pôde-se constatar tal afirmativa.

No dia 23/11 o tempo estava ainda muito nublado, visto que a chuva perdurava já há três dias em Viçosa; já no dia 24/11 o tempo estava melhor, com céu mais aberto durante o dia e clareando de vez à noite, quando se podia ver a lua. No dia 23/11 a noite estava nublada, mas mesmo assim o centro ficou mais aquecido que o entorno, com uma intensidade de 2,3ºC, e o mesmo se repetiu para o dia 27/11/2006, quando numa situação de tempo nublado o núcleo de calor não ultrapassou a 2,7ºC.

Figura 5: Transeto da Temperatura do Ar entre a

Mata do paraíso e Novo Silvestre às 20 horas

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

Na manhã do dia 24/11 o núcleo de calor se deslocara, como fora constatado ao longo dos experimentos, para a região de Novo Silvestre, com temperaturas superiores a 1ºC em relação ao Centro e 2ºC em relação à Mata do Paraíso.

Quanto à umidade relativa do ar, geralmente nos pontos com maiores picos de temperatura, o resultado encontrado foi pouco expressivo. A Mata do Paraíso se despontou como a região dos maiores registros durante quase todos os horários dos experimentos de campo. Nas noites dos dias 24/11/2006 e 19/12/2006, a umidade relativa do ar na Mata foi cerca de 4,66% e 0,8%, respectivamente, superior aos registros da área central da cidade.

 

CONCLUSÕES

O processo de urbanização no município de Viçosa-MG está interferindo no balanço energético da cidade. As taxas de resfriamento na UFV devem-se, principalmente, à mudança no tipo de uso do solo, como pode ser verificado ao longo das mensurações realizadas por meio do transeto móvel e das análises das taxas de resfriamento.

Apesar da área central de Viçosa-MG estar em um vale de orientação distinta dos demais pontos da periferia da área urbana, tal afirmação da mudança do balanço de energia se pauta na comparação entre pontos de observação ao longo do eixo do vale do rio São Bartolomeu, onde se podem comparar os pontos de coleta no campus da UFV com os da área central da cidade. Durante três dias (23/11/2006, 27/11/2006 e 06/12/2006), o resfriamento inferior do Centro da cidade em relação ao campus universitário demonstrou dificuldades em dissipar a energia que acumula ao longo do dia, fato este agravado em função, sobretudo, do processo de urbanização e do ritmo das atividades humanas que se expressam no local.

De tal forma, conclui-se que, em Viçosa existem indícios para a formação de ilhas de calor urbana, principalmente no que tange à área central da cidade.

Durante os experimentos de campo foi possível identificar certo padrão na disposição da temperatura do ar ao longo do transeto, como se visualiza a seguir na figura 6.

 

Figura 6: Padrão da Disposição da Temperatura do Ar

ao longo do Transeto Mata do Paraíso-Novo Silvestre

Elaborado por Vinícius Machado Rocha, 2007.

 

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[1][1] Segundo Schimidt (apud Fialho, 2002, p. 8), “a técnica dos transetos móveis tem como objetivo ampliar os pontos de observação dentro da cidade e, assim, melhor verificar as alterações intra-urbanas”.


Ponencia presentada en el IX Encuentro Internacional Humboldt. Juiz de Fora, Minas Gerais - Brasil. 17 al 21 de setiembre de 2007.