Inicio > Mis eListas > encuentrohumboldt > Mensajes

 Índice de Mensajes 
 Mensajes 2175 al 2194 
AsuntoAutor
148/07 - PRINCÍPIO Encuentr
150/07 - CD IX ENC Encuentr
149/07 - POLÍTICA Encuentr
151/07 - A TRAJETÓ Encuentr
152/07 - NEOLIBERA Encuentr
153/07 - UM MÊS DO Encuentr
154/07 - Estratégi Encuentr
153/07 - UM MÊS DO Encuentr
155/07 - 10mo ENCU Encuentr
156/07 - CD 9no EN Encuentr
Fw: 153/07 - UM MÊ Encuentr
157/07 - ÁGUA DOCE Encuentr
158/07 - As repres Encuentr
159/07 - CD 9no EN Encuentr
160/07 - Políticas Encuentr
161/07 - A GEOGRAF Encuentr
La Muestra en núme Patricia
162/07 - Regalías Encuentr
163/07 - As políti Encuentr
164/07 - PLANEJAME Encuentr
 << 20 ant. | 20 sig. >>
 
ENCUENTRO HUMBOLDT
Página principal    Mensajes | Enviar Mensaje | Ficheros | Datos | Encuestas | Eventos | Mis Preferencias

Mostrando mensaje 2226     < Anterior | Siguiente >
Responder a este mensaje
Asunto:[encuentrohumboldt] 148/07 - PRINCÍPIOS AUTONOMISTAS EM UMA INTEGRAÇÃO REGIONALISTA INTERESTADUAL POR MEIO DE MOVIMENTOS CULTU RAIS: A FORMAÇÃO DE UMA MICRORREGIÃO CAXAMBUZEIRA ENTRE O NOROESTE FLUMINENSE E O NORTE DA ZONA DA MATA MI NEIRA
Fecha:Viernes, 5 de Octubre, 2007  15:49:37 (-0300)
Autor:Encuentro Humboldt <encuentrohumboldt @..................ar>

PRINCÍPIOS AUTONOMISTAS EM UMA INTEGRAÇÃO REGIONALISTA INTERESTADUAL POR MEIO DE MOVIMENTOS CULTURAIS: A FORMAÇÃO DE UMA MICRORREGIÃO CAXAMBUZEIRA ENTRE O NOROESTE FLUMINENSE E O NORTE DA ZONA DA MATA MINEIRA

Msc. Leonardo de Oliveira Carneiro[1][1]

INTRODUÇÃO

A sobreposição ou justaposição de territórios tem sido tratada por alguns autores como Haesbaert (2005) e Souza (1995), que cunham conceitos como multiterritorialidades ou territórios cíclicos, justapostos ou em rede. As estruturas de poder públicas e privadas se entrelaçam e se sobrepõem criando uma multiplicidade de instrumentos de uso, dominação e controle sobre o território.

O que ora nos interessa realçar são aspectos similares aos acima relatados ocorridos na abordagem regional, por meio da análise da formação de uma região cultural do caxambu entre o Noroeste Fluminense e o norte da Zona da Mata Mineira, objetivando entender como uma contra-estrutura cultural subalterna parece regionalizar sua existência, sobrepondo, justapondo e desafiando o sucesso e o insucesso de políticas de integração regional interestaduais em uso pelo Estado.

Nesse sentido, poderíamos também utilizar a noção de regionalismo presente em Haesbaert (2005) ou Gomes (1995), que marca a presença de elementos autoconstitucionais e identitários, como defende Haesbaert (1997) ao descrever as redes regionais de gaúchos no Nordeste brasileiro.

O princípio da autonomia nos é aqui emprestado de Souza (1995; 2006) para definir o direito e as ações das sociedades no mecanismo de tomada de decisões e na implementação de políticas territoriais. Observamos que os movimentos culturais ora estudados têm galgado na direção da luta da alteridade e da demarcação de seus territórios, utilizando como ferramentas a mobilização e a integração regional. Tais ações políticas subalternas colocam em xeque algumas ações políticas de Estado. Ressaltamos, contudo, que, longe de atingirem amplos processos políticos autônomos, os grupos culturais estudados implementam em aspectos particulares e parciais eficientes estratégias de luta por seus direitos.

Admitindo uma variável ao modelo que concebe a classificação de regiões como um instrumento de administração do poder estabelecido, de análises sobre polarizações econômicas ou homogeneidades ambientais, abordamos aqui uma concepção aberta de região e inversa ao processo autocrático ou burocrático. Denominamos a esse outro processo “princípios autonomistas para uma integração regional” e marcamos, como sugere Haesbaert (2005), o regionalismo como uma reação às imposições do meio técnico-científico-informacional e às perspectivas políticas neoliberais, ou, como propõe Gomes, a valorização da dimensão regional como o espaço vivido:

Nesse sentido, a região existe como um quadro de referência na consciência das sociedades; o espaço ganha uma espessura, ou seja, ele é uma teia de significações de experiências, isto é, a região define um código social comum que tem uma base territorial. Novamente, a região passa a ser vista como um produto real, construído dentro de um quadro de solidariedade territorial. Refuta-se, assim, a regionalização e a análise regional como classificação a partir de critérios externos à vida regional. Para compreender a região é preciso viver a região (GOMES, 1995, p. 67).

Distinguimos, então, a noção endógena de região que ora adotamos. Para melhor defender nossa proposta, faz-se necessário esclarecer nosso objeto de estudo: a Microrregião Caxambuzeira.  Esclarecemos, ainda, que os fatos aqui relatados são fruto do acompanhamento durante cinco anos dos movimentos de caxambu em Carangola e região, a partir de projetos de pesquisa e extensão elaborados pelo Curso de Geografia da Universidade do Estado de Minas Gerais – Campus Carangola.

1                    CULTURA DO CAXAMBU

O caxambu – também conhecido como jongo ou dança de umbigada – é um evento festivo de origem rural, que data da época da escravidão. Foi introduzido no Brasil, nos estados de produção cafeeira dos séculos XVIII e XIX – Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo –, por escravos bantos (Congo-Angola), sendo considerado o avô do samba. A cultura do caxambu é oriunda das relações de sociabilidade que os escravos estabeleceram, principalmente, nas fazendas de café e cana-de-açúcar. O nome ‘caxambu’ é também de origem banta e é como se denominam os tambores utilizados na festa. A cultura do caxambu é um dos ícones da cultura afro-brasileira da região Sudeste, sendo constituída de dança, cânticos, batuques e práticas de magia. Seus participantes são, na maioria, membros de casas de religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé.

Como quase toda cultura popular, o caxambu passou por processos de desagregação e desprestígio durante a segunda metade do século XX, o que levou ao seu extermínio em vários municípios. Ciente de seu risco de extinção, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) inscreveu o caxambu no Livro das Formas de Expressão em 2005 e estabeleceu políticas de salvaguarda ao patrimônio imaterial ‘tombado’.

Muito antes da política nacional de proteção ao patrimônio do caxambu, duas ocorrências devem ser evidenciadas para a abordagem da resistência dessa cultura:

Ø       ações implementadas pelo professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Santo Antônio de Pádua, Hélio Machado de Castro, idealizador dos Encontros de Jongueiros;

Ø       a conseqüente formação da Rede de Memória do Jongo e do Caxambu.

Os Encontros de Jongueiros têm ocorrido anualmente há doze anos em diferentes municípios. Além da festa com a participação de todos os grupos integrantes, os Encontros têm como objetivo debater, registrar e mostrar aspectos distintos da cultura para a comunidade jongueira e agregados. Nos últimos anos, houve o patrocínio de empresas privadas e assistiu-se a uma capitalização dos recursos obtidos e do material de registro. Particularidades à parte, os Encontros têm ajudado a consolidar a cultura do caxambu e integrado participantes de quinze municípios dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

A Rede de Memória do Jongo e do Caxambu, aliada à ONG Brasil Mestiço, ao Centro de Folclore e Cultura Popular do Museu do Folclore do Rio de Janeiro e à Universidade Federal Fluminense, tem articulado reuniões mensais com os líderes dos grupos, elaborado estratégias e tomado decisões sobre diferentes ações que dizem respeito às políticas e aos encontros da comunidade jongueira nacional. Alguns embates começam a emergir, como a reivindicação do tradicionalismo pelos grupos mais antigos da Rede ou pelos grupos existentes em comunidades quilombolas. Nesse panorama, a entrada de novos grupos à Rede tem sido debatida e controlada, acarretando, por vezes, discordância ou insatisfação. No que se refere aos grupos do Noroeste Fluminense e norte da Zona da Mata Mineira, têm-se fortalecido os laços regionais como forma de afirmação dentro da rede nacional, articulando, ainda, encontros regionais, apoio recíproco e posicionamentos políticos integrados.

As ações dos grupos de caxambu devidamente articulados têm favorecido a sensibilização de secretarias municipais e estaduais de cultura e turismo e alguns agentes privados que passaram a apoiar, ainda que esporadicamente, as manifestações e os encontros. Alguns grupos – como o Jongo da Serrinha – montaram projetos sociais bem-sucedidos, apresentaram espetáculos teatrais em diversas cidades e começam a participar da indústria cultural por meio de filmes e programas de televisão. Em alguns municípios, universidades têm prestado apoio às atividades dos grupos que passam a participar da cena acadêmica dessas localidades. Leis federais, como a de nº 10.639/2003, demandaram conhecimentos sobre a cultura afro-brasileira e intelectuais se debruçam sobre o assunto. A mídia, ora encorajada pelos patrocínios, ora imbuída do espírito cultural afro-brasileiro, costuma destacar as apresentações locais. A subalternidade da cultura do caxambu parece ganhar a cena em algumas circunstâncias. O mosaico de situações que desarticulam as bases formadoras das regiões demarcadas pelo Estado parece, por outro lado, permitir a articulação cultural-regional, como objetivamos demonstrar a seguir.

2                    IDENTIDADE NEGRA E (DES) ARTICULAÇÃO REGIONAL

Eu já plantei café de meia!

Eu já plantei canaviá!

Café de meia num dá lucro, sinhá moça,

Canaviá, cachaça dá! (jongo de domínio público)

Interessa-nos delinear a identidade e a (des) articulação regional existente em parte das regiões Noroeste Fluminense (RJ) e norte da Zona da Mata Mineira (MG). Ambas as regiões encontram-se contigüamente sob a forma de relevo de mares de morro sendo cortados pelos vales dos rios Carangola e Muriaé, pertencentes à baixa bacia do rio Paraíba do Sul, com altitudes que variam de duzentos a quinhentos metros, em uma extensão longitudinal de aproximadamente cem quilômetros. A cultura cafeeira atingiu esses vales, fruto da expansão dos plantios nas áreas do baixo curso do rio Paraíba do Sul, a partir do início do século XIX, rumo às terras cada vez mais elevadas em direção ao maciço do Caparaó. O modo de produção não divergia do das demais regiões cafeeiras: grandes propriedades, monocultura e mão-de-obra escrava, constituída de negros provenientes da região africana do Congo-Angola. As técnicas de plantio, a declividade dos terrenos e os altos índices pluviométricos levariam ao desgaste dos solos e à decadência dos índices de produtividade, fazendo com que esses cultivos fossem sendo gradativamente substituídos pela pecuária de baixa rentabilidade durante o século XX.

No final do século XIX, a Leopoldina Railway chega a essa região, estendendo-se a partir da cidade de Campos dos Goytacazes (RJ) até Santo Antônio de Pádua (RJ), Itaperuna (RJ), Porciúncula (RJ), Carangola (MG), Caparaó (MG) e Manhuaçu (MG), dentre diversos outros municípios. Tal rota de expansão, para o norte da Zona da Mata Mineira, diverge da rota existente no sul dessa região, que teve como origem a cidade de Juiz de Fora (MG). Esse fato trouxe uma forte aproximação entre os respectivos municípios mineiros e fluminenses dessas microrregiões estaduais, promovendo uma integração regional interestadual.

O fim da escravidão enegreceu a população urbana desses municípios e ruralizou imigrantes italianos e alemães (especialmente nas terras mais altas, como nas proximidades do maciço do Caparaó). A urbanização das culturas negras levou às cidades manifestações culturais típicas, como o caxambu e a folia-de-reis. Até a década de 1960, há registros dessas manifestações em quase todos os municípios da região.

O século XX representou o apogeu e o declínio da cultura cafeeira na região, a desarticulação econômica dos municípios e a polarização das relações de produção industrial e de serviços pelas cidades de Itaperuna (RJ) e Muriaé (MG), além das influências diretas de pontos distantes ao território, propiciadas pela consolidação do meio técnico-científico-informacional que, de certa forma, aboliu determinadas relações de contigüidade espacial. As administrações municipais locais tentam, a partir de então, apropriar-se de confusas políticas de atração do setor de turismo por meio de um pretenso potencial ambiental-cultural existente.

As populações negras, mantidas excluídas de quase todo os processos de participação social e econômica, sofreram ao longo do século XX a perda ou o enfraquecimento de seus parâmetros culturais próprios. Novos processos culturais globalizantes imperaram sobre esses antigos territórios. O projeto de modernidade parecia pôr fim às práticas e aos conhecimentos autóctones e subalternos.

No início do século XXI, entretanto, movimentos espontâneos ou induzidos, públicos ou privados, em escala nacional, estadual e municipal, começam a valorizar as culturas locais e a primar pelo seu resgate e preservação. Mediadas por um novo contexto identitário, social e econômico, em que a cultura ressurge como um trunfo do território, as manifestações populares de origem afro-brasileiras ganharam impulso e ultrapassaram os limites demarcados pelo poder estabelecido. No caso estudado, esses novos processos levaram à formação da Rede Regional de Caxambu, como meio de demarcações territoriais e identitárias específicas.

3                    FORMAÇÃO DA REDE REGIONAL DO CAXAMBU

Dos quinze municípios integrantes da Rede de Memória do Jongo e do Caxambu, cinco pertencem à ‘nossa’ Microrregião Caxambuzeira: Santo Antônio de Pádua, Miracema e Porciúncula no Noroeste Fluminense; Carangola e Registro, na Zona da Mata Mineira. Um breve histórico da formação dessa rede regional revela que o foco original surge da integração entre Santo Antônio de Pádua e Miracema, cujos grupos foram fundadores dos encontros e da rede nacional. Há seis anos, houve a integração do grupo de Porciúncula; há três anos, do grupo de Carangola. O grupo de Registro encontra-se em processo de integração.

Uma importante figura aparece nessa ‘costura’ regional: o mestre caxambuzeiro e produtor cultural Rogério Mulato, neto de Dona Aparecida Ratinho, matriarca do caxambu de Miracema. Rogério, contando com apoios irregulares das secretarias municipais de cultura de Miracema e de Carangola, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e da Associação Brasil Mestiço, lançou-se em ações de resgate e valorização do caxambu da região, trabalhando em projetos culturais, educativos e sociais desses municípios. Por iniciativa própria, organiza encontros desses cinco grupos nos municípios envolvidos, durante as festas juninas e no dia 13 de maio. A partir dessas ações, formou-se a rede regional, originando o que aqui denominamos ‘Microrregião Caxambuzeira’.

Há três casos específicos a serem analisados, no sentido de compreendermos o papel da Rede Regional do Caxambu: o episódio da ‘Praça da Bíblia’, em Santo Antônio de Pádua (RJ); a organização dos encontros regionais de caxambu; a organização de um seminário na Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Miracema (RJ).

O episódio da ‘Praça da Bíblia’ retrata o conflito territorial existente entre a comunidade[2][2] caxambuzeira de Santo Antônio de Pádua e a prefeitura local. Tradicionalmente, o caxambu era tocado, desde meados do século XX, em um terreno baldio, próximo à moradia de D. Sebastiana, matriarca do caxambu local. Após a morte de D. Sebastiana, as rodas de caxambu se silenciaram por algum tempo. Nesse intervalo, a prefeitura local urbanizou e transformou esse terreno na Praça da Bíblia, seguindo orientação religiosa evangélica de um dos assessores do prefeito. Uma grande luta então se desencadeou, com a comunidade caxambuzeira exigindo o retorno da utilização da praça para as rodas de caxambu. Tanto a rede nacional, quanto a rede regional ajudaram no processo de pressão sobre o poder público que destinou, no ano de 2006, um outro espaço para a Praça do Caxambu em Santo Antônio de Pádua. A conquista desse território, que traz embutida a perda do território original, foi festejada envolvendo os grupos da Microrregião Caxambuzeira. A territorialidade caxambuzeira se afirmava e reconquistava espaços perdidos na cidade.

O segundo caso é sobre a organização de encontros regionais nos municípios de Santo Antônio de Pádua, Miracema, Porciúncula e Carangola. A partir da pressão conjunta de líderes dos grupos, as secretarias municipais de cultura têm financiado a infra-estrutura dos encontros e o transporte dos grupos pela região. Aos poucos, a cultura do caxambu vai marcando seu tempo e seu espaço nos calendários de festividades e eventos locais. Ao mesmo tempo, estreitam-se laços e tem-se oportunidade, nesses encontros, para discutir estratégias, como a retratada a seguir.

O grupo de caxambu de Miracema se ressente da falta de um espaço específico para suas atividades. Apesar de o município apresentar o maior número de integrantes nas rodas de caxambu, as políticas municipais têm se mostrado aquém das necessidades existentes, se comparadas com Santo Antônio de Pádua e Porciúncula, principalmente. A partir dessa constatação, a professora Elaine Monteiro organizou um seminário na Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Miracema (RJ) com participação das lideranças de todos os grupos regionais, no sentido de exigir políticas específicas de salvaguarda do caxambu. Os resultados ainda estão por vir, mas as pressões regionais focam suas atenções neste momento para conquistas nesse município.

Percebe-se, pois, a formação de uma identidade cultural que busca estratégias de afirmação e de conquistas territoriais a partir do uso de uma antiga ferramenta da administração de Estado: a integração regional. Em outras palavras, a base de construção da região é, nesse caso, a marcação territorial que se faz em escalas locais, a partir da formação de uma rede regional. Articulações em rede estruturam territórios que demarcam uma região como um espaço vivido e não como um espaço concebido. Temos aqui a união entre teoria e realidade. A formação da rede regional ou da Microrregião Caxambuzeira é fruto de processos vivenciados e autonomamente eleitos pela comunidade caxambuzeira.

4                    LIMITAÇÕES DO PRINCÍPIO AUTONOMISTA

Já defendemos o princípio autonomista ou endógeno que trabalhamos na observação da construção da Microrregião Caxambuzeira. Nota-se ainda, para distinção de outras regiões caxambuzeiras que porventura aparecerem, que a denominação para essa manifestação de caxambu é típica das regiões administrativas do Noroeste Fluminense e da Zona da Mata Mineira. Em outras regiões administrativas, como Vale do Paraíba ou Sul Fluminense, o fenômeno é conhecido como jongo. Em São Paulo, é denominado dança de umbigada. Portanto, processos similares poderiam originar uma Região Jongueira ou uma Região Umbigadeira, mas nunca regiões caxambuzeiras, se observadas as particularidades locais.

Apesar de os apoios e incentivos recebidos por autarquias e instituições federais, estaduais ou municipais, ou pelo setor privado, não se deve perceber esse processo como tendo sido imposto ou previamente planejado. A análise histórica da formação da Rede Regional nos permite perceber o quanto esse processo foi elaborado por seus constituintes, a partir de percepções próprias do que eles julgavam ser necessário ou interessante fazer. A presença de intelectuais nessa Rede Regional tem servido fundamentalmente para canalizar as ações e intenções e articular o movimento em outras escalas. Ao contrário da rede nacional, não há, até o momento, qualquer ONG acompanhando o processo, embora os próprios caxambuzeiros já se ressintam de uma organização melhor estruturada a partir deles mesmos.

Afirmar que esses grupos possuem uma autonomia em sentido amplo, como os defendidos por Souza (1995; 2006), é de fato uma temeridade. Os grupos são formados por uma população negra, discriminada por sua cultura e sua cor, pobre e, em alguns casos, analfabeta. O reconhecimento dos grupos pelas secretarias municipais de cultura tem sido conquistado graças a um árduo esforço, não poupando seus membros, muitas vezes, de desilusões e contratempos. Por sua vez, os conflitos internos e as dificuldades ameaçam a estabilidade e a continuidade desses grupos.

Contudo, a postura política e a identidade traçadas por esses grupos têm reforçado sua integração. O movimento cultural que folclorizou e espetacularizou suas apresentações, para alcançar prestígio e reconhecimento, tornou-se progressivamente um movimento político que luta pelo direito à territorialidade. É nesse sentido específico que denominamos esse princípio de autonomista e endógeno. Naturalmente, defendemos, nos moldes sugeridos pelo professor Hélio Machado de Castro, que a luta pela territorialidade demarcada não deve se restringir somente à esfera cultural, mas também às esferas sociais, econômicas e ambientais compreendidas como construtoras de uma cidadania ampla que, por sua vez, faça refletir o território como um espaço de justiça.

5                    CONSIDERAÇÕES FINAIS: RÉQUIEM PARA O NEOLIBERALISMO?

A formação da Microrregião Caxambuzeira entre as regiões administrativas da Zona da Mata Mineira (MG) e Noroeste Fluminense (RJ) parte de princípios autonomistas, como demonstrado. Para cunhar essa classificação regional, partimos das ações vivenciadas pelos sujeitos participantes da comunidade de caxambuzeiros dos municípios de Santo Antônio de Pádua, Miracema, Porciúncula, Carangola e Recreio. A Microrregião Caxambuzeira não é uma forma de classificação criada a partir de critérios externos à vida regional.

Estamos aqui reforçando uma abordagem cultural do espaço para cunhar nosso objeto. Não nos deve escapar que o regionalismo estudado não abraça todo o contingente populacional desses municípios. Nosso sistema tem limites, mas retrata com fidelidade a percepção do espaço vivido pelos integrantes da cultura do caxambu nesse recorte. O desafio, entretanto, é pensar uma alternativa ao planejamento e gestão de Estado que inclua essas particularidades ou diversidades e rompa com a lógica funcionalista/economicista que prevalece nos modelos de regionalização predominantes.

Não se trata, pois, de pensar e agir de modo diferenciado daqueles que parecem desarticular as identidades e as contigüidades espaciais, como pretendem as correntes neoliberais? Aqui, nossa proposta é mais ousada. Com ela, percebemos outras possibilidades de pensar o mundo. O espaço passa, nesse caso, a ser percebido como o espaço da solidariedade, da integração e do encontro com os outros, e não mais a partir de pressupostos impessoais, individualistas e capistalistófilos.

Poderão as culturas oferecer uma proposta alternativa às opressões do capitalismo global e do neoliberalismo? Se não temos a resposta, ou mesmo se achamos que a resposta é negativa, vale a pena ao menos pensar essas outras possibilidades de viver, sofrer ou ser feliz. Este é um exercício e uma postura que um cientista social não deveria abandonar ao pensar suas pesquisas.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial [da] União, Brasília, 10 jan. 2003.

GOMES, Paulo César C. O conceito de região e sua discussão. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo César C.; CORRÊA, Roberto L. (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

HAESBAERT, Rogério. Morte e vida da região: antigos paradigmas e novas perspectivas da geografia regional. In: SPOSITO, Eliseu S. (Org.). Produção do espaço e redefinições regionais: a construção de uma temática. Presidente Prudente: UNESP, 2005.

HAESBAERT, Rogério. Des-territorialização e identidade: a rede “gaúcha” no nordeste. Niterói: EDUFF, 1997.

SOUZA, Marcelo L. A prisão e a ágora: reflexões em torno da democratização do planejamento e da gestão das cidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

SOUZA, Marcelo L. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo César C.; CORRÊA, Roberto L. (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

  


[1][1] Doutorando em Geografia Humana pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Mestre em Geografia Humana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); professor do Curso de Geografia da Universidade do Estado de Minas Gerais – Campus de Carangola (UEMG).

[2][2] A comunidade caxambuzeira envolve integrantes do grupo, simpatizantes e intelectuais da Universidade Federal Fluminense (UFF), como Paulo Carrano, Elaine Monteiro e Tânia Vasconcellos.


 Ponencia presentada en el IX Encuentro Internacional Humboldt. Juiz de Fora - Minas Gerais, Brasil. 17 al 21 de setiembre de 2007.






Crea tu propia Red Social de Noticias
O participa en las muchas ya creadas. ¡Es lo último, es útil y divertido! ¿A qué esperas?
es.corank.com